Entrevista com Lord Campbell (Silver Dust)
Desde sua formação em 2013, o Silver Dust construiu uma identidade rara dentro do metal contemporâneo. Misturando peso, teatralidade e uma estética que transita entre o gótico vitoriano e o steampunk, a banda suíça liderada pelo carismático Lord Campbell transformou seus shows em verdadeiras experiências visuais e sonoras. Com uma proposta que dialoga tanto com a tradição do shock rock quanto com elementos sinfônicos e eletrônicos, o grupo rapidamente conquistou espaço em palcos importantes da Europa, dividindo turnês e festivais com nomes de peso como Kiss, Scorpions, Sabaton, Lordi e Moonspell.
Agora promovendo o álbum Symphony of Chaos, considerado por seu mentor como o trabalho mais maduro e poderoso da carreira, o Silver Dust vive um momento de expansão internacional. Em 2026, a banda finalmente fará sua aguardada estreia no Brasil, com apresentação no Bangers Open Air e um show especial em São Paulo ao lado do Evergrey — um passo importante em direção ao público sul-americano, conhecido mundialmente por sua paixão e intensidade.
Nesta entrevista exclusiva, Lord Campbell fala sobre a construção do universo estético do Silver Dust, a influência de artistas como Alice Cooper e Kiss, sua curiosa transição do hóquei profissional para os palcos do metal, o conceito por trás de Symphony of Chaos e as expectativas para o primeiro encontro com os fãs brasileiros. Uma conversa que revela não apenas os bastidores da banda, mas também a visão artística de um músico que encara o metal como uma experiência completa — musical, visual e emocional. Confira!
Entrevista conduzida por Johnny Z.
Fotos por Alexia Tantardini-Sutterlet
Agradecimentos à Marcos Franke pela oportunidade

O Silver Dust surgiu em 2013 com uma identidade estética muito bem definida, algo raro para bandas relativamente novas. Você sempre teve essa visão clara do que a banda deveria representar artisticamente ou essa identidade foi moldada com o tempo, na estrada?
Lord Campbell: Foi a imprensa europeia que descreveu o Silver Dust como uma banda “burtoniana”. Como sou um grande fã de Tim Burton e de seus filmes, isso pareceu completamente natural para mim. Sempre amei a cultura e a arquitetura gótica. Sua história, figurinos, música clássica, objetos e lendas sempre me fascinaram. Eu moro em Porrentruy, em uma região da Suíça que viveu um importante período gótico. Por isso, é fácil para mim ambientar videoclipes, pois nossa cidade realmente parece um cenário de filme. Isso pode ser visto em muitos de nossos clipes, mas especialmente em nosso single mais recente, “Salve Regina”. Para mim, sempre foi óbvio que um dia eu criaria uma banda assim, com uma identidade forte, reunindo todos os elementos que amo do universo gótico enquanto desenvolvia uma identidade pessoal. Alice Cooper, Kiss e Marilyn Manson são artistas que me influenciaram muito. Mas, como você deve ter notado, o Silver Dust tem sua própria identidade, e isso sempre foi muito importante para mim. Claro que, com o tempo, sempre há alguma evolução, mas ela ainda permanece dentro do mesmo estilo. Eu também tendo a querer trazer um pouco mais de modernidade.
Sua transição de atleta profissional de hóquei no gelo para frontman de uma banda de metal com forte apelo teatral é, no mínimo, única. Em termos de mentalidade, disciplina e liderança, quais elementos da sua carreira esportiva ainda se refletem na maneira como você lidera o Silver Dust?
Lord Campbell: O esporte costuma ser descrito como uma escola da vida, e isso é muito verdadeiro. Eu fui goleiro profissional de hóquei, uma posição em que você precisa ter nervos de aço. Até hoje sou convidado para jogar em rinques de hóquei na Suíça com o Silver Dust, o que é uma grande honra. O esporte me ensinou rigor, disciplina, trabalho duro e organização. Mas, acima de tudo, me ensinou a nunca desistir até alcançar seu objetivo. Esse é o meu modo de pensar todos os dias. Joguei com e contra alguns dos melhores jogadores do mundo. Obviamente aprendi muito com todo esse talento de elite. Nada me impressiona. Estou aqui para transmitir confiança a todos, compartilhar… e vencer (risos).
Um dos aspectos mais interessantes da banda é a forma como vocês tratam o metal quase como uma experiência cinematográfica, misturando música, narrativa e elementos visuais. Até que ponto o Silver Dust se vê simplesmente como uma banda e até que ponto funciona como um projeto artístico mais amplo?
Lord Campbell: Quando você vai a um show, acho interessante ver algo além de apenas ouvir boa música. Quando componho, imediatamente sinto o que será possível fazer do ponto de vista do palco. Na minha mente, as duas coisas sempre caminham juntas. Também sou acompanhado no palco por três músicos fantásticos que amam o que componho e confiam 100% em mim, o que é um grande privilégio quando sabemos como a colaboração na música às vezes pode ser difícil. Mr. Killjoy, nosso baterista, é um gênio, um espetáculo por si só. Você precisa vê-lo para entender, e eu sou um grande fã dele. Ele contribui muito para o lado visual e para o espetáculo geral da banda. Neiros, nosso guitarrista, e Kurghan, nosso baixista, também são verdadeiras feras no palco. Seus personagens são únicos, fortes e intrigantes. Foi exatamente isso que quis capturar em nosso último vídeo, “No Matter How Far Away”. Eu queria que essa energia estivesse muito presente nesse clipe. Por outro lado, “Salve Regina” é um vídeo com uma história e uma narrativa que ganham vida na tela.
O álbum Symphony of Chaos traz um título que carrega uma poderosa dualidade. Em um momento histórico marcado por instabilidade social, crises e polarização, o disco dialoga de alguma forma com o caos do mundo contemporâneo?
Lord Campbell: Para mim, Symphony of Chaos é um reflexo sonoro da turbulência que vemos no mundo hoje. Eu acompanho as notícias de perto e me sinto profundamente afetado pela direção que nossa sociedade está tomando. Uma parte importante da minha filosofia pessoal é a defesa ferrenha dos direitos dos animais. Sou totalmente contra a crueldade em qualquer forma. O consumo excessivo de carne no mundo é uma praga que causa imenso sofrimento tanto para os animais quanto para os humanos, um grande engano que abordamos diretamente na música “I’m Flying”. Mas o caos não é apenas global, também é profundamente pessoal. A faixa “Goodbye” é uma homenagem ao meu melhor amigo, que foi levado por uma doença grave cedo demais. Este álbum foi minha maneira de lidar com esse luto enquanto refletia sobre o mundo ao meu redor.
Musicalmente, o Silver Dust parece cada vez mais confortável equilibrando peso, melodia e elementos sinfônicos sem perder sua identidade. Essa maturidade foi algo planejado ou aconteceu naturalmente à medida que a banda ganhou mais experiência em estúdio e na estrada?
Lord Campbell: Eu evoluí muito tanto vocalmente quanto em termos de composição. Em relação à música e ao aspecto visual, eu sou o criador da banda: componho todas as músicas, escrevo as letras e cuido dos arranjos. Crio tudo do começo ao fim, incluindo design gráfico, logotipos e capas de álbuns. Meu objetivo era criar um álbum um pouco mais metal do que os lançamentos anteriores do Silver Dust. Também queria evoluir vocalmente e consegui desenvolver técnicas que ainda não havia explorado. Eu queria um disco em que cada melodia ficasse na cabeça do ouvinte, com vocais poderosos, arranjos altamente produzidos, loops eletrônicos e orquestrações clássicas épicas. Eu adoro trabalhar com diferentes plug-ins, sou apaixonado por programação e, olhando para trás, estou muito feliz com o resultado. Sinto que avancei bastante como compositor, e isso é uma sensação incrível. Mas uma vida inteira não é suficiente para explorar tudo!
O lançamento do clipe de “No Matter How Far Away” reforça a importância do aspecto visual dentro do universo da banda. Em uma era em que o consumo de música muitas vezes é fragmentado nas redes sociais, você vê o videoclipe como uma ferramenta artística ou principalmente estratégica?
Lord Campbell: Um videoclipe é, de fato, uma ferramenta artística, e tudo precisa ser estratégico em sua criação. A cada vez eu penso em cada detalhe, e tivemos a sorte de colaborar há bastante tempo com a fantástica diretora Livja Pjetra, que sempre traz um toque extra para nossos vídeos. Ela é realmente muito talentosa.
Ao longo da carreira, o Silver Dust dividiu o palco com nomes muito diversos — de Lordi a Rotting Christ e Battle Beast. Como essas experiências com públicos distintos ajudaram a banda a entender melhor seu próprio lugar dentro do espectro do metal?
Lord Campbell: O Silver Dust tem o poder de conquistar qualquer público. Posso garantir que isso é verdade, e vimos isso claramente durante as várias turnês que fizemos com diferentes bandas. Como grande fã de Moonspell e de Fernando Ribeiro, foi uma experiência incrível. Lembro que fizemos uma turnê juntos por 26 países — foram 50 shows em 53 dias em 2019. Ficamos amigos dessa banda fantástica, e também tivemos ótimos momentos com o Rotting Christ. Também continuamos muito próximos do Lordi, uma banda que eu absolutamente adoro! Aprendemos muito com todos eles.
A estética do Silver Dust frequentemente evoca uma imagética sombria, quase burtoniana, com elementos góticos e steampunk. Existe um universo narrativo contínuo por trás da banda ou cada álbum representa um capítulo independente dessa identidade artística?
Lord Campbell: O álbum ‘House 21’, lançado em 2018, é um disco conceitual. Fora isso, sempre tentei evoluir a cada novo trabalho. Tenho orgulho de todos os álbuns que lançamos porque sempre levamos nosso potencial ao máximo naquele momento. No entanto, ‘Symphony Of Chaos’ é de longe nosso melhor álbum, com um nível de maturidade e força incomparável aos nossos discos anteriores. Já estou trabalhando na composição do próximo álbum.

Nos últimos anos, vocês também tocaram ao lado de gigantes como Kiss, Scorpions, Sabaton e Powerwolf, o que coloca a banda diante de públicos muito maiores. Em termos de percepção de carreira, qual foi o impacto real dessas oportunidades para o Silver Dust?
Lord Campbell: Dividir o palco com ícones como Sabaton, Scorpions, Alice Cooper, Moonspell, Lordi, Powerwolf e especialmente meus heróis do Kiss é uma experiência tão incrível quanto inimaginável. Se alguém tivesse me dito no início da minha jornada que um dia eu tocaria ao lado dos meus ídolos, eu teria apenas sorrido e não acreditado. Além da emoção, eu sou um estudante da arte. Adoro observar bandas que alcançaram esse nível de sucesso global para entender a “receita” delas. Assistir aos shows do lado do palco — o mesmo palco em que acabamos de tocar — acrescenta uma dimensão poderosa à experiência. A lição mais importante que aprendi, especialmente com o Kiss, é a importância do rigor, da tenacidade e da inovação constante. Sou fascinado pela trajetória de Gene Simmons e Paul Stanley: apesar dos obstáculos que enfrentaram, uniram suas forças para construir algo maior do que eles mesmos. Manter esse nível de excelência por mais de 50 anos é extraordinário. Isso me ensina que, para se tornar lendário, você precisa tratar sua arte com disciplina absoluta e nunca parar de expandir os limites do seu show.
A indústria musical mudou drasticamente na última década, especialmente para bandas de metal que precisam equilibrar streaming, presença digital e turnês constantes. Como o Silver Dust se adapta a esse cenário sem perder sua essência artística?
Lord Campbell: O mercado da música colapsou, e às vezes me pergunto como chegamos até aqui. Hoje você tem duas opções: ou chora e critica tudo o que está acontecendo, ou continua produzindo álbuns de qualidade, faz turnês por todos os lugares e encontra orçamento para fazer sua banda crescer, porque o principal problema da indústria é realmente o dinheiro. Eu escolhi a segunda opção, e temos muita sorte de trabalhar com Fabienne Roth, nossa empresária e produtora executiva, que ajudou o Silver Dust a crescer. Devemos muito a ela.
A recente aproximação com o mercado sul-americano indica que a banda está entrando em uma nova fase de expansão internacional. O que você já ouviu sobre o público latino-americano e quais são suas expectativas em relação a essa conexão?
Lord Campbell: Tocar no Brasil pela primeira vez é um marco enorme para nós. Crescemos ouvindo falar da energia lendária da cena metal brasileira — é um público que não apenas assiste ao show, ele vive o show! Pessoalmente, sempre fui inspirado pela força bruta do Soulfly e do Sepultura. Max Cavalera é um verdadeiro pioneiro cuja influência na comunidade global do metal é imensurável. Nos sentimos muito sortudos por entrar nesse território com o apoio da Dharma Music. Estou em contato há muito tempo com o grande Rodrigo Oliveira. Sou um grande fã do trabalho dele como baterista e produtor, e ter alguém do calibre dele acreditando no Silver Dust é uma verdadeira honra. Ele reuniu uma equipe fantástica para nos ajudar a crescer no Brasil e na América do Sul, e essa colaboração realmente não poderia ter acontecido em um momento melhor. O Silver Dust está mais forte do que nunca agora!
Em 2026, o Silver Dust finalmente fará sua estreia no Brasil, incluindo uma apresentação no Bangers Open Air e um show especial em São Paulo ao lado do Evergrey. Para uma banda conhecida pela intensidade visual e teatral de suas performances, o que vocês estão preparando para tornar esse primeiro encontro com o público brasileiro realmente memorável?
Lord Campbell: Nós conhecemos o Bangers Open Air, e poder tocar lá é uma oportunidade tremenda. Estamos realmente empolgados para conhecer o festival e apresentar o Silver Dust ao público brasileiro pela primeira vez. Sabemos que os fãs brasileiros estão entre os mais exigentes do mundo, e nós absolutamente adoramos isso. Queremos apresentar algo diferente, algo novo para o público. Viver um show do Silver Dust significa viver uma experiência, entrar em outro mundo. Também é uma grande honra abrir para o Evergrey no dia 22 de abril. Eu amo essa banda!
Muitas bandas passam anos tentando encontrar sua própria identidade dentro de uma cena saturada. No caso do Silver Dust, essa identidade parece muito clara, tanto musicalmente quanto visualmente. Se você tivesse que resumir em poucas palavras o que realmente define o Silver Dust dentro do universo do metal contemporâneo, o que diria?
Lord Campbell: Sendo o criador de tudo no Silver Dust, é difícil para mim dar um passo atrás e analisar. O que posso dizer é que o Silver Dust é, acima de tudo, energia e experiência. Musicalmente, gostamos de misturar gêneros: metal, orquestral, eletrônico… cada faixa conta uma história e busca surpreender o ouvinte. Visualmente, nosso universo steampunk vitoriano reforça essa identidade única. Mas o que realmente define o Silver Dust é a paixão e a intensidade que colocamos em cada apresentação: no palco, levamos o público para outro mundo, e é essa combinação de emoção, energia e modernidade que nos diferencia no metal contemporâneo.
Pensando no futuro, quando você olhar para trás daqui a dez ou vinte anos, qual seria o legado ideal que gostaria que o Silver Dust deixasse para o metal — não apenas em termos musicais, mas também em conceito, estética e experiência artística?
Lord Campbell: Acho que deixar uma imagem moderna e original, com uma composição única e forte, seria um grande legado para a banda e para mim como compositor.
Estamos chegando ao fim. Obrigado pela entrevista e nos vemos em breve no Bangers Open Air 2026!
Lord Campbell: Obrigado pelo seu interesse, Johnny Z. Estamos realmente ansiosos para encontrá-lo
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