É inegável que a cena Heavy Metal nacional vai bem e obrigado, o que basta para que isso realmente seja aplicado na teoria e na prática é, basicamente, mais afinco e respeito tanto dos fãs quanto gravadoras/distribuidoras/promotores. O Attrachta é um belíssimo exemplo de como se fazer algo que gosta na raça e com sabedoria. Não é a toa que foram bem lembrados nas votações de melhores do ano passado (2016). Com muita humildade e simpatia, Humberto Zambrin, baterista do Attrachta, nos concedeu essa, também, belíssima entrevista.
Por: William Ivan Kotzo Ribas
Metal Na Lata: Como surgiu a banda e o nome?
Humberto Zambrin: A banda surgiu em 2007, quando eu conheci o Ricardo. Ambos estávamos parados e decidimos montar uma nova banda, sem nos ater a estilos ou tendências… O nome veio de uma santa irlandesa, do século XVI. Quando estávamos pesquisando possíveis nomes, tive a ideia de usar um nome de mulher, e fomos pesquisar personalidades que pudessem nos inspirar. Quando achamos o nome (que originalmente é Attracta), gostamos da sonoridade e da semelhança da palavra com “atração”, em vários idiomas. Mudamos a grafia acrescentando um ‘h’ na última sílaba e ficou!
Metal Na Lata: O EP “Engraved” foi lançado em 2013 e obteve uma grande repercussão perante crítica e público, para vocês, qual foi o sentimento em ver toda crítica positiva?
Humberto Zambrin: Foi uma realização muito grande! Como montamos a banda pra fazer música pra nós mesmos, não tínhamos muitas ambições, honestamente… Mas quando as críticas positivas começaram a chegar, realmente ficamos felizes e dai mais inspirados a trabalhar mais e mais.
Metal Na Lata: Qual é a principal diferença sonora entre o Attractha do EP para o Attractha de agora?
Humberto Zambrin: Eu colocaria 2 diferenças bem notórias, a formação da banda e, por consequência, a evolução musical, o amadurecimento como banda mesmo. O “Engraved” foi gravado por um baixista e um vocalista que não estão mais na banda, então praticamente metade da banda mudou de lá pra cá. Agora você tem ai uma banda nova, que está junta há 2 anos, ensaiando, compondo e tocando. Como os novos músicos (Guilherme Momesso e o Cleber Krichinak) trouxeram novas influências, isso foi capturado nas novas músicas.
Metal Na Lata: No “No Fear To Face What’s Buried Inside You” chegou depois de uma longa espera, porquê demorou tanto?
Humberto Zambrin: Dizem que tempo é dinheiro, então era falta de dinheiro! (risos) Falando sério, no final de 2014, íamos parar os shows e trabalhar nas composições para o que seria o “No Fear…” só que, nesta ocasião o Marcos de Canha (vocalista) decidiu deixar a banda. Isso atrapalhou o andamento, porque a banda não podia seguir as composições sem um vocalista. Então teve todo processo de achar o novo vocalista, ensaiar, criar o ambiente correto pra depois voltar a trabalhar no álbum.
Metal Na Lata: O álbum vem recebendo muitas críticas positivas está sempre entre os melhores álbuns de 2016, era realmente assim que sonharam quando estavam gravando ou nessa hora não da pra sonhar tanto?
Humberto Zambrin: É complicado… (risos). Mas eu acho que não. O álbum foi crescendo e se tornando o que é com o andamento do processo de pré-produção e gravação. Cada um de nós estava disposta a dar o nosso melhor ali em cada etapa e foi assim q foi feito. Quando estávamos já na fase de mixagem é q realmente conseguíamos “ver” o que seria o produto final e acho que, nesse momento ai sim, percebemos que seria algo muito bom. Disso a chegar nas listas de melhores do ano, ai vou dizer que ainda é um sonho (risos). Não esperávamos por isso, mesmo… ainda mais porque esse ano muitas bandas excelentes lançaram excelentes álbuns… não achava que estávamos no mesmo nível.
Metal Na Lata: Em sua opinião, qual é ponto alto de “No Fear To Face What’s Buried Inside You”?
Humberto Zambrin: Nossa… difícil responder! (risos), impossível!! (risos). O álbum é como um filho, eu vejo ele como um todo, não consigo dizer que isso ou aquilo seria melhor… Gosto demais do design que adotamos no digipack, gosto da arte, e gosto de todas as músicas igualmente. Eu diria que o ponto alto é abrir a caixa e por o som pra rolar! (risos).
Metal Na Lata: Falando sobre as músicas, ao que tudo indica “No Fear To Face What’s Buried Inside You” tem um lado conceitual, qual é a mensagem por trás das letras?
Humberto Zambrin: Acho que posso dizer que não existe uma mensagem, mas cada letra é um “mergulho” em pontos da índole do ser humano, da psique, de todos os sentimentos. Não quis ensinar nada pras pessoas, só explorar os sentimentos mais complicados que todos temos, como medo, inveja, raiva, superação, etc…
Metal Na Lata: Uma curiosidade, é mais fácil compor uma música porrada como “Bleeding in Silence” ou uma balada como “No More Lies”?
Humberto Zambrin: Putz… a complexidade é a mesma. Pegando apenas o tema balada x porrada, você tem que ter a inspiração correta, tomar cuidado com os clichês e mesmices, então é praticamente a mesma coisa. Essas músicas que você citou, excepcionalmente foram feitas em épocas e de formas bem diferentes, então elas não são muito comparáveis. A “No More Lies” foi uma das primeiras músicas que fizemos pra esse álbum. Se não me engano foi a terceira música que fizemos. Mas isso foi lá em 2013/2014. A gente já até tocou ela ao vivo, bem antes do álbum ser gravado. Já a “Bleeding in Silence” foi literalmente a última música que foi composta. Ela foi feita em um dia, pelo Ricardo que trouxe os riffs todos prontos e da ideia original dele quase nada mudou no processo de pré-produção. Foi uma inspiração certeira! (risos).
Metal Na Lata: Uma faixa bastante interessante é “Holy Journey” que é baseada no filme O Livro de Eli, conte-nos sobre ela.
Humberto Zambrin: Eu achei esse filme, sensacional! A visão da religiosidade e do poder da religião sobre as pessoas é fantástica… o uso disso para o bem comum e o uso disso para dominar, conquistar, etc… achei que merecia uma letra porque, dentro do contexto, muitas vezes nós somos assombrados pelo fantasma do poder, do desejo e é interessante a narrativa disso no filme. Originalmente essa música tinha outro nome, uma outra letra e até alguns arranjos diferentes. Ela mudou muito nas ‘prés’. Mas a inspiração no filme já estava lá desde o começo.
Metal Na Lata: “Sem medo de encarar o que está enterrado dentro de você”, o que a banda quer passar com esse título?
Humberto Zambrin: Lendo as letras e as interpretando, a mensagem é de que ninguém é perfeito, todos temos defeitos e o mais importante: temos que encarar isso e ajustar o que for possível. Acho que muitas pessoas se negam a realmente aceitar quem são ou aceitar os defeitos para trabalha-los e ser alguém melhor… é basicamente isso!
Metal Na Lata: Como surgiu a ideia do conceito da capa e encarte?
Humberto Zambrin: É uma loooonga história (risos). O ponto de partida foi o fato de que muitas pessoas não compram mais CD’s. Mas nós, como esse é nosso primeiro trabalho, tínhamos uma pressão pra lançar isso fisicamente, mesmo porque, muitas gravadoras e mídias não aceitam material digital… Daí, já que tinha q fazer um CD pensei em fazer algo que fosse um pouco além do tradicional, tentando transformar o CD num produto de merchandising mesmo… algo que as pessoas queiram ter, olhar e etc. Basicamente a ideia era de tentar trazer o mesmo sentimento da manipulação de um vinil, que promove uma interação maior do que o CD, na minha opinião… Com tudo isso em mente, descobri esse formato de digipack e achei que ele seria o formato perfeito. Estou cansado de caixinhas de plástico e encartes no formato livreto. Não queria isso pro nosso primeiro álbum… Esse formato não existia no Brasil, tive muito problema pra conseguir alguém que fabricasse ele pra gente. Daí, conforme as letras foram ficando próximas às suas versões finais eu comecei a pensar na arte… fiz a proposta pros caras e eles aceitaram (na verdade me falaram recentemente que achavam que não ia dar certo (risos). A ideia da arte foi totalmente inspirada nos detalhes e possibilidades que o vinil trazia… o resto foi meio que consequência… Dai peguei tudo, fui na casa do João Duarte e ele começou a trabalhar nela…acho que fechamos na 2ª versão que ele fez…foi bem rápido!
Metal Na Lata: Como anda a divulgação no exterior? E existe a possibilidade de shows fora do país?
Humberto Zambrin: Estamos enviando gradativamente o material pra fora, já que muitas das mídias de fora só trabalha com material físico. Acredito que em Janeiro já devemos começar a receber algum feedback. Os shows fora do Brasil são sempre complicados. Ou você banca sua viagem ou você tem q contar com o apoio de um investidor, tipo gravadora e tal. Estamos vendo algumas possibilidades sim, tanto na América Latina quanto na Europa, mas deve demorar pra acontecer. Mas estamos trabalhando nisso também!
Metal Na Lata: Sabemos que o Brasil é extremamente rico em bandas talentosas mas com uma cena cheia de problemas, pra você Humberto, o que deve ser mudado?
Humberto Zambrin: Essa é uma pergunta polêmica…Mas eu acho que, como em qualquer tipo de mercado, você só vende seu produto, se houverem consumidores. Para a cena metal do Brasil, com certeza precisamos que os fãs de Metal abram a possibilidade e as agendas para conhecerem as bandas daqui. Infelizmente hoje estamos num mercado de 2 bandas nacionais sendo prestigiadas em larga escala e outras poucas em média escala. Eu sempre digo, a garotada de hoje precisa assistir shows ao vivo, sentir a energia, fazer amizades, viver realmente a cena. Se isso acontecer, você cria um mercado maior, dai as casas melhoram suas estruturas, as bandas conseguem fazer shows de melhor qualidade e poderemos mostrar que estamos no mesmo nível de muitas bandas gringas que vem pra cá. Mas sinceramente, acho muito difícil isso mudar…
Metal Na Lata: Infelizmente os downloads ilegais é uma realidade para todos, qual é a solução que você vê para gravadoras e bandas não sejam tão prejudicadas?
Humberto Zambrin: Para os artistas, o streamming é a melhor coisa q podia acontecer… agora ninguém mais precisa gastar horas em downloads, nem uma fortuna em HD’s para coletar mp3. O streamming resolve tudo isso e mais, gera dinheiro para o artista. Acho que em mais uns 5 anos, essa historia de download e torrents vão ficar mais no mundo do vídeo do que do áudio. Já as gravadoras…elas estão em maus lençóis! Com o formato físico diminuindo e o digital aumentando, as bandas não precisam mais de uma gravadora para lançar seu material. Você faz isso sozinho e direto, sem intermediações. Muito mais simples. Claro que ainda precisamos do apoio financeira que a gravadora trás, como pagar gravação, prensagem, distribuir e etc, mas o mercado pra eles está muito ruim. Se você for olhar os sites de empresas como a Nuclear Blast, por exemplo, vai perceber q eles vendem muitos produtos e versões diferentes do mesmo álbum da mesma banda, porque só assim as pessoas compram. Elas compram o que é diferente, raro, exclusivo…Mas as grandes gravadoras vão precisar se reinventar se quiserem sobreviver.
Metal Na Lata: Quão longe o Attractha quer chegar?
Humberto Zambrin: O tanto que for possível…costumamos ter planos de curto, médio e longo prazo e estamos executando tudo na medida certa. Acho impossível chegarmos num patamar como Angra ou Sepultura, mas acredito que havendo muita divulgação e interesse por parte das pessoas, podemos crescer a um bom nível. Pelo menos estamos trabalhando pra isso.
Metal Na Lata: Uma última pergunta, qual é o sentimento de se fazer Heavy Metal no Brasil?
Humberto Zambrin: Cara, o Heavy Metal é um sentimento inexplicável… é algo que a gente tem paixão mesmo e esse é o sentimento de se fazer Metal aqui, paixão! O Brasil é um país culturalmente diversificado, mas é um país de massa, onde o mercado musical geral é totalmente avesso ao Rock (pelo menos hoje em dia…nos anos 80 era diferente…). Então fazer metal na terra do samba, pagode, axé, sertanejo e funk carioca é estar totalmente fora de contexto. Só sobrevivemos porque temos paixão pela música, e é isso…
Metal Na Lata: Obrigado pela entrevista, o espaço final é todo seu.
Humberto Zambrin: Bom, eu queria muito agradecer o espaço que nos cedeu pra essa entrevista e aproveito pra elogiar o conteúdo! Foi a entrevista mais completa que já demos! Parabéns! Também quero agradecer por nos apoiarem e nos colocar no hall dos melhores do ano ao lado de muitas bandas ótimas! Isso é muito legal! A todos do Metal na Lata, nosso muito obrigado, muito sucesso para vocês e continuem firmes… sei que enfrentam as mesmas dificuldades que nós, então força! Um grande abraço a todos e Keep Rocking!
