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Entrevista com Leeo Mesquita, Victor Miranda e Guilherme Elias (Surra)

ENTREVISTA COM LEEO MESQUITA E GUILHERME ELIAS (SURRA)

A banda santista Surra vem cada vez mais chamando a atenção de todos com seu crossover ácido de Hardcore, Punk com Thrash Metal alimentados por letras fortes que soam como verdadeiros socos violentos na cara do ouvinte em meio a uma sociedade hipócrita e preconceituosa. Formado em 2012, o trio Leeo Mesquita (vocal/guitarra), Guilherme Elias (vocal/baixo) e Victor Miranda (bateria) acaba de lançar o álbum “Escorrendo Pelo Ralo: Ao Vivo em São Paulo”, e é sobre este trabalho, turnês, cena e muito mais que batemos um papo super descontraído com os três, Leeo, Victor Miranda e Guilherme. Confira!

Por William Ribas
Fotos por Marcelo Marafante

Metal Na Lata:Escorrendo pelo Ralo” já nasceu com jeito de clássico com letras ácidas, colocando o dedo na ferida e mostrando a cara de uma parte da sociedade atual. Ouvindo o disco, ele tem um jeitão de “ao vivo”, que foi feito com todos tocando e gravando ao mesmo tempo, algo bem orgânico. Como foi o período de composição e gravação do disco?

Guilherme: Desde o lançamento do ‘Tamo Na Merda’ em 2016 começamos a compor os sons que vieram a fazer parte do ‘Escorrendo Pelo Ralo’. Dentro desse período, alguns dos sons foram destinados ao EP ‘Ainda Somos Culpados’ e o Split 10” com o Damn Youth, o que tornou o processo de composição mais longo do álbum. Acredito que lançar esses 2 trampos nesse mesmo molde, no mesmo estúdio e com produção do Hugo Silva foi um fator crucial.  Quando chegamos para gravar o “Escorrendo Pelo Ralo”, estávamos ambientados tanto com o estúdio, quanto com o formato de gravação, além de termos ensaiado igual a uns retardados.

Metal Na Lata: Ainda sobre o álbum. Como foi a resposta do público e imprensa? Pelas letras e postura de vocês que são bastante engajadas, vocês temeram algum certo preconceito que o Surra possa sofrer?

Guilherme: Como algumas pessoas falam, o ‘Escorrendo Pelo Ralo’ é a continuidade de uma evolução que a banda vem desde o ‘Somos Todos Culpados’ em 2014. Não tivemos receios em relações as letras, pois acreditamos que quem deveria ter azedado com a gente já teria em outras oportunidades. Acredito que o single ‘Parabéns Aos Envolvidos’ também foi um movimento crucial nessa questão de mostrarmos nosso posicionamento.

 

Metal Na Lata: No ano passado tive oportunidade de assistir vocês e tenho que dizer que a anos não via uma apresentação energética e com uma enorme participação do público. No futebol se costuma dizer que a torcida é o 12° jogador, no Surra os fãs têm a mesma representatividade, sobem no palco, cantam, se jogam havendo uma enorme sinergia entre todos.

Guilherme: Acredito que nesse tempo de banda conseguimos não só criar público, mas fazer amigos e amigas que gostam e participam da banda de forma ativa. O resultado disso é bem visível no vídeo do ‘Escorrendo Pelo Ralo: Ao Vivo’. Conhecemos pessoalmente a maioria dos presentes no evento, fizemos uma lista convidando com as pessoas que apoiam a banda desde o início. Teve gente ali que foi em mais de 20 shows do Surra durante o ano de 2019 e nos acompanham tanto pessoalmente quanto nas redes sociais.

Metal Na Lata: Aliás, o Surra consegue agradar diversas tribos, do Hardcore ao Death Metal. Nos álbuns, temos uma grande variação de estilos: Hardcore, Crossover, Ska, Samba, não se prendendo em uma única formula. Quando estão em casa, o que gostam de ouvir? Quais são suas principais influências?

Victor: Acho que mesmo com gostos um pouco diferentes entre si, temos em comum o fato de não termos preconceito nenhum em relação a estilos de música, escutamos realmente de tudo. E acho que isso também varia de época para época, e reflete em nossas músicas. Por exemplo, eu tenho ouvido bastante as bandas novas de Death Metal que estão aparecendo no underground e, por consequência, alguns sons novos que a gente gravou refletem um pouco disso, mas não é nada feito de propósito. A coisa rola de forma bastante orgânica. Na questão de influências diretas pra gente, acho que podemos separar em duas categorias. A primeira, da sonoridade mesmo, posso colocar Ratos de Porão, D.F.C., Sepultura, Kreator, Obituary. A segunda tem mais a ver com relação a letras e conceitos, e aí posso colocar Racionais MC’s, Facção Central…

Metal Na Lata:Bom Dia Senhor” é a minha música favorita da banda. Falar de religião é um dos temas mais polêmicos desde sempre. Eu entendo que DEUS é um grande negócio para os líderes religiosos, o que importa mesmo é o dinheiro dos fiéis que acabam se apegando as palavras dos charlatões. Hoje vemos uma bancada religiosa forte, temos um líder religioso e na opinião de vocês, quão perigosa é a religião nos dias atuais, com tanta polaridade de ideias e violência? ”

Victor: A religião sempre foi uma ferramenta usada para manipular uma parcela da população, pois também temos que considerar que é algo que tem muita capacidade de mobilização para o bem e para o mal. As pessoas fazem todo tipo de maluquice em nome de uma religião e isso é bastante perigoso na mão de gente maliciosa que não pensa duas vezes antes de usar os outros em benefício próprio. No nosso país, ainda mais atualmente, não faltam exemplos disso que eu acabei de falar. Inclusive, isso é bastante perigoso para nós, do Metal, do Punk, do “Rock”, que somos vistos como malditos, adoradores do Diabo, imorais e que não merecemos respeito, independentemente da ideologia que temos na cabeça ou não. Portanto, temos que ter a consciência que, se a gente bobear, esse setor reacionário não vai pensar duas vezes antes de partir para cima da gente com toda violência possível.

Metal Na Lata: Agora em abril a banda lançou o seu segundo trabalho ao vivo, “Escorrendo Pelo Ralo: Ao Vivo”. O show em si como rolou? Teve alguma pressão extra por saberem que seria gravado para um futuro lançamento?

Victor: Não houve pressão, só aquela ‘vontadinha’ de cagar normal antes de subir no palco hahaha. Nós optamos propositalmente para fazer esse rolê em um lugar pequeno, onde sabíamos que a galera ia suar intensamente e fazer um inferno na Terra, então já fomos conscientes da bagunça que ia ser. Foi muito legal poder “tirar uma fotografia” desse momento tão especial da banda e imagino que vai ser mais legal ainda assistir isso daqui uns anos e lembrar de tudo que envolveu.

Metal Na Lata: Vi que também sairá o álbum ao vivo sem versão física num box limitado cheio de brindes. Pode adiantar para nós e fãs quais surpresas estão preparando?

Guilherme: O que podemos adiantar por agora que teremos brindes fornecidos em parceria com a Patch Custom e Sabot. Duas marcas que fortalecem tanto a nossa caminhada quanto de muitas outras bandas do underground nacional. O restante do pacote iremos divulgando aos poucos nas redes sociais durante o mês de Maio.

Metal Na Lata: Lançar “Escorrendo Pelo Ralo: Ao Vivo” neste momento complicado onde tudo está parado, foi um jeito que arrumaram de manter o nome em um crescente perante ao público em geral?

Leonardo: Na realidade todos esses planos de lançamento já existiam desde o final do ano passado, a gente se antecipou bastante. Tanto o vídeo, quanto as músicas em plataformas digitais e o material físico que será lançado, eram pra chamar a galera pra ir nos shows que estávamos prestes a fazer.  Sempre que possível, a gente gosta de lançar alguma coisa antes de uma bateria de shows, queremos sempre ter alguma novidade, seja de merch ou de música nova… Depois que a situação se desenrolou, shows foram cancelados e todos tivemos que ficar em casa, adaptamos os lançamentos pra esse formato online. Precisamos continuar a existir como banda de alguma forma, ou pelo menos tentar!

Metal Na Lata:existem planos para um novo disco de estúdio?

Leonardo: Sim! Nós nunca queremos parar de produzir, estamos sempre compondo. Já estamos nos adaptando pra continuar fazendo música e materializando nossas ideias mesmo com as dificuldades do isolamento.
Temos já um material (não é um disco ‘full’) praticamente todo gravado que sairá em formato especial ainda esse semestre, se tudo der certo. E assim como no álbum ao vivo, fizemos tudo por nós mesmos. Eu mesmo pilotei a gravação e vou me aventurar a mixar e masterizar essa barulheira.

Metal Na Lata: Para finalizar, no Brasil, na cena em si. É difícil defender e lutar por um ideal e um lugar melhor para o próximo?

Leonardo: Para o Surra, na ‘cena’ musical underground não encontramos grandes dificuldades em discutir boas ideias. Ultimamente, tem sido poucas as pessoas que nos perturbam com ideias reacionárias. Já na sociedade em geral, no nosso entendimento, lutar por um ‘mundo melhor’ significa diretamente fazer propaganda e se organizar com outras pessoas pra distribuir melhor o bem produzido. Isso implica em propagar ideias que são constantemente alvo de mentiras e resinificados absurdos. Qualquer coisa que uma pessoa ou um grupo faça/fale que ameace a imagem desse desgoverno que temos atualmente, é boicotado ou perseguido.

Metal Na Lata: Obrigado pela entrevista, o espaço final é de vocês.

Leonardo: Quero agradecer vocês pelo espaço e agradecer a todo mundo que mesmo com tudo paralisado continua interagindo e dando força pra nossa banda. Apoiem as frentes que ajudam as comunidades, apoiem pessoas que combatem a desigualdade social! Espero que estejam todos bem e pra quem for possível que fique em casa o máximo que conseguir, temos que levar isso muito a sério. Abraço!

Mais informações:

www.facebook.com/surrahardcore
www.surrahc.com.br

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