Deathgeist – “Underworld” (2026)

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Deathgeist – “Underworld” (2026)

Mutilation Records | Punishment 18 Records | Thrash Or Death Records
#ThrashMetal

Para fãs de: Death Angel, Testament, Sodom, Kreator, Slayer

Texto por Johnny Z.

Nota: 10

Sim, este álbum já foi resenhado com excelência em nosso site e em nossas redes sociais por Cristiano Ruiz e Thiago Loureiro. Ainda assim, como fã da banda desde seus primeiros passos, faço questão de continuar acompanhando e resenhando seus lançamentos, como venho fazendo desde o início de sua trajetória. Portanto, vamos lá!

Em um cenário nacional cada vez mais competitivo, a Deathgeist construiu sua trajetória sem atalhos. Desde o início, o ponto de partida esteve no Thrash Metal de raiz. No entanto, Underworld, quarto álbum da banda, mostra um grupo mais seguro na construção das próprias músicas. O disco continua pesado e agressivo, mas, ao mesmo tempo, apresenta composições mais detalhadas, com maior preocupação na elaboração dos riffs, nos arranjos e na relação entre os instrumentos.

Logo de cara, a faixa-título estabelece essa proposta. Com mais de seis minutos, “Underworld” começa com uma introdução de caráter ritualístico ligada ao universo egípcio antes de desembocar nos riffs. Em seguida, a composição alterna momentos rápidos e cadenciados, introduz harmonizações e utiliza os vocais de maneira mais grandiosa. Assim, é uma abertura que exige atenção e apresenta, já nos primeiros minutos, a variedade de recursos empregada pela banda.

Por sua vez, “Mind Games” trabalha com uma construção menos imediata. A velocidade diminui, enquanto as guitarras ganham espaço para desenvolver linhas melódicas mais longas. Além disso, o refrão possui assimilação rápida. A música, portanto, não depende apenas do impacto do riff principal; sua força está, sobretudo, na maneira como as diferentes partes se encaixam.

Já “Destination: Dust” é a faixa mais direta desse primeiro bloco. Aqui, o Speed Metal ganha protagonismo, Fernando Oster conduz a música com precisão e as guitarras trabalham riffs rápidos e objetivos. Ao mesmo tempo, Maurício “Cliff” Bertoni acrescenta peso à base, mantendo o baixo audível mesmo nos trechos mais velozes. Dessa forma, é uma composição que não precisa de muitos elementos para funcionar: sua força está justamente na eficiência do arranjo.

Em seguida, “The Kraken’s Wrath” investe em uma construção mais épica. A temática do lendário Kraken é acompanhada por riffs pesados, passagens instrumentais mais extensas e um refrão que amplia a dimensão da música. Nesse sentido, o destaque está na maneira como a composição cria uma narrativa própria sem depender exclusivamente da velocidade.

Além disso, “U.F.O. Inc.” acrescenta uma textura diferente ao repertório. Elementos atmosféricos dão à música uma coloração espacial e quase psicodélica, enquanto a seção rítmica mantém o peso característico da banda. O baixo, por sua vez, ganha importância nas partes em que as guitarras deixam mais espaço. Consequentemente, essa distribuição torna o arranjo particularmente interessante.

“Last Memories”, entretanto, representa a ruptura mais significativa do repertório. A guitarra limpa, os dedilhados e as linhas melódicas substituem temporariamente o ataque característico das demais faixas, criando um ambiente melancólico. Da mesma forma, o solo segue essa orientação e prioriza fraseado e sentimento. Mais do que funcionar como uma simples pausa, a composição mostra que a Deathgeist consegue sustentar uma música quando o peso deixa de ser seu principal recurso.

Logo depois, “When Darkness Falls” recoloca as guitarras distorcidas no centro. O riff de abertura é agressivo e a bateria de Fernando Oster volta a trabalhar com maior intensidade. Além disso, a composição possui um refrão melódico que cria uma diferença clara em relação às estrofes. A referência a Edgar Allan Poe e a The Masque of the Red Death, por sua vez, reforça o caráter sombrio da música sem depender de efeitos externos para criar atmosfera.

Já “Into the Darkwood” é a faixa que mais mergulha no Heavy Metal tradicional. O início cadenciado, as linhas de guitarra e determinadas construções harmônicas remetem diretamente à escola dos anos 80. Ainda assim, a composição não parece uma tentativa de reconstruir uma sonoridade antiga. Pelo contrário, o grupo utiliza esses recursos como matéria-prima para uma música que permanece coerente com o restante do álbum.

Por fim, “Skinwalkers” encerra o disco com uma abordagem igualmente sombria. Inspirada no folclore Navajo relacionado aos Yee Naaldlooshii, a faixa combina riffs pesados, melodias e uma atmosfera mais carregada. O refrão funciona como seu principal ponto de sustentação, enquanto as guitarras desenvolvem a parte instrumental sem transformar o encerramento em uma simples repetição do que já foi apresentado.

De maneira geral, as guitarras de Adriano Perfetto e Victor Regep são o principal elemento de ligação entre essas diferentes abordagens. O trabalho da dupla chama atenção não apenas pela execução, mas também pela variedade de soluções. Há riffs rápidos e secos em “Destination: Dust”, construções mais abertas em “The Kraken’s Wrath”, linhas melódicas em “Last Memories” e recursos mais tradicionais em “Into the Darkwood”. Além disso, os solos estão bem integrados às composições e raramente parecem existir apenas para demonstrar habilidade técnica.

Adriano Perfetto apresenta, igualmente, uma atuação vocal variada. A aspereza continua sendo sua principal característica, mas a interpretação ganha diferentes intensidades conforme a música. Nas faixas mais agressivas, o vocal funciona como extensão da guitarra; já nas composições mais melódicas, ele utiliza um fraseado menos linear. Assim, essa diferença ajuda a evitar que nove faixas acabem soando como variações da mesma música.

A cozinha também é outro ponto forte. O baixo de Maurício “Cliff” Bertoni possui presença suficiente para não desaparecer atrás das guitarras. Além disso, aparece com especial clareza nas passagens em que o arranjo deixa mais espaço para as frequências graves. Fernando Oster, por sua vez, combina precisão e força, com viradas que acompanham as mudanças das guitarras sem sobrecarregar as músicas. O resultado é uma base sólida, mas, ao mesmo tempo, suficientemente ativa para participar das composições.

Nesse contexto, a produção contribui diretamente para essa percepção. Underworld possui uma sonoridade mais limpa e definida que os trabalhos anteriores, com boa separação entre guitarras, baixo e bateria. Embora as guitarras continuem dominantes, elas não engolem os demais instrumentos. Dessa maneira, é possível perceber detalhes que poderiam passar despercebidos em uma mixagem mais carregada.

Naturalmente, existe uma redução da aspereza dos primeiros registros. Em compensação, a clareza favorece as composições mais elaboradas e torna o álbum mais confortável para audições repetidas. Ainda assim, a produção não tenta suavizar o peso da Deathgeist; apenas organiza melhor os elementos que já fazem parte da identidade da banda.

Outro mérito está, justamente, na própria construção do repertório. As músicas não parecem ter sido compostas a partir de uma única fórmula. Enquanto “Destination: Dust” aposta na objetividade, “The Kraken’s Wrath” amplia a dimensão épica. Da mesma forma, “U.F.O. Inc.” explora textura, “Last Memories” trabalha a melodia e “Skinwalkers” fecha o álbum em um registro mais sombrio. Consequentemente, essa diferença de abordagem mantém o interesse ao longo dos aproximadamente 44 minutos.

É possível, ainda, traçar um paralelo pontual com o Death Angel pela forma como o Thrash pode ganhar maior elaboração sem perder agressividade. A comparação, porém, termina aí. Afinal, Underworld possui personalidade própria, sobretudo no trabalho de guitarra, na voz de Adriano Perfetto e na maneira como a banda organiza suas composições.

Além disso, vale olhar para esse resultado dentro do atual cenário brasileiro. Sacrifix, Deathgeist, Forkill, Exkil, Evil Sense, Inferno Nuclear, Nuclear Warfare e Sadistic Messiah são alguns dos nomes que mostram a quantidade de trabalhos relevantes surgindo dentro do Metal extremo nacional. Nesse cenário, a Deathgeist ocupa seu espaço com um álbum que demonstra domínio técnico sem transformar a técnica no centro da experiência.

No fim das contas, Underworld funciona porque as boas ideias estão incorporadas às próprias músicas. Os riffs têm personalidade, os solos servem às composições, a cozinha possui presença e a produção permite ouvir cada camada com clareza.

Depois de quatro trabalhos, a Deathgeist entrega, portanto, um álbum consistente, bem produzido e tecnicamente sólido. E é justamente aí que Underworld realmente convence.

Os caras elevaram o sarrafo aqui! Nota 10 é pouco!

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