Chapterhouse – Cine Joia, São Paulo/SP (29/09/2026)
Produção por: Balaclava
Texto e fotos por: Rodrigo Faustino
Uma terça-feira etérea em São Paulo
Se eu pudesse definir um dia da semana que representasse o shoegaze, seria a terça-feira. Afinal, é um dia que está ali, existe, ninguém dá muita atenção, não causa expectativas, mas está ali, cumprindo o seu papel. Da mesma forma, é um gênero coletivo: cada um sabe exatamente o que fazer, ninguém brilha mais do que o outro e, portanto, é tudo homogêneo… etéreo.
Cabe salientar, antes de mais nada, que é uma das vertentes mais democráticas que existem, considerando a Santa Trindade do gênero: Slowdive, com Rachel Goswell; My Bloody Valentine, com Bilinda Butcher; e Lush, com Miki Berenyi e Emma Anderson. Além disso, o vocal feminino ocupou lugar de destaque sem a sexualização presente no rock, historicamente falando. E não, não esqueci do Ride, não me crucifiquem! Afinal, propostas e perspectivas novas ajudaram a moldar o gênero à realidade do mainstream. Ao mesmo tempo, a mixagem brutal que apaga o ego afundou a voz no ruído.
Ou seja, o shoegaze virou a lógica da música, do show biz, de cabeça para baixo. Por um lado, temos riffs difíceis de serem tocados (as três guitarras não são apenas para fazer número); por outro, a voz fica cada vez mais distante, suave, como se estivesse em um sonho distante… afogada em riffs e melodias densas.
O cenário escolhido para o espetáculo foi o Cine Joia, no bairro da Liberdade. Aliás, não há lugar mais alternativo e shoegaze que o Cine Joia; com o passar do tempo, já virou cartão-postal, ponto de encontro e referência para os shows de estilos alternativos.
Sem mais delongas (já me estendi demais), vamos para o evento. Para começar, a abertura contou com os curitibanos do Terraplana. Eles subiram ao palco aproximadamente às 20h30. De início, chegaram tímidos (o shoegaze não seria isso, Rodrigo?), enfim, com o perdão da licença poética das resenhas. No entanto, nos primeiros acordes, o público respondeu muito bem: dançando, cantando… eram fãs de verdade ali.
Foram executadas nove faixas do último álbum, Natural, lançado em 2025, e duas faixas do álbum Olhar pra Trás, de 2023. Embora não tenham ocorrido grandes interações com o público, a banda estava totalmente imersa em sua música. Além disso, assistindo ao show, pude perceber o cerne do shoegaze ali: todos como um só, todos tocando em prol da música, da mensagem, do sentimento. Dessa forma, foi um excelente show e deixo aqui os meus parabéns aos amigos do Terraplana.















Na sequência, com uma trilha sonora recheada de Slowdive, Smashing Pumpkins e My Bloody Valentine, os roadies realizavam os últimos ajustes. Eis que, pouco antes das 21h30, os britânicos do Chapterhouse subiram ao palco. A casa estava cheia. Nesse momento, todos os presentes (assim como quem vos escreve) pareciam ainda não acreditar no que estavam vendo. Afinal, uma banda icônica, tocando um álbum que moldou um gênero inteiro, estava ali, diante dos nossos olhos. Já de cara, mostraram-se muito simpáticos, principalmente o baterista Ashley Bates, que, aliás, foi um show à parte.
Começaram com a B-side “Ecstasy II” e, a partir dali, o Cine Joia ficou em uníssono. Admito que eu travei e pensei: “Começo a fotografar ou aprecio isso que está ocorrendo diante dos meus olhos?”. Logo depois, com “Breather”, veio a confirmação. A icônica faixa de abertura do álbum Whirlpool, homenageado nesta tour de 35 anos de lançamento, foi, portanto, o cartão de visitas dos britânicos da cidade de Reading.
O roteiro era tocar o álbum mais famoso da história da banda na íntegra. Nesse sentido, restou clara a liderança dos guitarristas e vocalistas Andrew Sherriff e Stephen Patman. Era nítida a emoção e a entrega de ambos ali. Mais do que isso, senti que estava sendo um sonho realizado por eles também.
O show seguiu, com Whirlpool sendo tocado em sua totalidade e com grande destaque para “Pearl”, um hino da banda. Em seguida, veio a dançante e contagiante “Falling Down”. Depois, a distorcida “April” e a música que eu mais esperei na noite inteira, “Guilt”. Considerada por eles como a mais rápida e pesada, a atmosfera dela é perfeita. Por isso, ao ouvir os primeiros acordes, fiquei em estado de transe, catártico. Afinal, por que não uma catarse coletiva?
Além disso, me impressionou o fato de que tínhamos fãs de todas as idades, desde os cinquentões até adolescentes acompanhados dos pais. Afinal, a música é extraordinária e atravessa gerações. Da mesma maneira, ver grupos de amigos ali, celebrando, felizes, me deixou genuinamente contente. São momentos que ficam para sempre na memória e no coração.
Depois dos últimos acordes do último som do álbum, “Something More”, encerrou-se ali o primeiro ato.
Entretanto, Sherriff disse no início do show que ele seria dividido em duas partes. Assim, a segunda parte foi preenchida com outros hits da banda, faixas do álbum Blood Music e mais B-sides. Entre elas, tiveram grande destaque “Then We’ll Rise”, “Come Heaven” (para mim, o momento mais emocionante do show), “In My Arms”, “Greater Power” e “Love Forever”.
Ao final de “Love Forever”, o público automaticamente partiu em retirada. Não sei se voltaram, mas, se não, perderam o bis. Afinal, ele teve o single “Mesmerise” (com todo o público dançando freneticamente) e a faixa “Need (Somebody)”, que teve a missão de terminar uma noite que ninguém queria que terminasse.
Por fim, assistir ao Chapterhouse foi um acontecimento ao qual faltam palavras e adjetivos para definir; impossível de ser verbalizado, apenas sentido, assim como as vozes e todos os instrumentos afogados, processados naquele Reverse Reverb, Yamaha SPX90.
Por tudo isso, deixo o meu agradecimento à Balaclava por, mais uma vez, produzir um evento excepcional.





















Setlist:
01. Ecstasy II
02. Breather
03. Pearl
04. Autosleeper
05. Treasure
06. Falling Down
07. April
08. Guilt
09. If You Want Me
10. Something More
11. Precious One
12. Then We’ll Rise
13. Come Heaven
14. In My Arms
15. Greater Power
16. Love Forever
17. Mesmerise
18. Need (Somebody)





