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Down – “Over the Under” (2007) (Relançamento 2026)

Down – “Over the Under” (2007)
(Relançamento 2026)

Nuclear Blast | Shinigami Records
#StonerMetal #SludgeMetal #SouthernMetal

Para fãs de: Black Sabbath, Corrosion of Conformity, Crowbar, Eyehategod, Saint Vitus, Trouble, Pantera

Texto por Johnny Z.

Nota: 9,0

Depois de NOLA (1995) e da experiência mais livre — e muitas vezes caótica — de Down II: A Bustle in Your Hedgerow (2002), o Down chegou a 2007 em uma situação bastante diferente. A formação já estava consolidada, os músicos sabiam exatamente onde queriam chegar e Over the Under nasceu com uma proposta menos dispersa. Não é um disco que fica procurando novos caminhos a cada esquina. Ele vai direto ao ponto: riffs pesados, groove, blues, southern rock e aquela sujeira que sempre fez o som da banda parecer maior do que qualquer rótulo.

Só que existe uma diferença importante entre simplesmente fazer um disco pesado e registrar um momento difícil dentro dele.

Quando Over the Under foi criado, Nova Orleans ainda tentava se reconstruir depois do furacão Katrina. Phil Anselmo também atravessava uma fase pessoal complicada, agravada pela morte de Dimebag Darrell e por todo o histórico conturbado que existia entre os dois — ou seria três, já que a relação com Vinnie Paul também estava longe de ser tranquila. Nada disso transforma o álbum em um manifesto. O Down não precisa explicar a tragédia em cada verso ou colocar uma placa dizendo o que devemos sentir.

Está tudo ali, mas principalmente na atmosfera. E talvez seja justamente por isso que o disco envelheceu tão bem.

Depois de um Down II que muitas vezes parecia nascer no próprio momento em que estava sendo tocado, Over the Under é mais objetivo. As músicas têm contornos mais definidos, os riffs entram e saem com propósito e existe uma preocupação muito maior com o conjunto. Ainda há espaço para respirar, mas ninguém parece perdido dentro da própria jam.

“Three Suns and One Star” deixa isso claro logo de cara. O riff principal tem aquele peso que parece empurrar o chão para baixo, enquanto Pepper Keenan e Kirk Windstein constroem uma parede de guitarras baseada muito mais em timbre, afinação e dinâmica do que em velocidade. É uma das grandes qualidades do Down: a banda pode praticamente andar em câmera lenta e, mesmo assim, continuar soando ameaçadora.

Rex Brown, que hoje já não faz parte da banda, dá ao disco uma fundação grave fundamental, enquanto Jimmy Bower segura tudo na bateria sem precisar transformar cada virada em demonstração de técnica. Aqui, ninguém precisa exagerar. O peso vem justamente do controle.

Black Sabbath obviamente continua sendo uma referência incontornável, principalmente nos momentos mais arrastados, mas seria injusto resumir Over the Under a isso. Sludge, doom, stoner, blues e southern rock estão espalhados pelo álbum e convivem de maneira tão natural que tentar colocar a banda dentro de uma única gaveta acaba sendo mais difícil do que simplesmente apertar o play.

“The Path” diminui o passo e abre espaço para a atmosfera. A composição é relativamente simples, mas as guitarras e a interpretação de Anselmo dão à faixa personalidade suficiente para ela não funcionar apenas como uma passagem entre músicas mais pesadas.

Então vem “N.O.D.”, recolocando o peso no centro da conversa. O Down consegue criar tensão aqui sem precisar acelerar. Repetição, timbres graves e mudanças de dinâmica fazem o trabalho — e fazem muito bem.

“I Scream” mostra um Phil Anselmo diferente daquele que muitos associavam aos trabalhos anteriores. A voz continua áspera, evidentemente, mas existe mais controle sobre a melodia e menos necessidade de partir para a explosão a todo momento. É uma interpretação que combina perfeitamente com o clima geral do álbum.

“On March the Saints” é um daqueles momentos em que contexto e música se encontram sem que um precise atropelar o outro. A ligação com o Katrina está ali, mas a banda não transforma a tragédia em espetáculo. Existe perda, existe reconstrução e existe um refrão que fica na cabeça — e talvez seja justamente essa simplicidade que torne a faixa tão forte.

“Never Try” mergulha ainda mais no lado blues e southern do Down. O riff tem peso, mas também tem balanço. Há movimento ali, mesmo quando tudo parece deliberadamente arrastado. É outra prova de que chamar o Down simplesmente de sludge metal sempre foi uma definição pequena demais para uma banda que bebe de tantas fontes diferentes.

“Mourn” leva o disco para um lugar emocionalmente mais pesado. Anselmo não precisa forçar a interpretação; pelo contrário. Ele segura a voz, deixa a música respirar e permite que o peso apareça aos poucos.

“Beneath the Tides” segue por uma direção mais contemplativa. As guitarras ganham espaço para desenvolver melodias e o clima muda consideravelmente, mas sem parecer que uma música de outro disco foi colocada ali por engano. O Down consegue falar de emoção sem transformar tudo em dramatização, e esse equilíbrio é um dos méritos da faixa.

“His Majesty the Desert” funciona quase como uma pequena passagem antes de “Pillamyd”, que devolve o álbum aos riffs mais densos. É uma transição simples, mas importante para manter o fluxo do disco sem quebrar sua unidade.

Em “In the Thrall of It All”, a sombra do Black Sabbath volta a ficar particularmente evidente. O riff vai crescendo aos poucos, sustentado por dinâmica e repetição. Não existe necessidade de encher a música de mudanças. A força está justamente no acúmulo de peso, como se cada repetição colocasse mais alguns quilos sobre os ombros.

E então chega “Nothing in Return (Walk Away)”, encerrando o tracklist original com quase nove minutos.

É uma duração que poderia facilmente virar problema nas mãos erradas, mas o Down sabe o que fazer com o espaço. As guitarras alternam momentos mais contidos com passagens mais pesadas, a banda toca como uma unidade e Anselmo entrega uma de suas interpretações mais fortes no álbum. Não existe aquele clímax fabricado só porque a música precisa terminar “grande”. Ela simplesmente chega ao fim depois de desenvolver suas ideias no próprio tempo.

A faixa bônus “Invest in Fear” também merece ser citada. Pesada, sombria e direta, ela reúne elementos que já aparecem no restante do disco e se encaixa muito bem nesse universo. Ser uma faixa bônus não significa que seja uma sobra. Pelo contrário: é uma boa adição à experiência de Over the Under.

Na produção, Warren Riker mantém aquele som encorpado e orgânico que combina tão bem com o Down. As guitarras têm textura, o baixo tem presença e a bateria conserva dinâmica. Na versão original de 2007, a compressão pesava um pouco mais em determinados momentos, especialmente quando todos os instrumentos estavam brigando pelo mesmo espaço.

É aí que a remasterização de 2026 ganha algum sentido.

A nova versão abre um pouco a mixagem e melhora a definição entre guitarras, baixo e bateria. Não estamos falando de uma transformação radical, muito menos de um álbum que precisasse ser “consertado”. O som original continua sendo reconhecível. A diferença está principalmente em conseguir perceber alguns detalhes com um pouco mais de clareza sem arrancar do disco justamente aquilo que sempre funcionou nele.

E esse é um ponto importante: Over the Under não precisa da remasterização para provar seu valor. O álbum já funcionava em 2007.

“Three Suns and One Star”, “N.O.D.”, “On March the Saints”, “Never Try”, “Beneath the Tides”, “In the Thrall of It All” e “Nothing in Return (Walk Away)” estão entre os grandes momentos, mas escolher algumas faixas como favoritas não significa que o restante esteja ali apenas para preencher espaço. O disco funciona melhor quando ouvido inteiro, porque existe uma continuidade entre esses diferentes estados de espírito.

Também não vejo muito sentido em colocar Over the Under em uma competição direta com NOLA. O primeiro álbum tem um peso histórico próprio e pertence a uma fase completamente diferente da banda. Em 2007, o Down já era outro animal. Os músicos estavam mais experientes, a linguagem estava mais consolidada e a banda sabia muito bem quais elementos queria explorar.

O resultado é um álbum que consegue juntar groove, riffs marcantes, blues, agressividade e melodia sem perder sua identidade.

A remasterização de 2026 ajuda a enxergar — ou melhor, ouvir — alguns desses detalhes com mais clareza, mas não muda a essência do trabalho. O que continua funcionando depois de quase duas décadas já estava lá desde o começo.

E talvez essa seja a melhor maneira de resumir Over the Under: ele não depende da história difícil que existe por trás de sua criação para continuar relevante. A história ajuda a entender o disco, mas são as músicas que fazem a gente voltar para ele.

É o Down fazendo aquilo que sabe fazer melhor. E que venham novos álbuns!

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