Alice Cooper
earMUSIC
#ClassicRock, #HardRock
Nota: 9,0
Álbuns conceituais são tamanha constante na carreira de Alice Cooper que mesmo quando ele não quer, acidentalmente acaba fazendo um. A ideia inicial de Cooper e do produtor Bob Ezrin era simplesmente escrever um punhado de canções que tivesse voz própria, não dependendo de um contexto para fazer sentido. Selecionadas as 12 faixas que entrariam no álbum, a dupla verificou que todas compartilhavam de uma temática semelhante, a condição humana, tão previamente explorada na obra de Cooper. A paranormalidade que dá nome ao álbum não se refere propriamente a almas penadas ou discos voadores, mas sim às esquisitices às quais os seres humanos vira e mexe estão sujeitos, seja pela maneira de pensar, seja por consequência de suas escolhas.
É preciso dizer que a voz de Alice sobreviveu bem ao implacável teste do tempo, essa majestade perversa que diferencia carreiras legitimamente longevas daquelas que se arrastam ao ponto da vergonha alheia. Mas se por um lado o pai do shock rock vai muito bem, obrigado, por outro, a dupla de guitarristas que o acompanha, Tommy Henriksen (outrora baixista do Warlock) e Tommy Denander, talvez seja a mais fraca a ocupar o posto, considerando que tais lugares já foram ocupados por gente do calibre de Al Pitrelli, Kane Roberts e, mais recentemente, a prodígio Orianthi. Falta aos Tommys aquela ousadia inerente aos guitar heroes, aquele pensar fora da caixa, sem medo de ser feliz. Não aperte o play esperando riffs e solos marcantes, pois a palavra de ordem por aqui é meramente eficiência.
A limitação nesse quesito guitarrístico é suplantada pelo melhor repertório de Alice em aproximadamente duas décadas. Imagine só você sonhar com o fim do mundo e acordar bem na hora de vê-lo acontecer. “Fireball”, a melhor da primeira metade do álbum, trata justamente disso. “Dynamite Road” toma emprestado clichês do rockabilly para contar a história de um malfadado encontro com o diabo em pessoa. Já a base de “Holy Water” parece ter sido desviada de um culto pentecostal e adulterada em águas nada bentas. E o que falar de “The Sound Of A”, escrita em 1968, quando a psicodelia dominava o mundo e os ácidos os miolos do jovem Vincent Damon Furnier.
O destaque supremo, porém, fica por conta da dobradinha final, que soa totalmente anos 1970 por um simples motivo: Michael Bruce, Dennis Dunaway e Neal Smith, membros originais do grupo Alice Cooper (1968-1974) dão as caras em “Genuine American Girl” – cuja letra fala sobre um homão da porra que não tem vergonha de ser trans – e “You And All Of Your Friends”, que ao celebrar a amizade, parece mais uma celebração ao som do The Who. Nada mal para uma galera que não gravava junto há mais de 40 anos. Uma pena que Glen Buxton, morto em 1997, não esteja mais entre nós para fazer parte dessa mágica.
Para abrilhantar seu 27º álbum, Alice contou com participações pra lá de especiais: Billy Gibbons (ZZ Top) toca guitarra em “Fallen in Love”; Roger Glover (Deep Purple) toca baixo na faixa título – que conta a história de amor entre uma mulher e o espírito do falecido marido -, e o batera em quase todas as músicas é ninguém menos que Larry Mullen Jr (U2).
Em linhas gerais, “Paranormal” é mais uma confirmação da minha tese de que cada álbum gravado por Alice Cooper consiste em apenas um pedaço de um mosaico muito maior, um trabalho sempre em andamento que se desdobra nas apresentações ao vivo e em álbuns subsequentes. Ele criou um gênero exclusivo para si e temos aqui mais uma prova que sua obra invariavelmente rica e criativa é motivo pelo qual devemos saudá-lo e agradecê-lo.
Marcelo Vieira
