Bellicus Daemoniacus – “Ápices do Proibido” (2026)
Impaled Records I Soror Bellum I Belial Songs
#BlackMetal
Para fãs de: 1349, Celtic Frost, Bathory
Por: Thiago Loureiro
Nota: 10
Vinte cinco anos de Heresia: Bellicus Daemoniacus transforma o proibido em manifesto e crava um dos discos mais viscerais do Black Metal brasileiro
ENTRE A SUJEIRA E O PENSAMENTO
Há discos que pedem licença para entrar. Porém, “Ápices do Proibido” arromba a porta, risca uma cruz invertida na parede e só então se apresenta. Com este trabalho, o Bellicus Daemoniacus celebra vinte e cinco anos de militância extrema e inegociável com um registro ríspido, visceral e conceitualmente denso, reafirmando o trio de Campos dos Goytacazes (RJ) como uma das formações mais íntegras do underground sul-americano.
Poucas vertentes exigem tanta resiliência e integridade ideológica quanto o Black Metal. No Brasil, onde o estilo fincou raízes profundas ainda nos anos 1980, manter-se relevante por um quarto de século sem ceder a modismos é prerrogativa de poucos. Inegavelmente, o Bellicus Daemoniacus pertence a esse grupo seleto.
A união histórica dos selos independentes neste lançamento reafirma a natureza do projeto: ou seja, nada aqui foi feito para agradar algoritmos. Longe de buscar produções digitais limpas, plásticas e artificiais, o trio preserva a tradicional “sujeira” sonora e a agressividade do Metal extremo sul-americano. Contudo, engana-se quem enxerga na obra apenas violência gratuita. Cada composição funciona como um canal para correntes filosóficas, literárias e ancestrais que atravessam milênios. De Hesíodo a Stirner, da Bíblia a Nietzsche, de Baudelaire a Sade. É um álbum que choca na superfície e recompensa profundamente quem decide cavar.
LEITURA ICONOGRÁFICA E SIMBÓLICA DA CAPA
A pintura guache sobre papel assinado por Márcio “Blasphemator” Menezes emana o espírito do Romantismo e do sublime estético (evocando Caspar David Friedrich, John Martin, assim como Thomas Cole).
- O Eixo do Mundo (Axis Mundi) e a Torre: no centro da paisagem dramática ergue-se uma torre ou espiral rochosa sobre um vale tempestuoso. A montanha/torre central liga a terra ao céu (em paralelo a mitos como Meru, Olimpo, Sinai e a Torre de Babel). Aqui, ela surge inacessível e envolta em tormenta. É a visualização física do “proibido”: o lugar do interdito onde a audácia humana tenta chegar, assumindo o mito prometeico de ascensão e punição.
- O Caminho Iniciático: O caminho sinuoso rumo à torre evoca os rios do submundo clássico (Aqueronte, Estige, Letes). Esse caminho tortuoso exige a travessia de um território hostil sem atalhos.
- Os Monólitos Ancestrais: Os dois monólitos inclinados em primeiro plano funcionam como guardiões do limiar e testemunhas de eras megalíticas e pré-cristãs. Os mesmos ligam a imagem a um sentimento telúrico e ritual.
- A Figura Minúscula e o Sublime: A pequena silhueta humana em meio às rochas encarna o “Caminhante” romântico de Burke e Kant. O indivíduo diante da imensidão da natureza sente o terror e o fascínio simultâneos — o buscador solitário que opta pela ascensão transgressora a despeito de sua insignificância física.
- Céu Rubro e Simbologia Herética: O céu carregado de clarões avermelhados expressa a ambiguidade entre aurora e crepúsculo, sangue e fogo, marcando uma transição sem promessa de redenção. As cruzes invertidas e o nome da banda em latim (Bellicus: belicoso/guerreiro; Daemoniacus: possuído por um daimon/gênio interior) ratificam a recusa da autoridade religiosa dominante e a afirmação do caminho oposto.
CONCEPÇÃO SONORA, GRAVAÇÃO E MIXAGEM
A construção sonora de Ápices do Proibido foi distribuída entre o Cúpula Estúdio, responsável pela captação e produção de bateria, guitarras e vocais, sob o trabalho de Estevão Ramos, e o Opus Leal Estúdio, onde foram registrados os instrumentos adicionais, conduzidos os trabalhos de produção correspondentes e realizadas a mixagem e a masterização por Magnus Leal.
O processo, desenvolvido entre novembro de 2022 e abril de 2026, revela uma produção realizada ao longo de diferentes etapas, com a incorporação posterior de baixo, teclados, violões e guitarras adicionais.
O resultado privilegia uma estética orgânica, densa e deliberadamente áspera. Em vez de perseguir uma sonoridade excessivamente limpa, o álbum preserva texturas que favorecem a sensação de atrito entre os instrumentos. Guitarras e baixo contribuem para uma massa sonora espessa, enquanto a bateria mantém o impacto físico das baquetas e dos pratos.
A impressão geral é a de uma música que respira sob pressão. Mesmo com a captação realizada em etapas distintas, a mixagem procura estabelecer continuidade entre os elementos, aproximando-os de uma experiência coletiva e coesa.
Essa característica não significa que toda aspereza deva ser automaticamente considerada virtude. A avaliação de uma produção depende do equilíbrio entre intenção estética, inteligibilidade instrumental e resultado efetivo. Neste caso, a rugosidade sonora encontra correspondência na linguagem musical adotada pela banda e contribui para sua atmosfera de hostilidade.
O álbum dialoga, dessa forma, com uma tradição do Metal Extremo que entende a produção não apenas como ferramenta de acabamento, mas também como parte da composição. Como resultado, a textura, a saturação e a sensação de proximidade física integram a identidade do registro.
A ausência de um polimento excessivo, portanto, pode ser compreendida como uma escolha estética coerente com a proposta do Bellicus Daemoniacus. O disco não procura neutralizar suas arestas: utiliza-as como parte de sua expressão.
RITUAL FILOSÓFICO E ANÁLISE FAIXA A FAIXA
1.”TEMPOS TENEBROSOS”
O portal da obra ergue-se em andamentos cadenciados e atmosfera cinzenta. A cozinha de baixo e guitarra de Lunático 666 constrói uma parede sonora monolítica e opressiva, enquanto seus vocais proféticos e apocalípticos — divididos em linhas de tenor, barítono e baixo — dão o tom de ruína e solenidade do álbum.
Dialoga com o pessimismo metafísico de Arthur Schopenhauer, o conceito hindu de Kali Yuga (a era da escuridão e da degradação espiritual) e a Idade de Ferro descrita por Hesíodo em Os Trabalhos e os Dias.
Afinidades Sonoras: Celtic Frost, Bathory (fase arrastada) e a gravidade ritual do Black/Doom primitivo.
2.”OS ÍMPIOS ICONOCLASTAS”
O principal single do disco acelera o ritmo de forma drástica. Lex Malevolence dispara blast beats implacáveis, enquanto os riffs cortantes de Perversus e o solo preciso de Lunático 666 evocam a fúria da velha escola. Destaque para as inserções sutis de teclado por Túlio Marco e violões de apoio.
É a materialização musical do Niilismo Ativo de Friedrich Nietzsche e do seu “filosofar com o martelo” (Crepúsculo dos Ídolos). Remete às rupturas históricas da fúria iconoclasta (como a bizantina e a protestante), onde a aniquilação dos ídolos sagrados serve para resgatar a soberania do indivíduo.
Afinidades Sonoras: Sarcófago, Vulcano e Venom (o limite brutal entre o Black e o Thrash Metal).
3.”MEU NOME É LEGIÃO”
Faixa destacada pelas quebras de tempo precisas e cheias de suingue sombrio conduzidas por Lex Malevolence. Lunático 666 desfigura sua voz em sobreposições demoníacas (registros de tenor, barítono e baixo), alternando rajadas velozes com andamentos arrastados e macabros, pontuados pelos teclados de Túlio Marco.
Tendo como estopim o episódio bíblico do endemoniado de Gerasa (Evangelho de Marcos 5:9), a letra subverte o terror teológico tradicional sob a ótica da Psicologia Analítica de Carl Jung: a erupção avassaladora do Arquétipo da Sombra e do inconsciente reprimido.
Afinidades Sonoras: Mystifier, Rotting Christ (fase inicial) e a teatralidade sombria do Mercyful Fate.
4.”EM NEGRO ESTADO DE ESPÍRITO”
A composição mais introspectiva e densa da metade inicial. As guitarras de Perversus abrem a faixa com dedilhados gélidos e melancólicos, dessa forma criando uma tensão sufocante antes de a música explodir em uma marcha fúnebre acelerada.
Conecta-se diretamente à literatura gótica e ultrarromântica do século XIX (Lord Byron, Edgar Allan Poe e o brasileiro Álvares de Azevedo), esbarrando no existencialismo de Jean-Paul Sartre sobre a angústia da liberdade diante do vazio.
Afinidades Sonoras: Burzum, Ulver (Nattens Madrigal) e os momentos contemplativos do Celtic Frost.
5.”A SOLITÁRIA TORMENTA”
Abertura devastadora do Lado B. A horda retorna à crueza técnica intencional, com palhetadas coléricas e andamentos velozes que jogam o ouvinte em um turbilhão caótico movido pelo espírito Do It Yourself (DIY).
Uma ode ao Solipsismo ao mesmo tempo combinada ao Estoicismo de Sêneca, Epicteto e Marco Aurélio. Invoca o mito de Prometeu Acorrentado e o Mito de Sísifo formulado por Albert Camus: o herói trágico que encontra orgulho e triunfo na própria punição.
Afinidades Sonoras: Hellhammer, Darkthrone (A Blaze in the Northern Sky) e, da mesma forma, a rudeza do underground oitentista brasileiro.
“6.NITIMUR IN VETITUM”
Enfim, o coração conceitual do álbum. Lex Malevolence sustenta ganchos rítmicos hipnóticos enquanto Perversus e Lunático erguem guitarras cortantes e solísticas. Os vocais surgem de forma ríspida, firme e declamada por Lunático 666, acompanhados por teclados e violões.
O título invoca o verso de Ovídio (“Nitimur in vetitum semper, cupimusque negata” — “Sempre nos inclinamos para o proibido e desejamos o que nos é negado”). A faixa dialoga com o Marquês de Sade, Georges Bataille, o mito do fruto proibido do Éden e traz a adaptação direta do poema “As Litanias de Satã” (extraído de As Flores do Mal, de Charles Baudelaire).
Afinidades Sonoras: Mayhem (fase ritualística) e Rotting Christ (pelo equilíbrio entre a melodia fria e as declamações ríspidas).
7.”ODE A LUX FERRE”
A horda canaliza a herança da gênese do Black Metal escandinavo com extrema elegância e agressividade. Assim como, as linhas de baixo de Lunático 666 imprimem uma cadência imponente e solene, abrindo espaço para um solo marcante de Perversus.
Representa a tradição do Gnosticismo Antigo e o poema épico de John Milton, Paraíso Perdido. A figura de Lúcifer (Lux Ferre — o portador da luz) é despida do maniqueísmo dogmático e assumida como símbolo da razão, da busca pelo conhecimento oculto e da rebeldia romantizada por William Blake e Percy Shelley — retomando, com maestria, a leitura baudelairiana de Lúcifer.
Afinidades Sonoras: Bathory (Blood Fire Death), Darkthrone e Mayhem.
8.”DEI NEGATIO”
O encerramento entrega o ápice físico e técnico do trio. A velocidade é levada ao limite do suportável em um caos instrumental perfeitamente controlado, com solo de encerramento assinado por Perversus, e teclados dramáticos de Túlio Marco. O grito gutural final de Lunático sela a obra de forma abrupta e violenta.
Conclusão lógica da filosofia de Max Stirner em O Único e sua Propriedade. A “Negação de Deus” decreta o colapso de qualquer autoridade metafísica externa, mesclando trechos adaptados de O Anticristo e A Vontade de Potência de Friedrich Nietzsche.
Afinidades Sonoras: Sarcófago (I.N.R.I.), Marduk e Blasphemy (pela velocidade devastadora e o caos sob controle).
MAPA DE AFINIDADES SONORAS E HISTÓRICAS
A fim de situar Ápices do Proibido no panorama global e histórico do Metal Extremo, o disco orbita harmonicamente pelas referências presentes nas análises, faixa a faixa: Sarcófago, Bathory, Venom, Celtic Frost, Hellhammer, Darkthrone, Mayhem, Vulcano, Mystifier, Burzum, Rotting Christ, Mercyful Fate, Ulver, Marduk e Blasphemy.
VEREDITO
Ápices do Proibido cumpre a missão de um grande marco do Metal extremo, pois agride e choca a superfície enquanto alimenta o intelecto daqueles que se dispõem a decifrar suas camadas. O Bellicus Daemoniacus não apenas celebra 25 anos de estrada, mas crava um monumento sonoro e literário que atesta a vitalidade, a integridade e a perenidade do Black Metal feito no Brasil.
Uma obra indispensável para devotos do underground autêntico e histórico.
As leituras filosóficas apresentadas são análises possíveis do álbum, não declarações oficiais da banda, salvo quando confirmadas diretamente por seus integrantes.
FICHA TÉCNICA E CRÉDITOS DE PRODUÇÃO
Álbum: Ápices do Proibido — 3º álbum de estúdio
Banda: Bellicus Daemoniacus — Campos dos Goytacazes (RJ)
Lançamento: 3 de agosto de 2026
Faixas: 8
Formação: Lunático 666 — Vocais; Guitarras; Baixo; Violões (faixas 2, 6, 7 e 8); Solos de Guitarra (faixas 2 e 6)
Perversus — Guitarras; Solos de Guitarra (faixas 7 e 8)
Lex Malevolence — Bateria
Músico Convidado
Túlio Marco — Teclados (faixas 2, 3, 6 e 8)
Gravação: Bateria, guitarras e vocais gravados no Cúpula Estúdio, sob produção e captação de Estevão Ramos, entre novembro de 2022 e dezembro de 2024.
Guitarras adicionais, baixo, teclados e violões gravados no Opus Leal Estúdio, sob produção de Magnus Leal, entre fevereiro de 2025 e abril de 2026.
Mixagem e Masterização: Magnus Leal (Opus Leal Estúdio)
Arte da Capa: Márcio Blasphemator Menezes, Blasphemator Art
Layout, Diagramação e Encarte: Alan Luvarth
Composições: Todas por Bellicus Daemoniacus
Letras: Todas por Lunático 666
Selos / Distribuição: União histórica entre De Profundis Productions (deprofundisprodd@gmail.com), Soror Bellum (sororbellum@gmail.com), Belial Songs (belialsongs@gmail.com) e Impaled Records (impaledrecordsbrasil.com.br)

