Poucas bandas na história podem reivindicar para si o pioneirismo de algo como o Picture. A comprovadamente primeira banda de heavy metal da Holanda chega à sua quarta década de existência e atividades praticamente ininterruptas com um excelente novo álbum de estúdio e com muita lenha para queimar. Neste bate-papo exclusivo com o baterista e membro fundador, Laurens Bakker, falamos sobre as mais recentes mudanças na formação do grupo, as primeiras impressões de “Wings” — incluindo uma curiosa semelhança com um clássico do rock dos anos 1970 — e a mais que especial relação da banda com o Brasil. Confira!
Por Marcelo Vieira
Fotos extraídas do Facebook oficial da banda
Metal Na Lata: O novo álbum, “Wings”, é ótimo, parabéns! Começo a resenha que fiz aqui no Metal Na Lata relacionando a arte da capa ao fato de a banda ter renascido após o retorno do guitarrista Jan Bechtum e do vocalista Ronald van Prooijen. Como é tê-los de volta depois de tanto tempo?
Laurens Bakker: É bom como um banho quente! (risos)
Metal Na Lata: Logo após a turnê pela América do Sul, em março de 2016, o vocalista Pete Lovell e os guitarristas Len Ruygrok e Andre Wullems decidiram sair e formar uma nova banda, o Lovell’s Blade. Essa partida inesperada — pelo menos do ponto de vista dos fãs — abalou a relação entre vocês? Vocês ainda mantêm contato com Pete?
Laurens Bakker: Talvez para os fãs tenha sido algo inesperado, mas o clima dentro da banda estava abaixo de zero antes mesmo daquela turnê. Eu não fazia ideia que Pete e os outros começariam outra banda, mas para mim era questão de tempo até nossos caminhos se separarem! Só mantivemos o contato com Andre.
Metal Na Lata: De volta a “Wings”, como funciona o processo de composição da banda? Todos contribuem a cada passo de cada música ou não há regra ou padrão a seguir?
Laurens Bakker: Às vezes alguém aparece com uma música já pronta e todo mundo a toca como achar melhor. Às vezes, não gostamos da música ou de parte dela e trabalhamos até que todos fiquem satisfeitos. Às vezes, a música surge espontaneamente, durante um ensaio. Em “Wings” foi um pouco diferente, porque usamos material de muito tempo atrás, acho que de 1979 ou 1980. Algumas dessas músicas tivemos de ajustar um bocado, como “Empty Rooms”, por exemplo, que mudou tanto, mas tanto, que não sei dizer se é uma música antiga ou nova! (risos)
Metal Na Lata: “Stroke” tem um caráter pessoal muito forte, pois trata de um assunto muito delicado. Qual é a história por trás dela e quem teve a ideia de transformar essa história em música?
Laurens Bakker: Foi ideia de Rinus. Acho que meio que o ajudou a processar o momento difícil que foi o derrame. Pete e os outros dois não deram a mínima e isso, é claro, o machucou. Para trazer Rinus de volta ao palco, eu e ele começamos ensaiando sozinhos. Às vezes eu levava vinte minutos para montar a minha bateria para ensaiar apenas cinco minutos, pois era o máximo que ele aguentava. Fizemos isso várias vezes, até ele começar a se sentir melhor. Um belo dia, ele teve um estalo e concluiu que essa exaustão era, na verdade, ele se escondendo da responsabilidade. No ensaio seguinte, provamos que a tese era verdadeira, e ele estava de volta!
Metal Na Lata: “Never Enough” chama a atenção por sua semelhança com “We’re An American Band” do Grand Funk. Pode-se dizer que houve uma inspiração ou qualquer semelhança, neste caso, é mera coincidência?
Laurens Bakker: Mera coincidência é claro. Honestamente, quando li isso na sua resenha, fui diretamente ao YouTube para ouvir essa música. E é claro que quando a ouvi, a reconheci, mas já fazia muito tempo que ela não estava mais em minha memória. Se tivéssemos notado essa semelhança antes, poderíamos ter mudado o refrão ou até colocado outra música no lugar, porque temos material de sobra o suficiente, mas enfim…
Metal Na Lata: Quais são seus momentos favoritos em “Wings” e por quê?
Laurens Bakker: O órgão e o violão em “Wings” e “Stroke” por causa da história por trás dela. Ambas as músicas são muito especiais para mim, mas eu gosto do álbum inteiro!
Metal Na Lata: Embora tenha sido lançado apenas recentemente, “Wings” já recebeu resenhas positivas da imprensa e, é claro, um feedback entusiasmado dos fãs. O que você pensa sobre isso? Alguma opinião em particular que te comoveu? De quem?
Laurens Bakker: Estou muito satisfeito com as resenhas e com o feedback positivo dos fãs. É sempre emocionante, porque você trabalha duro para fazer um álbum com músicas de que gosta. Mas não é por definição que os fãs também gostarão. Então, você tem que esperar e, se o feedback for positivo, você ficará muito feliz, é claro! Toda resenha positiva me emociona! (risos)
Metal Na Lata: Uma das coisas mais legais do Picture são as letras que dialogam com o cidadão comum. Em “Unemployed”, “I’m Just a Simple Man”, “Out of Time” e até mesmo em algumas músicas de “Wings” vocês escrevem sobre situações cotidianas nas quais o ouvinte se encaixa e acaba se identificando. Você considera isso um diferencial da banda em relação aos seus pares?
Laurens Bakker: Não sei se considero isso um diferencial, mas representa o que somos e pensamos e é isso que propagamos. Na maioria das vezes, você é naturalmente tocado pelos textos que tratam de coisas que você já experimentou, e a experiência, às vezes, é a mesma para todos.
Metal Na Lata: Os últimos anos foram repletos de relançamentos do Picture, incluindo a edição em CD de “Traitor”, até então indisponível no formato. Em termos de produtos, quais são as próximas novidades?
Laurens Bakker: Além do novo DVD e do documentário em que estamos trabalhando, não há nada em vista, até onde eu saiba.
Metal Na Lata: Para o trecho final da entrevista, gostaria de falar sobre o relacionamento do Picture com o Brasil, que data de meados da década de 1980. Eu gostaria que você descrevesse esse relacionamento. Como é ter sua música desfrutada por fãs que moram tão longe, e mesmo diante de todas as dificuldades impostas pelo idioma e pela economia, são tão dedicados?
Laurens Bakker: O Brasil nos abraçou desde o início, e isso criou um vínculo duradouro, motivo pelo qual o Brasil estará para sempre em nossos corações. Toda vez que vamos ao Brasil nos sentimos muito bem-vindos. É uma sensação de que não dá para descrever, mas posso dizer, nos sentimos ótimos aí! Não há muitas dificuldades com o idioma; com gestos e um pouco de inglês, você chega longe! (risos). A economia pode ser um problema, já que impede parte dos fãs de estar conosco. O que podemos fazer é: nada de ingressos VIP. Estamos sempre disponíveis para atender a todos após os shows, e não apenas aqueles que podem gastar um dinheirão com isso.
Metal Na Lata: Como surgiram a amizade e a parceria da banda com a gravadora Classic Metal Records, que além de lançar a edição nacional de alguns dos álbuns do Picture — lançará a edição nacional de “Wings”, inclusive —, é responsável por manter o fã-clube oficial da banda em nosso país?
Laurens Bakker: Tudo começou com a amizade com Patricia Vera, agora Patricia Vera Zuliano, pelo Facebook. Depois disso, ela começou o fã-clube oficial. Nesse meio tempo, Patricia e Denis (Pedro Zuliano) vieram à Holanda, celebraram seu casamento conosco e se tornaram parte da família. Como eles são as pessoas por trás da Classic Metal Records, uma coisa levou à outra, se é que você me entende! (risos)
Metal Na Lata: Ano que vem teremos o lançamento do tão aguardado primeiro DVD oficial do Picture gravado ao vivo no Brasil! Quem teve a ideia de gravá-lo em nosso país? Quais são as expectativas para o lançamento? O que você pode nos antecipar?
Laurens Bakker: Já queríamos fazer um DVD, e chegamos a filmar, mas a qualidade das imagens era tão ruim que não podíamos usá-las. O som estava muito bom, e foi por isso que lançamos o um álbum ao vivo (“Live!! 40 Years Heavy Metal Ears 1978-2018”) em vez de um DVD. Para gravar um novo DVD, a verba era um pequeno problema (risos), então colocamos a ideia na geladeira, até a Classic Metal Records nos dizer que queria gravar um DVD do nosso show em São Paulo, e foi isso! Nossas expectativas estão lá no alto porque já ouvimos o show sem as imagens e ficamos muito satisfeitos. Com as imagens, o resultado deve ser ainda melhor! Acho que os fãs vão adorar!
Metal Na Lata: Quando teremos prazer em receber o Picture de volta ao nosso país? Que novidades podemos esperar dos shows que farão para promover “Wings”?
Laurens Bakker: Esperamos vê-los em fevereiro, para um ou dois shows, e em junho para mais alguns shows, todos organizados pela Open the Road Agency, é claro! Ainda não sabemos como promover “Wings” da maneira certa, porque a maioria das pessoas quer ouvir as músicas antigas, por isso temos que encontrar uma espécie de meio-termo, mas tenho certeza de que teremos sucesso!
Metal Na Lata: Muito obrigado pelo seu tempo, Laurens! Vamos encerrar com uma mensagem sua para todos os fãs do Picture no Brasil e leitores do Metal Na Lata!
Laurens Bakker: Minha mensagem para os fãs brasileiros é que, é claro, espero vê-los e conhecê-los em nossos shows por aí. Permaneçam firmes no Metal e, por último, mas não menos importante, permaneçam positivos na vida, por mais difícil que esta possa ser às vezes. E não se esqueçam de curtir e compartilhar o conteúdo do Metal Na Lata! Até a próxima!
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