Death to All – Studio Mirage Eventos, Limeira/SP (23/01/2026)
Produção: Overload | Circle of Infinity Produções
Texto e fotos por: Matheus “Mu” Silva
Quase dois anos após sua última visita ao Brasil, e em sua terceira passagem pelo país, o Death to All — projeto que celebra a música e o legado do Death, um dos principais precursores do Death Metal — retornou ao território nacional. Com turnê realizada pela Overload e cinco datas pelo Brasil, a apresentação desta noite (23) aconteceu em Limeira/SP, no Studio Mirage, com produção local da Circle of Infinity Produções.
Fundado em 2012, o Death to All conta com nomes fundamentais na história do Death, como o lendário baixista Steve DiGiorgio, que gravou Human (1991) e Individual Thought Patterns (1993); o igualmente icônico baterista Gene Hoglan, presente em Individual Thought Patterns e Symbolic (1995); e o guitarrista Bobby Koelble, também integrante da formação de Symbolic. Para assumir a responsabilidade de interpretar o eterno líder Chuck Schuldiner, a missão foi confiada a Max Phelps (Exist), que dá vida à musicalidade e ao espírito do mentor da banda com extremo respeito e competência.
Sem banda de abertura e com início pontual às 19h, após uma breve introdução, o grupo tomou o palco com trechos de “Infernal Death” (Scream Bloody Gore, 1987), rapidamente emendada por “Living Monstrosity” e “Defensive Personalities”, ambas do clássico Spiritual Healing (1990), incendiando o Studio Mirage logo nos primeiros minutos.
Steve DiGiorgio, praticamente um braço direito de Chuck Schuldiner durante anos, assumiu naturalmente o protagonismo, celebrando o legado da música criada pelo amigo enquanto tinha seu nome constantemente entoado pelo público. O baixista apresentou um breve solo que abriu caminho para “Lack of Comprehension” (Human, 1991), para alegria geral — música que teve papel crucial na projeção da banda graças ao seu videoclipe clássico. Para este repórter, houve ainda um componente emocional: tratava-se de uma das músicas que aprendeu a tocar no baixo na adolescência, e ver um dos maiores heróis do instrumento executando-a ao vivo foi tão impressionante quanto emocionante.
Em um momento mais descontraído, DiGiorgio comentou que a banda já havia tocado em Limeira anteriormente, destacando como é especial se apresentar em cidades menores, onde a proximidade com o público é maior. Em tom de brincadeira, anunciou que a próxima música seria “Sweet Home Alabama”, do Lynyrd Skynyrd, com a banda tocando um breve trecho e arrancando risos tanto do público quanto dos próprios músicos.
Celebrando os 35 anos de “Spiritual Healing”, o grupo trouxe uma das maiores surpresas do setlist: “Altering the Future”, uma das faixas mais pesadas e subestimadas do álbum, executada de forma absolutamente impecável. Na sequência, outra pedrada old school, “Zombie Ritual” (Scream Bloody Gore, 1987), contou com um forte coro do público logo em sua introdução. De volta ao Spiritual Healing, “Within the Mind” manteve a intensidade elevada até o momento de uma das músicas mais conhecidas do Death: “The Philosopher” (Individual Thought Patterns, 1993). Assim como “Lack of Comprehension”, a faixa ganhou enorme exposição graças ao videoclipe e foi uma das mais cantadas da noite por um público que praticamente lotou a casa.
Encerrando a primeira parte do set — e também a celebração do Spiritual Healing — a faixa-título foi executada com todo o peso e poder de um álbum que, embora muitas vezes subestimado, mostrou sua força ao vivo. Aqui, é impossível não destacar o trabalho de Max Phelps, que incorpora a essência de Chuck Schuldiner com tamanha precisão que, por vezes, chega a impressionar pelo quão próximo soa do original — sempre de forma respeitosa e emocionante.
Retomando o microfone, DiGiorgio, entre brincadeiras e memórias, anunciou que a segunda parte do show seria dedicada a outro pilar da discografia do Death: Symbolic, álbum que completa 30 anos e que está sendo celebrado nesta turnê. Para surpresa geral, a banda executaria o disco na íntegra e na ordem original, decisão que empolgou e emocionou os fãs presentes.
Considerado o álbum mais técnico e ambicioso da banda, Symbolic evidenciou todo o talento de Gene Hoglan, que por si só já é um espetáculo à parte — vê-lo ao vivo destruindo seu kit é uma experiência única. A execução começou com a faixa-título e seguiu com “Zero Tolerance”, deixando claro o quão afiada a banda está: em diversos momentos, a sensação era de estar ouvindo o próprio álbum em estúdio.
Bobby Koelble merece destaque especial. O guitarrista, que passou o show inteiro sorrindo, demonstrou técnica e entrosamento impecáveis, formando com Max Phelps um duo de guitarras extremamente poderoso, como se ambos tivessem composto aquele material juntos. O ápice da execução de Symbolic se aproximou com “Crystal Mountain”, maior clássico do disco — e da banda —, com DiGiorgio ainda brincando ao dizer que nem sabia qual música era aquela. Assim como no álbum, a segunda parte do set foi encerrada com “Perennial Quest”, levando a banda a se retirar do palco por alguns instantes após uma sequência avassaladora de músicas técnicas e complexas.
Mas ainda não era o fim.
No retorno ao palco, DiGiorgio e Hoglan ainda brincaram com um trecho de “Raining Blood”, do Slayer, enquanto o público cantava os riffs de guitarra, mantendo o clima festivo. Após questionarem se a plateia gostaria de ouvir algo como “Fight Fire with Fire”, do Metallica, a banda entregou mais um clássico incontestável do Death: “Spirit Crusher” (The Sound of Perseverance, 1998), colocando o Mirage abaixo, com rodas intensas de mosh. Sem tempo para respirar, emendaram a última música da noite, “Pull the Plug” (Leprosy, 1988), exatamente como o Death costumava encerrar seus shows nos últimos anos de atividade.
Assim se encerrou um setlist histórico, com 135 minutos de duração — mais de duas horas de clássicos, surpresas e execuções impecáveis. A banda foi amplamente ovacionada, deixando a clara sensação de missão cumprida ao final da apresentação.
O Death to All é muito mais do que uma simples banda cover, como alguns ainda insistem em rotular. No palco estão músicos que não apenas tocaram, mas ajudaram a moldar a sonoridade de um dos nomes mais importantes da história da música pesada. Colocá-los na mesma prateleira de um cover de fim de semana é, no mínimo, desrespeitoso. Basta lembrar que DiGiorgio escreveu demos para Symbolic e que três quartos da formação responsável pelo álbum estavam presentes no palco.
Com vinte músicas, mais de duas horas de show, casa cheia e som excelente, o que aconteceu em Limeira foi simplesmente fenomenal — ainda mais considerando que a banda se apresentaria no dia seguinte na capital. A resposta do público foi fundamental para tornar essa noite ainda mais especial. Parabéns ao trabalho da Circle of Infinity Produções, que consolida Limeira como uma parada cada vez mais constante de grandes nomes do Metal. Esta noite foi, sem exageros, histórica para os fãs de tudo o que o Death sempre representou.











