Draconian – Carioca Club, São Paulo/SP (16/05/2026)
Produção: Mirror AM e Sellout Tours
Assessoria: Tedesco Comunicação & Mídia
Texto e fotos por Rodrigo Faustino
Draconian: uma ode à melancolia: Quando o doom encontra o sol de maio
Existe uma ironia quase poética em assistir a uma banda de doom metal sob um céu limpo e temperaturas amenas. O Draconian, afinal, é trilha sonora de tardes cinzentas, daquelas em que a chuva insiste na janela e o frio convida ao recolhimento. Mas São Paulo, em sua teimosia tropical, resolveu oferecer uma noite sem nuvens aos suecos que carregam a melancolia como estandarte, depois de uma semana fria, gelada e chuvosa.
Cheguei ao Carioca Club por volta das 17h20. Os arredores estavam cheios, como sempre — principalmente os bares adjacentes, onde há opções de comida e muita, muita cerveja, como é de lei. Porém, como o profissional exemplar que sou, abstive-me de qualquer bebida alcoólica, trocando facilmente por um Monster da lata branca “zero açúcar”. Complementando o cenário, havia muitos ambulantes vendendo bebidas em geral e muito merch paralelo (fazendo a engrenagem da economia girar), com opções de camisetas nas cores roxa (meio puxada para o marsala), além das tradicionais preta, branca etc.
Entretanto, a energia estava boa, ao mesmo tempo em que havia aquele ar misterioso. Não é sempre que realizo resenhas, mas, quando as faço, sempre existe um motivo especial. Parece que são as ironias que o destino nos presenteia — e, naquele sábado, não seria diferente.
Antes da tempestade que não veio
A noite começou com uma aparição quase etérea. Emma Ruth Rundle, enfim em solo brasileiro pela primeira vez, entrou no palco como quem adentra uma sala silenciosa. Nada de banda, nada de efeitos, nada de artifícios: apenas ela, um violão (que aprontou em alguns momentos e insistia em não funcionar) e um feixe de luz que parecia hesitar em tocá-la.
O público — acostumado ao peso, ao arrasto e à densidade emocional do doom — encontrou ali outra forma de melancolia. A de Emma é mais fina, mais cortante, feita de uma mistura difícil de rotular. Ela vem do post-rock, flerta com o folk, mergulha no slowcore e se permite tocar em lugares que existem abaixo das palavras. Há nela uma espécie de desolação luminosa, como se a tristeza não fosse peso, mas claridade.
E foi curioso vê-la dominar uma casa cheia, preparada para um show pesado. Sentou-se, respirou fundo e, com o primeiro acorde, prendeu todos os ruídos da noite no ar. A voz dela não pede espaço — ela cria um. Hipnotizava. Tomava conta. A imponência não vinha do volume, mas da entrega. Ali, sozinha, ela parecia maior do que o palco.
Entre uma música e outra, mencionou o quanto estava feliz por finalmente tocar no Brasil, sentimento confirmado pelos olhos atentos que não desgrudavam dela. Quem conhecia a discografia já sabia o que esperar; quem não conhecia precisou de apenas meio minuto para entender que estava diante de algo raro. Um show que parecia íntimo, quase caseiro, mesmo cercado por centenas de pessoas.
Foi uma ode à melancolia — de outra natureza, como se fosse irmã da onda que guiaria a noite com o Draconian. Uma abertura que funcionou como porta emocional, afinando o público para o que viria a seguir: não uma catarse de força, mas de vulnerabilidade.
Desconsiderando alguns comentários de pessoas que não conheciam a artista — dizendo que aquilo não tinha nada a ver com o Draconian —, em certos momentos até algumas piadas (completamente sem graça) vieram à tona, mas nada, nem de perto, que desabonasse sua performance impecável.
Ironicamente, essas pessoas mal sabem da gigantesca bagagem que Emma possui dentro do metal. Seu estilo transita entre diversos elementos, que vão do indie rock, folk rock e post-rock — e todas as suas derivações — até influências claras de doom metal. A influência pesada fica nítida em suas participações com a banda de sludge metal Thou, além de projetos paralelos com membros das bandas de post-metal Isis e Neurosis.
No fim, a noite começou despida. E assim preparou o terreno para o peso.
A escuridão como linguagem
Os primeiros acordes vieram mergulhados em breu. A iluminação, quase inexistente, transformou o palco em uma caverna sonora. Para quem estava no pit com a câmera em punho, era um desafio; para quem estava ali apenas para sentir, talvez fosse exatamente esse o ponto. O doom não pede clareza — pede entrega, clama pela alma.
Anders Jacobsson surgiu de capuz, silhueta contra o nada, a voz gutural emergindo como se viesse de algum lugar subterrâneo. A luz foi cedendo aos poucos, alternando entre clarões que revelavam e sombras que escondiam. Uma dança técnica que ora favorecia, ora sabotava o registro visual (nessas horas, o fotógrafo tem que mostrar a que veio — o famoso: “se vire com as configurações e faça o registro, meu parceiro!”).
Mas havia Lisa Johansson: a LUZ!
A rainha desce ao chão
É difícil não se render a Lisa. A voz etérea que conhecemos dos discos ganha outra dimensão ao vivo — mais presente, mais generosa. Ela não apenas canta; ela habita cada nota. E faz questão de encurtar distâncias. Em vários momentos, desceu até quase tocar a grade, olhando nos olhos de quem chorava as letras junto dela.
Porque sim, havia choro. O público fiel — aquele que decorou cada verso, que tatuou o logo da banda na pele ou na memória — estava ali, na primeira fila. Cantando. Soluçando. Entregue.
Um pequeno adendo: vemos claramente o aclamado estilo Beauty and the Beast, a alternância entre vocais limpos e guturais. Clássicos exemplos disso são Therion, Tristania, Sirenia, The Sins of Thy Beloved e Theatre of Tragedy.
Uma estreia brasileira / Lisa x Heike
Há um orgulho discreto em saber que o Brasil foi escolhido para apresentar o novo álbum ao vivo pela primeira vez. O já aclamado In Somnolent Ruin fez parte do setlist com cinco músicas, com destaque para “Cold Heavens” e “Misanthrope River”. A banda, visivelmente entrosada, navegou entre os clássicos e as faixas inéditas com a segurança de quem ensaiou a vida inteira para aquele palco. O guitarrista, dividindo-se entre os riffs arrastados e os backing vocals, completava a tapeçaria sonora sem excessos.
Um assunto muito debatido antes da volta do Draconian aos palcos foi o embate entre os fãs no que tange às vocalistas Lisa Johansson e Heike Langhans. Como tudo no Brasil é polarizado — do futebol à política —, na música não seria diferente.
O legado de Heike Langhans é inegável: dois excelentes álbuns, Sovran (2015) e Under a Godless Veil (2020). Todavia, Lisa é a voz do Draconian. Trazendo um pouco do meu gosto pessoal, ela gravou seis álbuns com a banda, incluindo o debut Where Lovers Mourn (2003) — ouçam “The Cry of Silence”, pelo amor de Deus! — e Arcane Rain Fell (2005). Aliás, ouvir “A Scenery of Loss” ao vivo foi uma experiência transcendental.
Porém, vejo esse embate como algo natural, pois a maioria dos fãs presentes ali estava na faixa dos vinte e poucos anos, com um ou outro já beirando os trinta.
Quanto ao palco: não houve pirotecnia. Não havia telões grandiosos. Apenas seis músicos, uma iluminação teimosa e a confiança de que a música bastava. E bastou.
O paradoxo de uma noite sem chuva
Saí do Carioca Club pensando na estranheza climática daquele sábado, que parecia viver em uma encruzilhada, indeciso entre frio e calor, entre o sol e a chuva (que, ironicamente, veio horas depois. Será que foi para lavar a alma dos fãs após um show carregado de emoções?). O doom metal pede garoa, pede casacos, pede aquele frio que justifica um abraço mais demorado. Recebemos, em vez disso, uma noite morna, melancólica e com as emoções à flor da pele.
Mas talvez a melancolia do Draconian não precise de meteorologia. Talvez ela more em outro lugar — naquele nó na garganta de quem ouve “Heaven Laid in Tears” ao vivo, no sorriso triste de Lisa, no grave de Anders ecoando no peito. O frio, afinal, a gente carrega por dentro — na essência e na alma.
Um agradecimento especial à SellOut Tours por tornar essa noite possível e a assessoria Tedesco Comunicação & Mídia pela parceria e credenciamento.
Setlist:
I Welcome Thy Arrow
The Wretched Tide
The Last Hour of Ancient Sunlight
Heavy Lies the Crown
A Scenery of Loss
The Face of God
Asteria Beneath the Tranquil Sea
Cold Heavens
Lustrous Heart
Misanthrope River
Heaven Laid in Tears (Angels’ Lament)
Claw Marks on the Throne
Seasons Apart
The Sethian

