D.R.I + Ratos de Porão – Cine Joia, São Paulo/SP (22/03/2026)
Produção: Maraty e Powerline Music & Books
Assessoria: Tedesco Comunicação & Mídia
Abertura: Imflawed e Questions
Texto por Ricardo Brigas
Fotos por Alessandra Rosato
O D.R.I. voltou ao Brasil para cumprir cinco datas dentro de sua turnê pela América Latina, que passou por países como Argentina, Uruguai e Chile, concluindo sua jornada em São Paulo, em um domingo ensolarado, dia 22/03, no Cine Jóia.
A banda veio acompanhada por um time de peso no suporte: Imflawed, de Recife, Questions, de São Paulo, e o R.D.P., que acompanhou o D.R.I. em quatro dos cinco shows pelo Brasil. Devido a um problema na mão do guitarrista Jão, ele foi substituído por Maurício Nogueira, seu roadie, que já tem no currículo passagens por bandas como Krisiun, Torture Squad e Matanza — e que em nada comprometeu a apresentação.
A formação atual do D.R.I. conta com dois membros originais, Kurt Brecht (voz) e Spike Cassidy (guitarra), além do baixista Greg Orr (Attitude Adjustment) e do baterista Danny Walker (Exhumed), que completam o time.
Assistir ao D.R.I. é sempre muito divertido. Eu os vi pela última vez em 2011, no Carioca Club, e foi um show de sair catando os cacos pelo chão, literalmente — o local virou um enorme liquidificador naquela noite. Portanto, a expectativa para este evento estava enorme.
O Cine Jóia fica muito bem localizado, no centro de São Paulo, ao lado do metrô Liberdade, pertinho da Praça da Sé. Chegar ao evento não foi problema — e entrar, menos ainda: credenciamento rápido, uma breve revista e já estávamos lá dentro. Parecia até que os recifenses do Imflawed nos aguardavam para dar o primeiro acorde.
A banda de Tuca Santos começou seu show com tudo: uma porradaria sonora sem precedentes. O Imflawed é uma banda muito boa — rápida, pesada, com riffs poderosos —, mas o destaque vai para o vocal de Tuca, extremamente forte e cheio de presença. Eles fizeram uma ótima abertura, com classe, e, claro, não poderia faltar um som do Sepultura, banda que os influencia bastante: “Slave New World”. O set ainda contou com músicas do ótimo álbum Dark Ages e do EP Begging of Chaos. Se você ainda não conhece, fica a recomendação — os caras são muito bons.




Falar do Questions em São Paulo é falar de uma das maiores referências do hardcore nacional. Com 26 anos de estrada, a banda não brinca em serviço — o show dos caras é intenso. Notei que Helio Suzuki não estava no baixo; até tentei encontrar Pablo ou Edu após o show para confirmar, mas, àquela altura, já era impossível se locomover. O Cine Jóia estava fervendo — nunca vi a casa tão cheia, o que é ótimo. Hoje em dia, bons locais para shows são cada vez mais raros, e o Cine Jóia se destaca: som excelente, ótima localização e capacidade para cerca de 1.200 pessoas (embora parecesse ter bem mais naquele domingo).
Voltando ao Questions: eles fizeram mais uma apresentação sólida. Em sua longa trajetória, que inclui diversas passagens pela Europa, a banda coleciona ótimos álbuns. Desde Resista! (2003), seguem ideologicamente firmes até hoje. Com o mais recente Libertatem! e agora cantando em português, revisitaram várias fases da carreira em um show extremamente competente e enérgico.







Não é qualquer banda que comemora quatro décadas de existência e resistência. O Ratos de Porão, apesar de todas as polêmicas, segue entregando ótimos discos e shows como este que vimos antes do D.R.I.
A energia que os caras despejaram no palco se propagou como fogo pela plateia, que respondeu à altura. Não havia uma alma sequer parada — todos agitando ou cantando. Abriram com “Alerta Antifascista”, do álbum Necropolítica (2022), e passearam por clássicos como “Morrer”, “Não Me Importo”, “Crucificados pelo Sistema”, “Descanse em Paz”, “Amazônia Nunca Mais” e “Beber Até Morrer”. Maurício Nogueira substituiu Jão com competência, acompanhando a intensidade de Juninho; Boka tocou com fúria; e João Gordo, visivelmente indignado por ter sido detido no aeroporto de Belo Horizonte por porte de maconha, transformou o episódio em discurso e crítica. Com isso, “Farsa Nacionalista” veio como um soco, incendiando ainda mais o público.
Se me pedissem para apontar o melhor show da noite, a resposta seria fácil: Ratos de Porão. Entraram com garra, energia, fúria e discurso. O som estava surreal (aliás, isso vale para todas as bandas), mas, em igualdade de condições, quem mais se destacou foram eles.







A partir daí, veio um hiato. Nada do D.R.I. subir ao palco. A movimentação indicava possíveis problemas — deu a impressão de que vieram sem roadies. Passaram o som… passaram de novo… até que, após mais de uma hora de espera, o show começou — ainda com cara de passagem de som. O áudio, que já estava bom, melhorou após algumas reclamações de Spike Cassidy. No PA, o som estava alto, mas aparentemente havia divergências no palco — nada, porém, que comprometesse o andamento.
Talvez pela longa espera ou por ser o último show da turnê, com a banda visivelmente cansada (quem já fez turnê sabe o quanto isso desgasta), o D.R.I. não entregou uma performance tão empolgante quanto em outras passagens pelo país. Ainda assim, pouco importava: o som estava excelente e a execução, impecável. Restava aproveitar a competência e assistir a um grande espetáculo — afinal, é o D.R.I. no palco.
Clássicos não faltaram: “Thrashard”, “Couch Slouch”, “How to Act”, “Dead in a Ditch”, “I Don’t Need Society”, “Acid Rain”, entre outros. Com mais de 40 anos de carreira, é difícil montar um setlist — e eles optaram por equilibrar todas as fases, contemplando seus sete discos.
Foi um show tecnicamente irretocável, mas que poderia ter sido mais envolvente com o público, como fez o R.D.P. — ou como o próprio D.R.I. já fez em 2011, pulando e incendiando o Carioca Club. Desta vez, o cansaço ficou evidente e transpareceu para quem assistia. Ainda assim, se a banda não parecia tão empolgada, o público compensou: uma massa insana em constante movimento, moshpit sem trégua — e foi isso que tornou o show vibrante e bonito de se ver.

















