Entrevista com Cláudio David (Overdose)
Pioneiro do heavy metal brasileiro, o Overdose é um dos nomes fundamentais para a consolidação do estilo no país, especialmente na efervescente cena de Belo Horizonte dos anos 80 até o meio dos anos 90. Ao lado de bandas que ajudaram a moldar o som pesado nacional, o grupo construiu uma trajetória marcada por clássicos cultuados, apresentações intensas e uma sonoridade que evoluiu do heavy tradicional para vertentes mais modernas e agressivas. Décadas depois, o Overdose retorna com nova formação e força renovada, conectando diferentes gerações de fãs e reafirmando sua relevância no cenário atual — prova disso é a presença confirmada no Bangers Open Air deste ano. Confira nosso bate-papo com o membro fundador Cláudio David.
Pauta por Johnny Z.
Conduzido por Henrique Haag
O Overdose está confirmado no Bangers Open Air — o que esse convite representa para a banda hoje?
Cláudio David: Representa muito. Antes desse EP que a gente começou a montar com singles, eu já tinha aposentado as chuteiras. Estava conformado — estou mais velho, não estou bem de saúde, sou ansioso, fumo, não sou muito cuidadoso… então já começa a ficar mais difícil encarar essa correria. Então, cara, representa muito, porque a gente acabou voltando aos poucos, meio sem querer querendo. A coisa foi acontecendo, fomos nos animando e, quando vimos, já estava crescendo até chegar nisso. A gente fez muitos shows, o que já foi bacana demais — um lucro enorme, principalmente pela presença do público antigo e pela renovação. Temos ficado surpresos: aparece muita gente nova nos shows. Isso é algo que eu sempre gosto de enfatizar. Agora acho que é mais um passo. Tocar no Bangers, sair de Minas e tocar em São Paulo de novo, em um festival desse porte… é um avanço importante. Está tudo meio que no lucro, mas, claro, estamos correndo atrás também. Conseguimos essa oportunidade e torcemos para que ela abra portas para outros festivais pelo Brasil.
Tocar em um festival desse porte tem um significado diferente dentro da trajetória do Overdose?
Cláudio David: Tem, sim. É mais um passo. A gente já vinha fazendo shows muito bacanas, o que por si só já era um grande ganho, e isso mostra que a coisa está andando. Voltamos sem muito planejamento, mas foi crescendo. Chegar em um festival desse porte é importante — é um avanço natural dentro desse processo.
O que o público pode esperar do show? Vai ser mais voltado ao clássico ou teremos surpresas?
Cláudio David: Vai ter novidade, cara. Não sei quantas — uma ou duas. Vamos tocar músicas que não apareciam no set há muito tempo, que o pessoal pede bastante. Também vamos estrear algumas com a nova formação. E o pessoal está animado para tocar “Cybernetic Algorithms”, que a gente ainda nem lançou. Confesso que fico meio apreensivo, porque ela tem muitos elementos — várias guitarras, muitos vocais — e isso complica ao vivo. Mas a banda quer tentar, então pode ser que role esse “teste” já no show. No geral, o repertório vai mesclar músicas novas com clássicos. “Anjos do Apocalipse” não pode faltar, e vamos focar bastante no público das antigas. O que dá pra prometer é um show com muita energia e peso. A banda está muito entrosada ao vivo, soando forte. Estamos tocando dois tons abaixo, então está ainda mais pesado. Vai ser quebradeira mesmo — como sempre foi o Overdose.
Como vocês pensaram o setlist para um festival com público tão diverso?
Cláudio David: É complicado. Montar repertório de festival nunca é fácil, ainda mais com material novo entrando. Devemos tocar duas ou três músicas novas, mas com foco maior no repertório antigo. Colocar toda a essência do Overdose em uma hora é difícil, ainda mais equilibrando fases diferentes da banda. É uma tarefa complicada, e temos debatido bastante isso.
Dividir lineup com bandas de diferentes gerações muda a forma como vocês encaram essa apresentação?
Cláudio David: A gente pensa nisso, sim. Tem bandas mais extremas no festival, então rola essa preocupação com o público. Mas acho que o Overdose se encaixa bem ali. No fim, o pensamento é outro: precisamos fazer um grande show. Temos que chegar e arrebentar. A reação do público é consequência. Festival tem aquela correria — troca de palco, equipamento — é mais estressante, mas a ideia é fazer o melhor possível.
Você já percebe uma aproximação com novas gerações de fãs nessa fase atual?
Cláudio David: Estou amando isso. Hoje, com Instagram e Facebook, o contato é direto. Tem muita gente nova descobrindo a banda, mandando mensagem, querendo tocar as músicas. Eu converso com bastante gente, mando vídeo ajudando. Tem até pessoal do metal mais extremo tocando “Última Estrela”, por exemplo. Isso é muito legal. Essa interação com a galera mais nova, somada às músicas novas, está sendo muito bacana. E ver essa molecada indo aos shows é melhor ainda. Fico feliz de perceber que não vai morrer, que vai continuar. Sempre acreditei que o metal atravessa gerações — e isso está provando isso.
Esse momento mais ativo da banda está ligado a um plano maior de retomada?
Cláudio David: No começo, não. Foi acontecendo naturalmente. Mas agora a coisa está mais estruturada. Estamos fazendo shows, lançando músicas… então virou, sim, algo mais planejado. A gente não está parado — está correndo atrás.
O Overdose já lançou alguns singles com a nova formação — como tem sido a recepção desse material?
Cláudio David: A receptividade está sendo muito boa. Não chega a me surpreender, porque acho que as músicas ficaram bem legais, mas está sendo excelente. Principalmente por ser uma formação nova. O Bozó era fundador comigo, um cara muito carismático, e eu sou fã dele. Essa foi a parte mais difícil: continuar sem ele. Claro que ainda aparecem algumas “viúvas”, mas a grande maioria está recebendo muito bem. O público antigo está curtindo, e a galera nova também — isso é essencial. Conseguimos estabilizar a formação, o que não era garantido. A gente não sabia como seria a reação. Eu queria continuar. O Bozó não quis — a gente tentou — mas ele achou que não dava, e talvez realmente não desse. Então está sendo muito bom manter o Overdose ativo, tocando essas músicas e mantendo o legado vivo.
Esses novos sons apontam para um próximo lançamento maior, como um EP ou álbum?
Cláudio David: A ideia é fazer um álbum completo. Eu gostaria muito de lançar pelo menos um EP físico. Mas a galera está animada para fazer sete ou oito músicas. A quarta está saindo agora, e devemos compor mais algumas. Já tem mais uma engatilhada. Eu tinha prometido cinco, mas talvez façamos mais. Não sei se todas inéditas — pode rolar alguma regravação —, mas a ideia é fechar um trabalho maior. E quero físico. Sou da antiga — gosto de ter algo para pegar.
Depois do Bangers Open Air, quais são os próximos passos do Overdose?
Cláudio David: Vamos lançar essa quarta música agora e, depois, pensar em um clipe. Na sequência, partir para a próxima, sem parar de tocar. O que a gente mais gosta é subir no palco, então vamos continuar fazendo shows. No ano passado focamos muito em apresentações, porque a banda ainda estava se entrosando, e acabamos deixando a produção um pouco de lado. Agora a ideia é acelerar isso e tentar fechar esse álbum com sete ou oito músicas.
Obrigado pelo bate-papo, mesmo sendo curto pela limitação de tempo, mas nos veremos lá no Bangers Open Air!
Cláudio David: Eu que agradeço. Espero que vocês curtam essa nova fase do Overdose também nos palcos, tanto quanto nós estamos curtindo.
Crédito: Foto por Bruno Bavose
Siga o Overdose em:
Instagram: @overdose_banda
Facebook: overdosebrazil
TikTok: @overdose_banda

