Entrevista: Cláudio Slayer, vocalista e lider do Open The Coffin (Death Metal de Natal/RN/Brasil)
Entrevistadores: Cristiano “Big Head” Ruiz e Thiago “Taco” Serafim
Em 15/10/2025, o álbum Once Alive Always Dead (leia a resenha no Metal na Lata), segundo full lenght da banda natalense de Death Metal Open The Coffin, foi lançado através do selo Black Hole Productions. Sua sonoridade old school e, da mesma forma, suas faixas cheias de peso e energia ganharam destaque entre os fãs brasileiros do subgênero.
O projeto teve início em 2018 e já no ano seguinte lançou seu primeiro registro oficial, o EP Only Death Prevails. Porém, o debut completo, The World Is a Casket, ainda tardou três anos para chegar. A fim de saber mais sobre o trabalho do Opén The Coffin, os redatores Cristiano Ruiz e Thiago Serafim bateram um papo com Claudio Slayer. Ele é vocalista, guitarrista, baixista e o mentor por trás desse trabalho dedicado ao Metal da Morte.
Conversando com Cláudio Slayer
Primeiramente, gostaríamos de parabenizar o Open The Coffin pelo elogiado Once Alive Always Dead.
Metal Na Lata: de qual forma você avalia a evolução da sonoridade do Open The Coffin desde que lançou o EP Only Death Prevails até o momento atual? O que mudou em relação às composições e, da mesma forma, quanto às produções em estúdio?
Claudio Slayer:
“Antes de tudo, obrigado pelo convite e pelas palavras acerca do álbum Once Alive Always Dead. O EP Only Death Prevails marcou o início da trajetória do Open The Coffin e hoje em dia eu o encaro como uma espécie de ‘Demo-Tape’, como fazíamos lá pelos idos dos anos 80/90. Para contextualizar, eu toquei baixo numa banda de Death Metal Old School chamada Insane Death, que esteve ativa entre os anos de 1990 e 1992.”
“Depois, em 1999, eu montei o Expose Your Hate (Death grind), onde também toco baixo até os dias de hoje. Porém, com o passar dos anos, a vontade de compor e tocar Death Metal novamente começou a me consumir. Foi aí que em 2018 eu resolvi abrir o caixão. Dessa vez com a pretensão de gravar todas as partes de guitarra, baixo e vocal, convidando um amigo para gravar as partes de bateria. E nesse formato o EP foi concebido, porém também foi minha primeira experiência como guitarrista e vocalista.”
“O resultado ficou satisfatório para as circunstâncias e serviu como bússola para guiar os passos futuros. Já com a bagagem da gravação do EP, os próximos trabalhos seguiram naturalmente para uma evolução determinada pelo o que poderia melhorar. Evolui como compositor, letrista e também houve uma preocupação maior no aspecto de entregar uma produção melhorada em termos de mixagem e masterização. Mas duas coisas não mudaram mesmo com o passar do tempo: o formato de estúdio onde eu gravo as partes de guitarra, baixo e o vocal com um baterista convidado e a proposta sonora voltada ao Death Metal Old School Motoserra!”
Recepção de Once Alive Always Dead
Metal Na Lata: a recepção de Once Alive Always Dead nas mídias especializadas em Metal está ocorrendo de acordo com suas expectativas?
Claudio Slayer:
“A recepção do disco está sendo incrível! Ele figurou em muitas listas e enquetes dos melhores lançamentos do ano de 2025, inclusive obtendo nota máxima em sites e revistas especializadas. Eu posso afirmar que trabalhei mais, em todos os aspectos, neste disco do que nos anteriores. Dediquei mais tempo a composição da parte instrumental e as linhas do vocal, também escrevendo as letras e concebendo o conceito por trás do álbum.”
“Além disso, neste trabalho, eu e o baterista Flávio Neves ensaiamos mais tempo juntos, construindo os arranjos de bateria e adicionando novas ideias na pré-produção feita em estúdio antes da gravação. Acredito que estou colhendo os frutos de como decidi conduzir todo o processo desta vez, focado com mais atenção em cada etapa criativa visando o resultado final. Como comentei anteriormente, neste álbum eu também melhorei como compositor e na execução dos instrumentos no momento da gravação em estúdio.”
Divulgação do álbum Once Alive Always Dead
Metal Na Lata: estão acontecendo shows ao propósito de divulgar o segundo disco? Houve alguma festa especial de lançamento?
Claudio Slayer:
“Quando o disco foi lançado, em outubro do ano passado, nós estávamos cumprindo a agenda de final de ano com shows em Pernambuco, Ceará e na Paraíba. Incluímos apenas duas músicas do disco novo no repertório ao vivo daquele período. Mas no começo deste ano demos início aos ensaios do novo repertório e já preparamos o novo show.”
“Vamos tocar em Natal/RN no dia 12 de junho junto do grande Funeratus (SP) e tocaremos pela primeira vez o disco novo praticamente na íntegra. A partir daí todos os shows estarão centralizados no novo álbum, como num grande festival que tocaremos em Fortaleza no mês de agosto chamado Underground Metal Fest. O headliner é a clássica banda de Heavy Metal brasileira Azul Limão (RJ).”
Temática lírica do Open The Coffin
Metal Na Leta: quais são as temáticas líricas mais comuns em Alive Always Dead, assim como nos dois registros que lhe antecederam? Fora isso, há alguma razão especial para a escolha do idioma portugués para a letra de “Tudo Pertence a Morte”?
Claudio Slayer:
“Na verdade, o universo lírico do Open The Coffin é contemplado em todos os lançamentos, o que contribui para a identidade da banda. Esse universo aborda os temas ligados a finitude da vida, a morte como um destino irremediável, onde descansaremos eternamente em um último abraço dado por um caixão a sete palmos do chão. Ao vivo, tentamos trazer essa ambientação de ‘clima de cemitério’ com falas inspiradas nos brasileiros Zé do Caixão e o poeta Augusto dos Anjos, além dos mestres do horror Edgar Allan Poe, HP Lovecraft e Stephen King. Tudo isso apoiado por uma parte cênica composta de acessórios de palco como ossos, crânio e uma pá de coveiro.”
“A curiosidade é que na formação ao vivo um dos guitarristas é coveiro de verdade, de profissão. Eu sempre digo que isso traz mais veracidade ao conceito do Open The Coffin. Sobre a letra de ‘Tudo Pertence a Morte’, ela foi composta em parceria com David Fulci do Crânio Maldito (SP) na época do isolamento pandêmico. Ele havia feito a música e me convidou para gravar os vocais, enviando a parte instrumental pronta e uma ideia para a letra, originalmente em português mesmo.”
“Eu alterei partes da letra para encaixar na métrica que fiz para a música e gravei a distância. Fizemos até um vídeo no formato remoto comum da época da pandemia e postamos no Youtube. O resultado me agradou tanto que pedi permissão ao David Fulci para fazer uma versão da música e incluir no disco do Open The Coffin. Ele autorizou e eu gravei essa versão que está no CD, com afinação e timbres diferentes, além de arranjos e andamentos de bateria adicionados para a música ficar mais a cara do Open The Coffin.”
Influências musicais
Metal Na Lata: fale sobre são suas influências musicas dentro do Death Metal e fora dele.
Claudio Slayer:
“Bom, por mais que eu tenha predileção por gêneros mais extremos no Metal e Punk, gosto sempre de comentar que minhas raízes estão fincadas no Heavy Metal clássico. Mas como músico de Metal Extremo, essas influências musicais partem principalmente do Death Metal, sobretudo aquela sonoridade oitentista/noventista de bandas como Death (os três primeiros discos) Autopsy, Morbid Angel, Entombed, Dismember, Unleashed, Cancer, Malevolent Creation.”
“Também gosto muito de Thrash e Black Metal e de certa forma isso deve me influenciar também. Assim como o Crossover, Grind, Gore e Crust. Pois sou um grande fã de bandas tipo Napalm Death, Terrorizer, Extreme Noise Terror, Disrupt, Nasum, etc.”
A cena do Metal da Morte
Metal Na Lata: de modo geral, faça uma comparação entre a cena de Death Metal brasileira das décadas 80’s e 90’s e atualmente? Como é a cena potiguar, tanto para Metal extremo quanto para outros subgêneros de Rock e Metal?
Claudio Slayer:
“Caras, a cena extrema brasileira dos anos 80 e 90 foi marcada por bandas sensacionais e também pela consolidação dessa sonoridade como uma expressão brasileira legítima. Bandas que surgiram nessa época, como o Sepultura, Sarcófago e Vulcano, ajudaram a moldar a cena extrema mundial, sendo hoje reverenciadas em todos os lugares do planeta. Mas fazer metal extremo nas décadas passadas não foi nada fácil, não só por causa da violência sonora, das letras e das capas”.
“As bandas citadas, e outras contemporâneas a elas, tiveram que desbravar tudo na raça. Não podemos esquecer de um comprometimento sensacional por aqueles que formavam uma espécie de rede de apoio, os Bangers trocando cartas e tapes, as gravadoras acreditando naquela sonoridade (o que seria do Metal extremo brasileiro sem o suporte da Cogumelo Discos?), os zines divulgando e promovendo a cena underground em uma época que não tínhamos acesso a internet e outras tecnologias.”
“Atualmente, o Death metal brasileiro honra todo esse legado construído pelos precursores do metal extremo nacional, com respeito e credibilidade. Hoje temos grandes nomes no topo do Death metal mundial, como o Krisiun, por exemplo, e continuamos sendo citados como referência em termos de metal da morte com bandas atuais. São tempos diferentes, muita coisa mudou, isso é fato, às vezes de uma forma que fica até difícil traçar um paralelo. Mas a qualidade e o respeito que o Death Metal brasileiro continua exercendo é inquestionável. A cena potiguar é relativamente pequena, mas bastante produtiva, em todos os subgêneros da música pesada. Também temos um circuito de casas undergrounds por onde passam bandas de todo Brasil e também casas maiores que comportam shows de bandas mais renomadas, além de internacionais.”
A produção geral de Once Alive Always Dead
Metal Na Lata: quanto à produção do álbum Once Alive Always Dead, onde ocorreram as gravações, a mixagem e, finalmente, a masterização? Aliás, quem foi o artista responsável pela linda arte da capa?
Claudio Slayer:
“Todos os álbuns do Open The Coffin foram gravados em um estúdio potiguar chamado Black Hole. Porém no Once Alive Always Dead, ao contrário dos anteriores que foram mixados e masterizados aqui mesmo em Natal, eu trabalhei com um estúdio paulista chamado Heavy Track e o responsável pela mixagem e masterização foi Nicolas Gomes.”
“Penso que essa escolha contribuiu para um resultado final positivo em relação ao que eu procurava, uma sonoridade atual sem perder a ‘sujeira’ e o componente orgânico imprescindível para esse tipo de proposta sonora. Sem falar no timbre das guitarras reverenciando o culto ao pedal HM-2, a motoserra do Death Metal sueco, que ganhou uma ótima evidência neste trabalho.”
“O artista responsável pela arte da capa foi o brasileiro Marcos Miller, o mesmo que havia feito a capa do nosso disco anterior, The World is a Casket. Eu já acompanhava o seu trabalho com outras bandas e sempre o achei um artista incrível. Quando o contactei para o álbum anterior a coisa fluiu muito fácil e eu senti que foi a escolha perfeita. Seu traço acabou contribuindo para a identidade visual da banda de forma determinante. Por isso ele também assinou a capa do novo álbum e, sinceramente, nossa parceria deve durar por muito tempo ainda.”
Um pouco sobre a história de Claudio Slayer na cena do Metal
Metal Na Lata: agora deixando um pouco de lado o foco no trabalho do Open The Coffin, conte um pouco da história do Claudio Slayer música amante do Metal da Morte?
Claudio Slayer:
“Eu entrei nesse mundo do Metal ainda nos anos 80, em 1983 para ser mais exato, quando fui cooptado para a música pesada com a primeira turnê do Kiss no Brasil. Depois veio o primeiro Rock in Rio em 85 com bandas clássicas como Iron Maiden, AC DC, Ozzy Osbourne, Scorpions, Def Leppard, Whitesnake, e a partir daí eu sabia que meu destino estava traçado (rsrs).”
“Mas foi a partir da segunda metade dos anos 80, quando ouvi pela primeira vez bandas como Slayer, Metallica, Venom, Hellhammer, Destruction, Kreator, Sodom, entre tantas outras, que eu senti que a sonoridade mais pesada me dominava completamente. Hoje eu sei que não consigo desassociar o Metal da minha vida e da pessoa que me tornei.”
“Mas além de um amante da música em si, também me identifico com o termo ‘operário do underground’, pois sou do time daqueles que fizeram fanzine, trabalhou em loja de discos, organizou show e se tornou músico. Costumo dizer que o Metal é tão importante para nós que acabamos aprendendo a tocar para poder fazer a música que tanto amamos. E dessa maneira que acabei virando um músico amante do Metal da Morte.”
Line-up
Metal Na Lata: visto que a princípio o Open The Coffin seria uma one-man-band que sequer tocaria ao vivo, fale sobre os músicos que te ajudam a levar a sua música para o palco?
Claudio Slayer:
“Verdade, a ideia inicial era somente gravar e divulgar as músicas do EP, mas com a receptividade do trabalho começaram a ocorrer convites para shows. Foi aí que eu decidi aceitar o desafio e montar uma banda para essas performances ao vivo, onde eu me concentro apenas na função de vocalista.”
“Completando o line-up atual estão o baterista Flávio Neves, o mesmo que gravou as partes de bateria dos dois últimos álbuns e com quem também toco numa banda de Black/Grind chamada Deuszebul, o baixista Adriano Sabino, que foi responsável pela mixagem/masterização do EP e do primeiro disco, o guitarrista Hugo Albuquerque (o coveiro “de verdade” rsrs) da banda local Sodoma e com quem toco numa banda tributo ao Black Sabbath e o segundo guitarrista Ivan Jones das bandas locais Profane Anger e Nighthunter, que passou a integrar o Open The Coffin recentemente após a necessidade de afastamento do guitarrista Paulo Death por causa do seu trabalho.”
Considerações Finais
Metal Na Lata: este espaço serve para que você fale sobre algo que não perguntamos na entrevista, ou seja, fale o que estiver afim?
Claudio Slayer:
“Primeiramente, eu gostaria de expressar a satisfação de poder responder essas perguntas e participar do Metal Na lata, muito obrigado pelo espaço. Aproveito para falar que se alguém tiver interesse em adquirir nossos CDs ou camisas da banda, vocês podem encontrar no site da nossa gravadora Black Hole Productions (https://www.blackholeprods.com).“
“Continuem esse importante trabalho em prol do Underground nacional com o Metal Na Lata, nós só temos que agradecer pelo apoio mais que necessário. No mais, Tamo Junto e Enterrado!”
Metal Na Lata: nós é que agradecemos a sua atenção, Claudio, assim como o que você faz pela música pesada que tanto presamos. Enfim, esperamos ansiosos pelo próximo registro do Open The Coffin. Cristiano e Thiago.

