
Banda principal: KISS
Banda de abertura: Hit The Noise
Local: Arena do Grêmio, Porto Alegre/RS
Data: 26/04/2022
Produção: Opus Entretenimento e Mercury Concerts
Assessoria: Cátia Tedesco (Agência Cigana)
Texto por Sergiomar Menezes
Fotos por Diogo Nunes
Eis que, depois de dois anos de pandemia, a maior banda de rock de todos os tempos voltou a apresentar-se em solo gaúcho após 10 anos. E, infelizmente, pelo que tudo indica, pela última vez. É difícil enquanto fã acreditar que nossas bandas do coração estão encerrando atividades. Mas, também é compreensível, pois todos nós sabemos que esses senhores chamados Stanley Bert Eisen e Chaim Witz (ou Eugene Klein) estão na casa dos 70 anos! Se você não entendeu nada, estou falando de Paul Stanley e Gene Simmons respectivamente, ou, para todo Kiss Army, The Starchild e The Demon, membros fundadores do KISS. Sim, o tempo passa e a idade chega, mas, quem esteve presente na Arena do Grêmio no dia 26 de abril de 2022 viu que ambos estão entregando no palco aquilo que fizeram durante toda a sua vitoriosa carreira: o maior espetáculo da Terra!
A terça feira amanheceu com uma cara esquisita, pois na noite anterior choveu na região e a previsão do tempo indicava que existia uma possibilidade de chuva para a data. Mas, muito provavelmente a Nosso Senhor Paul Stanley, o clima ficou perfeito para o evento, vez que não ficou muito calor nem muito frio. Então, após alguns momentos de superação pessoal que não vem ao caso, este que vos escreve partiu rumo à Arena do Grêmio para assistir ao KISS pela terceira vez (1999, 2012 e agora). E preciso confessar que sentia um misto de felicidade de ter essa oportunidade, ainda mais cobrindo o evento para o Metal Na Lata, mas também um pouco triste, sabendo que essa seria a última vez que os quatro mascarados subiriam ao palco no Rio Grande do Sul. Portanto, se você leu até aqui, percebeu que além de jornalista, sou um fã de LONGA data da banda, e dessa forma, você não lerá aqui uma resenha focada em termos técnicos, ou sobre o quanto a voz de Paul Stanley está “acabada” (fato que se provou contrário). Você apenas vai ler o relato do show que marcou a despedida de um dos grupos que fez desse planeta um lugar melhor para se viver.
Cerca de 20 mil pessoas compareceram ao show, o que pra mim foi uma surpresa e também uma decepção. Mas ao mesmo tempo, tive a certeza de quem estava lá era porque é fã do grupo e não tinha nenhum tipo de “modinha” ou ser algum tipinho baladeiro por lá. Dito isso, vamos ao que interessa, os shows!
Poucos minutos antes das 20h, a banda gaúcha Hit The Noise subiu ao palco para executar um set curto, porém enérgico e eficiente, trazendo uma mistura interessante de Hard Rock, Heavy Metal e porque não dizer, Stoner Rock. Com um som de qualidade excelente, a banda formada por Luciano Scheneider (vocal), Leonardo Theobald (guitarra), Marcel Bittencourt (baixo) e Daniel Sasso (bateria), após uma pequena introdução, abriram sua apresentação com “To the Moon”, uma faixa pesada, intensa e bem interessante. Cabe um destaque para o vocalista Luciano, que tem uma voz forte e um timbre bem particular. O guitarrista Leonardo mostrou uma forte influência do mestre Tony Iommi nos riffs, enquanto a cozinha formada por Marcel e Daniel, criou bases muito técnicas e estruturadas para a execução do repertório. Após “Sabotaged”, Luciano saudou o público agradecendo a presença de todos e falou da honra em estar ali, abrindo o show do KISS.
Muitas vezes, a banda de abertura acaba sendo um “tapa-buraco”, ou uma espécie de “coloca uma música qualquer para galera aí se distrair”. Mas esse não foi o caso da Hit the Noise! Personalidade e qualidade técnica permearam o set que ainda contou com as faixas “Poor Spirit”, “Eclipse”, “Lighter” e “Crooked”. Uma bela apresentação que merece ser ouvida com mais atenção pelo público que aprecia música pesada. Cabe lembrar que a banda possui um álbum autointitulado, lançado em 2019, além de um EP ao vivo. Mais um bom nome do cenário gaúcho da música pesada!
Setlist Hit The Noise:
Intro
To the Moon
Sabotaged
Eclipse
Poor Spirit
Lighter
Crooked
Bom, após o encerramento do show de abertura, o que se viu foi uma multidão de roadies correndo para todos os lados do palco para deixar tudo pronto, o mais rápido possível para a atração principal da noite. E pouco depois das 21h, eis que “Rock N’ Roll”, clássico do Led Zeppelin surge para em seguida a famosa frase “Allright Porto Alegre, You Wanted the Best, You Got the Best! The Hottest BAnd in the World… KISS!!” ecoar pelos PA’s. Em segundos, a gigantesca cortina com o logo da banda cai, acompanhada de explosões, fogos e muita fumaça, trazendo, do alto do palco, Paul Stanley, Gene Simmons e Tommy Thayer, ancorados pela presença marcante do batera Eric Singer, abrindo o show com um dos maiores clássicos da sua carreira: “Detroit Rock City”, presente no melhor álbum do quarteto, o emblemático “Destroyer” (1976). O que se viu no palco e no público foi algo surreal, tamanha a intensidade com a qual o grupo foi recebido pelos gaúchos. E que performance do grupo! Ainda que a idade tenha chegado, Paul e Gene se movimentaram como sempre (ainda que sem aquela dinâmica de anos atrás), mostrando aos seus detratores e caça-cliques que o grupo ainda está sólido e firme. Na sequência, mais um clássico (e qual executado nessa noite não é?): “Shout it Out Loud”, também presente em “Destroyer”. Que espetáculo ver e ouvir as 20 mil pessoas presentes interagindo com a banda como se todos fossem um só. Impressiona como a música do KISS ultrapassa gerações, pois vi muitos pais acompanhados dos filhos, muitos deles crianças, enquanto também vi senhores na faixa dos 60, 70 anos, cantando com a mesma vitalidade de jovens. Essa é a energia do Rock n’ Roll! Essa é a magia do KISS!
Em seguida, outra “old school classic”, segundo o próprio Paul, que, diga-se, interagia a todo momento com o público. Claro, todos nós sabemos que ele sempre fez isso, mas vamos lembrar: com 70 anos, quantas pessoas vocês conhecem que aguentam uma sequência de shows de 2hs? A música presente no homônimo álbum de estreia do grupo (1974), é daquelas “arrasa quarteirão”, com Gene botando pra fora toda sua capacidade de encarnar “The Demon” (o que ficaria bem mais explícito logo mais). E o que dizer do final da faixa, onde Paul, Gene e Tommy se juntam para a clássica performance criada e sugerida por Bill Aucoin quando o grupo ainda estava em início de carreira? Era chegada a vez de uma das faixas presentes em “Creatures Of The Night” (1982), álbum que apresentou o grupo para a maioria dos fãs do grupo no Brasil. Que música, que riff! Explosões deram um molho especial a performance, que, soa até repetitivo dizer, contou com a participação efusiva do público. “Heaven’s On Fire”, faixa de “Animalyze” (1984), “trouxe a tona a fase “unmasked” do grupo, com um dos maiores clássicos da era Hard do grupo e, obviamente do estilo. Como é bom poder ouvir essa música e lembrar do clipe, trazendo a mente velhas lembranças. “I Love It Loud”, sem dúvidas, era uma das mais esperadas, pois todos sabemos o quanto essa música mudou a vida de muita gente. Impossível não associar esse momento àquele em que o Programa Fantástico, da Rede Globo passou o clipe num longínquo domingo a noite. Preciso dizer o resultado? Público extasiado cantando cada palavra culminando com Gene cuspindo fogo, causando, ainda que não seja nenhuma novidade, perplexidade e alegria em muitos.
Sem muito tempo para respirar, Paul diz que queria ouvir o público dizer uma palavra. E qual era? YEAH! Sim, uma das músicas mais legais da última fase do grupo e presente em “Sonic Boom” (2009), “Say Yeah” fez todos cantarem e se preparam para mais uma “velharia” clássica: “Cold Gin”, deixando ainda mais entusiasmados os velhos fãs. Em seguida, Thommy Thayer teve seu momento (e também deu uma folga para os velhinhos) com um solo curto, mas pirotécnico, “disparando” sua guitarra contra os suportes que estavam suspensos, os quais exibiam imagens de planetas, apagando-os com novas explosões. Confesso que temi pelo segundo, uma fez que uma das sustentações dele ficaram meio que soltas, mas pelo jeito, era algo programado, pois em seguida voltou tudo ao normal. “Lick It Up”, faixa título do álbum lançado em 1983, trouxe o peso e a energia dos anos 80 de volta ao set. Impressiona como essa música traz uma sonoridade próxima da que o grupo executava no álbum anterior, o já citado “Creatures Of The Night”. Mas pouco importa, o que interessa é que o público a recebeu de braços abertos. Ou melhor, de braços levantados!
“Rock N’ Roll Over”, de (1976), se fez presente com uma das melhores músicas da carreira da banda, “Calling Dr. Love”! Gene estava “endiabrado”, entregando-se a cada nota da faixa. E cabe um comentário aqui, por mais que se critique a postura de “Homem de negócios” do linguarudo, no palco Gene é um show à parte. “Tears Are Fallin’”, presente em “Asylum” (1985), mostrou-se uma escolha acertada. Afinal, quer coisa mais KISS e Hard Rock do que cantar “As lágrimas estão caindo” em bases e riffs geniais? “Psycho Circus”, mais uma faixa título, dessa vez do álbum de retorno das máscaras em 1998, mostrou sua força, trazendo à memória o inesquecível show de 1999. Claro que eu sou, como diria o grande amigo e ex-parceiro de Metal Na Lata, José Henrique Godoy, “sócio torcedor”, mas não consigo acreditar que muitos fãs não gostem desse disco. Eric Singer também ganhou seu momento, dando mais uma folga para dupla Paul e Gene, com um solo memorável. Sem abusar da técnica que possui, Singer fez um solo que prendeu a atenção de todos, inclusive deste que vos escreve, uma vez que acho esses momentos (seja de bateria, guitarra, ou o que for) desnecessários, podendo ser substituídos por mais músicas. Mas aqui, é perfeitamente compreensível.
A primeira parte do show se aproximava do final quando “100,000 Years” chegou para nos reconduzir aos tempos do primeiro álbum do grupo e precedeu mais um dos momentos aguardados com veemência por todos. Gene foi ao centro do palco, subiu em uma plataforma, cuspiu sangue (não falei que o momento mais endiabrado ainda não tinha chegado?) e foi elevado aos céus (?!) para cantar “God Of Thunder”, mais uma preciosidade presente em “Destroyer”. Sem dúvida, um dos momentos mais intensos do espetáculo. Depois disso, era chegada a hora de Deus, ou melhor, Paul Stanley, ter seu momento de interatividade com o público. Em segundos, o guitarrista/vocalista atravessou a Arena, suspenso em um teleférico e foi até o palco B, onde cantou “Love Gun”, faixa título do álbum de 1977 e um dos hinos máximos do grupo, “I Was Made For Loving You”, única faixa de “Dynasty” (1979). E que ironia do destino, um dos maiores hits da maior banda de Rock de todos os tempos é uma faixa disco? Mas quem se importa? Cantada por todos, a performance de Paul foi algo especial, uma vez que se dirigiu a galera que estava presente mais ao fundo e também nas cadeiras, mostrando carinho e respeito por todos. “Black Diamond” foi mais uma do álbum de estreia foi cantado por Eric Singer de forma precisa. E aqui, um outro ponto também merece destaque. Singer é um exímio vocalista! E assim, os quatro vão a frente do palco e se “despedem” do público, mas por apenas alguns minutos.
Ainda com as luzes apagadas, um piano adentra o palco e Eric Singer assume a banqueta para cantar “Beth”, mais uma das preciosidades presentes em “Destroyer”. E por mais que Singer seja um vocalista acima da média, fica difícil ouvir essa faixa com outra voz que não seja a de Peter Criss. Foi bacana, mas no meu entendimento, um pouco desnecessário. Bom, eu avisei que sou die hard fã, não é mesmo? (risos)
Paul assume o microfone e anuncia que teremos mais uma faixa de “Destroyer” pela frente. Ao citar as faixas que haviam sido executadas até aqui, o maior frontman do Rock N’ Roll cometeu um pequeno deslize: “King of Nightime World” não foi executada. Mas é tanto clássico num álbum só que dá até para se confundir. Em seguida, fez a seguinte pergunta: “Do You Love Me?” Precisa responder, Paul? Outro clássico do melhor álbum do grupo, trouxe no telão muitas imagens antigas da banda, de ex-integrantes e de muitos fãs ao redor do mundo. Nesse momento, também surgiram do nada vários balões pretos e brancos com o logo do KISS e com as máscaras do integrantes no meio da plateia. Muitos sortudos conseguiram levar um desses para casa. Então, era chegado o fatídico, porém, apoteótico momento do show: “Rock N’ Roll All Nite”, faixa de “Dressed To Kill” (1975) e hino máximo do grupo e do Rock em geral. A chuva de papel picado, a fumaça, as explosões, os fogos, por mais incríveis que tenham sido, apenas foram um completo pra essa música que simplesmente mexe com o coração de todo ser vivo. Se não mexe com o seu, é melhor consultar um médico. Assim, chegava ao fim o último show do grupo na capital gaúcha. Ao som de “God Gave Rock n Roll to You II”, as luzes se acendem e temos a real percepção que tudo estava acabado.
Sei que escrevi muito aqui, mas tenho certeza que ainda me faltam palavras pra descrever tudo que vi e vivi nessas duas horas de espetáculo. Não é fácil falar da sua banda do coração, ainda mais sabendo que nunca mais vai vê-la tocando ao vivo. Mas a sensação de saber que nesses meus quase 46 anos de vida, por cerca de 35 anos, esses quatro caras fizeram parte da minha vida. Quero agradecer aqui a parceria com o Diogo Nunes, fotógrafo que soube captar a essência da banda em suas fotos, ao Metal Na Lata e ao Johnny Z. por me proporcionar esse momento único e inesquecível, aos meus amigos que me apresentaram a banda (you know who you are), à Opus Entretenimento por trazer esse sonho a Porto Alegre, a Cátia Tedesco e Agência Cigana pelo carinho e respeito no credenciamento. Mas principalmente, OBRIGADO Eric Carr, Vinnie Vincent, Mark St. John, Bruce Kulick, Erick Singer, um MUITO OBRIGADO a Peter Criss e Ace Frehley e um MUITO, mas MUITO MUITO OBRIGADO Paul Stanley e Gene Simmons. Não tenho nenhuma dúvida que o mundo é um lugar melhor pela presença de vocês. Obrigado por terem proporcionado a mim e a todos, momentos de muita alegria e de fuga desse mundo louco em que vivemos. Obrigado por terem me dado muitos amigos. E muito obrigado por ver no status da minha filha de 11 anos a seguinte mensagem: Qual sua música preferida do Kiss? A resposta? TODAS!
Que as novas gerações continuem apreciando esse legado incrível e apaixonante. GOD GAVE ROCK N’ ROLL TO YOU, PUT IN THE SOUL OF EVERYONE. E sim, vocês o colocaram!!!!
Setlist KISS:
Detroit Rock City
Shout It Out Loud
Deuce
War Machine
Heaven’s On Fire
I Love It Loud
Say Yeah
Cold Gin
Guitar Solo
Lick It Up
Calling Dr. Love
Tears Are Falling
Psycho Circus
Drum Solo
100,000 Years
God Of Thunder
Love Gun
I Was Made For Lovin’ You
Black Diamond
Beth
Do You Love Me
Rock And Roll All Nite
God Gave Rock N’ Roll To You II (outro)










































