Entrevista com Fernanda Lira (Crypta/Ex-Nervosa)

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ENTREVISTA COM FERNANDA LIRA (CRYPTA/EX-NERVOSA)

Vivemos num mundo onde absolutamente nada se perde, onde os fins são sempre começos ou melhor, recomeços. Subitamente, um quase fim da ascendente Nervosa deixou os fãs apreensivos, discussões e muita especulação. Era mais do que obvio que Fernanda Lira (vocal/baixo) e Luana Dametto (bateria) não estariam desistindo da música, mas ficou no ar quando elas iriam ressurgir como uma fênix raivosa. Pois bem, há poucos dias foi anunciada a Crypta, nova banda das meninas, que ainda tem como companheiras as excelentes guitarristas, Sonia Anubis e Tainá Bergamaschi, mostrando de uma vez por todas que não perdemos uma banda, e sim ganhamos duas para assombrar todo planeta. Num tom bastante espontâneo, Fernanda nos deu detalhes sobre sua mais nova empreitada, detalhes sobre sua saída da Nervosa e planos futuros.

Por: William Ribas
Fotos: Facebook da banda/Facebook da artista/Sebas Michia/Alexandr Grigorev

 

Metal Na Lata: A Prika Amaral (guitarrista) declarou que pretende manter a Nervosa um grupo de Thrash Metal, porque as raízes da banda estão nesse estilo e, antes do seu anúncio de desligamento, você havia anunciado um novo projeto de Death Metal. Além do cansaço das extensas turnês que acabaram desgastando o convívio, podemos apontar que o conflito musical foi também um fator fundamental para sua saída?

Fernanda Lira: Na verdade nenhum dos dois fatores tem a ver com essa decisão. O que rolou foi um desgaste natural que costuma acontecer na maioria dos relacionamentos. É claro que fazer turnês é algo bastante cansativo, mas já tínhamos achado um equilíbrio em relação à quantidade e duração delas, o que fez com que estivesse cada vez mais confortável. Eu adoro estar na estrada e não vejo a hora de voltar, para ser bem sincera (risos). Então, esse definitivamente não foi um fator na minha decisão. Quanto ao estilo também não se aplica. Eu adoro o Thrash Metal da mesma maneira que curto Death Metal, mas tenho um carinho especial pelo Thrash Metal, pois foi o estilo que realmente me fez desenvolver um “sangue no zóio” para ter uma banda mais séria e jamais comprometeria a principal premissa da Nervosa somente por uma eventual mudança de gosto. Faz parte do profissionalismo ao trabalhar com música saber dividir isso. Mesmo quando a Crypta ainda era um projeto paralelo, eu tinha inspiração para ambas as bandas e o que soava mais Thrash Metal, eu guardava para a Nervosa e o que era mais “Deathão”, usava na Crypta. Por mais que todas passamos a escrever mais riffs e levadas Death Metal para a Nervosa, principalmente no “Agony” (2016) e no “Downfall Of Mankind” (2018), a ideia principal era ainda se manter fiel ao Thrash Metal, porém com umas pitadas a mais de Death Metal.

 

Metal Na Lata: Alias, vocês já estavam começando o trabalho de composição para um futuro disco. Por mais que no palco havia o sentimento de sempre fazer o melhor e uma evidente conectividade, foi no momento que sentaram para fazer novas músicas que você sentiu que não daria para entregar um álbum forte que todos esperam da Nervosa, que o melhor seria a separação e finalmente seguir e oficializar o novo projeto?

Fernanda Lira: Esse foi sim, para mim, um fator determinante. Tudo que faço, gosto de fazer com paixão e honestidade. Quando vi que a química para compor não estava fluindo como antes, o que é algo natural também e acho que acontece com muitas bandas com o tempo, pesou sim na minha decisão, porque, afinal, acho que não seria bacana para com os fãs entregar algo do qual eu mesma não tivesse bastante satisfeita.

 

Metal Na Lata: Mudanças de formação são extremamente comuns no meio musical. É quase que impossível se manter com as mesmas pessoas por uma longa jornada por diversos fatores. Quando você e a Luana anunciaram a saída, surgiram várias teorias, tentaram achar diversos motivos possíveis e impossíveis para o ocorrido. Por que você acha que é tão difícil para as pessoas entenderem que isso é a vida, que as pessoas mudam, tem outros sonhos e vontades, e não ficarem “romantizando” que houve porrada e que se odeiam?

Fernanda Lira: Acho que é primeiramente tão difícil por causa do próprio formato em que a nossa sociedade vem sendo moldada. Veja bem, nas novelas, filmes, no tipo de abordagem das notícias em alguns programas de TV, por exemplo – na maioria das vezes tudo é apresentado de maneira caótica, presa a círculos e tendências pra causarem grandes comoções. É treta na novela, são romances impossíveis e separações trágicas para fazer a gente chorar nos filmes, é sensacionalismo na TV e nas notícias. Tudo baseado na premissa de causar comoção. O problema é que esse tipo de abordagem, na minha opinião, às vezes acaba viciando quem consome aquilo, ou seja, todos nós, em níveis diferentes.  Então naturalmente acabamos tendo uma tendência a preferir e até reproduzir esses padrões que nos cercam o tempo todo. Nos sentimos desconfortáveis com relacionamentos brandos sem ´fortes emoções´, não gostamos de um filme se não tem um fim apoteótico, damos mais importância a notícias negativas do que positivas, pois em muitas vezes a raiva, a indignação, liberam uma sensação mais bombástica no nosso corpo físico. Venho refletindo sobre esse estudo social há muito tempo e quando vi o pessoal criando essas conspirações, querendo ‘lavação de roupa suja’, só comprovou minha teoria (risos). É muito difícil para as pessoas que haja um término que não precise causar neles uma sensação de tragédia, e aí eu acho que é meio que natural as pessoas não sossegarem até criarem teorias ou acharem explicações que tenham esse impacto. Uma pena, pois não acho nada saudável para ninguém, mas não me surpreendeu em nada. Desde o começo da Nervosa ouvimos conspirações de todo tipo que você imaginar, então já imaginava que na separação não seria diferente.

 

Metal Na Lata: Após a poeira ter baixado e que internamente você entendeu o término de um ciclo de quase uma década de muita lutas e conquistas, qual é o principal aprendizado que você vai seguir como lema agora com a nova banda?

Fernanda Lira: Que ciclos são reais e não eternos mesmo e que não tem problema recomeçar. Eu nunca achei que pudesse sair da Nervosa, mas, para o bem de todo mundo, aconteceu e eu, finalmente, estou confortável com isso. Não imaginei que aos 30 anos pudesse estar recomeçando minha vida ‘do zero’, mas aconteceu. E isso me ajudou a ser mais resiliente, a ser muito mais forte. Mais pra frente, quando um outro ciclo se encerrar em qualquer âmbito da minha vida, eu entenderei que é algo normal e que não é o fim do mundo.

 

Metal Na Lata: A Crypta possivelmente foi um dos grandes secretos mais bem guardados dentro do cenário brasileiro. A formação e ideia de uma nova banda aconteceu em junho de 2019, mas só agora quase 1 ano depois é que todos tivemos o conhecimento. Como tudo aconteceu e como vocês chegaram até as guitarristas Sonia Anubis e Tainá Bergamaschi?

Fernanda Lira: Segredo foi foda! (risos). Ah cara, foi algo natural, a gente não via o porquê lançar algo para o público sem ser algo realmente sólido. Na real, nosso plano nem era anunciar nada agora e sim esperar pelo menos termos todas as músicas compostas, sei lá. Mas só realmente decidimos tornar público agora, porque muita gente escreveu desesperada para mim e pra Luana, perguntando se íamos desistir da música e se voltaríamos a tocar juntas, então pra acalmar os ânimos, decidimos compartilhar com a galera (risos). A semente inicial aconteceu quando em meados de maio do ano passado, a Luana me comentou que adoraria ter um projeto de Death Metal. Eu nunca havia considerado isso, mas como já começava a sentir um pouco o desgaste, pensei que de repente seria um bom “refresh”, sabe? E daí sentimos que compartilhávamos essa vontade de experimentar algo novo musicalmente, sem afetar a sonoridade da Nervosa e resolvemos criar esse projeto. Um mês depois, voltamos a tocar nesse assunto e na hora de pensar quem mais de repente faria parte, pensamos automaticamente na Sonia! Na mesma hora (risos)! Eu sempre fui meio fangirl dela, achava o máximo ela tocando baixo com a banda de Death Metal dela e sua presença de palco. A Luana também. Daí entramos em contato com ela perguntando se estava aberta a projetos paralelos e ela disse que sim e quando dissemos nossa ideia, ela topou na hora. Algum tempo depois, fizemos uma chamada de vídeo e oficializamos tudo. A ideia de uma segunda guitarrista sempre esteve lá e desde o começo de tudo, já pensávamos e pesquisávamos meninas. Falamos com muitas, testamos muitas. Mas aí do nada, agora no final de abril, quando eu e a Luana postamos que estávamos com um projeto paralelo de Death Metal, recebi uma mensagem inbox da Tainá. Foi muita sorte, porque eu recebo um fluxo muito grande de mensagens e nem sempre consigo ver todas e nem sempre todas chegam até mim, mas abri a dela e achei demais. Porque ali ela foi bem direta falando algo tipo; “Seguinte, vi que você e a Luana estão com um projeto de Death Metal, não sei se já tem guitarrista, mas se tiverem interesse, gostaria de mandar algum material meu”. Foi como uma luva, pois eu realmente queria mais uma integrante brasileira (risos). Ela nos mandou material e nos impressionamos com sua habilidade. Depois enviamos trechos de algumas de nossas músicas e ela tocou tudo super bem. Após conversarmos bastante com ela e uma chamada de vídeo, também oficializamos com ela e estamos muito felizes com o line-up.

 

Metal Na Lata: Qual é a sensação interna de dizer para o mundo, eu sou a vocalista e baixista da Crypta?

Fernanda Lira: É uma sensação NOVA (risos)! Venho sentindo sensações que não sentia há muito tempo, bem típicas de quando você começa algo novo, saca? Uma empolgação ali, um frio na barriga aqui, muito bacana. De uma maneira geral, me sinto surpreendentemente empolgada em assumir essa nova posição.

Metal Na Lata: “Cripta” vem do grego kryptós — que seria algo escondido ou secreto, sendo um lugar destinado ao enterro de membros do alto escalão da igreja e aristocratas. O que motivou vocês a adotar esse nome, ele indica qual temática a banda abordará em seus trabalhos?

Fernanda Lira: A ideia para o nome veio exatamente de uma cripta na vida real (risos)! Nós estávamos pensando em nomes por meses, cogitamos dezenas de nomes, mas nenhum que fosse um a unanimidade entre nós 3. Então, na tour de verão com a Nervosa em 2019, eu e a Luana resolvemos fazer um dia de turismo em um ‘day off’ na República Tcheca e vimos que há alguns minutos de caminhada do hotel, havia uma cripta de verdade que tinha sido transformada em um ossuário. Fomos lá na hora e foi um passeio muito interessante. Um tempo depois, revisitando esse passeio, ela pensou “MEU, CRYPTA!!!!!  É ISSO!!!!” (risos) e todas amamos, pois era exatamente o que queríamos – algo curto, fácil de se pronunciar e entender, feminino e acima de tudo, que tem tudo a ver com Death Metal.

 

Metal Na Lata: O “Downfall of Mankind” (2018) segue um pouco para o lado extremo, mas todos acreditaram e creditaram isso a entrada da Luana, mas agora pelo visto dá para entender que também tinha um pouco da Fernanda nisso tudo. Quando surgiu esse seu desejo de ter um projeto e que agora virou sua nova banda de Death Metal?

Fernanda Lira: Sim, como eu disse anteriormente, os aspectos Death Metais nas músicas da Nervosa vinham um pouco de cada. O desejo surgiu exatamente quando a Luana me comentou sobre sua vontade, porque até então, eu sempre achava que não tinha tempo para isso, por estar muito focada trabalhando na Nervosa. Mas aí veio a calhar e resolvi arriscar. Não imaginava que poderia vir a ser meu foco principal, mas estou feliz como tudo se desenvolveu.

 

Metal Na Lata: Você, Luana, Sonia e Tainá, cada uma veio de uma escola e background diferente. Como fazer com que vocês se somem e façam com que o som de vocês se torne uma unidade ímpar e atraia os velhos e novos fãs de som extremo?

Fernanda Lira: Eu acho e sempre achei que é exatamente a junção de várias ideias que acaba tornando algo particular e isso vem acontecendo na Crypta. O foco em ser Death Metal old school é primordial, mas dentro disso, colocamos nossas influências dos sub-gêneros desse estilo em cada riff e no final, vira um misto de diferentes influências, mas todas calcadas na velha escola do estilo.

 

Metal Na Lata: No anúncio que foi feito, é destacado que o som seria ‘old school’. Podemos esperar alguns urros e o instrumental no melhor estilo de bandas como Entombed, Celtic Frost, Possessed, Morbid Angel e Obituary?

Fernanda Lira: Eu diria que sim, apesar de não gostar de criar expectativa em ninguém. Eu estou treinando algumas coisas novas na voz e quanto ao instrumental, eu sou muito fã do Death Metal da Florida e da Polônia dos anos 90, já a Luana é aficionada por Death Metal sueco old school. A Sônia gosta de tudo um pouco, assim como a Tainá, então acho que pode sim surgir um pouco de cada coisa que você citou.

 

Metal Na Lata: Um de seus grandes e declarados sonhos, era a vontade de tocar no Wacken Open Air, de chegar lá com aquele sentimento de: “Porra, eu venci! ”. Devido a pandemia e a dissolução da banda, esse sonho foi adiado, ao menos por enquanto. Quais são os planos agora com o Crypta em relação a marketing, divulgação do nome, shows e futuras turnês? Ainda que tenha os bons frutos colhidos na época do Nervosa, é praticamente um novo começo.

Fernanda Lira: Eu ainda considero que venci (risos). Porque, afinal, não vou tocar, mas o trabalho para fazer a banda chegar lá foi feito, então não deixo de me sentir realizada. E sim, é um recomeço. Claro que a experiência e a boa rede de contatos que acumulei nesse tempo vão contribuir e muito para um avanço, talvez um pouco mais rápido, mas considero sim estar começando do zero e nunca achei que diria isso, mas estou adorando o desafio. Os próximos planos incluem primordialmente terminar as músicas para o nosso primeiro lançamento e nos prepararmos pra gravá-lo e lançá-lo, e depois, com calma, cuidar do resto.

 

Metal Na Lata: Algo que muitos têm interesse em saber é se nesse início de banda, quando os shows começarem a acontecer, vocês vão incluir músicas da Nervosa e covers no setlist ou a projeção de vocês é cair na estrada só quando tiverem lançado o primeiro trabalho e assim tocá-lo?

Fernanda Lira: Eu não teria problema algum em fazê-lo se fosse necessário, mas acho que não vai ser preciso, pois já estamos trabalhando em várias músicas autorais.

 

Metal Na Lata: Para finalizar, o que a Fernanda Lira de hoje diria para a aquela Fernanda Lira de 15 anos atrás que se aventurou a fazer resenha, release, tirava fotos, apresentou programas e fez tantas outras coisas dentro da cena Heavy Metal brasileira?

Fernanda Lira: Vai firme que vale a pena e É POSSÍVEL. E quando parecer que acabou, força que ainda tem mais (risos)!

 

Metal Na Lata: Muito obrigado pela entrevista, o espaço final é todo seu.

Fernanda Lira: Obrigada, primeiramente, pela entrevista repleta de excelentes perguntas e pelo espaço. E aos fãs, pela incrível força. Sem dúvida, sem vocês, tudo isso teria sido muito mais difícil do que já foi pra mim. Vocês são a razão para eu seguir em frente e meu combustível para continuar acreditando nos meus sonhos. Obrigada!

 

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