Entrevista com Sérgio Ferreira (Hell’s Punch)
Postado em 18 de novembro de 2019 @ 15:46


Por mais alto que seja o gabarito e mais longo seja o currículo dos integrantes de uma nova banda, um disco de estreia é sempre um disco de estreia e ficará marcado para sempre, seja para o bem, seja para o mal. Há cerca de dois anos, os mineiros do Hell’s Punch não somente apareceram em grande escala nacional com “Burn It Down”, como também marcaram território apostando num Thrash Metal que percorre a linha tênue entre o moderno e o old school. Batemos um papo com o vocalista e guitarrista Sérgio Ferreira, que contou todos os detalhes que cercam esse “dream team” do metal de Minas Gerais e, por que não, do Brasil. Confira!

Por William Ribas
Fotos: Divulgação

Metal Na Lata: O Hell’s Punch foi formado por músicos já bastante renomados na cena. Como foi esse início?

Sérgio Ferreira: Começou com uma ideia minha e do meu irmão Rodrigo, que saiu da banda depois, de fazer apenas jams tocando Pantera, Slayer, Alice in Chains etc. Depois de um tempo, um amigo nos convidou para tocar um cover do Slayer para fazer um “Big Four Cover”. Porra, Slayer é foda, achamos perfeito e uma honra. A resposta do público para com a banda ao vivo foi demais, e pensamos “temos que começar a compor músicas próprias”. Aí entraram o Marcio Monteiro (guitarra), o Wesley Ribeiro (baixo, ex-Hammurabi e atualmente também no The Mist) e o André Bastos (bateria, ex-Plêiades), e com isso fomos seguindo.

Metal Na Lata: Hoje em dia, as bandas, antes de lançarem algum material, ponderam bastante, até mesmo estudando as possibilidades do mercado. O som do Hell’s Punch traz um Thrash Metal mais moderno, em alguns momentos, com pitadas de Hardcore. Como vocês trabalham as composições?

Sérgio Ferreira: No “Burn It Down”, eu acabei fazendo muita coisa, pois acho que estava tudo represado dentro de mim. No Overdose eu não compunha músicas e parece que isso foi acumulando [risos]. Eu montei um estúdio na minha casa e comecei a compor feito louco, uma música por fim de semana, e ia mandando para a galera fazer os arranjos. O Márcio e o Wesley também mandaram material e eu fui compondo em cima. Aconteceu assim, mas no próximo queremos dividir mais, pois todos na banda compõem bem demais! Não fazemos pesquisa não, a coisa vai rolando e as músicas vão saindo. Tocamos exatamente o que gostamos. Eu adoro Hardcore, então a mistura com Thrash foi natural. Tem que ser pesado, rápido, e se isso tiver algum groove, não ligo não…

Metal Na Lata: Seria errado falar que as grandes influências de vocês são grupos como Slayer, Machine Head, Sepultura e HellYeah?

Sérgio Ferreira: Faz sentido. Nem tanto o HellYeah porque ouvi pouco. Mas tem alguma coisa de Hardcore também, principalmente nas letras. Sobre o HellYeah tem uma história legal. Na primeira turnê do Overdose fomos direto para Maryland, nos EUA, e ficamos hospedados na casa do Tom Maxwell, guitarrista do HellYeah, que na época era do Nothing Face, gente fina demais o cara. Mas sim, tem muito de Slayer e Machine Head, mas escuto algo de Overdose nas músicas também. Eu aprendi a compor observando como o Cláudio David, guitarrista do Overdose, fazia, sabe? Sou fã da voz do Bozó, vocalista do Overdose, e vejo alguma coisa dele lá também. A lógica de composição do Cláudio me ensinou muito, sou fã demais dele, falo que é meu mestre.

Metal Na Lata: “Burn It Down” teve uma produção caseira, onde vocês resolveram fazer tudo sozinhos. Por que decidiram assumir comando total da nova empreitada e abrir mão de ter um produtor?

Sérgio Ferreira: O processo foi assim, montei um estúdio com anos de compras de equipamentos. Depois, saí compondo e gravando ao mesmo tempo, fui estudar gravação, mixagem e masterização. Acho que para uma primeira empreitada ficou legal. Mas continuo estudando até hoje e sei que daria para fazer melhor agora, mas é isso, ficou na cara e cru, e era isso que queríamos.

Metal Na Lata: Mesmo após alguns anos do lançamento de “Burn It Down”, o álbum continua repercutindo bastante e segue agradando quem o escuta. Qual o sentimento que vem à cabeça quando vocês escutam o disco?

Sérgio Ferreira: Tocamos porque amamos e sabemos que muito provavelmente nunca vamos viver disso. Isso faz o som ficar honesto demais. Não que não seja honesto viver disso, mesmo sendo profissão, quando se faz com coração, está valendo demais, mas só pelo fato de não ter a pressão comercial acho que fica mais honesto ainda. Ficamos felizes demais com a repercussão, tem sido inacreditável, surpreendente, não vi NENHUMA crítica negativa, nem mais ou menos, e isso só me deixa mais feliz e mais humilde. A banda é realmente especial, a energia que temos é muito forte e boa, mas que é surreal ver gente nos EUA falando da banda sem nunca termos sequer saído de Minas Gerais é surreal! Nossa música por si só rompe fronteiras e isso só nos deixa muito felizes, mesmo!

Metal Na Lata: Como se deu o trabalho com a gravadora Cogumelo Records para o lançamento do disco? Ter uma gravadora importante que já lançou diversos clássicos do metal brasileiro meio que traz certa curiosidade para quem não conhece o Hell’s Punch, certo?

Sérgio Ferreira: O João e a Pat moram no meu coração, de verdade, eles são especiais, e são visionários também. São responsáveis por terem praticamente aberto as portas para o metal no país. Ninguém lançou tantas bandas importantes no país quanto a Cogumelo. Meu sonho no Hell’s não estaria completo sem a Cogumelo, essa parceria me enche de felicidade e honra. O João abraçou a ideia e aqui estamos. Queria conseguir divulgar mais e tocar mais, mas tem sido difícil para esse tipo de som no nosso país.

Metal Na Lata: Além do instrumental forte, o álbum carrega em si letras bastante ácidas e com críticas a sociedade. Poderia explicar para nós um pouco desse conteúdo lírico?

Sérgio Ferreira: Sim, escrevi todas as letras [risos], como disse, estava tudo represado. Sim, elas têm forte influência de Hardcore.  Com isso, trazem críticas urbanas, sociais, com um tom ácido e contundente. Meu estilo preferido de música é o Hardcore, e ele tem muito a ver comigo em termos de comportamento. Acho que o mais importante no Metal e no Hardcore não é ter uma posição política e sim ter uma postura crítica e de contestação. Isso é o Hell’s Punch, essa é nossa posição, que não se confunde com a posição pessoal dos seus integrantes, que fique bem claro. Eu bato na Esquerda, na Direita, no Centro e em quem pisar na bola. Para mim, rebeldia tem que ser clara e na cara, a contestação é o foco.

Metal Na Lata: “Kill Your Politician” é uma música mais do que explícita e carrega o sentimento de muitos brasileiros, não concorda?

Sérgio Ferreira: Totalmente! É óbvio que é uma sátira, de certa forma, porque não devemos matar ninguém, nem mesmo os políticos desse país. Mas, com essa metáfora, coloquei para fora toda a revolta de ter um país tão rico em recursos com tantos políticos safados e ladrões, bando de filhos da puta. Mas o povo também não ajuda, né? Nossa cultura é foda! Queremos tirar vantagem, furamos sinal, sonegamos impostos, não temos educação e respeito pelo próximo. Isso é foda! Não dá para crucificar só os políticos não, temos que olhar para os nossos umbigos também, mas dedico essa letra a quase 100% dos políticos brasileiros [risos].

Metal Na Lata: O disco conta ainda com algumas letras do Nado, baterista do Atack Epiléptico, que faleceu pouco antes do lançamento. Gostaria de saber qual a importância disso?

Sérgio Ferreira: Tem muita coisa dele ali. Meu irmão que escolhi não apenas era meu melhor amigo, como também um artista muito criativo, amo sua obra. Sempre fui fã do Atack Epiléptico, toquei com eles abrindo para o Tervet Kadeet, em BH, e foi lindo. Foi o último show do meu irmão. As letras do Nado são fodas. Nem sempre concordo com todo o conteúdo, mas na filosofia dele, elas são perfeitas. O Nado me faz muita falta e tem muita coisa dele no CD, inclusive o manuscrito das letras que ele deixou e a Luna, amiga e que trabalhava com o Nado, me passou dizendo que ele iria amar que eu as musicasse. Disso tudo, e da dor que foi ele partir, pelo menos ficou uma amizade mais forte ainda com o Ameba, irmão do Nado, e o Zezório, ex-baixista do Atack. Eles são meus irmãos agora e eu sou fã de suas obras.

Metal Na Lata: No ano passado vocês abriram o show dos alemães do Destruction. Como foi a experiência?

Sérgio Ferreira: Tem uma história massa aí. O Jegão que toca no MotorVader, cover do Motörhead, e meu amigão do coração conhece os caras e vivia me falando que ia falar com eles para fazerem uma força para a gente abrir quando viessem a BH. Eu sempre falei para ele não encher o saco dos caras [risos]. Um belo dia, o produtor do show, Marcio Siqueira, me chamou e fez o convite. Noite mágica, cara, em todos os sentidos. Tocar com essas lendas, no Mister Rock, lugar que acho foda, foi maravilhoso. Repercussão linda, não só por causa desse show, mas hoje eu vou a shows e muita gente chega para conversar, e aí eu penso “vai perguntar se eu toco no Overdose”, e o engraçado é que quase metade já chega para perguntar do Hell’s Punch, isso é lindo e só me deixa feliz!

Metal Na Lata: Vocês já começaram a trabalhar em novas composições para o tão esperado segundo disco? Por conta da boa repercussão de “Burn It Down”, rola certa pressão para o próximo trabalho?

Sérgio Ferreira: Já temos muita coisa. Queremos fazer um disco mais curto para poder focar mais. Seguirá a mesma linha, talvez um pouco mais pesado e rápido também, algo bem direto. Não gostamos muito de fazer milhões de coisas na música, tem que dar o soco e ponto final, assim somos. Gostamos de trabalhar os riffs, mas tem que ser direto, nada progressivo. Sim, queremos fazer um disco melhor e continuar a obter as críticas maravilhosas que recebemos, mas ao fim, queremos manter os amigos que curtem a banda e a própria banda feliz, isso que vale, irmão. Prefiro dar todos os CDs que tenho do Hell’s para quem curte o som pesado do que vendê-los para quem está só de onda! Assim é o Hell’s Punch!

Metal Na Lata: Obrigado pela entrevista! Deixe agora a sua mensagem aos nossos leitores!

Sérgio Ferreira: Eu que agradeço o apoio e o carinho de sempre do Metal Na Lata com a gente, vocês moram no nosso coração, de verdade. “Bora” tocar o que se gosta e essa é nossa lei, como diz o Biohazard: “Music for you and me, not the fucking industry”. Mas também acho que quando se referem à indústria não é a indústria como um todo, mas sim um comportamento de parte dela que espera um hit para vender. Bom, aqui não terá essa lógica. Obrigado, Metal Na Lata! Hell’s Punch In Your Face!

Mais informações:

Facebook: https://www.facebook.com/hellspunch

 
Entrevistas · Novidades



Deixe seu comentário






 
METAL NA LATA - Official Website - All Rights Reserved 2017
Website by Joao Duarte - J.Duarte Design - www.jduartedesign.com