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Cradle of Filth – Circo Voador, Rio de Janeiro/RJ (24/05/2019)

Banda principal: Cradle of Filth
Banda de abertura: Krisiun
Local: Circo Voador, Rio de Janeiro/RJ
Data: 24/05/2019
Produção: OnStage Agência

Texto por Marcelo Vieira
Fotos por Gustavo Maiato

Elizabeth Bathory (1560-1614) foi uma das mulheres mais perversas e sanguinárias que a humanidade já conheceu. Até hoje, seu nome é sinônimo de beleza e maldade para os povos de toda a Europa. A condessa de origem húngara entrou para a História por uma suposta série de crimes hediondos que teria cometido; todos vinculados a sua obsessão pela beleza: ela matava garotinhas porque gostava de se banhar em sangue de virgens para manter a sua juventude.

Além de servir de inspiração para o romance “Drácula”, de Bram Stoker, a chamada Condessa de Sangue inspirou diversas canções no rock e no metal. Só que muito antes do Candlemass fazer “The Bleeding Baroness”, ou do Kamelot soltar a trinca Mirror, Mirror” / “Requiem For The Innocent” / “Fall From Grace”, o Cradle of Filth dedicou um álbum inteiro à personagem.

Para muitos, “Cruelty and the Beast” (1998) — o título é uma tirada nietzschiana com “A Bela e a Fera” — é o grande álbum do Cradle of Filth. O próprio Dani Filth talvez concorde com isso, tendo em vista que antes de “Cruelty”, o vocalista atendia por seu nome de nascença, Daniel Lloyd Davey. Na discografia da banda, a posição é ingrata: lançado entre o álbum que colocou os ingleses no mapa do black metal mundial (“Dusk… And Her Embrace”, de 1996) e aquele que de onde provém “Her Ghost in the Fog”, seu maior hit (“Midian”, de 2000), “Cruelty” sofreu por anos com a síndrome de filho do meio: seus pais sempre davam mais bola para o filho caçula e sempre demonstravam muito mais orgulho pelas conquistas do filho mais velho.

Mas foi justamente a íntegra de “Cruelty and the Beast” que Dani, Daniel Firth (baixo), Martin “Marthus” Škaroupka (bateria), Lindsay Schoolcraft (teclados) e os guitarristas Richard Shaw e Marek “Ashok” Šmerda apresentaram na última sexta-feira, 24 de maio, para um Circo Voador todo trabalhado na indumentária vampiresca. Se no palco o que se via era uma quantidade impressionante de couro, spikes, rebites e maquiagem digna dos white walkers de Game of Thrones — a semelhança de Shaw com Benjen Stark merece um Google —, na plateia a razão era de um corset para cada dois pares de botas, fora todos os acessórios e a postura do tipo “só uso preto porque não inventaram cor mais escura”. Satã aprova!

O show foi dividido em duas partes distintas. Na primeira, “Cruelty and the Beast” de cabo a rabo, sem qualquer interação ou blábláblá com o público entre ou durante as músicas. A sensação de se estar ouvindo o CD impressionou. A perícia, cada minúcia, todos os mínimos detalhes: reprodução perfeita, com um desempenho sobrenatural de Filth, que com o microfone a um palmo da boca, urra como se ardesse no mais profundo abismo da morte. O baixinho, fundador da banda e único remanescente da formação responsável por “Cruelty”, só perde a vez de figura central quando a belíssima Schoolcraft assume os vocais líricos originalmente registrados por Sarah Jezebel Deva, atualmente, em carreira solo.

Já na segunda parte — iniciada, veja só você, com a única fala de Dani para o público em toda a noite; ninguém conseguiu entender uma só palavra, que isso fique bem claro! —, um pequeno apanhado de hits, com ênfase lógica nos já citados “Dusk” e “Midian” — “Malice Through the Looking Glass”, “Saffron’s Curse” e, claro, “Her Ghost in the Fog”, o pingo de solda final —, mas também com dois lembretes da fase pós-2000: “Nymphetamine (Fix)”, de “Nymphetamine” (2004) e “Heartbreak and Seance”, do até agora último trabalho do Cradle, “Cryptoriana – The Seductiveness of Decay” (2017). A despedida não apenas careceu de emoção; também não fez promessa alguma de retorno. Que nossos demônios não criem expectativa, então.

Setlist Cradle Of Filth:

Parte I (“Cruelty and the Beast”):
Once Upon Atrocity
Thirteen Autumns and a Widow
Cruelty Brought Thee Orchids
Beneath the Howling Stars
Venus in Fear
Desire in Violent Overture
The Twisted Nails of Faith
Bathory Aria: Benighted Like Usher / A Murder of Ravens in Fugue / Eyes That Witnessed Madness
Portrait of the Dead Countess
Lustmord and Wargasm (The Lick of Carnivorous Winds)

Parte II:
Malice Through the Looking Glass
Heartbreak and Seance
Nymphetamine (Fix)
Saffron’s Curse
Her Ghost in the Fog

 

Abrindo a noite, o Krisiun, que por estar na curva ascendente há tanto tempo me impede de lembrar se algum dia chegou a lançar algo que não fosse digno de um 9,5 para cima. Em sua primeira passagem pelo Rio de Janeiro desde o lançamento do excelente “Scourge Of The Enthroned” (2018), a banda dos irmãos Alex Camargo (baixo e vocal), Moyses Kolesne (guitarra) e Max Kolesne (bateria) detonou em uma hora — passou tão rápido! — de petardos que incluiu a faixa-título de seu mais recente trabalho, a já clássica e imprescindível “Descending Abomination” (do muito bom “The Great Execution”, de 2011) e a versão mais brutal que se tem notícia do hino “Ace of Spades”, do Motörhead; trilha sonora para uma roda de pogo que mais parecia um moedor de carne para quem via de fora. Espero que voltem para um show completo logo.

Setlist Krisiun:

Ways of Barbarism
Ravager
Scourge of the Enthroned
Slaying Steel
Descending Abomination
Blood Of Lions
Slay the Prophet
Combustion Inferno
Hatred Inherit
Ace Of Spades
Vengeance’s Revelation

Infelizmente, questões de logística impediram que o show dos cariocas do Dark Tower, previsto para encerrar a noite, acontecesse. Com o relógio prestes a marcar uma da manhã de sábado — quinze minutos após o horário previsto para o começo da apresentação —, a banda subiu ao palco tão somente para agradecer aos fãs, se desculpar etc. Uma pena, mas acontece.

O Metal Na Lata agradece à OnStage Agência pelo credenciamento e pela parceria.

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