Demon Hunter – “War & Peace” (Deluxe Edition) (2019)
Solid State Records
#ModernMetal, #MelodicDeathMetal, #AlternativeMetal
Para fãs de: In Flames, Soilwork, Linkin Park, Depeche Mode
Nota: 9,0
Foi de surpresa que a banda americana Demon Hunter anunciou a seus fãs no final do ano passado que iria lançar não um, mas sim dois novos álbuns em 2019.
“War” e “Peace” foram anunciados como álbuns separados e com propostas distintas entre si. O primeiro seria dedicado as faixas mais pesadas e agressivas e o segundo daria vazão ao lado mais melódico e suave da banda. Tal proposta funcionou de fato? É o que veremos a seguir.
De antemão já preciso falar algo que nem é novidade. A cada edição deluxe lançada o Demon Hunter consegue fazer algo mais chamativo que o anterior e desta vez temos um luxuoso livro de 80 páginas, dividido entre os 2 conceitos e que ainda tem artes alternativas e uma capa protetora bem estilosa. Mas falemos do que viemos tratar aqui, música.
Tendo uma formação estabilizada desde 2012, o Demon Hunter a cada trabalho lançado se afasta mais daquele metal agressivo e ríspido de outrora. É bem nítido que de “Extremist” (2014) para cá a banda vem aplicando cada vez mais o uso de melodias em suas composições e ainda sim pesando a mão, fazendo que as faixas mais agressivas soem mais melódicas e as mais suaves tenham um toque de peso. Dicotômico? Talvez, mas funcional.
Quem tava reclamando da falta de agressividade em “Outlive” (2017) vai notar de cara que em “War” a banda não perdeu a mão como muitos falam. “Cut To Fit” mostra Ryan Clark numa nova abordagem, com um vocal bem rasgado, como se um vocalista de black metal passasse a contar numa banda mais modernosa. O primeiro single do álbum foi “On My Side” e pegou de surpresa muitos fãs pois, como “War” foi anunciado como um álbum que honra as raízes pesadas. Mas o que tivemos? Uma faixa de vocais limpos, guitarras bem trabalhadas, pedais duplos e um refrão com linhas vocais cheias de alma e que você repetirá a exaustão (mentalmente ou cantando). “Ash” lembra a faixa título de “The World Is A Thorn” (2010) por ser bem rápida e urgente, numa pegada thrash bem interessante. “Lesser Gods” e “Close Enough” se aproximam ainda mais da escola sueca do som pesado/melódico e reclamem o quanto quiserem fãs da antiga, esse estilo caiu muito bem para o Demon Hunter. “Unbound” e “The Negative” já são faixas com um pé no passado da banda trazendo aquelas partes pra deixar o público a ponto de se acabar no mosh e aqueles refrões únicos e viciantes de sempre.
“Peace” é sem sombra de dúvidas o trabalho mais experimental da carreira de quase 20 anos do Demon Hunter. Mesmo tendo uma proposta de algo mais leve não ache que teremos só baladinhas melosas. “More Than Bones” tem um clima de hard rock moderno que é puro deleite, sendo perfeita para execuções ao vivo e em rádios, sendo essa última característica também aplicável a faixa título. “Recuse Myself” lembra bastante o projeto NYVES do vocalista Ryan Clark, com uma pegada que vai muito na onda também dos últimos álbuns do Linkin Park. Uma grata surpresa foi “When The Devil Comes”, um country bem dark que começa de forma acústica e vai crescendo até guitarras e baterias mostrarem serviço. É sem sombra de dúvidas a melhor faixa que Johnny Cash jamais compôs! “Two Ways” surpreende por apresentar até um brevíssimo gutural (não reclamaria caso ela estivesse presente em “War”), mas no geral é uma faixa cadenciada e que cai bem para algo de apelo mais comercial para aqueles que não estão acostumados com muito peso em uma música. E fechando a edição regular temos “Fear Is Not My Guide”, balada voz e piano bem serena e tranquila, fazendo jus ao histórico de grandes faixas nessa pegada.
O fato de já estarem juntos faz um bom tempo e terem gravado e excursionado bastante gerou uma sinergia grande entre os músicos e claro que os mesmos acabam se sentindo mais confiantes para darem suas contribuições no material. Patrick Judge comparece bem mais como compositor e fazendo solos memoráveis tal o de guitarra limpa em “Cut To Fit”. Jeremiah Scott seja como produtor ou músico já é uma peça importante na engrenagem do Demon Hunter. A cozinha formada por Jon Dunn (baixo) e Yogi Watts (bateria) é a ideal para qualquer conjunto pois apresenta músicos de competência e sobriedade, mas que não tentam se mostrar em demasiado, jogam para que o time jogue bem e no final que todos saiam vitoriosos. E tudo isso é liderado pelo vocal do mentor e principal compositor Ryan Clark, mostrando que o tempo só fez bem para ele, seja como vocalista, dosando bem agressividade (mesmo que em alguns momentos sendo ajudada por diversos efeitos) e suavidade nos momentos oportunos, seja fazendo novamente excelentes refrões e linhas vocais, mantendo a excelente tradição que acompanha a banda desde seu primeiro álbum em 2002.
Porém, algo precisa ser dito.”War” e “Peace” funcionariam bem caso juntassem as 14 melhores faixas de seus repertórios em um único disco e as restantes deixar para um EP bônus de uma edição limitada ou ser lançado posteriormente. “Loneliness” mesmo até com a sua parte acústica poderia ter lugar certo no disco mais pesado. Ok, não é um defeito gigantesco, mas seria uma forma de aproveitar melhor o repertório.
O fato de terem sido gerados juntos proporciona alguns “easter eggs” interessantes nos álbuns. Por exemplo, nas capas de “War” e “Peace encontramos 2 frases em latim e elas são citadas, em suas versões em inglês, na introdução da faixa de abertura de cada álbum. Há também uma conexão lírica entre “On My Side”, “Peace” e “Fear Is Not My Guide”.
Quem já aceitou que a banda não vai voltar aos tempos e sonoridades dos primeiros 2 discos e que gosta do caminho adotado desde 2014 vai ter mais 22 bons motivos para se alegrar, tenham certeza.
Comentário bônus sobre a faixa bônus: “Gunfight” (bônus de War) é um verdadeiro tirambaço, mas infelizmente ficou como material extra. Eu perderia um dente no mosh pit com prazer caso ela fosse apresentada nos shows da banda, principalmente no final da música.
Márllon Matos
