Entrevista com Nico Elgstrand (Katatonia)

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Entrevista com Nico Elgstrand (Katatonia)

Faltando pouco mais de um mês para o aguardado retorno do Katatonia ao Brasil — com apresentação marcada para o dia 21 de março, no Cine Jóia — o Metal Na Lata teve a oportunidade de conversar com o Nico Elgstrand, guitarrista da banda, em uma entrevista exclusiva que antecipa o clima de expectativa para o show na capital paulista.

Em um bate-papo descontraído e acolhedor, a conversa começou de forma bastante sincera: revelamos que aquela era nossa primeira experiência entrevistando um músico internacional — e que o nervosismo era inevitável. A resposta, simples e tranquilizadora, quebrou o gelo imediatamente e abriu espaço para uma troca leve, natural e cheia de momentos interessantes.

O resultado é uma conversa franca, envolvente e reveladora, que oferece aos fãs um olhar mais próximo sobre o momento da banda, suas perspectivas e a energia que prometem trazer ao palco em São Paulo. Confira a entrevista completa a seguir.

Entrevista por Ana Clara Salles
Fotos por Terhi Ylimäinen

Metal Na Lata: Vocês vêm ao Brasil no mês que vem. Estão animados? Não é a sua primeira vez aqui, certo?

Nico Elgstrand: Isso, já estive aí algumas vezes. Acho que a última vez foi ano passado ou retrasado, não me recordo (risos).

Metal Na Lata: Sim, se não me falhe a memória foi em 2024.

Nico Elgstrand: É, então foi há dois anos. Estou super animado. Amo todos os países da América do Sul. Acho que é minha parte favorita do mundo para tocar. Acredito que para todo mundo da banda também, porque é tudo muito intenso. E a comida é incrível. Além disso, aí está quente agora. Aqui está horrível, frio pra caramba.

Metal Na Lata: Sim, está bem quente por aqui. Na última vez que veio também estava quente e que na época o clima tinha dado uma melhorada bem a tempo do feriado de Carnaval.

Nico Elgstrand: Quando começa o Carnaval aí?

Metal Na Lata: Acredite, em muitos lugares do país, as festas já estam rolando (risos)
[Nota do Entrevistador: Entrevista realizada no dia 15 de fevereiro]

Nico Elgstrand: Wow!! Adoraria ir ao Brasil um dia só para conhecer e aproveitar essas festas (risos).

Metal Na Lata: Seria um prazer tê-lo aqui conosco. Além de guitarrista, você já trabalhou como produtor e engenheiro de som, e agora faz parte do Katatonia, que para mim é um dos maiores nomes do doom metal — ou “rock triste”, como eu gosto de chamar. Como foi o convite? Você já era fã da banda?

Nico Elgstrand: Sim, eu já era fã. Foi bem estranho, logo depois da COVID. Todo mundo estava meio perdido, sem saber o que ia acontecer. O LG, do Entombed, com quem eu tinha tocado, faleceu de câncer. Eu pensei: “Nunca mais vou tocar música”. Aí o Jonas (Renkse, Katatonia) me ligou e disse: “Eu sei que parece loucura, mas você quer aprender 25 músicas, viajar até Hobart, na Austrália, o que dá umas 30 horas de voo, tocar um show e voltar?” Se não fosse logo depois da pandemia, eu teria dito “não, trabalho demais, voo demais”. Mas como eu não tinha feito nada por um ano e minha banda tinha acabado, eu disse: “Por que não?”. No fim, passamos uns seis dias em aeroportos para fazer um único show. E, ainda por cima, o equipamento não chegou. Tive que tocar com a guitarra de outra pessoa, e meu pedal também sumiu. Foi extremamente estressante, mas nos divertimos muito. Acho que essa é a chave para qualquer relação, inclusive numa banda: se dar bem. A gente se deu super bem. Um ano depois, quando me chamaram para fazer uma turnê porque o Anders (Nyström, ex-Katatonia) não podia, eu aceitei. E senti que, se houvesse uma vaga na banda, provavelmente seria minha, porque a gente estava se divertindo muito juntos. E aqui estamos.

Metal Na Lata: Como foi aprender tantas músicas em tão pouco tempo? Eu não toco nada, mas quando escuto sinto que elas devem ser bem complexas.

Nico Elgstrand: Muito treino. Foi bem intenso. Às vezes eu pensava: “Chamem outra pessoa, isso é difícil demais”. Mas isso é o que torna tudo mais divertido. As músicas do Katatonia têm muitos detalhes que precisam ser perfeitos, compassos estranhos. Se você errar, sai totalmente da música. Então tem que praticar muito mais. Hoje me sinto bem mais confiante, mas cada música nova traz aquele “ai meu Deus, vai dar trabalho”. Mas, no longo prazo, é divertido e interessante. Descobri que gosto mais quando é difícil do que quando é fácil.

Metal Na Lata: Você lembra como se sentiu no primeiro show oficial como guitarrista do Katatonia?

Nico Elgstrand: Sendo sincero com você, não lembro exatamente do momento em que virei “oficial”. Não teve cerimônia nem nada. Só segui tocando. Mas o primeiro show foi puro terror. Depois da turnê, fui ganhando confiança. A gente se dava tão bem que eu já sentia que acabaria entrando na banda. Quando eles me chamaram para jantar e fizeram o convite oficial, foi engraçado — parecia até um pedido de casamento (risos).

Metal Na Lata: Errado não está (risos). E como os fãs te receberam? Você entrou com uma responsabilidade imensa de substituir um dos fundadores da banda.

Nico Elgstrand: Fiquei bem ansioso no começo, porque o Anders é um membro original. Poderia ter sido ruim. Mas foi muito tranquilo. Ninguém teve energia negativa, não tinha ninguém com cartaz mandando eu ir embora (risos). Com o tempo, fui me sentindo cada vez mais aceito.

Metal Na Lata: Uma coisa que sempre percebo em todos os shows que vou do Katatonia: o público está ali para curtir a banda. Para se soltar, cantar, sentir cada emoção que cada nota desperta.

Nico Elgstrand: Sim, acho que os fãs do Katatonia amam a música acima de tudo. Quem está no palco importa, claro, mas o principal é a banda estar lá tocando as músicas que eles amam.

Metal Na Lata: Vocês já estão compondo algum material novo?

Nico Elgstrand: Eu nunca paro de compor. Acho que se você para depois de um álbum, fica mais difícil voltar. É como um treino físico: se parar, dói para recomeçar. Quando chega a hora de fazer um álbum, você olha o que tem: algumas coisas são ruins, outras são boas. O legal do Katatonia é que podemos ir para lugares estranhos. Ninguém sabe como vai soar o próximo álbum. No final, acho que nem a gente.

Metal Na Lata: Você consegue compor em turnê?

Nico Elgstrand: Eu tento, mas comigo quase não funciona. Fico 30 dias na estrada e volto com uma música. Em casa, sento meio dia e já faço quatro. O ambiente da turnê não funciona para mim. Eu aceitei isso: na estrada é sobreviver, tocar os shows, comer bem e, se der, fazer um pouco de exercício.

Metal Na Lata: Onde você busca inspiração? Li numa entrevista que você quase não escuta metal em casa.

Nico Elgstrand: É verdade. 99,9% do que eu ouço não é metal. Não é que eu não goste, mas como trabalho com isso, quando chego em casa quero “desligar”. É como um chef que não quer cozinhar depois do trabalho. Eu gosto de música difícil de prever, como trilhas sonoras ou jazz. É mais relaxante para mim. Por exemplo, gosto muito da banda Explosions in the Sky e da trilha que eles fizeram para a série American Primeval. Em trilhas sonoras, a música é secundária à imagem, então fica relaxante de ouvir.

Metal Na Lata: E já que estamos falando sobre esse assunto, me diz seu top 3 de artistas de todos os tempos. Essa é uma pergunta difícil, hein?

Nico Elgstrand: Billie Holiday é a melhor vocalista de todos os tempos, sem discussão. Ennio Morricone é, de longe, o melhor compositor. E Bob Marley nunca envelhece.

Metal Na Lata: Um guitarrista de uma banda de doom metal curtindo Bob Marley? Muito interessante. Você chegou a ver o filme sobre ele?

Nico Elgstrand: Vi, mas achei estranho. O ator parecia bonito demais, branco demais. Os dreads pareciam peruca. Eu esperava mais. A história do Bob Marley é incrível, a luta dele para fazer a música chegar ao mundo é inspiradora, e isso não apareceu no filme. Acho que filmes biográficos, como Bohemian Rhapsody, acabam suavizando muito as coisas por causa de Hollywood. A gente queria ver a história real, com os defeitos também. Mas é difícil quando tem tanto dinheiro envolvido.

Metal Na Lata: Para finalizar, o Katatonia não é uma banda que suaviza a dor, a solidão ou a introspecção. Vocês abraçam todas essas coisas e transformam em música. E talvez seja exatamente por isso que, mesmo mudando com o tempo, vocês continuam soando tão verdadeiros para os fãs. Muito obrigado pela entrevista e nos veremos em março!

Nico Elgstrand: Nossa, excelente ponto de vista! Muito obrigado. Agradeço também pelo bate-papo e espero ver todos vocês lá no show e, com isso, lotem o lugar (risos).

Ingressos disponíveis em: https://fastix.com.br/events/katatonia-em-sao-paulo

Mais informações:

https://www.katatonia.com
https://www.facebook.com/katatonia
https://www.instagram.com/katatoniaband

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