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Chuck Berry, o grande mestre de Angus Young (AC/DC)

Chuck Berry, o grande mestre de Angus Young (AC/DC)

Por Marcelo Lopes Vieira

Costumo brincar que se Chuck Berry não é o pai “biológico” do Rock N’ Roll, foi ele quem forjou a personalidade do estilo, e como diz o ditado popular, o “importante é quem cria”! Muddy Waters, após o encontro com Berry, em 1955, rapidamente o mandou procurar Leonard Chess, dono da lendária Chess Records, que não pensou duas vezes para assinar com o compositor de quase trinta anos, encaminhando-o imediatamente ao estúdio para gravar “Maybellene”, o modelo que o Rock N’ Roll seguiria nos anos 1950 e nas décadas subsequentes.

Não, Chuck Berry não é o pai do Rock N’ Roll! Assim como Elvis Presley também não o é, e precisa histórica e urgentemente ser colocado como um rei usurpador na evolução do estilo.

Todavia, a importância de Chuck Berry para o Rock não possui par em sua geração pioneira, e sua influência estica tentáculos que vão de Beatles, Rolling Stones, Beach Boys e Faces, à AC/DC, MC5 e Motorhead. E clássicos como “Roll Over Beethoven” (1956), “Rock N’ Roll Music” (1966) e “Johnny B Goode” (1958) construíram os pilares de seu legado, o qual Lemmy Kilmister era um confesso admirador. Porém, acredito que ninguém bebeu tanto da fonte de Chuck Berry quanto Angus Young, guitarrista do AC/DC.

Angus Young nasceu no mesmo ano em que Berry encontrara Muddy Waters em Chicago, e, em 1962, quando Chuck Berry amargava sua segunda prisão, o jovem Angus já aprendia com seu irmão Alex os doze compassos do Blues de Chuck Berry, que foi seu único mestre, pois à partir daí, ele aprenderia e desenvolveria sozinho seu estilo.

Keith Ricahrds era o cara. Os Stones fizeram algumas das melhores músicas do Rock N’ Roll. Mas, provavelmente, Chuck Berry era o maior de todos”, declarara Angus em uma entrevista quando perguntado sobre suas influências. “Eu assisti a todos os imitadores e bandas de bar que tentavam emular o que ele (Chuck Berry) fazia. Mas, somente Chuck, soa como Chuck”, e finaliza sua resposta com uma reverência ao mestre: “eu amo Chuck Berry, mas não posso tocar como ele”.


Se “Jonny B Goode” inflamava a alma adolescente, “Roll Over Beethoven” era um grito de libertação do Rock N’ Roll frente a cultura musical das elites do passado e consagrava o Rock como cultura musical dominante no período.

Obviamente outras bandas influenciaram o AC/DC, mas é inegável que Angus traz muito de Chuck Berry em suas composições e, principalmente, em sua performance de palco. É tradição do rock australiano ser mais performático, cair no chão, correr e tentar prender a atenção da plateia o tempo todo, mantê-la interessada. Então, junto ao chamativo uniforme escolar, Angus pinçou alguns trejeitos de Chuck Berry para construir sua performance intensa, que tinha até mesmo sua própria versão da “dança do pato” (duck walk), invenção de Chuck Berry que consiste em saltar com um pé que se move pra frente e para trás com o outro pé.

É interessante observar que esta emulação de Chuck Berry feita por Angus quase mudou o destino da banda. Quando os executivos da Atlantic Records viram, pela primeira vez, um vídeo do AC/DC ao vivo, esta emulação quase estragou o acordo. Alguns pensaram que ele copiava Berry tão perfeitamente que isso poderia depor contra a banda, afinal, após a prisão de 1962, a carreira de Chuck Berry nunca mais se restabeleceu em popularidade, mesmo que sua batida tenha sido copiada à exaustação pela música pop. Foi Perry Cooper, executivo da Atlantic que argumentou em favor da banda, dizendo que assim que os fãs vissem o AC/DC, e ouvissem sua música, a imitação de Angus seria abertamente aceita.

Todavia, aos ouvidos mais atentos, a influência de Chuck Berry na obra do AC/DC vai além das performances de palco de Angus. O próprio guitarrista Malcolm Young, irmão de Angus, declararia que “tudo o que Chuck Berry fez é ótimo”, e sempre que a dupla tinha algum problema com ideias para seus riffs, recorriam às suas partes favoritas de Chuck Berry e Little Richard. No início da banda, faziam covers de “No Particular Place To Go”, “Carol”, “School Days” (inclusive registrada no segundo álbum da discografia australiana da banda), e “Johnny B Goode”.

“Quando começamos, o que fazia sucesso nos clubes era qualquer banda que tocasse um bom Rock N’ Roll. As pessoas estavam interessadas em ‘Johnny B Goode’ a cem quilômetros por hora, assim poderiam dançar”, conta Angus. Esta experiência extrapolou para as composições da banda, como fica claro nos primeiros álbuns, e ainda mais flagrante na faixa “Show Bizz”, que fecha a versão australiana do álbum “High Voltage” (1975).


Confira uma performance de “Show Bizz” e perceba como Angus pinçou alguns trejeitos de Chuck Berry, numa performance intensa que tinha sua própria versão da “dança do pato.

É importante salientar que Chuck Berry via sua música como uma arma contra o preconceito racial, sendo o primeiro negro a satisfazer uma plateia branca, inflamando a alma adolescente, e gritando pela libertação do Rock N’ Roll frente a cultura musical das elites do passado, e consagrando o Rock como cultura musical dominante no período. Neste contexto, seus detratores acusavam Berry de sempre executar a mesma música, e entregar sempre o mesmo disco, assim como o AC/DC fora ao longo dos anos.

Como bom observador, Angus reflete sobre isso dizendo que “Berry é sempre tão direto, são os mesmo licks, mas quando se escuta, eles se mostram diferentes, e então, quando se está começando a perceber isso, ele apresenta outras peças de seu quebra-cabeças musical”. Até nisso Angus se mostra o aluno mais notável de Chuck Berry, dos tantos nomes que o tiveram como mestre nas artes do Rock N’ Roll.

Claro, é inegável que a música do AC/DC como um todo e a de Chuck Berry estão separadas, não somente por peso e gerações, mas por abordagens. Entretanto, é também inegável que Angus, assim como Chuck Berry, se baseia no Blues para construir seu estilo, ao desfilar por escalas pentatônicas  maiores e menores, temperando pontualmente sua forma com licks de Heavy Rock, alheios ao Blues, num truque similar ao que Berry fizera com o quebra-cabeças musical citado por Angus. Sobre isso, Joe Perry, guitarrista do Aerosmith, fez uma perspicaz observação: “mesmo usando todos os licks tradicionais, ele (Angus) encontrou um jeito de entrar neles e ser inventivo”.

Quando o Rock N’ Roll Hall of Fame foi aberto em 1986, Chuck Berry foi um dos primeiros a serem indicados, e os Rolling Stones fizeram as honras, com Keith Richards assumindo que roubou cada lick que Chuck Berry tocou. Angus Young não fez as honras, mas se as fizesse, poderia ter proferido naquele púlpito sua célebre frase: “Até mesmo em uma noite ruim, Chuck Berry é muito melhor do que Eric Clapton poderia vir a ser algum dia”!

Que o grande pioneiro do Rock, Chuck Berry, possa descansar após suas nove décadas de Rock N’ Roll, pois seu legado já é eterno e imensurável dentro da sociedade e da música moderna!

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