Accept – “Teutonic Titans 1976–2026” (2026)
Napalm Records
#HeavyMetal
Para fãs de: Judas Priest, Saxon, Accept, Scorpions e U.D.O.
Texto por: Johnny Z.
Nota: 8,0
Celebrar cinco décadas de carreira oferece ao Accept a oportunidade de revisitar um repertório que ajudou a definir o Heavy Metal. Entretanto, em vez de apostar em novas composições, a banda escolheu reunir 19 músicas em um álbum duplo com dezenas de convidados. Em “Teutonic Titans 1976–2026”, a proposta consiste em colocar clássicos conhecidos diante de intérpretes com trajetórias bastante diferentes.
A iniciativa tem seus méritos, embora também levante uma questão pertinente: o que uma nova gravação precisa oferecer para justificar sua existência? No caso do Accept, a resposta passa menos por reinventar as músicas e mais por observar como diferentes personalidades se encaixam em composições cuja identidade já está profundamente estabelecida.
O resultado é um disco de regravações que aposta na familiaridade do repertório e no interesse despertado pelos convidados. Entretanto, essa combinação nem sempre produz surpresas proporcionais à expectativa. Em diversos momentos, a satisfação vem de reconhecer a qualidade das composições, enquanto os músicos acrescentam novos detalhes sem modificar substancialmente a experiência.
A abertura com “Fast as a Shark” estabelece imediatamente o espírito da celebração. Phil Anselmo (Pantera, Down) assume os vocais, Kirk Hammett (Metallica) contribui com a guitarra, Billy Sheehan (Mr. Big, The Winery Dogs) ocupa o baixo e Mikkey Dee (Motörhead, Scorpions) assume a bateria. A faixa ainda conta com a participação da Harmonie Musik Hindelang, conjunto musical alemão responsável pela introdução de metais.
A combinação mantém a velocidade e o impacto de uma composição fundamental para a evolução do Speed Metal. Além disso, os músicos entregam uma interpretação vigorosa, sem transformar a faixa em uma demonstração técnica desnecessária. Na minha modesta opinião, ficou excelente. Ainda assim, a espontaneidade da gravação original continua difícil de reproduzir.
“Balls to the Wall” reúne Rob Halford (Judas Priest), Matthias Jabs (Scorpions), Rex Brown (Pantera, Down) e Jason Bowld (Bullet for My Valentine). A voz de Halford combina naturalmente com o refrão, enquanto o instrumental preserva o andamento pesado e cadenciado. Porém, Udo Dirkschneider permanece como a referência definitiva para essa música. A participação funciona, mas não altera minha relação com o clássico.
Já “Aiming High” coloca Chuck Billy (Testament) diante de uma formação que inclui Gary Holt (Exodus, Slayer), David Ellefson (ex-Megadeth) e Christopher Williams (Accept). A presença de músicos ligados ao Thrash Metal acrescenta agressividade à execução. Contudo, a estrutura continua reconhecível, e a interpretação não encontra um caminho particularmente novo para uma composição que já possuía personalidade própria.
Em “Run If You Can”, Todd La Torre (Queensrÿche, Crimson Glory) divide espaço com Ola Englund (The Haunted, Feared), Chuck Garric (Alice Cooper) e Roy Mayorga (Stone Sour, Ministry). La Torre possui recursos vocais suficientes para lidar com o repertório, enquanto Englund acrescenta sua abordagem às guitarras. Apesar disso, a gravação funciona principalmente como uma leitura competente de uma música já consolidada.
Em “Hellhammer”, Jason McMaster (Watchtower, Dangerous Toys) assume os vocais, acompanhado por Zeuss, Phil Shouse (Accept) e Christopher Williams (Accept). A participação de músicos ligados à formação atual aproxima a interpretação da identidade contemporânea do grupo. McMaster, por sua vez, oferece uma presença vocal adequada ao peso da composição. É uma versão eficiente, embora não represente uma transformação significativa.
“Metal Heart” apresenta uma das combinações mais interessantes do projeto. Dino Jelusick (Jelusick, Whitesnake) assume os vocais, Joel Hoekstra (Whitesnake, Night Ranger) contribui com a guitarra, Jason Bowld (Bullet for My Valentine) assume a bateria e Ava Rebekah Rahman acrescenta seu violino ao arranjo.
O instrumento de Rahman oferece um elemento particular à interpretação, ampliando as possibilidades melódicas sem descaracterizar a composição. Ainda assim, a novidade não se sobrepõe à força da versão original. É um bom exemplo de como um detalhe instrumental pode renovar a experiência sem necessariamente superar aquilo que já funcionava.
Em “Losers and Winners”, Hansi Kürsch (Blind Guardian) divide espaço com Paul Gilbert (Mr. Big, Racer X), Chuck Garric (Alice Cooper) e Tommy Aldridge (Whitesnake, Ozzy Osbourne). A presença de Kürsch modifica a dinâmica vocal, enquanto Gilbert acrescenta precisão às passagens instrumentais. A combinação é agradável, mas a execução permanece próxima demais do modelo conhecido para se tornar memorável por motivos próprios.
Outro caso interessante é “Save Us”, com Tobias Forge (Ghost), Frank Bello (Anthrax) e Ray Luzier (Korn). Aqui, a personalidade do vocalista interfere de maneira mais evidente na percepção da música. Forge trabalha a interpretação com um caráter teatral que combina com a atmosfera sombria da composição. Em vez de simplesmente reproduzir a abordagem de Udo, ele imprime uma identidade diferente.
Entretanto, a ideia não se converte automaticamente em um grande momento. A versão tem seus méritos, mas não me convence por completo. Ficou boa, só isso. Considerando as possibilidades oferecidas pela escolha de Forge, esperava uma interpretação mais marcante. Para mim, é uma das passagens menos convincentes do álbum.
“Up to the Limit” reúne John Bush (Armored Saint, ex-Anthrax), Alex Skolnick (Testament), Rudy Sarzo (Quiet Riot, Whitesnake, Ozzy Osbourne) e Shannon Larkin (Godsmack, Ugly Kid Joe). Bush entrega uma interpretação vigorosa, enquanto Skolnick acrescenta sua experiência à guitarra. A base rítmica, por sua vez, sustenta o peso sem prejudicar a clareza instrumental. O resultado agrada, embora a qualidade dos músicos tenha maior destaque do que qualquer alteração substancial na composição.
Em “Wrong Is Right”, Ralf Scheepers (Primal Fear, ex-Gamma Ray) assume os vocais, acompanhado por John Norum (Europe) na guitarra e Ken Mary (House of Lords, Alice Cooper) na bateria. Scheepers possui uma voz especialmente adequada ao Heavy Metal tradicional e demonstra novamente seu domínio técnico. Além disso, Norum acrescenta precisão melódica à execução. A versão funciona muito bem, mas continua sendo uma interpretação de um clássico, não uma nova leitura capaz de mudar sua identidade.
“Starlight” reúne Joseph Michael (Sanctuary, Witherfall), Phil Demmel (Kerry King, Category 7, ex-Machine Head, ex-Vio-lence) e Michael Cartellone (Lynyrd Skynyrd). A mistura de trajetórias desperta curiosidade, especialmente pela presença de Demmel. Entretanto, a execução não apresenta contrastes suficientemente fortes para colocar a faixa entre os grandes destaques do projeto.
Em “Fight It Back”, Mark Lopes (Let Us Prey, ex-Metal Church) divide espaço com Bumblefoot (ex-Guns N’ Roses, Sons of Apollo), Billy Sheehan (Mr. Big, The Winery Dogs) e Shawn Drover (ex-Megadeth). O grupo possui recursos técnicos de sobra, mas a música não precisa de grandes intervenções para funcionar. O mérito está na manutenção da força dos riffs, ainda que a personalidade original permaneça praticamente intacta.
“Love Child” talvez seja a escolha mais curiosa do repertório. Billy Corgan (The Smashing Pumpkins) assume os vocais, acompanhado por David Ellefson (ex-Megadeth) no baixo e Tommy Aldridge (Whitesnake, Ozzy Osbourne) na bateria.
Confesso que a presença de Corgan não me entusiasma. Para deixar minha posição bem clara, detesto The Smashing Pumpkins com todas as minhas forças (risos). Mesmo assim, sua participação cria um contraste interessante com a instrumentação. A experiência, porém, não chega a ser memorável. A curiosidade inicial é maior do que o resultado final. Enfim, tentei ser político. Não sei se consegui (risos).
Em “Breaker”, Girish Pradhan (Girisha and the Chronicles) assume os vocais, Glen Drover (ex-Megadeth, King Diamond) toca guitarra, Shawn Drover (ex-Megadeth) assume a bateria e Chuck Garric (Alice Cooper) ocupa o baixo. Pradhan combina com a proposta tradicional da música, enquanto Glen Drover mantém a execução precisa. Entretanto, a faixa não oferece mudanças suficientes para justificar uma preferência pela nova gravação em detrimento da original.
Vale outro adendo: a esmagadora maioria das faixas — para não dizer a totalidade — é extremamente fiel às gravações originais. Por conta disso, prefiro classificar o lançamento como um álbum de regravações de luxo, e não propriamente como um tributo. Afinal, o Accept revisita o próprio catálogo com convidados de peso, mas raramente se distancia das estruturas que tornaram essas músicas tão reconhecíveis.
A participação de Bobby “Blitz” Ellsworth (Overkill) em “Demon’s Night” funciona melhor. Ao lado de Andy Sneap (Hell, Judas Priest), David Ellefson (ex-Megadeth) e Ray Luzier (Korn), o vocalista acrescenta sua característica aspereza à composição. A interpretação preserva a tensão e o peso do material, sem depender de alterações exageradas. É uma das versões que melhor aproveitam a personalidade de quem está envolvido. Ficou poderosa, sem dúvida.
Em “T.V. War”, Joe Lynn Turner (Rainbow, Deep Purple) assume os vocais, acompanhado por Fredrik Åkesson (Opeth), Rudy Sarzo (Quiet Riot, Whitesnake, Ozzy Osbourne) e Ken Mary (House of Lords, Alice Cooper). Turner oferece uma abordagem diferente daquela tradicionalmente associada ao Accept, enquanto Åkesson mantém a precisão instrumental. A combinação é interessante, embora o contraste vocal seja mais relevante do que qualquer mudança efetiva no arranjo.
“London Leatherboys” ganha a participação de Sebastian Bach (ex-Skid Row), Rex Brown (Pantera, Down) e Shawn Drover (ex-Megadeth). Bach acrescenta energia e uma interpretação mais solta, combinando com o balanço da música. Brown e Drover sustentam a base sem excessos. É uma escolha coerente, mas continuo preferindo a identidade vocal da gravação original. Eu avisei (risos).
Em “Monsterman”, Jeff Scott Soto (Talisman, Journey, Sons of Apollo) assume os vocais, Jeff Loomis (Nevermore, ex-Arch Enemy) contribui com a guitarra, Rudy Sarzo (Quiet Riot, Whitesnake, Ozzy Osbourne) toca baixo e Michael Cartellone (Lynyrd Skynyrd) assume a bateria. Soto demonstra versatilidade, enquanto Loomis acrescenta desenvoltura técnica. Ainda assim, a competência instrumental não se traduz necessariamente em renovação artística. A faixa continua funcionando dentro dos parâmetros tradicionais do Accept, o que representa tanto sua qualidade quanto sua limitação.
O encerramento com “Restless and Wild” reúne Chris Jericho (Fozzy), K. K. Downing (ex-Judas Priest, KK’s Priest), Billy Sheehan (Mr. Big, The Winery Dogs) e Ray Luzier (Korn). A formação mantém a energia necessária para fechar o álbum, enquanto Downing acrescenta uma ligação histórica com o Heavy Metal britânico. A interpretação convence, mas não reproduz integralmente a urgência da gravação original. Portanto, funciona melhor como celebração do que como alternativa definitiva.
O trabalho de Zeuss ajuda a uniformizar o álbum. As guitarras possuem definição, a base rítmica mantém firmeza e os instrumentos ocupam seus espaços com clareza. Por outro lado, o acabamento contemporâneo reduz parte da aspereza que caracteriza determinadas gravações antigas do Accept.
Não considero isso necessariamente um problema. Afinal, tentar reproduzir exatamente a sonoridade de décadas atrás não faria muito sentido em um projeto que reúne músicos de diferentes gerações. As gravações originais continuam disponíveis, e uma nova produção pode oferecer outra perspectiva sobre o repertório. A questão é que essa atualização sonora nem sempre vem acompanhada de mudanças igualmente interessantes nos arranjos.
A duração também merece consideração. São 19 faixas distribuídas por aproximadamente 76 minutos, com uma sucessão de convidados que mantém a curiosidade, mas não elimina toda a sensação de repetição. Como as músicas compartilham riffs marcantes, estruturas diretas e refrões fortes, a audição prolongada pode diminuir o impacto individual de algumas interpretações.
Pessoalmente, não tenho problemas com álbuns extensos quando o repertório sustenta a duração. Além disso, a memória afetiva tem participação importante na experiência. Entretanto, reconhecer uma composição querida não é o mesmo que encontrar motivos para voltar repetidamente a uma nova gravação.
Também considero discutível a seleção do repertório, concentrada em diferentes momentos da fase clássica sem representar de maneira equilibrada todas as etapas da carreira. O título sugere uma celebração abrangente de cinco décadas, mas a escolha das músicas privilegia um período específico da história do grupo.
Nesse contexto, a ausência de Udo Dirkschneider é inevitável. Mark Tornillo possui competência e personalidade, mas muitas dessas composições estão profundamente associadas à interpretação de Udo. A presença de tantos vocalistas convidados apenas reforça essa percepção. Se os antigos integrantes não quiseram participar, resta respeitar a decisão. Ainda assim, não há como ignorar a oportunidade perdida de reunir diferentes capítulos da história da banda.
“Teutonic Titans 1976–2026” funciona melhor quando os convidados acrescentam características próprias sem tentar competir com a identidade das composições. Phil Anselmo, Kirk Hammett, Rob Halford, Tobias Forge, Billy Corgan, Hansi Kürsch e os demais participantes ajudam a tornar o projeto atraente, embora nem todas as combinações produzam resultados igualmente interessantes.
O principal problema não está na qualidade dos músicos, mas na distância limitada entre muitas dessas versões e as gravações que as inspiraram. Em diversos momentos, a impressão é de que estamos diante de interpretações competentes de músicas que já conhecemos profundamente. A produção moderna oferece uma nova apresentação sonora, mas nem sempre acrescenta uma perspectiva artística que justifique revisitar o material.
Ainda assim, o álbum tem valor como registro comemorativo e como oportunidade de ouvir músicos de diferentes gerações dividindo espaço com o repertório do Accept. Não considero o projeto indispensável, tampouco uma tentativa fracassada. É uma celebração bem executada, com momentos de destaque e outros que passam sem deixar uma impressão duradoura.
No fim, prefiro encará-lo como um álbum de regravações de luxo, e não como um tributo capaz de redefinir a percepção desses clássicos. Quem deseja ouvir novas interpretações encontrará material suficiente para se divertir. Já quem procura a essência histórica do Accept provavelmente continuará recorrendo às gravações originais.
Reunir tantos nomes em um único projeto é uma façanha. Convencê-los a revisitar músicas tão conhecidas, porém, não garante que o resultado seja superior ao que já existia. E talvez essa seja a principal lição deste aniversário: o legado do Accept não precisa ser reinventado para continuar relevante.

