Draconian – “In Somnolent Ruin” (2026)
Napalm Records
#DoomMetal #GothicMetal
Para fãs de: Hallatar, Katatonia
Texto por Aldemar Ferreira
Nota: 6,5
Eis um trabalho que abalou minhas expectativas iniciais. Mas também não seria por menos, visto que o Draconian compôs grande parte daquilo que conheço por Doom/Gothic Metal na vida. Dito isso, “In Somnolent Ruin” talvez seja o disco mais contraditório de sua carreira até o momento. Não porque exista qualquer ruptura estética significativa, mas justamente pelo contrário: o grupo sueco parece ter alcançado um grau tão absoluto de domínio sobre sua própria linguagem que começa, lentamente, a se tornar refém dela.
O retorno de Lisa Johansson adiciona novamente aquele senso litúrgico e fantasmagórico que havia se perdido parcialmente na era Heike Langhans, e isso devolve ao álbum uma identidade emocional mais “orgânica”, menos etérea e mais humana. Ainda assim, “In Somnolent Ruin” transmite constantemente a sensação de ser uma obra construída dentro de um espaço confortável demais — como uma catedral magnífica que já não expande seus corredores há anos, para melhor traduzir.
Tecnicamente, o álbum é impecável. A produção trabalha com uma densidade extremamente calculada: as guitarras possuem uma camada médio-grave quase líquida, comprimida de maneira a criar uma continuidade atmosférica permanente, enquanto a bateria evita explosões dinâmicas muito agressivas para manter o disco preso a uma sensação narcótica e contemplativa. O problema é que essa decisão estética acaba achatando o impacto de diversas músicas. Faixas como “Anima” e “Cold Heavens” parecem eternamente prestes a alcançar um clímax devastador, mas preferem permanecer orbitando em torno dele.
A banda sempre trabalhou com repetição emocional; porém, aqui existe uma repetição estrutural mais evidente: muitos refrões se resolvem de maneira previsível, sem o peso existencial verdadeiramente esmagador que existia em “Arcane Rain Fell (2005)” ou mesmo em “Under a Godless Veil (2020)”.
Existe também uma impressão menos impactante do que deveria. Poucas músicas possuem identidade própria realmente memorável; ao contrário, elas se dissolvem umas nas outras como capítulos de um sonho febril. “Misanthrope River” talvez seja o único momento em que a banda ameaça sair do piloto automático, principalmente pelo uso de guitarras perfurantes e harmonizações menos lineares. Em “The Monochrome Blade”, entretanto, o grupo retorna rapidamente à sua zona habitual de conforto harmônico, sustentando aquela melancolia monumental que ainda emociona, mas já não surpreende.
O aspecto mais interessante do álbum está justamente em sua aparente limitação. “In Somnolent Ruin” soa como um disco feito por músicos conscientes de que o gênero que ajudaram a consolidar já alcançou maturidade plena. Não há aqui a urgência emocional de “A Rose for the Apocalypse (2011)”, nem o romantismo devastador de “Turning Season Within (2008)”. O que existe é um Doom Metal envelhecido, introspectivo e cansado — e talvez essa seja a intenção real da obra.
O álbum parece deliberadamente sonolento (sem trocadilhos), quase anestesiado, como se buscasse traduzir musicalmente a erosão da sensibilidade após décadas habitando os mesmos escombros emocionais. É um conceito extremamente sofisticado, mas perigoso: muitos ouvintes interpretarão essa proposta como mera falta de inspiração ou, até mesmo, uma “zona de conforto sonora”.
Por isso, “In Somnolent Ruin” provavelmente será melhor compreendido no futuro do que agora. Ele não possui o imediatismo dramático necessário para causar unanimidade, tampouco apresenta grandes refrões ou momentos catárticos facilmente assimiláveis, como já visto em trabalhos anteriores. Trata-se de um álbum que exige familiaridade com o próprio desgaste estético do Gothic/Doom moderno para revelar suas nuances.
Hoje, ele soa apenas mediano diante da grandiosidade histórica do Draconian. Amanhã, ou em um futuro próximo, talvez este lançamento seja enxergado como o retrato melancólico de uma banda contemplando silenciosamente sua própria fossilização artística — e transformando isso em arte. Ouçam e tirem suas próprias conclusões.





