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Entrevista com Flávio Ferb (Vírus)

Vírus é uma banda cujos feitos valorosos justificam o seu reconhecimento, ainda que tardio, e o culto em torno de seu nome, pioneiro no Metal Nacional e um dos primeiros a levar o nosso idioma para dentro do universo das guitarras elétricas. Do underground à moda antiga – amizade, amor ao Heavy Metal, shows, base de fãs, a participação na histórica coletânea “SP Metal” (Baratos Afins, 1984). A banda Vírus não tem estórias para contar, ela faz parte da própria história, como atuante e testemunha. Confira nossa entrevista com o vocalista Flávio Ferb, que nos deu detalhes sobre o disco “Contágio”, memórias, shows e curiosidades da carreira.

Por: William Ribas
Fotos Divulgação

Metal Na Lata: No ano passado saiu “Contágio”, o tão aguardado e sonhado primeiro disco do Vírus. A maioria do repertório já era tocado por vocês nos anos 80. Na hora da gravação a banda pensou em dar uma nova roupagem para aquelas músicas antigas ou a ideia era gravar tudo fielmente ao que já tocavam no passado?

Flávio Ferb: Na verdade, o que determinou a forma que as músicas foram finalmente gravadas foi a passagem desse grande período de tempo, desde os anos 80 até hoje. Sabíamos do potencial criativo de cada música e desde que voltamos a resgatá-las ensaiá-las para os novos shows e fazer a pré-produção do álbum, tivemos a certeza de que muita pouca coisa deveria ser mexida. Elas desde aquela longínqua época estavam prontas e eram incrivelmente perenes.

 

Metal Na Lata: Mesmo que tenhamos uma gravação forte e atual, não tem como escutar o disco e não sentir uma volta ao passado. Sou de 1984, não vivi aquela cena dos anos 80, mas escutando faixas como “Metal Pesado” e “Sinos Negros” me fazem imaginar um pouco como era os shows da época. Trazer o sentimento de nostalgia era um dos propósitos de vocês ao gravar o álbum?

Flávio Ferb: Acredito que não. Penso que é natural as pessoas fazerem esse “resgate” dos anos 80 quando ouvem nosso álbum. Somos uma banda que surgiu efetivamente em plena efervescência do NWOBHM, e as músicas trazem sim um DNA oitentista. Entretanto nossa bagagem dentro da música pesada já começou desde 1977 ou 78, quando tínhamos 13 ou 14 anos de idade e caíamos de cabeça nos álbuns emblemáticos do Sabbath, do Purple, do Rainbow com Dio, do Judas, do Kiss… Então vejo que essa mistura de influências originais executada com as vivências musicais atuais de cada integrante, consegue sobrepor essa nostalgia.

 

Metal Na Lata: Inclusive, essa preocupação de manter o espirito dos anos 80 também está na belíssima arte gráfica do álbum.

Flávio Ferb: Obrigado! Realmente essa foi uma parte que sempre esteve em nosso foco. O “Contágio” era imaginado em nossas mãos desde aquela época e queríamos que realmente fosse essa a sensação: pegar o CD, abrir, folhear o encarte com as letras e etc… Exatamente como fazíamos com os lançamentos dos nossos ídolos – isso tudo além de poder explorar o conceito de cada música transformada em imagem.

Metal Na Lata: Mesmo que existam as influencias dos grandes heróis dos anos 70 e 80 ao escutar o “Sp Metal” e agora o “Contágio”, é perceptível que a banda sempre teve a sua identidade própria. Como é feito o processo criativo entre vocês?

Flávio Ferb: Quase sempre o Fernando Piu (Guitarra) trazia uma composição base e eu e mais alguém da banda fazíamos uma letra que combinasse. Muitas vezes o Piu levava uma letra para se inspirar e criava a música em cima do tema da letra. Depois nos ensaios todos opinavam em relação a arranjo, variações, atmosferas, etc. Sempre deu um resultado legal.

Metal Na Lata: Acredito que vocês acompanham a repercussão que o álbum vem alcançando. Vendendo bem em lojas, comentários na internet, shows e mídia. Existe algum momento que vem na cabeça o pensamento: “Ah, se tivéssemos lançado esse trabalho em meados de 1985”?

Flávio Ferb: Claro! Isso sempre vem à cabeça – que rumo a banda teria tomado? O que teríamos conseguido? Mas como não rolou naquela época, vamos aproveitar o agora e viver junto com os amigos e fãs! Está sendo muito bacana poder estar aqui e realizar tudo isso com um sentimento de uma “nova experiência”!

Metal Na Lata: Antes da tecnologia, as bandas eram formadas por amigos de escola e bairro. Como aconteceu a formação da banda e a caminhada até o convite para gravarem “Matthew Hopkins” e “Batalha no Setor Antares”, na coletânea “SP METAL” organizada pela loja Baratos Afins?

Flávio Ferb: Foi exatamente assim mesmo! Primeiro, amigos do bairro: Eu, meu irmão Renato e o Cássio (no caso do Planalto Paulista em São Paulo), depois da escola (o colégio onde estudávamos em Moema) – aí a banda se completou com o Fernando Piu e o Caio. Naquele tempo íamos religiosamente ao centro de sampa, nas lojinhas underground, para comprar e trocar discos (Lps). Também estávamos fazendo muitos shows em festivais de colégios, pequenos teatros… havia a Praça do Rock na Aclimação, etc., então quando o Luis Calanca sacou que havia um “movimento” se formando com o surgimento de muitas bandas, ele teve a ideia de lançar uma coletânea de Metal… E nessa fomos convidados para participar do “SP Metal vol 1”.

Metal Na Lata: Além da música forte e criativa, o Vírus foi um dos pioneiros do metal brasileiro na parte de arte cênica em suas apresentações. Em que momento viram que além da parte sonora era preciso algo visual para impactar o público?

Flávio Ferb: Acho que foram 3 fatores principais: Eu particularmente não conseguia separar uma coisa da outra: som pesado e visual forte e agressivo para fazer realmente um show diferente. Outro fator foi que dava para ver pelas fotos e raros clipes, que as bandas gringas daquela época tinham mais ou menos um visual bem pensado. E o terceiro era que eu, o Renato e o Caio éramos fãs do Kiss!

 

Metal Na Lata: Acho que é inevitável perguntar. Após boa repercussão do “SP Metal”, shows e uma grande legião de fãs, muito se esperou do grupo. O que aconteceu que quase num passe de mágica a banda sumiu?

Flávio Ferb: Hoje eu vejo que realmente a questão fundamental para não termos gravado e depois de um tempo parado, foi a falta de grana para investir. Você sabe, era tudo muito diferente, era muito caro… estúdio, fitas de rolo e trampo dos técnicos, depois a prensagem do vinil que era um custo muito alto. Por duas vezes ficamos no “quase” pois as gravadoras independentes que estávamos negociando na época “quebraram” em consequência dos planos econômicos que estouraram, desequilibrando o dinheiro que já era pouco e inviabilizando os planos.

 

Metal Na Lata: Décadas depois, a banda voltou. Como se deu a volta aos palcos em 2015, e por que a demora para que finalmente resolvessem gravar em estúdio?

Flávio Ferb: Fizemos alguns shows bem esporádicos –  nos anos 90 alguma coisa, em 2005 e 2007 no saudoso Blackmore Bar, algo tipo revival.  Mas em 2015 quando o Calanca realizou o SP Metal 30 Anos no Sesc Belenzinho e nos chamou para essa comemoração, percebemos o bom momento. Naquele show já voltamos com o Lúcio assumindo as baquetas, ele já era nosso velho brother, inclusive ele já havia entrado na banda nas últimas apresentações no final dos 80s), e um novo baixista (o Déio, nosso outro irmão que assumiu as cordas graves nesses primeiros shows do retorno. Mas desde 2017 quem assumiu o baixo em definitivo foi o Gui Tatu). Nos ensaios e durante o show percebemos que a coisa toda estava rolando muito boa e, conversando entre nós, decidimos voltar a ativa.

 

Metal Na Lata: Em março aconteceu um show no Sesc Belenzinho. O show do Vírus foi um dos últimos que aconteceram antes dessa parada geral por conta da pandemia que estamos vivendo. A banda vinha se apresentando com regularidade, recebendo diversos elogios por onde passavam e fazendo com que o nome da banda crescesse mais e mais. Como está sendo essa parada para todos na banda? E existe alguma ideia para lançamentos digitais ou clipes que possam manter o nome da banda em evidencia? 

Flávio Ferb: Realmente! Esse atual show do SESC Belenzinho foi o “limiar do contágio” até um dia antes do show achamos que talvez seria cancelado, mas na verdade foi o último show no SESC antes da paralisação de tudo por causa da pandemia. O show do Vírus foi o último antes do vírus. Com certeza isso tudo deu uma quebrada em nossos planos de continuar com as apresentações para promover o álbum. Haviam 3 datas marcadas que foram canceladas e outras em vias de confirmação que obviamente foram interrompidas. Bom, estamos em contato trocando ideias de composições, continuando projetos de 3 músicas novas que estavam em andamento, e estamos aproveitando as redes sociais para divulgar as músicas e filmagens que foram feitas durante os últimos shows.

 

Metal Na Lata: Muito se reclama do Metal cantando em português. Na minha opinião, o Vírus ao lançar o seu primeiro álbum pagou uma dívida para quem curte o heavy metal nacional. Qualquer amante do metal brasileiro deve reverencias eternas a vocês e ao belíssimo trabalho que foi feito em “Contágio”.

Flávio Ferb: Você tem toda a razão!  Acho que por tudo que significamos naquela época, ficamos em dívida com a história do Metal nacional por não ter lançado o álbum naquele momento, mas felizmente agora foi! Sobre o cantar em português, para te dizer a verdade, foi natural. Em 1981 ou 82, começamos a banda e a fazer as músicas, a molecada tocar junto, ninguém sabia falar inglês e nem se pensava nessa questão “ser em inglês ou ser em português”, era na nossa língua e ponto. Depois apenas continuamos assim pois é assim em português que curtimos!

Metal Na Lata: Muito obrigado pela entrevista, o espaço final é todo seu.

Flávio Ferb: Para finalizar gostaria de agradecer em nome da banda toda: Eu, Renato, Fernando Piu, Lúcio e Guilherme Tatu! Estamos com muitos planos pela frente e o maior desejo é que realmente o público SEMPRE compareça aos nossos shows e também das outras bandas nacionais – pode ser clichê, mas é o fato real: o Metal só vai crescer com força na medida que o público presente nos shows também crescer com força! Valeu!

 

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