
ENTREVISTA COM ALEX ZERAIB (SCARS)
O que faz uma banda ser tão querida ao ponto de que, mesmo com suas atividades encerradas, reconsiderarem retornar a carreira com mais sangue nos olhos? Simples, os fãs! Sim, no caso do SCARS, os fãs trouxeram a banda de volta com o movimento #VoltaScars. E não só trouxeram-na de volta as atividades, como também fizeram com que a banda se motivasse tanto ao ponto de cair de cabeça em material novo! “Predatory”, novo álbum dos thrashers paulistanos será lançado pela gravadora americana Brutal Records e distribuído pela Voice Music em nosso país, já vem recebendo excelentes críticas na imprensa apontando-no como um dos mais esperados álbuns do estilo no ano. Conversamos com Alex Zeraib (guitarrista), que nos contou sobre essa retomada fulminante da banda, curiosidades, planos futuros e muito mais. Confira!
Por William Ribas
Fotos por Dani Matos

Metal Na Lata: O Scars ficou quase 10 anos fora de cena, mas algo bastante especial aconteceu e fez com que a banda retornasse. Como foi ver que, mesmo depois de muito tempo, haviam fãs dedicados e que clamavam a volta de vocês aos palcos?
Alex Zeraib: Foi uma grande surpresa ver que o nome do SCARS ainda tinha sua relevância apesar de seu tempo de ausência da cena. No final de 2017, eu comecei a revisitar todos meus backups e registros físicos da banda, que venho guardando há um pouco mais de duas décadas, e decidi disponibilizar tudo na linguagem desta nova era tecnológica, ou seja, colocando o material em todas as plataforma digitais existentes (Spotify, iTunes, Google Play, etc…), bem como montar um página tributo no Facebook e um canal no YouTube. Nesses veículos, todos encontrariam a discografia completa, fotos, vídeos, shows completos, etc. Uma vez no ar, a participação e o envolvimento das pessoas foi uma tremenda surpresa, mas o ponto alto foi um movimento criado, o #VoltaScars, que fez com que decidíssemos por reativar o SCARS. Realmente não era esperada tal resposta do público e algo tão precioso assim não poderia ser ignorado.
Metal Na Lata: Após retornarem, o próximo passo foi estabilizar a formação e cair na estrada. É meio clichê, mas tenho que perguntar. Qual foi o sentimento na primeira música do show de retorno da banda?
Alex Zeraib: Um sentimento sem igual. O palco é um lugar mágico e a energia que é gerada nele, a partir da interação com as pessoas que estão ali para te ver e ouvir, é uma “droga” (no bom sentido) muito viciante. A última música tocada pela banda em um show foi “Hidden Roots of Evil”, em maio de 2007, no Via Funchal, em São Paulo, abrindo para o Testament. A primeira música que executamos no retorno aos palcos foi “Creatures that Come Alive in the Dark”, em 09 de março de 2018, no Festival Rock in Help, em Socorro/SP, ao lado do Garotos Podres e Sorry for All. O estranhamento de estar ali de novo no palco foi inevitável, mas somente pelas duas ou três primeiras músicas. Logo em seguida, a banda e eu, estávamos bem à vontade e nos sentindo em casa. O palco é a nossa casa, é onde a magia acontece, é onde somos nós de verdade sem filtros nem efeitos.
Metal Na Lata: O Thrash Metal é conhecido por muitos como um estilo não muito aberto às novidades e inovações, por vezes as bandas soam estagnadas e presas a cartilha escrita nos anos 80. Entre diversos lançamentos anuais, fica quase que óbvio as fontes de inspiração – a Bay Area ou a escola alemã. O Scars, desde o início, soube produzir algo próprio e característico sem que soe como cópia ou reciclagem. Indo neste contexto, o quão importante é saber dosar as óbvias referências dentro de um trabalho autoral?
Alex Zeraib: A cartilha do thrash metal, Bay Area, alemão ou brasileiro, sempre foi e sempre será a principal referência do SCARS. Contudo, também bebemos das fontes do heavy metal tradicional, black metal, death metal e deixamos que todas essas influências fluam através de nós livremente na hora da composição e criação de nossos sons. Eu acredito que o material final sempre soa autêntico devido a forte personalidade e assinatura musical que a banda possui, mas também somos muito metódicos e disciplinados no processo. Não hesitamos em descartar material que não soe original na hora de fechar uma pré-produção e entrar em estúdio, somos muito seletivos no que apresentamos ao público e queremos deixar uma marca na história da música pesada mundial com algo que seja diferente do que já existe e autêntico – o quê na verdade é muito difícil.

Metal Na Lata: “Predatory” vem gerando uma imensa expectativa entre os fãs. Na crítica especializada vem sendo de antemão apontado como um dos melhores lançamentos do ano. Faltando poucos dias para o lançamento oficial do disco, como é para vocês receber tantos feedbacks positivos de todos os lados?
Alex Zeraib: “Predatory” é um álbum honesto, bem feito por todos os envolvidos e merece seu destaque, mas não imaginávamos que teria uma recepção tão positiva pela crítica especializada precedendo seu lançamento. Isso sem dúvida ajudou muito a criar uma expectativa geral antecipada e diferenciada. A repercussão do primeiro single homônimo, lançado dois meses antes do álbum, mostrou que o público também gostou e aprovou o novo material. Então agora queremos ver como o restante do álbum será recebido pelo público e estamos muito ansiosos para compartilhar com todos os novos sons. Estamos muito satisfeitos com o álbum e com o trabalho de todos os que o fizeram nascer: a produção esperada e impecável de Wagner Meirinho e sua equipe no Loud Factory, a arte soberba da capa de Luís Dourado, da HL Visions, a contribuição de cada um dos integrantes da banda com seu talento e experiência, além de todos ao redor do SCARS, como o Johnny Z. e a nossa assessoria JZ Press, Michael Howard, da Brutal Records e Silvio Golfetti, da Voice Music, nossa fotógrafa Dani Matos, e muitos outros que fazem parte dessa engrenagem predatória.
Metal Na Lata: O novo álbum não é conceitual, mas gira em torno do “bicho homem”. Entre os temas temos a caça, destruição da natureza, serial killers, depressão, corporativismo e entre outros assuntos. Com um mundo tão conectado, mas que ao mesmo tempo tornando as pessoas egoístas, o ser humano virou infelizmente uma fonte riquíssima de inspiração?
Alex Zeraib: Sim, a principal, talvez. O título do álbum traduz o ser humano e sua atitude em relação ao planeta, tal como seu relacionamento um com o outro como espécie.
Metal Na Lata: “Predatory” e seu tema central não poderiam estar surgindo num momento mais apropriável, a pandemia da Covid-19. Por tudo que gira em torno das letras, e olhando o que vem acontecendo ao redor do mudo, acreditam que a cada instante estamos diante de uma nova extinção?
Alex Zeraib: Na verdade, não. O ser humano se adaptará e conseguirá sobreviver esta e todas as próximas pandemias que virão. Aprenderemos muito com este momento e nos adaptaremos ao “próximo” mundo, que nunca será mesmo. A adaptabilidade é a principal característica de nossa espécie, aliada ao nosso intelecto, que possibilita uma evolução tecnológica e farmacêutica que aumenta a longevidade das pessoas, provendo mais conforto e plenitude em nosso amanhã. Contudo, esta pandemia é um divisor de águas no que diz respeito às discrepâncias entre as classes sociais e também a divisão do mundo em diversos setores de crenças, atitudes e opiniões diferentes e conflitantes. Não somos uma raça unida e nem remotamente altruísta, assim dificultando o progresso e a ascensão espiritual coletiva. Mas não seremos extintos e um dia aprenderemos a conviver em uníssono e andar em uma mesma direção, só que ainda temos um longo caminho adiante.
Metal Na Lata: Falando sobre as músicas. Ouvi o álbum diversas e diversas vezes, e cada nova investida ia descobrindo mais e mais. A faixa título e “These Bloody Days”, são faixas típicas para abertura de um álbum da banda. Rápidas, agressivas e com uma enorme energia, mas passeando pelo tracklist é possível se deparar com faixas mais Heavy Metal, outras com pitadas de Death Metal. Enfim, após todos esses anos sem falar um disco completo era necessário finalmente mostrar o que é o Scars?
Alex Zeraib: Este é o repertório que quisemos apresentar ao mundo agora. Ao decidir entrar em estúdio, tínhamos o dobro de material e fomos muito seletivos e criteriosos na escolha do quê representaria o SCARS “versão 2020”. E nesta versão quisemos trazer diversidade e versatilidade, podendo expressar, individualmente e como grupo, as diversas personalidades e influências da banda. Realmente tem de tudo nesta obra, o que, ao meu ver, a torna dinâmica e diversa em sua sequência, mesclando tensão e relaxamento em toda sua extensão. O diferencial aqui é a interpretação de cada músico da banda em seu instrumento, que pode deixar registrado seu estilo e timbre individual como o maior destaque em toda a audição: o timbre de voz e interpretação dos vocais do Régis estão melhores que nunca, o baixo do Marcelo Mitché, tocado a oito dedos (sem palheta), participa como um instrumento separado e não somente como um “gerador de frequências graves”, os solos do Thiago Oliveira são corajosos e inovadores, mas ao mesmo tempo com um nível técnico altíssimo, o João Gobo está batendo mais forte que nunca e eu consegui arrancar, junto com o Wagner Meirinho (produtor), um timbre de guitarra que representa minha mão direita rítmica e proporciona um timbre que faz jus ao estilo. É um álbum consistente em proposta e execução, e apesar de toda a estratégia envolvida, ele tem muito coração e alma.
Metal Na Lata: Outras músicas que chamam atenção são “Ghostly Shadows”, “Beyond the Valley of Despair”, “Violent Show” e “The 72 Faces Of God”. Como a banda trabalha as ideias para novas composições?
Alex Zeraib: Eu converso muito com o Régis sobre composição e arranjos, exploramos possibilidades de estruturas de músicas primeiro no âmbito abstrato e mental, imaginamos quais os tipos de riffs de guitarra que queremos e qual a velocidade da levada geral. Nos aventuramos em temas, refrãos e títulos até mesmo antes de começarmos a gravar os primeiros takes. Assim, eu monto a bateria eletrônica e começo a despejar riffs sobre diferentes esqueletos, buscando estabelecer um lugar para refrão, pré-refrão, pontes, etc. Após gravar os takes iniciais, envio para o Régis, que por sua vez organiza a música e me manda de volta com uma linha de voz. E assim vai, até o dia da gravação final, onde mudamos a música diversas vezes. Normalmente temos de 7 a 10 versões para cada faixa no período final da pré-produção. Após a música ter tomado forma, a apresentamos a banda e começamos a executa-la organicamente em ensaios, sempre experimentando mudanças e aperfeiçoamentos para chegarmos à um nível final e satisfatório para todos. Nunca perfeito, porque perfeito não existe.
Metal Na Lata: Acreditam que boa parte do sucesso do álbum está na sua gravação e mixagem extremamente eficientes, que une uma roupagem “old”, mas bem cristalina e impactante?
Alex Zeraib: Eu vejo como obrigatório uma qualidade cristalina de mixagem e com bastante ganho de saída na masterização. E nós conseguimos isso juntamente ao Wagner Meirinho ao longo de todo o processo, onde ele se mostrou bem aberto a sugestões e palpites. Essa excelência em qualidade sonora serve para conseguirmos passar nosso intuito e visão musical em seus detalhes para o ouvinte, possibilitando uma audição plena e satisfatória, sem mascarar nada nem deixar ambíguo. Entāo, sim. Acredito que parte do sucesso do álbum está na gravação e mixagem, mas este nível de excelência é e sempre foi um requerimento básico para o SCARS.

Metal Na Lata: O álbum será lançado fora do país pela Brutal Records. Como surgiu a oportunidade de assinar com eles?
Alex Zeraib: Nós fomos muito afortunados em poder fazer a captação de todos os instrumentos e vozes antes da instauração do isolamento, assim conduzindo a mixagem toda à distancia com o Wagner, online. Foi durante a mixagem que eu e nosso assessor Johnny Z. começamos a procurar pessoas chave para termos uma boa distribuição do álbum. Ligamos para muito poucos números e tivemos algumas negativas ou simplesmente indiferença quanto ao pedido de uma parceria conosco. Foi quanto demos o último tiro e pedi ao Johnny Z. para perguntar ao pessoal da banda HellgardeN como eles haviam conseguido o acordo com os americanos da Brutal Records. O Diego (vocalista) foi um grande cara e intermediou nosso contato inicial com o Michael Howards, CEO do selo americano. No dia seguinte, eu e o Michael ficamos no telefone por um par de horas, conexão São Paulo – New Orleans, e fechamos um ótimo acordo. Papéis foram assinados, escaneados e enviados, e assim tínhamos um contrato com uma gravadora internacional onde ela (Brutal Records) cuidará do EUA e Canadá, a Voice Music abrangerá o Brasil através do excelente trabalho do Silvio Golfetti, e a Proper Music fará Europa e resto do mundo. Toda a distribuição digital fica a cargo da SONY Music/The Orchard mundialmente. Somos gratos pelo trabalho pivotal do Johnny Z. nisso tudo, pela intermediação e camaradagem do Diego do HellgardeN e ao Michael Howard, por acreditar em nosso trabalho.
Metal Na Lata: A estrada definitivamente é o lugar da banda. Não importa aonde, se é abrindo para grandes nomes ou em algum buraco escondido. Ter essa vivencia em cima dos palcos traz um resultado nítido com músicas mais coesas nos álbuns principalmente agora em “Predatory”, concordam?
Alex Zeraib: Sem dúvida, o SCARS tem em seu histórico centenas de shows ao longo de sua existência, nos mais diferentes locais e estruturas. É no palco que você sente o que funciona e o que não funciona, a partir da interação com o público e vendo sua reação imediata “sem filtro”. Com certeza levamos essa experiência de volta às composições e ao estúdio. Hoje essa experiência está aliada a sermos mais maduros (mais velhos mesmo) e nos baseamos na tranquilidade e calma para construir um álbum, com isso somos muito auto-críticos e seletivos no que compomos.
Metal Na Lata: Hoje em dia muito se prega que uma banda seja como uma empresa. Profissionalismo, planejamentos e muita dedicação, a paixão quase é ignorada por muito. Aquela pureza dos primórdios é quase que inexistente. Como vocês que vieram de uma escola que pregava a união, a camaradagem ao montar uma banda e sair para tocar enxergam esses novos tempos? E como a banda hoje em dia funciona atrás das cortinas?
Alex Zeraib: Sem ter a paixāo pelo o que fazemos em primeiro plano, nāo conseguiríamos ter energia e perseverança para sobrepassar os obstáculos, que sāo muitos, e ir adiante. Essa paixāo é o motor principal que alimenta toda a engrenagem. Contudo, para tudo funcionar é necessário haver método e planejamento claros e antecipados, execução coordenada e coerente, além de muita organização de cada membro da banda. Muitas bandas hoje em dia não demonstram ter o mesmo comprometimento com a cena e seus colegas com antes. Não há uma cena local bem estruturada e unida. Passamos grande parte do nosso tempo estabelecendo e nutrindo relacionamentos com bandas colegas nossas, criando nossa própria teia de networking por trás das cortinas e ajudando quem nos ajuda. Juntos somos mais fortes, sem dúvida nenhuma.
Metal Na Lata: Em 2021, o Scars completou 30 anos de fundação. Por conta da pandemia a divulgação de “Predatory” na estrada estão suspensas até segunda ordem. Vocês já têm em mente ao algo especial que una passado e presente para um ano tão especial?
Alex Zeraib: Sim, nós já temos um plano e vamos fazer algo muito especial – e já o estamos executando, por partes. Estamos na fase inicial do “Projeto 30 anos” e é tudo que posso dizer agora. Estamos, neste momento insano que o mundo vive, desfrutando do lançamento do “Predatory”, mas o SCARS tem muito mais para oferecer nos anos por vir.
Metal Na Lata: Vocês são uma banda veterana tendo passados por poucas e boas. Qual o conselho para quem está começando agora e sonha com a clássica ilusão do meio musical: Sexo, Drogas e Rock N’ Roll”?
Alex Zeraib: O mundo é muito diferente agora e as crises financeiras mundiais dos últimos 12 anos não possibilitam a riqueza imediata como nos fins dos anos 60 e 70. Entāo, o primeiro conselho é: não faça por dinheiro, pelo menos não como a principal prioridade. Como disse Michael Howard, CEO da Brutal Records, “Você não vai ficar rico, mas vai ficar famoso.” O segundo é: seja honesto em sua arte. Seja você mesmo e expresse o que há dentro de você, sem filtros ou convenções pré-estabelecidas. E por último: tire vantagem de toda a tecnologia moderna para espalhar sua arte para o mundo, sem moderação. São infinitos os veículos disponíveis para divulgação gratuita mundial da sua banda.
Metal Na Lata: Para finalizar, como vocês apresentariam “Predatory” para um futuro novo fã?
Alex Zeraib: Eu gostaria que um novo fã conhecesse “Predatory” nos headfones, em um volume alto, sentado confortavelmente em sua melhor poltrona e com um bom estoque de sua bebida favorita por perto. Pediria que o escutasse sem interrupções uma vez e que me desse uma opinião logo em seguida, sem voltar uma segunda vez ainda ou pensar no que ouviu. Eu gostaria de ver sua reação emocional imediata, não racional, da obra – boa ou ruim, positiva ou não. Se essa audição não causar nenhuma emoção no ouvinte, então falhamos em toda nossa investida. O intuito da nossa música é mexer com as pessoas e tentar enriquecer suas vidas de alguma maneira, por menor que seja.
Metal Na Lata: Obrigado pela entrevista, o espaço final é todo seu.
Alex Zeraib: Muito obrigado William por uma entrevista muita bem pensada, diferenciada e detalhada, gostei muito de responder suas perguntas. Obrigado por todo o suporte que você vem nos dando e contamos com você para continuar narrando a continuação da história do SCARS. Obrigado ao Metal na Lata por ceder o espaço mais uma vez. Que venha “Predatory”!
Mais informações:
www.facebook.com/scars.thrash
www.youtube.com/channel/UCVxq9GLRKzsP5CnZ8GcEisw





