ENTREVISTA EXCLUSIVA COM CHRIS HAGER (ROUGH CUTT)
Los Angeles no começo dos anos 80 era a terra das oportunidades para jovens músicos do hard rock. Em meio à efervescência da cena que deu ao mundo Mötley Crüe, Quiet Riot e Ratt, alguns nomes menos citados, mas de talento semelhante, corriam por fora em busca do seu momento. Foi o caso do Rough Cutt, que por melhor que tenha atuado em sua curta trajetória naquela década – apenas dois discos, hoje clássicos cult do gênero, lançados – e de ter sido apadrinhado por ninguém menos que Ronnie James Dio – a esposa de Ronnie, Wendy, era empresária da banda –, nunca conseguiu ascender ao mesmo patamar de alguns de seus contemporâneos. De volta à ativa em caráter definitivo desde o final de 2019, o grupo, chefiado pela dupla Chris Hager (guitarra) e Dave Alford (bateria), únicos remanescentes da formação clássica, parece motivado não só a retomar o tempo perdido como também a conquistar novos fãs e obter o reconhecimento que lhe é devido há mais de três décadas. De sua casa em L.A., Chris falou com o Metal Na Lata sobre o passado, o presente e o futuro do Rough Cutt. Acompanhe!
Por Marcelo Vieira
Fotos: Divulgação
Metal Na Lata: A volta do Rough Cutt vem sendo orquestrada desde 2016, com a banda tocando em eventos selecionados aqui e ali. Em que momento nos últimos quase quatro anos vocês decidiram que estava na hora de retomar as atividades com força total? Festivais como o M3 e eventos como o Monsters of Rock Cruise, dois indicativos de um interesse renovado no som das bandas dos anos 80, desempenharam algum papel decisivo?
Chris Hager: Bem, isso depende de para quem você pergunta na banda. Inicialmente, todo mundo gostava de tocar nos cruzeiros e tal, mas nem todos gostaram quando a coisa começou a ficar mais séria… nunca tive qualquer hesitação [para voltar à ativa] e dediquei muito tempo e muita energia para tornar [o Rough Cutt] viável novamente. Infelizmente, nem todo mundo via da mesma forma. É como diz o ditado: merdas acontecem.
Metal Na Lata: Nesse ínterim, porém, os fãs foram pegos de surpresa com a formação do Rough Riot, que juntava músicos que tocaram no Rough Cutt e no Quiet Riot, sendo o vocalista Paul Shortino o elo entre essas duas instituições do hard rock. Só que da noite para o dia, as redes sociais do Rough Riot mudaram de nome para Carlos Cavazo’s Rough Riot e o seu nome não constava mais na formação. Já que a coisa não ficou muito clara, você poderia nos explicar o que aconteceu?
Chris Hager: Não vou entrar em detalhes. Foi um experimento que não deu certo com aquele grupo de indivíduos. Novamente, cada um tinha um propósito diferente e razões próprias para fazer ou deixar de fazer. Quem não arrisca, não petisca, é o que eu sempre digo. Eu curtia tocar com Carlos, que é um ótimo músico e um ótimo sujeito. Ele e sua esposa, Vicki, sempre foram muito atenciosos comigo. A amizade permanece, no que depender de mim…
Metal Na Lata: Logo depois, em 21 de outubro de 2019, você anunciou a nova formação do Rough Cutt. Das antigas, apenas você e o baterista Dave Alford. Quem está com vocês dois nessa nova empreitada?
Chris Hager: Nos vocais temos o meu velho amigo e colega de banda Steven St. James, também conhecido como Santiago. Nós dois tivemos uma banda chamada Sarge no começo dos anos 80. Ele acabou sendo pego pela Motown. [O baixista] Matt Thorne também fez parte dessa banda e nós dois acabaríamos tocando juntos no Rough Cutt em seguida, mas não antes de gravarmos um EP como Sarge com Rob Lamothe (Riverdogs). Acho que você ainda consegue encontrá-lo por aí. Na guitarra, Darren Housholder, que também toca com Jizzy Pearl (Love/Hate) e já tocou com vários outros artistas. Ele é um ‘shredder’, além de ser super gente boa! No baixo, Jeff Buehner, que também toca com [a] Dilana, além de ter seu projeto solo – outro cara muito talentoso.
Metal Na Lata: O primeiro show desse novo Rough Cutt ocorreu em 29 de novembro de 2019 – pouco mais de um mês após o anúncio da nova formação. Na ocasião, vocês abriram para o L.A. Guns. O progresso foi muito rápido e todos parecem estar felizes com o resultado, mas e quanto a músicas novas? Podemos esperar por elas? Um novo disco, talvez…?
Chris Hager: Sim, foi um bom show… E, sim, vocês podem esperar por músicas novas. Temos um EP composto e estamos compondo músicas novas regularmente. Despertamos o interesse de algumas gravadoras, mas ainda não batemos o martelo.
Metal Na Lata: O repertório desse primeiro show teve dez músicas, sendo cinco de “Rough Cutt” (1985) e cinco de “Wants You” (1986). Considero ambos os discos igualmente bons, mas e você, como definiria cada um deles?
Chris Hager: O primeiro, sombrio. O segundo, brilhante.
Metal Na Lata: No primeiro álbum vocês contaram com a produção de Tom Allom (Judas Priest, Y&T). Já o segundo foi produzido por Jack Douglas (Aerosmith). Sei que faz muito tempo, mas o que você lembra do trabalhar com esses dois hoje em dia lendários produtores?
Chris Hager: Boa pergunta. Originalmente estávamos programados para fazer o primeiro disco com Ted Templeman (Van Halen) que foi o cara que conseguiu que fossemos contratados [pela Warner Bros.]. Infelizmente, Ted estava ocupado demais com o Van Halen e depois com David Lee Roth, então ficamos meio que em compasso de espera por quase um ano, o que nos prejudicou. Tivemos de partir para um plano b e todos nós amávamos os discos do Judas Priest que Tom havia produzido. Senti que ele era o cara certo para o primeiro álbum, pois revelou as nuances e melhorou o clima sombrio da maioria das músicas. Um bom exemplo disso é a mixagem dele em “Black Widow”; é mágica, incrível. Tom e o engenheiro de som, Mark Dodson, realmente entenderam a nossa proposta e obtiveram alguns grandes sons, além de nos ajudarem com arranjos. Uma dupla espetacular. Já Jack Douglas e Jay Messina tinham uma abordagem diferente da de Tom. Por um lado, as músicas eram diferentes porque estávamos adotando um som mais acessível e convencional que exigia um estilo de produção diferente. As músicas eram mais direto ao ponto. No entanto, Jack era um mestre em camadas e texturas, e você pode ouvir isso do início ao fim do disco. Ele também ajudou nos arranjos e transformou cada música em sua própria paleta de sons. Tanto Tom quanto Jack fizeram trabalhos ótimos à sua própria maneira. Ambos foram espetaculares.
Metal Na Lata: De quem foi a ideia de lançar um cover como single? Por mais legal que a versão de “Piece of My Heart” de vocês seja, o primeiro álbum tem muitas outras músicas com mais potencial. Se dependesse de você, qual teria sido o segundo single?
Chris Hager: Não nos incomodamos de lançar “Piece of My Heart” [como segundo single] tendo em vista que a nossa versão tinha muita identidade e se encaixava bem com a voz de Paul. O que não gostamos mesmo foi quando escolheram “Never Gonna Die” [como primeiro single]. A Warner Bros. forçou a barra nessa. Dito isso, acho que “Dreamin’ Again” teria sido uma escolha melhor já que foi a música que nos assegurou o contrato [de gravação] e possuía um excelente refrão. Até hoje eu penso que ela poderia ter sido um grande sucesso.
Metal Na Lata: Recentemente, o selo britânico Rock Candy Records relançou os dois álbuns do Rough Cutt em edições caprichadas. Qual foi o seu envolvimento no processo?
Chris Hager: Nenhum, tendo em vista que eu não detenho as fitas máster. A Rock Candy licenciou diretamente com a Warner Bros. e nós só ficamos sabendo depois. Até onde eu sei, ela fez um bom trabalho de remasterização e distribuição. Por mais que haja outras edições no mercado, eu particularmente sempre quis que os fãs pudessem ouvir esses discos com a melhor qualidade de áudio possível.
Metal Na Lata: Em 2008, a Deadline Music lançou a coletânea dupla “Anthology”, que inclui gravações datadas de 1987. Qual é a história por trás desse material?
Chris Hager: Isso é uma demo que gravamos após nossa saída da Warner Bros., numa tentativa infrutífera de conseguir outra gravadora. Essas músicas foram produzidas por Brad Aaron (Kansas). Infelizmente, a banda se separou pouco tempo depois disso.
Metal Na Lata: Muitos jornalistas reduzem a importância do Rough Cutt a “trampolim para músicos que eventualmente se destacariam como membros de outros grupos”, como Craig Goldy e Jake E. Lee, o que é uma injustiça sem tamanho. Isso incomoda você? Como você avalia a importância do Rough Cutt na cena daquela época?
Chris Hager: Na época foi complicado. Perdemos o timing, perdemos a nossa pessoa de confiança na Warner e acabamos num mato sem cachorro. Fizemos longas turnês dentro e fora dos Estados Unidos, videoclipes etc., mas, infelizmente, nunca emplacamos um hit nas paradas. Sendo assim, eu não acho que sejamos dignos de ter a nossa importância reduzida dessa forma. E para cada jornalista que faz esse tipo de comentário, há uma centena de fãs que adorariam nos ver tocar. Acredite em mim!
Metal Na Lata: Você acredita que a banda poderia ter ido mais longe caso Paul não tivesse aceitado o convite para cantar no Quiet Riot?
Chris Hager: É difícil dizer, pois a cena já estava em vias de mudar. Basicamente, Kevin [DuBrow] e Rudy [Sarzo] deixaram o Quiet Riot e a nossa empresária, Wendy Dio, deu um jeito de fazer Paul subir a bordo. Há muitos outros detalhes nessa história, mas não cabe a mim falar sobre eles, exceto dizer que as coisas não saíram como o esperado. Mas o disco que eles fizeram [“Quiet Riot” (1988)] ficou bem legal.
Metal Na Lata: Como fã do saudoso Ronnie James Dio, não consigo evitar perguntar sobre o Hear ‘n Aid. Há duas coisas que eu gostaria de saber: como foi a noite de gravação de “Stars” e, tendo em vista que a esposa de Ronnie era a empresária do Rough Cutt, por que nem você nem Amir Derakh, ambos ótimos guitarristas, não contribuíram com solos para a música?
Chris Hager: Foi uma experiência incrível, todos estavam empolgados e havia muito pouco ou nenhum ego envolvido. Conhecemos alguns de nossos artistas favoritos os quais crescemos ouvindo e foi realmente ótimo fazer parte de algo pelo bem maior. Tenho orgulho de ter desempenhado um pequeno papel em uma ocasião tão memorável e de ter encontrado algumas das minhas personalidades favoritas do rock. Quanto a não ter tido um solo na música, veja bem, havia tantos outros guitarristas talentosos por lá e já seria um pesadelo tão grande gravar e editar tudo que eles deram preferência aos nomes com maior notoriedade – totalmente compreensível, na minha opinião.
Metal Na Lata: Sendo você ex-integrante do Mickey Ratt, a banda que deu origem ao Ratt, e tendo você recentemente tocado ao lado do L.A. Guns de Phil Lewis e Tracii Guns, qual a sua opinião sobre essa coisa de haver dois Ratt (um chefiado por Bobby Blotzer e outro por Stephen Pearcy e Juan Croucier) e dois L.A. Guns (sendo o outro comandado pela dupla Nickels-Riley)? Não fica muito confuso para os fãs? Qual seria o critério para decidir qual é o “oficial”?
Chris Hager: Acho que muitos fãs não fazem ideia de que isso acontece e sempre esperam ver os integrantes originais quando compram seus ingressos. Há também aqueles que sabem o que rola e aceitam e, por fim, aqueles que no fundo só querem ouvir as músicas que gostam independentemente de quem as estiver tocando. Por fim, acredito que a versão que incluir o detentor dos direitos pelo nome pode ser considerada a oficial. No caso do Ratt, eu estava lá quando Stephen criou o nome… [risos]
Metal Na Lata: O que 2020 reserva para o Rough Cutt e para você individualmente?
Chris Hager: Boa pergunta! Até agora, o Rough Cutt fez alguns shows e compôs algumas músicas novas muito boas. Estou ansioso para lançar esse novo material! Também queremos fazer muito mais shows, já que tivemos de cancelar alguns devido a pandemia do coronavírus. Estamos tentando trabalhar o máximo que as atuais circunstâncias nos permitem, pois a Covid-19 basicamente colocou toda a indústria em pausa indeterminada. Eu, por minha vez, comecei a compor músicas para a TV, para programas esportivos, trailers de cinema etc. Acho isso gratificante e mantém minha criatividade fluindo, aprimorando a minha técnica e, ao mesmo tempo, construindo um catálogo que está em pleno crescimento. Isso é algo que comecei a fazer desde os anos 80 e até contribuí com alguns filmes, mas agora a coisa ficou mais séria. Todos nós temos que ganhar a vida de alguma forma!
Metal Na Lata: Obrigado por essa entrevista, Chris! Espero que você tenha gostado do bate-papo tanto quanto eu! Vamos encerrar com uma mensagem para os leitores do Metal Na Lata!
Chris Hager: Primeiro, deixe-me dizer que meus pensamentos estão voltados para todos que contraíram o coronavírus e para todas as famílias e amigos daqueles que infelizmente perderam a vida por causa da doença. Como a pandemia é tão abrangente, nós que vivemos de música, de tocar ao vivo, estamos passando por momentos difíceis, tendo shows cancelados, nenhum ensaio etc. Tenho a sorte de continuar compondo no meu estúdio em casa. Muitos de nós temos a sorte de possuí-los, mas alguns não têm e, sobre eles, o vírus impôs uma carga extra. No geral, espero que aqueles que mais sofreram recebam os fundos necessários para manter a barriga cheia e um teto sobre a cabeça. Agradeço pela chance de poder conversar um pouco com você e estou ansioso para voltar a todo vapor quando for a hora certa! Atenção, leitores do Metal Na Lata: o Rough Cutt espera ver vocês no próximo ano! Fiquem ligados…
Mais informações:
www.chrishager.net
www.facebook.com/RoughCuttOfficial
twitter.com/ChrisHagerLA
www.instagram.com/chrishagerla
