Entrevista com Laurence Miranda
(Faces Of Death)
Em tempos onde a persistência vale tanto quanto o talento, o Faces of Death é um exemplo vivo de resistência, paixão e brutalidade sonora. Nascido nos anos 90, no interior de São Paulo, o grupo enfrentou os desafios clássicos da cena underground — desde a falta de estrutura e visibilidade até pausas inesperadas — mas sempre se manteve fiel às raízes do thrash/death metal, evoluindo sem jamais perder a essência.
Com uma trajetória marcada por resiliência, o retorno em 2016 trouxe uma nova fase ainda mais intensa, profissional e combativa, culminando em álbuns potentes como From Hell, Usurper of Souls e o recente Evil, que reafirma o nome da banda como um dos mais consistentes do metal extremo nacional.
Nesta entrevista exclusiva ao Metal Na Lata, conversamos com o vocalista e fundador Laurence Miranda, que abriu o jogo sobre o passado, presente e futuro do grupo, falou sobre os bastidores da produção, o impacto da pandemia, a nova formação, temas polêmicos nas letras e, claro, os planos que o Faces of Death ainda tem na manga — inclusive uma tour europeia em construção. Prepare-se para uma leitura sincera, direta e barulhenta — como manda o bom e velho metal.
Por Cristiano Ruiz e Johnny Z.
Fotos por Maycon Avelino
Metal Na Lata: O Faces of Death surgiu nos anos 90, em meio a uma cena underground bastante desafiadora, e logo lançou algumas demos que foram muito elogiadas, inclusive pela Rock Brigade. Gostaria que vocês contassem como foi aquele início: quais foram os principais desafios da época, como foi gravar essas demos e qual foi o impacto e a exposição que elas trouxeram para a banda.
Laurence Miranda: Todo início sempre é desafiador. Morávamos em Pindamonhangaba, interior de São Paulo, e não existia internet, redes sociais, etc. O que ajudava a divulgar a banda eram as revistas especializadas, zines e o boca a boca. Conseguimos gravar a primeira demo-tape graças ao Mauro, que tinha uma loja de skate e patrocinou a gravação. A loja chamava-se Rock Mania. A demo-tape foi bem aceita pelos bangers e até tocou na rádio de Pindamonhangaba, em um programa de rock chamado “Feras do Rock”. Depois, gravamos a segunda demo e enviamos para a Rock Brigade. Recebemos uma resenha positiva do Fernando Souza Filho e, a partir daí, começaram a chegar cartas do Brasil inteiro com pessoas pedindo uma cópia da demo e zines querendo fazer entrevista.
Metal Na Lata: Existe a possibilidade desse material ser relançado como bônus em algum futuro trabalho ou até mesmo em uma compilação de raridades? Existem músicas inéditas daquela época?
Laurence Miranda: Já regravamos algumas músicas como “New Age” e “Anno Domini”, que são da primeira e segunda demo-tape e que estão no EP Consummatum Est. A música “Human Race”, da segunda demo-tape, também foi regravada e está no álbum From Hell.
Metal Na Lata: O que levou à pausa na carreira em 1996 e, posteriormente, ao retorno em 2016, com uma pegada ainda mais intensa e renovada, já evidenciada no EP de estreia Consummatum Est, no ano seguinte?
Laurence Miranda: Eu tive que mudar de Pindamonhangaba para Santos e, automaticamente, tivemos que reduzir os ensaios. Ensaiávamos duas vezes por semana e passamos a ensaiar apenas uma vez por mês. Ficamos um longo tempo sem ensaiar e a banda acabou ficando para trás. Não houve, na época, uma decisão formal de acabar, apenas aconteceu. Em 2015, comentei com o meu irmão, Sylvio Miranda, que queria voltar com a banda e perguntei se ele toparia. Mas não era para voltar e ser apenas uma diversão de fim de semana, e sim algo profissional, para dar o sangue. Ele topou e então fomos atrás de pessoas para retomar as atividades do Faces of Death. Eu e o Sylvio decidimos que só ficaria na banda quem realmente estivesse disposto a dar o sangue, como uma família.
Metal Na Lata: Como vocês definem a fusão de thrash e death metal que molda o som do Faces of Death atualmente? E como essa identidade sonora evoluiu desde as demos gravadas nos anos 90?
Laurence Miranda: Na segunda demo-tape já fazíamos esse mix de thrash e death metal, como foi evidenciado na resenha da Rock Brigade: “O Faces of Death conseguiu manter-se no tênue fio que separa o thrash do death metal, uma mistura de Sadus, Sepultura e Morbid Angel…”. Sempre ouvimos Morbid Angel, Deicide, Death, Desincarnate, Cannibal Corpse, e também Kreator, Exodus, Sepultura, Slayer, Metallica… Nosso som sempre foi essa mistura de death e thrash, e continuará assim.
Metal Na Lata: Quais são as principais referências de vocês — sejam bandas clássicas ou até influências não tão óbvias — que inspiram as composições e sustentam esse estilo agressivo adotado pela banda?
Laurence Miranda: Slayer, Exodus, Kreator, Metallica, Anthrax, Morbid Angel, Cannibal Corpse, Immolation, Krisiun, Deicide, Sepultura, Obituary, Black Sabbath, Dark Angel, Sinister, Cancer, Carcass… Também gosto de Dead Kennedys, GBH, Discharge, The Exploited…
Metal Na Lata: Os álbuns From Hell (2018) e Usurper of Souls (2020) trazem uma pegada mais brutal, com letras densas abordando assassinatos, raiva, abuso de poder, críticas sociais e à indústria da religião — temáticas comuns nas bandas mais extremas do metal. Como foi o processo de escolher e desenvolver esses temas para esses trabalhos?
Laurence Miranda: Natural (risos). Sempre abordo temas concretos, com os quais sou completamente contra, e que já aconteceram ou ainda estão acontecendo. Por exemplo, a música “Usurper of Souls” fala sobre o assassinato da atriz Sharon Tate pela família Manson. É inacreditável o que fizeram com uma atriz grávida e seus amigos, e ainda existem pessoas que idolatram o babaca do Charles Manson. Já a música “From Hell” fala sobre a religião que usa o “medo” para controlar as pessoas.
Metal Na Lata: Usurper of Souls foi lançado durante a pandemia, o que atrapalhou os planos de shows e divulgação. Por outro lado, rendeu, em 2021, o excelente álbum A Drink with the Death, gravado ao vivo em estúdio. Como surgiu a ideia e como se desenvolveu esse lançamento?
Laurence Miranda: Gravamos nosso segundo álbum durante a pandemia e não sabíamos se iríamos lançá-lo, porém optamos por lançar porque cada álbum tem seu momento mágico, e aquele era o momento do Usurper of Souls. Não queríamos perder a vibe, entende? E como não podíamos fazer shows, decidimos lançar o álbum A Drink with the Death – Rehearsal Live, que seria nosso setlist para a turnê na Europa — que a pandemia também não deixou acontecer. Lembro de estar em casa assistindo ao vídeo do show de Barcelona do Sepultura e pensei: “Vamos fazer isso, mas ao invés de um show será um ensaio”, já que não podia haver aglomeração. Então convidei o Vitão Bonesso para participar e também incluímos alguns depoimentos da banda.
Metal Na Lata: Vocês gravaram um cover extremamente agressivo de “Refuse/Resist”, do Sepultura. Esse som chegou a ser lançado em alguma coletânea ou foi disponibilizado apenas no canal da banda no YouTube? Existe a possibilidade de lançarem um álbum completo de covers no futuro?
Laurence Miranda: Seria muito legal fazer um álbum de covers das bandas que nos influenciaram — quem sabe um dia. Mas, no momento, temos outras prioridades. Se alguém tiver interesse, é só procurar no YouTube outros covers que fizemos, como “Black Magic” do Slayer e “People of the Lie” do Kreator. Inclusive, enviamos para o Mille Petrozza a nossa versão, e ele gostou e elogiou.
Metal Na Lata: Como foi ter a arte de capa de Usurper of Souls assinada por Marcelo Vasco, o “brasileiro do Slayer”? Como chegaram até ele?
Laurence Miranda: Marcelo Vasco é um ser humano fora da curva, gente finíssima e sem estrelismo… o cara é gente boa mesmo, saca? Se não me engano, foi o Ricardo Batalha que me apresentou. Para nós foi como um sonho realizado, porque além de fazer a capa, ele fez toda a parte do encarte e também a arte do álbum Evil.
Metal Na Lata: Vocês tinham, na época, uma turnê europeia agendada que acabou sendo cancelada por conta da pandemia, certo? Como estão as negociações para que essa turnê finalmente aconteça?
Laurence Miranda: Essa turnê já foi cancelada umas três vezes. Cancelou em 2020 por causa da pandemia, então reagendamos para 2021, veio a segunda onda da pandemia e tivemos que cancelar novamente. Depois, em 2022, cancelamos por conta da mudança de integrantes na banda. Estamos organizando para 2026, mas não vamos entrar em detalhes para não dar “zica” novamente (risos).
Metal Na Lata: Com Evil (2023) — que, na minha opinião, é um dos melhores álbuns da carreira da banda, senão o melhor — vocês resgatam as raízes do thrash/death metal dos anos 80/90, incluindo referências a eventos brasileiros e internacionais. Qual é a mensagem central do álbum e como o público tem reagido? Falem um pouco sobre esse trabalho em comparação aos anteriores. Em que aspectos vocês enxergam maior evolução?
Laurence Miranda: Obrigado! Queríamos resgatar essa essência do metal dos anos 80/90, entende? Mas já estamos pensando em resgatar a essência do death metal dos anos 90 no próximo álbum. Estamos escutando muito Morbid Angel, Krisiun, Deicide, Sinister, Cannibal Corpse, etc. Então estamos com a faca nos dentes para gravar mais um álbum. É difícil ficar comparando os álbuns. O From Hell é excelente e tem muita coisa foda nele, e da mesma forma o Usurper of Souls, saca? É difícil comparar os filhos, entende? (risos)
Metal Na Lata: Logo após o lançamento de Evil, vocês passaram por mudanças significativas na formação. Mas, já com a atual formação, lançaram o ótimo EP ao vivo Thrash disConcert, em 2024, evidenciando uma coesão impressionante. Essa formação já havia tocado junta antes ou esse evento foi a primeira vez de vocês juntos no palco? Pergunto isso porque estive lá no dia e parecia que vocês estavam juntos há anos na estrada!
Laurence Miranda: Mudança de formação sempre é um desconforto, você precisa refazer a casa, saca? Você investe em mídia, fotos, site, e tem que refazer tudo novamente, e isso é uma merda. Na época, foi bem estressante. Mas o foco é não desistir, e sim dar o sangue. Então convidei o Igor, que é um brother que já conhecia da cena — sempre tomávamos umas na frente das casas de shows, no famoso “Carro Beer” do nosso irmão Marcelo. Depois convidei o Maurício, que eu já acompanhava nas redes sociais pelos vídeos sobre aulas de guitarra e tal. Conversei bastante com eles e deixei bem claro: o Faces of Death não é um hobby, e sim uma banda que está procurando seu espaço na cena nacional. Fazemos tudo com muito respeito e verdade. Perguntei se eles topavam entrar e se dedicar, abrir mão de algumas coisas em prol da banda, e eles toparam. E estamos aí na correria. O mais legal é que parecia que eu já tocava com eles há anos, e isso foi fundamental. O primeiro show com essa formação foi no “La Iglesia” e foi foda, estávamos empolgados e tudo deu certo.
Metal Na Lata: Esse EP, até o momento, está disponível apenas no formato digital. A banda tem planos de lançá-lo fisicamente?
Laurence Miranda: Pensamos em lançá-lo como bônus no próximo álbum. Acho que seria mais interessante.
Metal Na Lata: A estreia definitiva da atual formação será com o single “Terror em Barbacena”, previsto para o próximo mês, acompanhado de um videoclipe. A banda comenta que, nesse trabalho, mergulhou ainda mais no death/thrash metal do início dos anos 90, com uma pegada ainda mais voltada ao metal extremo. De que forma essa nova formação contribuiu para renovar a sonoridade e a dinâmica criativa do grupo?
Laurence Miranda: Contribuíram com tudo desde o começo da música. O Igor e o Maurício são músicos com visões amplas, e isso ajuda muito. Fiz a base e mostrei pra eles por um vídeo que gravei pelo celular. O Maurício colocou na guia e, assim, ficamos escutando durante a semana e, no ensaio, lapidamos a música — e ficou brutal. A bateria está como um tanque de guerra destruindo tudo, e o Maurício está fritando tudo nos solos. Para quem nos acompanha será uma boa surpresa. O que posso dizer é que está mais death metal, mais pesado e mais brutal. Aguardem.
Metal Na Lata: “Terror em Barbacena” trará uma reflexão impactante e brutal sobre os horrores do Hospital Psiquiátrico de Barbacena. Que outras temáticas históricas ou sociais vocês pretendem explorar nos próximos trabalhos? Contem mais sobre esse novo single e a escolha dessa temática.
Laurence Miranda: Sempre busco trazer nas letras do Faces of Death algo com o qual não concordo, ou algo que ainda choca e não foi resolvido. Por exemplo, a letra de “Kiss of Death” fala sobre a tragédia da Boate Kiss. A história que envolve o Hospital de Barbacena é chocante, perversa, desumana… tanto que foi considerado o Holocausto Brasileiro. Provavelmente iremos buscar outras barbaridades para incluir no próximo álbum, como a situação atual de Israel e Palestina, pois é inacreditável que continue esse extermínio e nada seja feito. Novamente, os engravatados estão sangrando o mundo, e os pobres que estão morrendo. A pandemia não ensinou nada a eles, PQP! E também quero abordar temas como pedofilia e a depressão, que é a doença do século.
Metal Na Lata: Como estão as composições para um novo álbum completo? Existe alguma previsão de lançamento ou alguma informação exclusiva que possam compartilhar com a gente?
Laurence Miranda: Estamos começando a compor e, como disse antes, as músicas estão mais death metal dos anos 90. Por enquanto, é só isso que posso adiantar — ou seja, velocidade, peso, bumbos duplos e metranca (risos). Quero explorar esse lado mais brutal da bateria do Igor, que é um grande fã do Max Kolesne, e o Krisiun é referência para todos da banda. E também quero explorar toda a técnica e experiência do Maurício Filho, que, na minha humilde opinião, é um dos guitarristas mais completos da atualidade.
Metal Na Lata: Como vocês enxergam hoje a estrutura de apoio ao metal no Brasil? Pensando na visibilidade, receptividade e oportunidades oferecidas por fãs, produtores e imprensa, quais os maiores desafios enfrentados por bandas que ainda estão em ascensão? A cena nacional, muitas vezes, parece caminhar aos trancos e barrancos, refém de panelinhas e repetições — sempre com os mesmos nomes em destaque, muitas vezes impulsionados por investidores ou favorecidos por algoritmos e ‘estratégias’ de mídia. O que, na opinião de vocês, precisa mudar para que o cenário se torne mais justo, diverso e sustentável para o underground?
Laurence Miranda: Pergunta difícil e complexa (risos). No Brasil existem as panelas, e são sempre as mesmas bandas que conseguem abrir shows de bandas gringas. Ainda existem bandas que são escolhidas pela “competência financeira” (risos). O lado B da indústria da música é difícil, porém isso sempre existiu. Existem bandas que fazem de tudo para buscar seu lugar ao sol, então cada um faz o que acha certo e ponto.
Nós buscamos a essência que moldou o Krisiun: ser verdadeiro e honesto. E não é à toa que estão na estrada há muito tempo — ou seja, faça o certo e seja verdadeiro. Por outro lado, os produtores precisam ganhar dinheiro, isso é um negócio. Eles precisam de bandas que levem público para o evento, entende? O negócio precisa dar lucro e não prejuízo. Mas acho que os produtores precisam dar oportunidades para bandas pequenas abrirem shows grandes. Senão, a indústria da música não vai andar pra frente. Esse é o grande lance… No futebol, o técnico precisa dar oportunidade para os jogadores da base. Senão, o time não vai crescer. O clube não forma jogadores e não gera receita. Precisamos apostar e pensar no futuro. Quanto ao público, esses são verdadeiros guerreiros do metal. Estão sempre apoiando, indo aos shows e dando força para as bandas que acreditam. Aliás, ainda estamos no corre porque temos o apoio do público. Eles são os verdadeiros responsáveis por continuarmos tocando e acreditando.
Metal Na Lata: O quanto é desafiador para uma banda underground conseguir fazer uma turnê pelo Brasil nos dias de hoje? Além de um bom produtor, o que mais é necessário para uma banda conseguir divulgar seu trabalho pelos quatro cantos do país? E como está a agenda do Faces of Death? Teremos mais shows vindo por aí?
Laurence Miranda: É muito desafiador fazer turnê no Brasil porque nosso país é gigantesco. Na minha opinião, é necessário dividir a turnê por regiões, saca? Uma no Norte/Nordeste, outra no Sul/Sudeste, e assim por diante. Porém, precisamos fazer a turnê nas nossas férias do trabalho, pois não conseguimos viver da banda e precisamos trabalhar para manter a família e a própria banda. Estamos com alguns shows agendados em São Paulo, algumas datas em negociação no interior do estado, e também estamos organizando uma turnê no Norte e Nordeste para 2026.
Metal Na Lata: Muito obrigado pelo bate-papo. O espaço final é de vocês!
Laurence Miranda: Eu que agradeço. Aliás, quero agradecer aos bangers do Brasil que estão apoiando a banda — isso sim faz toda a diferença.
Mais Informações:
Facebook: @facesofdeathband
Instagram: @facesofdeathofficial
Site Oficial: https://facesofdeath.com.br

