Entrevista com Kahlil Souto (Stormsorrow)

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Entrevista com Kahlil Souto (Stormsorrow)

Em um cenário onde muitos projetos nascem apressados e desaparecem com a mesma velocidade, a StormSorrow segue na contramão. Forjado ao longo de duas décadas de amadurecimento artístico, The Blood Red Horizon não é apenas um álbum de estreia — é a materialização de uma visão construída com paciência, identidade e convicção. Entre riffs cortantes, melodias épicas e letras que encaram de frente as falhas da humanidade, o trabalho rapidamente se impôs como um dos lançamentos mais relevantes do metal brasileiro recente, figurando em diversas listas de melhores álbuns do ano elaboradas por jornalistas e sites especializados. Nesta entrevista exclusiva ao Metal Na Lata, Kahlil Souto abre o jogo sobre a longa gestação do projeto, as influências que moldaram o disco, o conceito por trás da trilogia e o orgulho de provar, mais uma vez, que o metal feito no Brasil nunca esteve um passo atrás de ninguém. Confira

Entrevista por Cristiano Ruiz
Fotos por Emerson Sousa (@iamsousa)

Metal Na Lata: Antes de tudo, parabéns pelo lançamento de The Blood Red Horizon, um trabalho que vem chamando bastante atenção no cenário do metal nacional. Como você avalia a recepção do álbum por parte dos fãs e da mídia especializada até o momento? O retorno tem correspondido às suas expectativas iniciais?

Kahlil Souto: Primeiramente, agradeço pelas palavras e pelo espaço. A recepção tem sido, em sua esmagadora maioria, bastante positiva — algo que eu não esperava. Muito além de qualquer expectativa, uma vez que fizemos o disco para nós mesmos e sem pressa. No meu caso, queria apenas escrever meu nome no “The Book of Heavy Metal”! Mesmo assim, apesar de lançado no dia 10 de dezembro, o disco já figurou em mais de 20 listas de melhores do ano. Só temos a agradecer a cada brother of metal e a cada veículo de imprensa sério que abraçou o The Blood Red Horizon.*

Metal Na Lata: A StormSorrow é um projeto que carrega uma história longa e amadurecida. Conte-nos um pouco sobre a trajetória da banda, desde o surgimento da ideia ainda nos anos iniciais até a concretização do álbum de estreia que agora chega ao público.

Kahlil Souto: O StormSorrow começa lá em 2005 quando, junto aos primeiros riffs, “The Blood Red Horizon” surge como sendo o nome do debut que, um dia, eu iria lançar. Bem, em 2025, ele foi lançado! (risos). Foram 20 anos guardando ideias, riffs e moldando o som que se ouve no disco. Tivemos uma formação inicial com músicos da cena piauiense, ensaiamos algumas das músicas que estão no álbum, mas o projeto ficou engavetado por muitos anos. Além disso, a banda mudou de nome algumas vezes ao longo do tempo e acabou por se chamar StormSorrow, por ser, acredito eu, um nome que representa bem a sonoridade atual.

Metal Na Lata: Algumas composições do disco nasceram ainda na adolescência e atravessaram quase duas décadas até o lançamento oficial. O que mudou nessas músicas ao longo do tempo: a forma como você as enxerga hoje, os arranjos, as letras ou o peso emocional que elas carregam?

Kahlil Souto: As músicas cresceram comigo. São duas décadas de maturação. De um adolescente de 16 anos, hoje sou um pai de família de 36, com uma carreira pública estabilizada, experiência de vida acumulada — e isso se reflete naturalmente na música. Além disso, outras bandas que fui conhecendo ao longo do tempo acabaram influenciando as composições, em especial as que vieram depois e que serão lançadas nos próximos discos. Inicialmente, elas soavam mais cruas, como uma mistura de Sepultura da fase Beneath the Remains com Slayer de Hell Awaits e Reign in Blood. Hoje, podemos notar uma grande variedade de estilos dentro de um mesmo disco. As letras também eram mais cruas e tratavam de temas bastante clichês do thrash metal, como guerras e filmes de terror.

Metal Na Lata: Musicalmente, o álbum apresenta um equilíbrio muito sólido entre agressividade, melodia e momentos épicos, dialogando com diversas vertentes do metal extremo. Quais foram as principais influências que moldaram esse trabalho e como o Melodic Death Metal acabou se consolidando como a base do projeto?

Kahlil Souto: Como disse anteriormente, o thrash metal foi a base. Ao longo dos anos, muitas outras bandas serviram de influência. Acredito que Iced Earth e Nevermore foram as que mais me impactaram, sendo Max Cavalera, Jon Schaffer e Jeff Loomis minhas maiores referências em se tratando de riffs e composição. Sobre o Melodic Death Metal ser a base, foi algo muito natural. Nunca quis imitar bandas europeias, inclusive evito usar esse termo. Mas o fato é que, dentro do metal, depois do prog metal, esse é o subgênero mais abrangente, na minha opinião. Você consegue, dentro de um mesmo disco, colocar músicas mais melódicas, agressivas, rápidas, lentas e por aí vai.

Metal Na Lata: O disco também transita com naturalidade entre referências distintas — do Thrash clássico ao Melodic Death Metal escandinavo. Como foi o desafio de equilibrar todas essas influências sem perder identidade própria?

Kahlil Souto: Foi algo muito natural. Armando Beelzeebubth sempre diz em suas entrevistas que banda brasileira não tem que soar como gringa — tem que soar como banda brasileira. Foi isso que destacou Sepultura, Ratos de Porão, Sarcófago, Vulcano e o próprio Mystifier. Não estou falando de ser tosco, mas de ser verdadeiro, de não querer emular algo que não é. Identidade musical é como uma digital: cada um tem a sua. Se você não tenta copiar ninguém, a sua aparece — e foi isso que aconteceu conosco. Influências todos temos, obviamente, mas querer copiar banda X ou Y nunca passou pela minha cabeça.

Metal Na Lata: Um dos pontos centrais de The Blood Red Horizon está em sua forte abordagem lírica, que transita entre reflexões pessoais, críticas sociais e eventos históricos marcantes. Como você desenvolveu a temática das letras e qual foi o fio condutor que guiou a construção conceitual do debut?

Kahlil Souto: O disco segue um norte conceitual em relação às letras. Algumas são mais explícitas, outras mais abertas à interpretação, mas, no geral, abordam os vários níveis de degradação que a humanidade vem enfrentando — seja ambiental, moral, espiritual, emocional ou racional. Obras como 1984, Fate of Empires, Moby Dick, Brave New World, Fahrenheit 451 e Lord of the Flies foram grandes inspirações.

Metal Na Lata: Muitas letras abordam eventos históricos, casos reais e colapsos sociais — do Holodomor às guerras de narrativa contemporâneas. Como foi o processo de pesquisa para transformar temas tão densos em letras de metal extremo sem perder impacto, respeito e coerência artística?

Kahlil Souto: São casos que me afetaram de alguma forma, normalmente conhecidos por meio de livros ou filmes. Algo que me indignou profundamente ou me emocionou. Tento transferir esse sentimento para a música e para as letras.

Metal Na Lata: Há um contraste muito forte no disco entre críticas externas à humanidade e momentos extremamente pessoais e introspectivos, como em “Scars Of My War”. Para você, esse equilíbrio entre o macro (o mundo) e o micro (o indivíduo) é essencial para a proposta artística da StormSorrow?

Kahlil Souto: Esse é o ponto — algo que está implícito até no nome da banda. O mundo e o indivíduo, a violência e a calmaria, o macro e o micro, a agitação e a introspecção. “Scars Of My War” tem uma letra bastante pessoal, e isso afetou até a interpretação da música. Outra faixa de tom muito pessoal é “The Storm Will Remember My Name”, que fala de legado, realização pessoal, resiliência e conquista.

Metal Na Lata: The Blood Red Horizon é apresentado como o primeiro capítulo de uma trilogia conceitual. Em que medida este álbum funciona como a base narrativa e emocional da obra completa? O ouvinte pode esperar uma continuidade direta da história ou cada capítulo terá identidade própria dentro do mesmo universo?

Kahlil Souto: Cada capítulo terá sua própria identidade, mas no fim todos se conectam de alguma forma — musical e liricamente. É um conceito bem amplo e mal posso esperar para dar continuidade. Posso adiantar que o segundo disco destoa bastante do primeiro.

Metal Na Lata: Já existem composições ou ideias estruturadas para a continuação dessa trilogia? Podemos esperar a presença de novos convidados especiais nos próximos lançamentos?

Kahlil Souto: Sim, atualmente existem cerca de 23 músicas escritas. Devemos começar a pré-produção do segundo disco ainda neste semestre. Assim como foi em The Blood Red Horizon, queremos fazer tudo com calma e atenção aos detalhes — mas não vai levar 20 anos outra vez, pois as músicas já estão prontas! (risos). Sobre as participações, tenho uma lista com alguns nomes, alguns já confirmaram. Diferente de outros compositores, eu primeiro convido e depois escrevo as linhas vocais com aquela voz em mente. Para mim, não faz sentido chamar alguém depois de tudo pronto. Álbuns com participações são menos cansativos e elevam o nível do trabalho, permitindo diversificar sem sacrificar a identidade da banda.

Metal Na Lata: Falando em participações, o álbum conta com colaborações de nomes importantes do metal nacional, que acrescentam diferentes nuances ao disco. Como essas parcerias surgiram e de que forma cada convidado contribuiu artisticamente para o resultado final?

Kahlil Souto: Cada participação foi sonhada durante muitos anos e faz parte do conceito de The Blood Red Horizon. São músicos que influenciaram profundamente minha trajetória. As linhas vocais foram construídas pensando especificamente nas vozes de cada convidado, e o resultado ficou fantástico. Todos aceitaram prontamente. No caso do Victhor, do Victhorian, fomos colegas de escola e de banda na Arthorious. Já Alê e Pastore entraram por conta da influência que The Famous Unknown (Ancesttral) e Living in Fantasy (Delpht) tiveram na minha formação musical.

Metal Na Lata: O processo de gravação, mixagem e masterização teve papel fundamental na sonoridade robusta do álbum. Como se deu esse processo técnico ao longo da produção de The Blood Red Horizon?

Kahlil Souto: As gravações ocorreram de maneira bastante tranquila. Guitarras, baixo e bateria foram gravados no Veritá Sounds, de propriedade do nosso guitarrista Vicente Luiz. Os vocais foram gravados no Luna Studio, de propriedade do nosso baixista Yuri Passos. Tudo em Goiânia. A mixagem e a masterização também ficaram a cargo do Vicente Luiz.

Metal Na Lata: Pensando agora no aspecto visual e de divulgação, existe a intenção de gravar algum videoclipe para The Blood Red Horizon?

Kahlil Souto: Ao longo de 2026, divulgaremos uma série de lyric videos e, possivelmente, videoclipes. Ainda não escolhemos as músicas.

Metal Na Lata: Inicialmente concebido como um projeto de estúdio, o StormSorrow acabou evoluindo para uma formação mais completa. Apresentações ao vivo fazem parte dos planos futuros da banda?

Kahlil Souto: Não neste primeiro momento. A gravação e o lançamento dos outros dois discos são minha prioridade, assim como o lançamento de The Blood Red Horizon em CD e vinil. A procura tem sido bastante alta. Todavia, propostas específicas seriam analisadas caso a caso.

Metal Na Lata: Para encerrarmos, deixamos este espaço aberto para que você deixe uma mensagem final aos leitores.

Kahlil Souto: As mesmas seis cordas e as mesmas sete notas que suecos, americanos, ingleses e alemães têm acesso, nós também temos aqui. Com mais dificuldade, é claro, mas é o mesmo instrumento. O metal brasileiro nunca esteve abaixo de nenhum outro — e os lançamentos de 2025 provaram isso mais uma vez. Por fim, agradeço ao Metal Na Lata pelo espaço e pelas votações de melhores do ano para The Blood Red Horizon. Ficamos muito honrados. Aguardem as novidades do StormSorrow!

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