Benediction – Burning House, São Paulo/SP
Produção: Talent Nation, Caveira Velha Produções e Xaninho Discos
Texto: Matheus “Mu” Silva
Fotos: Rodrigo Faustino
Pouco mais de três anos após sua última visita, em sua quinta passagem por aqui, o Benediction retornou ao Brasil. Clássica banda inglesa de Death Metal e uma das precursoras do estilo, trouxe ao nosso país a turnê do excelente disco Ravage of Empires (2025).
Para essa série de shows, devido ao afastamento recente do clássico vocalista David Ingram por motivos de saúde, quem assumiu os vocais foi ninguém menos que Kam Lee, um dos pioneiros do metal da morte, com uma passagem histórica pelo Mantas (pré-Death), além de ser vocalista do Massacre.
Com produção da Talent Nation, Caveira Velha Produções e Xaninho Discos, o evento contou ainda com a abertura das bandas Madness e Podridão, em apresentação realizada em São Paulo no último sábado (31).
Às 19h30, o Madness iniciou seu set. Uma das bandas mais antigas de Death Metal ainda na ativa, oriunda do interior paulista, mais precisamente de Piracicaba, trouxe ao evento seu Death Metal Old School brutal e sem concessões.
Infelizmente, ao longo da apresentação, o vocalista Eduardo Guerreiro teve alguns problemas com o microfone. Ainda assim, segurou as pontas de forma profissional, sem deixar a peteca cair. A banda também recebeu todo o apoio do público presente, principalmente da velha guarda, que a acompanha há anos. Afinal, são mais de vinte anos de dedicação ao underground.
O grupo alternou seu repertório principalmente entre os dois discos de estúdio, Essence of The Death (2012) e Explicit Horror (2020), tocando músicas como “Ripping Lives”, “Ouija Board”, “In The Womb Alienated” e “Explicit Horror”. Em 30 minutos de apresentação, sem firulas, exaltou a importância e o atual momento da banda, além de debulhar seu som visceral, veloz e furioso, do jeito que Death Metal tem que ser.
Às 20h20, o Podridão subiu ao palco com uma novidade: agora, a banda é um quarteto. Um dos principais nomes da atual safra do Death Metal nacional, com aquela pegada suja noventista, cheia de referências pútridas e um som carregado de potência e violência, mergulhou o Burning House em uma sonoridade pestilenta e ininteligível.
O som deles me lembra, de longe, o Gorefest. Como essa é uma das minhas bandas favoritas, sempre que posso vou vê-los ao vivo. Já até perdi as contas de quantas vezes assisti à banda, e é sempre um show intenso e destruidor. O de hoje não foi diferente.
Tratando dos temas mais venéreos e doentios possíveis, em músicas como “Chrinic Gonohea”, “Cadaveric Impregnation” e “Verminosis Fecalis”, o grupo realizou um set de 35 minutos, com uma descarga implacável de regurgitação sonora, muito bem executada.
Às 21h30, os ingleses do Benediction chegaram com tudo ao palco, detonando dois momentos distintos da carreira com “Engines of War” (Ravage of Empires, 2025) e “Unfound Mortality” (Transcend The Rubicon, 1993). O resultado foi uma avalanche de Death Metal Old School que colocou o Burning House abaixo.
Obviamente, a sensação da noite foi a presença de Kam Lee no palco. Ele subiu usando uma máscara do Ghostface, do filme Pânico, aproveitando o clima de Halloween, e pisando pela primeira vez em nosso país. Vale lembrar que o Massacre já esteve por aqui em 2011.
Porém, na época, Lee não fazia parte da banda e, portanto, nunca havia tido a oportunidade de conhecer o público brasileiro em ação. A reação da plateia o impressionou logo de cara, ainda mais quando seu nome foi ovacionado diante de uma casa absolutamente abarrotada para ver a clássica banda ao vivo.
E, ainda sobre ele, o cara é praticamente um comediante, tratando o show como um stand-up e extraindo todo tipo de brincadeira possível. Além disso, demonstrou ótima sintonia com a banda, tão carismática quanto ele. Os guitarristas originais Darren Brookes e Peter Rew brincaram o tempo todo no palco, como grandes camaradas que são há quase quarenta anos.
O setlist da banda focou principalmente nos dois últimos discos, que marcaram o retorno de Ingram: Scriptures (2020) e Ravage of Empires. Ambos tiveram aceitação quase imediata do público quando foram lançados. Prova disso foi a resposta durante a execução de pedradas como “The Crooked Man”, “Psychosister”, “In The Dread of Night” e “Stormcrow”.
Mas, é claro, a vontade mesmo do público era ouvir principalmente os clássicos. A banda não poupou o pescoço dos headbangers e resgatou hinos como “Foetus Noose”, além de uma dobradinha clássica do primeiro disco, Subconscious Terror (1990), com “Artefacted Irreligion” e a faixa-título.
Também não faltou “The Grotesque”, que relembrou aquele clássico clipe em preto e branco que marcou época e abriu uma roda insana de mosh no Burning House.
É preciso mencionar o poder da presença de Lee. Além de ser um dos patronos do vocal gutural no Metal, ele ainda exerce uma influência tão forte sobre o estilo de Ingram que sua escolha foi a mais acertada possível para substituir o clássico vocalista. Como seus estilos se assemelham, a ausência de Ingram foi minimizada, tornando a apresentação simplesmente histórica.
O momento mais marcante e divertido do show nem foi a apresentação em si, que já havia sido impressionante. Justamente no dia 31 de outubro, Kam Lee completou 60 anos. A banda o surpreendeu com um bolo e velas, enquanto todos cantavam parabéns.
Com tanta coisa para falar, o vocalista ainda observou o formato, digamos, sugestivo do bolo e sugeriu que poderia fazer coisas sórdidas com ele (risos). Um verdadeiro canastrão. Para finalizar, vieram “Crawling Over Corpses” e o clássico “The Dreams You Dread”. Assim, a banda encerrou seu set violentíssimo de 70 minutos, mostrando por que é um dos nomes mais influentes e longevos do gênero.
Assistir a um show do Benediction, por si só, já é algo extremamente gratificante. Mas a maneira como tudo transcorreu, principalmente com uma figura lendária nos vocais e o próprio exalando alegria por conhecer o público brasileiro, prova que o underground é o lugar mais legal do universo.
Sobretudo para quem entende que ele não é um espaço de competição, mas de diversão. E diversão foi o que não faltou no show deles. Um dos melhores do ano!

