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Entrevista com Glauco Rezende (Endust)

Dez anos é tempo demais, e por todo esse tempo o Endust esteve quieto, ensaiando ou bolando um plano infalível para conquistar um lugar no coração de uma nação de headbangers. Pois bem, em 2019, o trio formado por Glauco Rezende (guitarra e baixo), Fernando Arouche (bateria) e pelo incrível vocalista e workaholic Leandro Caçoilo, resolveu nos dar de presente o disco “All Ends in Dust”, um trabalho pesado e técnico que tem tudo para agradar a todos. O Metal Na Lata bateu um papo exclusivo com Glauco, que deu todos os detalhes acerca da trajetória do Endust.

Por William Ribas
Fotos: Divulgação

Metal Na Lata: O Endust teve início em 2009. Conte para nós um pouco desse começo.

Glauco Rezende: Conheci o Fernando em 2007. No ano seguinte, nós resolvemos montar um projeto com amigos para tocar covers de metal, só por diversão. Esse projeto não durou muito, e logo depois eu o chamei para montar uma banda autoral, mesmo sem saber ao certo qual estilo e qual caminho seguir. Nós fizemos várias músicas — a maioria nem chegou a ser lançada no disco — enquanto eu procurava baixista e vocalista, mas ficamos vários anos sem conseguir firmar alguém pra tocar.

Metal Na Lata: Leandro Caçoilo é um dos principais vocalistas do país, mas faltava um projeto mais pesado em seu currículo. Como se deu o convite para ele ingressar no projeto?

Glauco Rezende: Desde o início, nós nunca conseguimos encontrar um vocalista definitivo para a banda. Eu já conhecia o trabalho do Leandro desde quando ele era do Eterna, então, em 2015, mandei uma mensagem para ele pelo Facebook, perguntando se ele conhecia algum vocalista para gravar uma música com a gente, e mandei algumas músicas nossas para ele ouvir. Ele curtiu o som e acabou ele mesmo gravando. Depois disso, fiz o convite para ele gravar o álbum inteiro.

Metal Na Lata: Qual o significado por trás do nome da banda?

Glauco Rezende: Endust é uma palavra sem significado que acabou surgindo na minha mente em algum momento. Depois que esse nome já estava definido para a banda, e enxerguei as palavras óbvias “end” e “dust” dentro dele, o que passa a ideia de “fim de algo”, um templo antigo ou uma cidade em ruínas, a morte… Achei isso legal e acabei tirando daí a ideia da música “All Ends in Dust”, que é a faixa título do álbum.

Metal Na Lata: O som da banda é algo que podemos classificar como Thrash/Prog Metal. Temos momentos rápidos, pesados, mas também bastante técnicos. Juntar esses dois mundos sempre foi a ideia principal?

Glauco Rezende: De certa forma, sim, porque eu sempre gostei desses dois estilos. Na hora de compor, eu nunca pensei em seguir um determinado estilo ou imitar alguma outra banda, mas tudo aquilo que eu mais ouvia e gostava acabava exercendo uma influência nas músicas. No início, a ideia era ser mais Prog do que Thrash. Hoje, isso se inverteu, mas o legal mesmo é deixar as ideias fluírem.

Metal Na Lata: Não se prender a rótulos e passear por vários estilos seria o real propósito de vocês?

Glauco Rezende: Mais ou menos. A ideia principal é fazer um som com influências, principalmente, de Thrash e Groove Metal, e com uma certa liberdade para colocar ritmos e harmonias que não são tão comuns em bandas desses estilos, mas sempre mantendo esse lado mais pesado. Acredito que o diferencial nisso seja a forma que o Leandro canta, trazendo influências do metal tradicional e do Power Metal.

Metal Na Lata: “All Ends in Dust” saiu há alguns meses e recebeu vários elogios da imprensa e dos fãs de Heavy Metal de modo geral, inclusive fora do país. Como foram feitas as composições para o disco? O longo período que tiveram para compor, fazer a pré-produção e gravar, de certa maneira, ajudou na obtenção de um resultado tão homogêneo?

Glauco Rezende: Eu fazia as músicas e já tentava gravar as ideias de guitarra exatamente como iriam ficar em definitivo. Depois, mandava as gravações para o Fernando ir ouvindo até chegar a hora de ensaiar. No estúdio, o Fernando chegava com as ideias de bateria, ou a gente ia discutindo isso na hora. Depois que o Leandro entrou na banda, a gente conversava via Skype e definia as melodias de voz, para então eu fazer as letras em cima do que fosse definido. Esse processo foi demorado pelo fato de que nós ficamos muito tempo sem ter um vocalista, mas muito bom para que nós pudéssemos definir bem o estilo que iríamos seguir. Se tivéssemos lançado um álbum logo no início do projeto, com certeza ele teria sido bem diferente.

Metal Na Lata: Quão diferente?

Glauco Rezende: Nós já tínhamos feito várias músicas antes de começar a compor as que estão no álbum, a maioria delas também pesadas e com vários riffs, mas seguindo uma linha mais Prog e Power Metal. Eu também usava afinações de guitarra e baixo não tão graves quanto a afinação em C que usei no “All Ends in Dust” inteiro, e isso também faz muita diferença na sonoridade.

Metal Na Lata: Todo o disco foi feito em casa, com o Fernando cuidando da produção, as vozes sendo gravadas no estúdio do Caçoilo e você acabou gravando todas as guitarras e o baixo. Por que resolveram fazer tudo por conta própria?

Glauco Rezende: Fernando sempre se interessou por gravação e produção musical. Ele estudou isso e já gravou vários outros trabalhos de outras bandas. Eu também comecei a me interessar por isso, pesquisei bastante e recebi várias dicas do próprio Fernando. Por isso, decidimos produzir e gravar o nosso álbum por conta própria. Gravei as guitarras e o baixo na minha casa, a bateria foi gravada no estúdio do nosso amigo Kleber aqui em Várzea Paulista, e os vocais foram gravados no estúdio do Leandro em São Paulo. Depois, o Fernando cuidou da mixagem e da masterização de tudo isso.

Metal Na Lata: Por conta de o Caçoilo ter entrado quando as composições já estavam bem adiantadas, houve espaço para suas ideias e contribuições no disco?

Glauco Rezende: As partes instrumentais de todas as músicas já estavam praticamente prontas quando o Leandro entrou, e eu também já tinha ideia de melodia de voz para o refrão de todas elas. O mais difícil era criar as melodias para a maioria das estrofes, já que quase todas são feitas em cima de uma base instrumental mais Thrash Metal, o que exige mais interpretação do vocalista, porque são partes que ficam bem abertas para improvisos. Leandro entrou aí, criando as melodias na hora, improvisando com muita facilidade. Ele também alterou algumas partes de refrões e pré-refrões que eu tinha criado, além de ter arranjado todos os backing vocals e corais.

Metal Na Lata: Algo que chama bastante atenção no álbum são os riffs que remetem a grandes guitarristas como Michael Romeo (Symphony X), Jeff Loomis (Arch Enemy, ex-Nevermore) e Alex Skolnick (Testament). Quais são as suas principais influencias na guitarra?

Glauco Rezende: Esses caras que você citou são grandes referências pra mim e para muitos outros guitarristas de metal também. Na parte de solos e técnica, eu posso falar de inúmeros guitarristas que ouço e curto muito, mas o que mais me chama atenção são os guitarristas que, além de tocarem riffs e solos sensacionais, são grandes compositores em suas bandas, e aí os meus preferidos são o próprio Romeo, Mark Tremonti (Tremonti, Alter Bridge) e o saudoso Dimebag Darrell (Pantera, Damageplan).

Metal Na Lata: Muitas vezes ao fecharmos os olhos temos a referência do Nevermore em diversas faixas de “All Ends in Dust”. O modo bastante peculiar como Warrel Dane cantava e compunha etc. De alguma forma, consciente ou inconscientemente, o disco é uma homenagem à sua obra?

Glauco Rezende: Muitas pessoas perceberam influências do Nevermore no nosso som, inclusive o Leandro Caçoilo achou isso quando entrou no projeto. Eu fico feliz por isso, porque o Nevermore é uma das maiores bandas do nosso gênero. O Warrel sempre será lembrado por sua voz e por ser um dos maiores letristas do metal, e por isso merece ser sempre homenageado.

Metal Na Lata: “All Ends in Dust” não é conceitual, mas parece todas as letras parecem ter um mesmo curso em comum, como a experiencia do ser humano em lidar com várias emoções e questões durante a vida e seguir em frente lutando. Fale um pouco sobre a parte lirica do disco.

Glauco Rezende: Para esse primeiro disco, eu realmente não tive a ideia de fazer algo conceitual, mas depois também percebi que a maioria das letras se conectava, porque ali eu estava falando, indiretamente, de problemas pessoais que passei e superei, ou dando conselhos a mim mesmo. Eu não queria que as letras parecessem muito diretas, por isso usei algumas metáforas e ambientei as letras em lugares que surgiam na minha cabeça enquanto pensava em cada tema sobre o qual queria escrever. No fim, eu sei bem o que de cada letra tem a ver comigo e cada um que quiser entendê-las pode relacioná-las com algo que esteja vivendo ou tenha vivido internamente.

Metal Na Lata: Qual é o principal sentimento ao ver o álbum finalizado e lançado após dez anos?

Glauco Rezende: Pra mim, é um sentimento de alívio, porque é difícil guardar as músicas por tanto tempo, esperando a hora certa (ou a hora possível) para lançar. É como se fosse uma tarefa inacabada, e a gente sabe que tem que cumprir aquilo, até por uma questão de cobrança pessoal. Várias coisas aconteceram e acabaram atrasando o lançamento do álbum, mas no fim ele saiu, e eu tenho muito orgulho do que foi feito. Mas, sinceramente, o disco demorou tanto para ser lançado que nós já estamos meio enjoados de ouvir e tocar essas músicas. Para o pessoal é uma novidade, não para nós, por isso já fizemos várias músicas novas e o próximo trabalho não vai demorar pra sair.

Metal Na Lata: Quando poderemos ver a banda nos palcos?

Glauco Rezende: Essa é uma questão complicada porque não chegamos a um consenso sobre em quais lugares tocar, o que valeria a pena… Por isso, infelizmente, ainda não conseguimos fazer nenhum show depois do lançamento do álbum, mas pretendemos organizar um festival junto com outras bandas em São Paulo.

Metal Na Lata: Obrigado pela entrevista! O espaço final é todo seu.

Glauco Rezende: Eu que agradeço a você, William, e a todos do Metal Na Lata. Vocês fazem um grande trabalho de apoio às bandas e aos fãs de metal, e provaram isso naquele dia que nos encontramos na Galeria do Rock. Somos muito gratos a vocês. E valeu a todos os amigos e pessoas que se interessaram e curtiram o nosso trampo!

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