BRÉA Extreme Festival – Vip Station, São Paulo/SP (26/10/2024)
Produção: Xaninho Produções e Caveira Velha Produções
Assessoria: LP Metal Press
Texto e fotos por: Matheus “Mu” Silva
Pouco mais de um ano após sua última passagem pelo Brasil, e em sua décima segunda visita, a lendária banda de grindcore Napalm Death retorna ao país para uma série de shows, com nove apresentações. Para o show de São Paulo/SP, ocorrido no Vip Station, em Santo Amaro, além da banda inglesa, o evento também contou com outra atração internacional, o Dead Congregation, banda grega de death metal, que realiza sua segunda passagem pelo Brasil, além de um cast nacional impressionante, com dez bandas, transformando o festival em uma verdadeira celebração da música rápida e pesada. Com produção da Xaninho Discos em parceria com a Caveira Velha Produções, essa colaboração tem se mostrado frutífera não apenas pela qualidade dos eventos, mas também pela seleção das bandas que têm se apresentado.
Um dos padrinhos do que hoje conhecemos como grindcore, o Napalm Death é uma das bandas mais influentes e criativas da história da música pesada. Formada em 1981 e com um total de 16 discos de estúdio, além de inúmeros EPs, splits e até discos de covers, nunca deram o menor sinal de que irão parar tão cedo. Sua música passou por evoluções importantes, começando de forma primitiva em seus dois primeiros álbuns: o clássico eterno “Scum” (1987) e “From Enslavement to Obliteration” (1988), que ainda contavam com Lee Dorian nos vocais, que posteriormente fundou outra banda tão influente em um estilo completamente distinto, o Cathedral. A banda viu em seu novo vocalista, Mark “Barney” Greenway, recém-saído do Benediction, toda a agressividade, tanto na voz quanto na performance, que precisava. No mesmo período, a entrada do hoje falecido guitarrista Jesse Pintado elevou a qualidade da música da banda, incorporando cada vez mais o death metal em seu som e dando luz a clássicos absolutos como “Harmony Corruption” (1990), “Utopia Banished” (1992) e “Fear, Emptiness, Despair” (1994).
Com décadas mergulhados em um som cada vez mais extremo, extrapolando qualquer limite possível, nos últimos anos a banda amadureceu seu som, adicionando elementos mais diversificados, flertando com aspectos mais alternativos, mesmo sem abrir mão de tudo o que representam. Discos como “Apex Predator – Easy Meat” (2016) e o último EP, “Ressentiment is Always Seismic” (2022), mostram algumas facetas mais complexas da banda, buscando expandir os limites de sua própria criatividade. A banda conta ainda com Shane Embury, baixista e membro mais antigo (mas não original), presente em todos os álbuns, exceto “Scum”, John Cooke na guitarra e Danny Herrera na bateria, que acompanha a banda desde 1991.
O Dead Congregation é uma banda com 20 anos de estrada, formada em 2004, em Atenas, na Grécia, e faz um som na linha das bandas de death metal norte-americanas, mais precisamente da cena de Nova York, como Incantation e Immolation, cujas influências são evidentes em sua música: death metal obscuro, denso, extremo, mas cheio de pegada, com aquele vocal brutal soando das entranhas, e o instrumental cortante e mortal. Seus dois discos de estúdio, “Graves of The Archangels” (2008) e “Promulgation of The Fall” (2014), ajudaram a banda a ganhar grande destaque na comunidade do death metal. Eles estiveram pela primeira vez no Brasil em 2019, tocando no Setembro Negro, em São Paulo/SP. Sua formação é praticamente intacta desde o início, com A.V. (vocal e guitarra), T.K. (guitarra) e V.V. (bateria), além do baixista G.S., que está na banda desde 2012.
Nota: devido a questões de pessoais e de logística, infelizmente não foi possível acompanhar o show das bandas Dischavizer, Trachoma, Subcut, Andralls e Baixo Calão. A resenha se inicia a partir da apresentação da banda Podridão.
Subindo ao palco às 17h, entrou em ação o Podridão, banda que tem crescido absurdamente ao longo dos anos, fazendo extensas turnês pelo Brasil. O trio, formado por Putrid Dick (vocal e baixo), Rotten Flesh (guitarra) e Repugnant Fat (bateria), segue divulgando seu disco “Cadaveric Impregnation” (2023), executando músicas como “Urban Cannibalism”, “Vermenoses Faecalis” e “Regurgitate Hellish Maggots”, esta do disco “Revering The Unearthed Corpse” (2020). Seu death metal old school tem sido muito bem recebido; já tive a oportunidade de ver a banda outras duas vezes, e eles nunca decepcionam. Aliás, é uma das bandas que mais recomendo atualmente em termos de apresentação, pois seus shows são bem enérgicos, sem frescura, apenas destilando música extrema simples e brutal. O mosh durante a apresentação foi intenso, mesmo no espaço apertado do segundo palco, com cervejas e pessoas voando para todo lado, o que tornou tudo ainda mais divertido.
Na sequência, às 17h30, começou o show do Fossilization. Com seu death metal imundo e brutal, trouxeram músicas de seu debut “Leprous Daylight” (2023) e do primeiro EP “He Whose Name Was Once Forgotten” (2021), como “Oracle of Reversion”, “Once Was God” e “Eon”. Com apenas quatro anos de existência e formada por membros de outra banda bem interessante, o Jupiterian, contando com V (vocais e cordas) e P (bateria), a musicalidade aqui é o metal da morte em toda a sua forma mais esmagadora e mórbida. Com um set curto de meia hora, foi realmente avassalador o que pudemos testemunhar; a banda não falou uma palavra durante toda a sua apresentação, mas entregou um ótimo show. É outra banda que recomendo fortemente que se busque o som.
Às 18h, o Cemitério, banda já bem conhecida da cena e figurinha carimbada em diversos eventos, entrou com tudo, com seu death metal old school, focado na escola do final dos anos 80, com temas que abordam filmes de terror antigos e ainda por cima cantados em português! Seus dois álbuns, “Cemitério” (2014) e “Oãxiac Odez” (2016), são verdadeiras pedradas, e o fato de serem cantados em nosso idioma aproxima ainda mais sua música dos fãs, que sabiam cantar várias das músicas executadas, como “Tara Diabólica”, “Dia de Satã”, “Holocausto Canibal” e “Massacre no Texas”. A banda é um projeto do multi-instrumentista Hugo Golon, que já passou por diversas bandas do cenário nacional nos mais diversos estilos. Foi um caos total, com gente subindo no palco para cantar, além de violentas rodas durante todo o set.
Com seu thrash punk cheio de personalidade, o Surra subiu no palco às 18h30, com seu som veloz e violento, além das letras em português carregadas de críticas sociais e políticas. Divulgando seu novo álbum “Falha Crítica” (2024), em meia hora de set, botaram o Vip Station abaixo, com músicas como “Murro em Ponta de Faca”, “Liberdade Eliminando o Mundo” e “Nunca foi Tão Justo”, em um show altamente enérgico, refletido no público, que abriu rodas violentíssimas, além de cantar algumas de suas faixas mais conhecidas, como “Escorrendo pelo Ralo”, do disco homônimo de 2019. Aliás, o público não deu o menor sinal de cansaço, mesmo com a maratona de shows, e ainda havia mais por vir…
Às 19h10, entrou a última banda nacional do evento, o ROT. Um dos pioneiros do grindcore no Brasil e a banda nacional mais antiga que tocou no festival, com 34 anos de existência, o ROT faz aquele som característico do estilo, com músicas curtas e espremendo toda a brutalidade possível em poucos minutos. Tocaram uma cacetada de músicas, de forma totalmente caótica, e mesmo com problemas pontuais no som, o público estava se divertindo pra valer. Aliás, o segundo palco parecia outro evento: quem estava no palco principal estava mais tranquilo, enquanto quem estava no de baixo realmente fazia valer o rolê. Mesmo com 12 bandas em um dia só, pareciam que tinham acabado de chegar, tamanha festa que estava, e o ROT é muito querido na cena, colocando a trilha sonora para a manada de fãs se degladiarem o tempo todo, pulando do palco e curtindo intensamente.
A primeira atração internacional do dia subiu ao palco às 19h50. O Dead Congregation, sem muita cerimônia, começou a despejar seu death metal imundo na cabeça dos presentes. Com um som extremamente pesado e de brutalidade descomunal, mesmo não sendo tão conhecidos por aqui, foram extremamente bem recebidos pela galera, que ovacionava a cada música executada. Músicas absurdas como “Morbid Paroxysm”, “Martyrdoom” e “Vanishing Faith”, do primeiro álbum; “Only Ashes Remain”, “Quintessence Maligned” e a poderosa “Serpentskin”, do segundo disco, mostraram todo o poderio sonoro da banda, com integrantes batendo cabeça junto a cada porrada dada nos riffs pesadíssimos, e o som estava perfeito. Falaram pouco com o público, mas cada careta ao tocar um riff realmente pesado entregava a felicidade de executar sua música. Quem sabe, sabe: se fez careta, é porque o negócio é bom. O set encerrou com “Teeth Into Red”, de “Graves of The Archangels”, provando que o Dead Congregation é uma das melhores bandas da atualidade em seu gênero. Ah, e ainda anunciaram uma apresentação surpresa no La Iglesia no dia seguinte, juntamente com uma das bandas de abertura, o Baixo Calão.
Finalmente, às 21h27, após um pequeno atraso pontual por falhas técnicas, o Napalm Death chegou chutando a porta sem cerimônia, já com “From Enslavement to Obliteration”, faixa título de seu segundo álbum, abrindo uma roda que tomou conta do Vip Station e não parava de aumentar. Emendaram na sequência uma dobradinha do disco “Enemy of Music Business” (2000) com “Taste The Poison” e “Next on The List”, até o vocalista Barney falar algo com o público. Ele disse que não falava quase nada de português, mas falava espanhol, e o show todo se comunicou assim com o público, buscando trazer a galera para uma forma mais íntima, anunciando a banda como sendo de Birmingham, e que são uma banda de noise. Após tecer algumas palavras sobre a estupidez humana, tocaram “Continuing War on Stupidity”, de “Order of The Leech” (2002), e nem eu me aguentei, fui pro mosh insano que se abriu, que ainda foi seguido por “Contagion”, de seu último disco de estúdio “Throes of Joy in the Jaws of Defeatism” (2020), e ainda com a adrenalina no talo, mandaram a sensacional “The Wolf I Feed”, de “Utilitarian” (2012), com todo mundo cantando o refrão de forma ensurdecedora.
Ao falar sobre o quanto ter ressentimento sobre as coisas faz mal, ele deu a deixa para a próxima música, “Ressentiment Always Simmers”, faixa de seu último EP. Voltando ao último disco de 2020, a mais groovada “Amoral”, com seu vocal alternado entre Shane e Barney, e “That Curse of Being Thrall”, até voltarem novamente no passado com “It’s a M.A.N.S. World!”, do segundo disco, já colocando todo mundo pra rodar novamente, tamanha brutalidade dessa música. Anunciando que iam tocar as duas próximas músicas de ponta a ponta, Barney e cia mandaram duas do “Throes…”: “Backlash Just Because” e “Fuck The Factoid”, de forma completamente insana, sem espaço para respirar. Tanto a música quanto os shows do Napalm Death são muito intensos, e sua música é brutal e impiedosa; quem se arriscou a ficar mais perto do palco foi esmagado pelas incessantes rodas que aconteciam a todo momento, mas quem estava lá já devia saber disso; faz parte do espetáculo. E isso não diminuiu nada, ao anunciar que iriam voltar a 1990 e, após um discurso sobre o que a música fala, de intervenção religiosa e sobre os males da sociedade atual, como sexismo e homofobia, tocaram um de seus maiores clássicos absolutos, “Suffer The Children”, de “Harmony Corruption” (1990), que é bastante conhecida por aqui, pois seu videoclipe rodou muito na cena, e aquele clássico breakdown no meio da música era mortal; mesmo 34 anos depois de seu lançamento, não ficou ninguém parado. E a festa continuou com outra faixa muito conhecida do público, “When All is Said and Done”, de “Smear Campaign” (2006).
Sem o menor sinal de cansaço, a banda tocou a faixa título de seu primeiro disco, “Scum” (1987), e abriu a maior roda do evento todo. Estou falando de um festival que começou às duas e pouco da tarde, e, após onze bandas, o público não parava um minuto sequer de rodar, ainda mais com um clássico rolando, emendada por “M.A.D.”, do mesmo álbum. Quem piscou nem viu “You Suffer” ser executada. Música mais rápida da história, durando um mísero segundo, e que pavimentou a ideia de músicas curtas dentro do estilo grindcore, a frase traduzida “Você sofre, por quê?” consegue dizer muito mais que muitas músicas sem sentido por aí. Tão logo tocaram a única do “Apex Predator – Easy Meat” (2016), “Metaphorically Screw You”. Piscou de novo? Perdeu “Dead”, outra faixa ridiculamente curta de “Scum”, que é recheado desses momentos de brutalidade instantânea.
Já perto do final do show, tocaram o cover que faz parte do repertório desde sempre, “Nazi Punks Fuck Off”, do Dead Kennedys, e emendaram duas faixas violentíssimas de “Scum” para fechar a noite, com “Instinct of Survival” e a clássica “Siege of Power”, terminando seu set de pouco mais de uma hora de forma absolutamente brutal.
O último sábado viu uma grande festa de música extrema. Eu, particularmente, sempre sou a favor de festivais recheados de bandas, ainda mais quando elas são de qualidade. Um cast perfeitamente selecionado, que foi brindado com duas bandas estrangeiras fazendo excelentes shows. O Dead Congregation valeu demais a pena, e o Napalm Death já quase tem CPF aqui, sendo uma das bandas que mais vieram ao Brasil, e são extremamente bem recebidos como sempre, devolvendo isso de forma prazerosa com sua música destruidora. Quem não foi, perdeu a maior festa extrema do ano.

