Entrevista com Greg Mackintosh (Paradise Lost)
Singular. Não existe outra palavra que descreva melhor o Paradise Lost. Desde sua estreia em 1988, a banda foi pioneira no Doom/Death Metal com o álbum Lost Paradise (1990), e logo depois ajudou a moldar o que hoje conhecemos como Gothic Metal em Gothic (1991). Nunca se acomodaram. Chegaram ao auge com os clássicos absolutos Icon (1993) e Draconian Times (1995), período em que chegaram a ser chamados de “o Metallica inglês”, tamanha a relevância que conquistaram. Mais adiante, surpreenderam ao flertar até mesmo com música eletrônica em Host (1999). Com o nome já consolidado, continuaram lançando discos marcantes e originais, até reencontrarem elementos de sua fase inicial em The Plague Within (2015), inaugurando uma nova era em sua trajetória.
Com quatro integrantes juntos desde o começo — Nick Holmes (vocal), Greg Mackintosh e Aaron Aedy (guitarras) e Steve Edmonson (baixo) —, a banda teve apenas mudanças ocasionais na bateria. Essa longevidade de formação, aliada à diversidade musical construída ao longo de mais de 30 anos, é um feito raro e notável.
Nesta entrevista exclusiva, conversamos com o guitarrista Greg Mackintosh sobre o novo álbum da banda, Ascension (2025), sua forma de compor e os segredos que mantêm o Paradise Lost íntegro e relevante por tanto tempo. Confira!
Entrevista por Matheus ‘Mu’ Silva
Fotos por Ville Jurrikkala
Agradecimentos a Marcos Franke, Nuclear Blast e Shinigami Records

Metal Na Lata: Olá, Greg! Meu nome é Matheus, muito prazer e seja bem-vindo ao Metal na Lata.
Greg Mackintosh: Olá Matheus, o prazer é meu, e muito obrigado!
Metal Na Lata: Ao longo de mais de 30 anos de banda, quatro de vocês permaneceram juntos, trocando apenas o baterista ao longo dos anos. O que mantém essa união duradoura dentro da banda, mesmo diante das mudanças naturais da vida e da indústria musical?
Greg Mackintosh: Senso de humor é muito importante. Você tem que rir das mesmas coisas, não pode se levar muito a sério e tem que gostar do que faz, eu acho. Nem sempre foi fácil, houve momentos em que brigamos com bastante frequência, mas nunca foi realmente sério. Acho que não desenvolver um ego também é bom. Vindo de onde viemos, você mantém os pés no chão para nunca criar um ego, e eu acho que isso é importante: ninguém nunca se sentir convencido demais.

Nuclear Blast/Shinigami Records
Metal Na Lata: Vamos falar sobre o seu novo álbum. Ascension (2025) é o 17º álbum da carreira e cada trabalho de vocês tem sua própria identidade. Como foi o processo criativo desta vez e como ele difere dos anteriores?
Greg Mackintosh: Bem, toda vez que abordamos um álbum, tentamos esquecer o passado e pensamos no que é emocionante agora. Se pudéssemos fazer qualquer coisa, o que faríamos? Claro, há coisas que você não pode mudar, como o estilo de tocar, a forma como lidamos com os instrumentos, isso está enraizado. Mas acho que é por isso que os álbuns têm uma identidade diferente: porque fazemos uma pausa antes de compor novamente e só escrevemos quando estamos realmente inspirados. Por exemplo, comecei a trabalhar nesse disco há três anos, mas descartei tudo o que escrevi inicialmente porque não estava bom. Parei por seis meses, voltei depois, e aí sim encontrei algo interessante. Se você não está inspirado, por que alguém mais deveria estar?
Metal Na Lata: Sobre isso, vocês regravaram recentemente o Icon (1993), um dos seus melhores álbuns. Revisitar essas músicas influenciou o trabalho feito em Ascension?
Greg Mackintosh: Sim, absolutamente. Foi regravar Icon que revigorou minha inspiração. Não sabíamos exatamente o que queríamos fazer até gravar novamente aquele disco. Revisitar como escrevíamos e tocávamos no início dos anos 90 foi inspirador. Não que todo o Ascension seja diretamente tirado daquele período, mas certamente metade dele carrega esse espírito.
Metal Na Lata: O que você mais gostaria que o público percebesse ou sentisse ao ouvir este novo álbum? Existe uma mensagem central guiando o trabalho?
Greg Mackintosh: Não há uma mensagem central, mas sim uma sensação que permeia o álbum. É uma mistura de noites enevoadas de outono, manhãs frias de inverno, natal, igrejas e catedrais destruídas do século XIII, iconografia e metáforas religiosas, cores ricas como vermelho, dourado e verde. Cada música aborda algo diferente, mas todas lidam, de certa forma, com as reflexões sobre a morte e como enfrentá-la. É daí que vem o título Ascension.
Metal Na Lata: Com uma carreira tão longa, vocês experimentaram estilos diferentes. O que guia a escolha da direção musical para cada novo álbum?
Greg Mackintosh: Simplesmente o que nos inspira no momento. Cada álbum é um recorte de um período. Nossas visões, opiniões e inspirações mudam mês a mês, ano a ano. Então, o que compomos é sempre um reflexo desse momento específico.
Metal Na Lata: Como você equilibra o desejo de inovar e surpreender com a responsabilidade de preservar a essência da banda que conquistou os fãs desde o início?
Greg Mackintosh: Eu nunca penso em inovar ou surpreender. Só penso em escrever músicas que me façam sentir algo. Se a música me empolga, me arrepia, me transporta para outro lugar, então é isso. Pensar em inovar ou surpreender seria uma forma muito cínica de compor, e não é assim que trabalhamos.

Metal Na Lata: Desde The Plague Within (2015), vocês trouxeram de volta elementos de Doom/Death Metal, algo que agradou muito aos fãs mais old school. Isso também é notável em Ascension. O que os levou a retomar essa abordagem?
Greg Mackintosh: Em The Plague Within, tentei convencer o Nick a fazer vocais guturais em uma música. Ele tentou, funcionou, e testamos em mais faixas. Mas a canção que realmente consolidou isso foi Beneath Broken Earth, possivelmente nossa música mais lenta e extrema. Foi ali que percebemos que podíamos reintegrar esse estilo ao nosso som, sem nos limitar a apenas um tipo de vocal.
Metal Na Lata: Há alguns anos, você e o Nick lançaram um excelente álbum sob o nome Host, o IX (2023). Há planos para continuar esse projeto?
Greg Mackintosh: Boa pergunta. Eu realmente amo esse disco, e ficamos muito surpresos com a resposta positiva. Inicialmente, nem pensávamos em lançá-lo, mas quando a gravadora ouviu, quis lançar. Talvez, quando eu tiver tempo e inspiração, possamos escrever algo novo para o Host. Mas precisa vir do momento certo, não dá para fazer só porque há expectativa.
Metal Na Lata: Vocês tocaram recentemente na América do Sul, no Bangers Open Air. O Paradise Lost já veio muitas vezes ao Brasil desde o Monsters of Rock nos anos 90. Como é a conexão com o público brasileiro?
Greg Mackintosh: Sempre foi ótima. Lembro dos shows nos anos 90 com o Ozzy — aquilo foi surreal, nossos maiores shows até então, em estádios. Depois voltamos várias vezes, e cada vez tocamos mais cidades. O Brasil é imenso, e gostamos de expandir a quantidade de apresentações. No Bangers foi incrível, só não gostei do calor (risos). Mas a resposta foi fantástica, e certamente queremos voltar, talvez no fim do próximo ano.
Metal Na Lata: Obrigado pelo seu tempo, Greg. Para mim foi um prazer enorme. Sou fã do Paradise Lost há quase 20 anos, e como também sou canhoto, você e Tony Iommi são grandes influências para mim.
Greg Mackintosh: Ah, isso é maravilhoso. Muito obrigado, e até breve!
Nota do autor: O Paradise Lost literalmente salvou a minha vida. Quando contraí COVID, no final de 2021, precisei de oxigênio no hospital por vários dias, à beira da morte. Assim que consegui andar sozinho até o banheiro, ainda internado, comecei a cantar Hallowed Land no chuveiro, forçando meus pulmões a trabalhar. Respirar era extremamente difícil, mas insisti nisso diariamente. Houve um dia em que quase desmaiei, de tanto esforço, mas continuei até me sentir mais forte. Foi o pior período da minha vida, e a música deles foi minha força. Ter a chance de entrevistar um integrante da banda é a prova de que o mundo realmente dá voltas, e que, mesmo nos momentos mais sombrios, é possível acreditar que as coisas vão dar certo.
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