Entrevista com Joseph Michael (Sanctuary)
Joseph Michael, vocalista do Sanctuary e Witherfall, vive um momento singular em sua carreira. Após assumir os vocais do Sanctuary e encarar o desafio de interpretar o legado de Warrel Dane, o cantor ajudou a conduzir a banda para uma nova fase, que mantém sua identidade, mas aposta em uma sonoridade ainda mais sombria e pesada enquanto comemora uma longeva carreira de 40 anos!
Em entrevista ao Metal Na Lata, Joseph relembra sua chegada ao Sanctuary, fala sobre a responsabilidade de cantar clássicos como “Battle Angels” e “Veil of Disguise”, comenta o novo material da banda e revela detalhes de sua relação com Nevermore e Iced Earth. O vocalista também fala sobre sua trajetória no Witherfall e antecipa a emoção de finalmente tocar no Brasil.
O Sanctuary desembarca no Brasil para uma apresentação única em 30 de agosto de 2026, na Burning House, em São Paulo (SP). O show, com realização da Dark Dimensions, terá abertura dos portões às 17h e início previsto para as 20h. Os ingressos já estão à venda pela Ingresso Master, e a apresentação promete um repertório que celebra a trajetória da banda e sua nova fase. Confira a bate-papo!
Entrevista por Matheus ‘Mu’ Silva
Metal Na Lata: Joseph, gostaria de voltar um pouco no tempo. Como exatamente surgiu o convite para entrar no Sanctuary depois da trágica morte do Warrel Dane? Você já era fã ou tinha contato com os membros da banda antes disso?
Joseph Michael: Sabe, é uma história doida. O Sanctuary ia fazer uma turnê com o Iced Earth em 2018 ou 2019. Faz tanto tempo… E meu guitarrista no Witherfall tocava no Iced Earth na época. Estávamos lá, compondo nosso segundo álbum, tipo, às cinco da manhã, ainda bebendo vinho. E vimos que os caras da banda do Warrel tinham postado no Facebook que ele tinha falecido. Do nada. Tipo, que diabos? Que merda?
Na verdade, não achávamos que o Sanctuary fosse fazer aquela turnê. Eles tinham uma banda substituta para a turnê com o Iced Earth. E aí o baterista dessa banda quebrou o braço. Então, o Jon ligou para o Lenny e disse: “Lenny, eu sei que vocês vão perder muito dinheiro se não fizerem essa turnê. Deixa eu te apresentar algumas pessoas.”
E, sabe, tinha alguns caras que a maioria das pessoas imaginaria, que já tinham sido testados, sei lá. E eles não tinham aquela coisa estranha que você precisa soar como o Warrel. Tipo, todos eles sabiam cantar. Todos eram ótimos cantores. Mas o Warrel não é só um ótimo cantor; ele também é muito único. Tipo, ele é sombrio, sabe?
Então, o Jon Schaffer perguntou para o meu guitarrista, Jake Dreyer, se eu estaria interessado em tentar, para ver se dava certo. E ele mandou para o Lenny o primeiro disco do Witherfall, “Nocturnes and Requiems” (2017). E ele disse: “Ah, é, isso pode funcionar.” Tipo, esse cara é meio maluco. Então, gravei algumas demos de músicas, “Die for My Sins” e “Battle Angels”, e encontrei o Lenny no memorial do Warrel, em Seattle. Decidimos que faríamos a turnê como um tributo ao Warrel. E foi tão bem que, sabe, decidimos continuar e compor algumas músicas novas.
Metal Na Lata: Falando sobre os discos antigos, quais são suas músicas favoritas de cantar do “Refugee Denied” (1987) e “Into the Mirror Black” (1990)? E qual você acha que é a música mais complexa de cantar?
Joseph Michael: Então, complexo e difícil são diferentes. Minha música favorita para cantar provavelmente é “Veil of Disguise”, embora eu goste de “Communion” e “Epitaph”. E essa é meio complexa em termos de arranjo.
Mas difícil de cantar é… Nossa. Não é o que você pensa, porque as notas altas não são difíceis de cantar. Tipo, se você consegue alcançá-las, né? É como se você soubesse fazer tapping: tapping é fácil, entende? Tipo, essa não é a parte mais difícil do solo de guitarra.
Metal Na Lata: É, às vezes eu tento cantar “Battle Angels” e, cara, é bem difícil para mim (risos)!
Joseph Michael: É, eu sempre consegui alcançar essas notas! (risos). É quando você começa a cantar na região média e faz uns 14 shows seguidos, sabe? Aí fica difícil. Tipo, eu acho que o Sebastian Bach disse uma coisa interessante outro dia. Ele estava falando… Quer dizer, sabe, o Sebastian é um ótimo cantor, mas às vezes ele fala umas coisas…
Mas, enfim, ele disse que esses caras no YouTube, que ficam cantando no estúdio e podem gravar várias e várias vezes, acham que são bons cantores ou ótimos cantores. É tipo, o que você faz e o que eu faço não são a mesma coisa. Quando você está no palco, sabe, depois de um voo de 14 horas, você vai fazer a mesma coisa várias e várias vezes. E aí, tipo, me mostra, sabe? Essa é a parte difícil.
A parte difícil é simplesmente manter a prática e manter a voz saudável. Como muitas das partes intermediárias. Tipo, não as notas altas em “Die for My Sins”, mas a parte central, sabe, conectando as vozes.
Metal Na Lata: Recentemente, vocês lançaram a faixa “Not of the Living”, e a recepção foi incrível. Uma coisa que chamou a atenção dos fãs foi uma agressividade moderna e bem-vinda no som. Como foi o processo de composição dessa música, e o que os fãs podem esperar do resto do novo álbum em termos de peso e direção lírica?
Joseph Michael: Sim, sabe, a música definitivamente fala sobre morte. E é definitivamente agressiva e pesada. Na verdade, foi a primeira música que eu e o Lenny compusemos juntos quando começamos a compor. Ele tinha aquele riff do verso, e aí nós criamos a parte do refrão, o riffzinho, o riff em meio tempo que entra no refrão. Mas, quer dizer, nós escrevemos isso lá por 2019. Só gravamos em 2024 ou 2025, algo assim.
O álbum é definitivamente muito sombrio. É definitivamente mais pesado do que qualquer outro disco do Sanctuary. Mas também tem aquela loucura clássica do Sanctuary, e eu vou fazer um monte de vocais insanos também. Mas, sim, é muito sombrio. Muito sombrio.
Metal Na Lata: É impossível falar de Sanctuary sem lembrar do Nevermore, as duas grandes bandas na vida do Warrel Dane. Interessantemente, ambas as bandas ainda estão na ativa hoje. Como você vê esse cenário atual celebrando o legado dele? Você já chegou a ouvir o trabalho do Berzan Önen? Ele está fazendo os vocais no Nevermore.
Joseph Michael: Acho que vi alguns vídeos ao vivo. Quer dizer, você só vai saber como vai ser quando eles entrarem no estúdio. Eu adoro esses caras. Adoro o Nevermore, o Jeff, o Van. Eles são incríveis. Considero-os amigos. Sinceramente, acho ótimo. Quer dizer, muitos fãs entraram em contato dizendo que deveríamos fazer uma turnê em homenagem ao Warrel, mesmo que fossem apenas alguns shows na Europa ou algo assim. Mas, sim, o Berzan é um cantor realmente muito bom. Não sei como será sua composição, mas ele é um cantor realmente ótimo.
Metal Na Lata: Além do Sanctuary, você lidera o Witherfall, que é uma banda espetacular e está ganhando muita força com sons superdensos e progressivos. Como você consegue equilibrar sua mente criativa entre essas duas vertentes? Você vê alguma influência do Sanctuary clássico na forma como você compõe ou projeta sua voz no Witherfall hoje?
Joseph Michael: Não, eles não têm nada a ver um com o outro. Quer dizer, veja bem, minha mente está longe de ser equilibrada (risos). Estou aqui na minha pequena caverna. Provavelmente trabalhei em cinco projetos esta semana. Componho há décadas. Quer dizer, não vou dizer minha idade, mas são coisas completamente diferentes.
Compor para o Witherfall é mais como ser um compositor, sabe? Jake e eu compusemos essas músicas, e minha voz na banda é quase como no teatro. Cada coisa tem sua voz específica, que precisa estar ali.
Sanctuary é como estar em uma banda de metal old school. Estamos compondo músicas para o Sanctuary, certo? Tenho algumas vozes que combinam muito bem com isso. Mas não, elas não se influenciam mutuamente.
Quer dizer, o Jake ouve isso o tempo todo, e você vê pessoas dizendo: “Nossa, essa nova música do Witherfall me lembra Iced Earth”. E eu respondo: “Não, não lembra”. Se ele não estivesse no Iced Earth, ninguém diria que essa música lembra Iced Earth. É só porque você tem essa conexão na cabeça.
Ninguém está tentando fazer o Sanctuary ou o Witherfall soarem diferentes de propósito. A composição naturalmente será para cada projeto específico.
Metal Na Lata: Eu sou fã do Witherfall e, do ponto de vista musical, acho que sua voz se encaixaria perfeitamente em algumas músicas ou talvez em um álbum do Iced Earth, mas isso é só uma ideia que me veio à mente.
Joseph Michael: Quem sabe? Talvez o Jon queira um tempo para voltar com a banda. Todos nós temos pessoas na família que amamos, mas com quem discordamos em muitas coisas. É assim que vejo o Jon. Ele é um amigo, e acho que algumas das coisas que ele pensa são malucas, e outras eu concordo plenamente.
Uma das coisas estranhas sobre entrar para o Sanctuary na turnê do Iced Earth — e eu contei isso para o Jon na primeira vez que o conheci — é que, quando eu era adolescente, havia uma loja no shopping, e tinha um cara do exército que trabalhava lá quando não estava em outro lugar. Ele nos via, nós, os metaleiros, entrando na loja, e nos dava fitas cassete que ele gravava. De um lado, um álbum, e do outro, outro.
Uma das fitas que ele me deu, que eu guardei — algumas eram ruins, eu gravei por cima —, mas uma delas tinha o “Dark Saga” (disco do Iced Earth de 1996) de um lado e “Nevermore” (1996), do Nevermore, do outro. Foi a primeira vez que ouvi as duas bandas na mesma fita cassete, e aí me tornei fã delas.
Eu disse para o Jon: “É muito doido isso. Estou cantando no lugar do Warrel, abrindo para o Iced Earth, e é exatamente como quando eu ganhei aquela fita. É muito bizarro.” Isso foi há 20 anos, e agora aqui estou eu, junto com as pessoas que fizeram essas coisas. É muita loucura. Foi uma viagem.
Metal Na Lata: Em entrevistas anteriores, você mencionou que, embora o Sanctuary tenha aquela aura cult dos anos 80, você não quer que as bandas vivam apenas da nostalgia, mas que sejam uma força criativa relevante hoje. Como você pretende traduzir essa mentalidade no palco, tanto para os fãs da velha guarda quanto para a nova geração?
Joseph Michael: É, como eu disse, eu não tento. Não estou tentando criar nada propositalmente. Acho que simplesmente acontece. Acho que o material antigo do Sanctuary precisa ser apresentado de uma forma teatral. Precisa ser sombrio. Você não pode simplesmente ficar parado cantando essas coisas, certo?
Conheço muitos caras com vozes incríveis para os quais isso simplesmente não funcionaria. Eles não têm a teatralidade e não estão dispostos a se esforçar fisicamente para apresentar o material e as letras adequadamente. Você precisa mostrar o que está acontecendo dentro da música. Você não pode simplesmente cantá-la. “Ah, olha só, meu falsete estava perfeito.”
É como se você tivesse que parecer torturado e se curvar sobre o monitor para representar isso. Então, é isso que você precisa fazer. Então, sei lá. Eu respeito tanto a música que quase me mato e bebo até entrar em coma enquanto interpreto esses lunáticos (risos).
Metal Na Lata: Minha última pergunta de hoje é sobre a turnê por aqui. O público brasileiro é conhecido mundialmente por ser um dos mais apaixonados, e o Sanctuary tem uma base de fãs muito leal aqui. O que vocês estão preparando para esses shows e qual mensagem gostariam de deixar para os fãs brasileiros que estão ansiosos para vê-los no palco?
Joseph Michael: Bem, vamos tocar tudo. Não vamos deixar pedra sobre pedra. E devo dizer, considerando que o Warrel faleceu lá em São Paulo, imagino que será um show muito emocionante. Então, sinceramente, mal posso esperar.
Metal Na Lata: Muito obrigado pelo seu tempo, Joseph. Foi uma honra! E nos vemos em agosto!
Joseph Michael: Perfeito, obrigado e nos veremos lá!
SERVIÇO: SANCTUARY EM SÃO PAULO
Data: 30 de agosto (domingo)
Local: Burning House
Endereço: Burning House – Av. Santa Marina, 247 – Água Branca – São Paulo/SP
Realização: Dark Dimensions
Assessoria: JZ Press
Abertura das Portas: 17h
Início do Evento: 20h
Ingressos em: https://www.ingressomaster.com/setores/62/sanctuary
Classificação: 18 anos
É obrigatório apresentação do documento de identidade
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