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Entrevista com Zândhio Huku (Arandu Arakuaa)

Mesmo sem ter uma gigante mídia em cima, o grupo Arandu Arakuaa vem conquistando fãs, surpreendendo os desavisados e o mais importante, continuam nessa ascenção crescendo vertiginosamente. No ano passado, lançaram “Mrã Waze”, o terceiro trabalho de estúdio, que continua a saga de encantar e mostrar a simplicidade e a riqueza da cultura indígena. Conversamos com o Zândhio Huku (guitarra/voz/viola caipira/instrumentos indígenas), que nos contou com exclusividade todos os detalhes que cercam o grupo.

Por William Ribas
Fotos divulgação

Metal Na Lata: O Arandu Arakuaa, é uma banda de Heavy Metal que mistura música folclórica, com letras em tupi inspiradas na cultura indígena. Desde o início a ideia foi, vamos formar uma banda e divulgar e valorizar o povo indígena?

Zândhio Huku: Sim. Só estamos usando o dom cedido pelos encantados a favor da luta. Nunca tive dúvidas que essa é minha missão, seja como artista ou como educador. A razão da existência do Arandu Arakuaa é justamente contribuir com a luta dos povos originários, que nada mais é que a luta pela preservação da vida do planeta. Não faria sentido algum a gente agir como algumas bandas que gravam apenas um disco falando superficialmente sobre, com aquela ideia marqueteira do “exótico” e depois seguir com trabalhos com outros direcionamentos.

Metal Na Lata: Como foram as repercussões para os dois primeiros álbuns, “Kó Yby Oré”(2013”) e “Wdê Nnãkrda”(2015)?

Zândhio Huku: Em se tratando de uma banda independente, consideramos que foi foram um sucesso de público e crítica. Até hoje as pessoas vêm nos relatar suas experiências com esses discos, na verdade ainda comentam até sobre o EP lançado em 2012. O que é fantástico, e muito nos emociona.

Metal Na Lata: Qual é o significado para o título “Mrã Waze”?

Zândhio Huku: Mrã Waze (Respeito a Natureza, no idioma indígena brasileiro Akwẽ Xerente). O conceito do disco versa sobre a relação do homem com a natureza, o uso das medicinas de cura nas quais os pajés trabalham com as forças da natureza e os espíritos dos animais, além de toda a mística da lua e do sol. A mensagem central é todos unidos em matéria e espírito, assim formando uma grande unidade, onde não há separação entre o plano físico e o espiritual e, consequentemente, se atinge o equilíbrio entre o homem, os animais, a natureza, enfim, todo o cosmos.

Metal Na Lata: Por estarem num crescente na carreira da banda, na hora de compor as novas músicas houve alguma certa pressão interna?

Zândhio Huku: De forma alguma. Não consigo imaginar alguém compondo e tendo que pensar em algo a não ser está imerso naquele momento. Ao menos pra mim o ato de compor é algo parecido a um transe espiritual. Talvez o fato que fazermos um tipo de música nada comercial nos dá esse luxo também. Você basicamente já fica feliz pra caralho só pela oportunidade de registrar suas músicas e poder compartilhar com as pessoas. Se elas vão se identificar ou não aí já é outra história, outro momento, e claro eu também já estarei em outro momento, muito provavelmente compondo novas músicas (risos).

Metal Na Lata: Sobre o processo de composição, como vocês trabalham? Em “Mrã Waze”, temos um maravilhoso equilíbrio entre o Heavy Metal e as músicas indígenas, no momento em que estão trabalhando no disco consegue já visualizar o resultado final?

Zândhio Huku: Em todos os discos o processo de composição aconteceu inicialmente comigo levando as estruturas das músicas já prontas (letras, melodias, riffs, ideias de arranjos…), em um segundo momento fazemos a pré-produção com o produtor Caio Duarte, trabalhando na composição dos arranjos e harmonias de cada instrumento e das vozes. O Caio além de ser um grande produtor e multi-instrumentista, é um amigo querido e peça fundamental para a banda, então tudo flui. Depois vem o processo de gravação onde todos acrescentam suas ideias, como o Arandu sempre contou com grandes músicos em todas as suas formações, fica bem nítido as particularidades de cada músico quando se ouve as músicas, especialmente agora com o João Mancha na batera, Guilherme Cezário na guitarra e a Andressa Barbosa no baixo e voz. Cada música já nasce com uma intenção, uma mensagem muito clara, uma vibração, portanto no processo criativo já conseguimos vislumbrar o resultado. Na verdade todo o ato de registrar as músicas gira em torno de materializar esse imaginário da melhor forma possível.

Metal Na Lata: Aproveitando, gostaria que explicassem um pouco sobre o conceito, que é bem interessante, conta sobre a relação do homem com a natureza. De algum modo vocês enxergam o disco como um trabalho conceitual?

Zândhio Huku: É basicamente sobre a necessidade urgente do homem se reconectar com a natureza, inclusive como forma de garantir sua própria existência. Como é de conhecimento os povos originários mantêm esse vínculo forte com a natureza até hoje, então, eu na condição de indígena também me sinto na responsabilidade de ajudar a disseminar esse saber juntamente com meus parceiros de banda. Cada música tem um conceito, e todas reunidas formam o conceito do disco, que está intimamente ligado com o conceito do Arandu Arakuaa. Todos os nossos discos têm um conceito muito claro, tentamos deixa-lo transparecer na arte da capa e no título, porém não é aquele formato tradicional e burocrático que conhecemos das óperas, por exemplo.

Metal Na Lata: A mensagem central do álbum é algo como, “todos unidos”, correto? Mas, olhando o cenário atual, em algum momento acham que isso seja possível?

Zândhio Huku: Nosso papel enquanto pessoas e artistas é acreditar e convencer aos demais que isso é possível. Claro, falamos de união em um sentido bem mais amplo, não se trata de unir um grupo em especifico para conseguir benefícios de interesse apenas daquele grupo.

Metal Na Lata: Por ter uma música bem peculiar, com todo esse ideal ecológico. No momento em que a banda decidir gravar um DVD, podemos imaginar algo bem nas linhas dos videoclipes, com um cenário cercado por arvores, natureza, algo bem intimista? Aproveitando, já pensam a respeito, ou ainda é algo para um futuro mais distante?

Zândhio Huku: Exatamente. Ainda não levamos essa experiência para o palco justamente pelas restrições orçamentárias. Sobre o DVD nossos apoiadores estão sempre pedindo isso, daí a resposta é sempre que vai rolar quando a gente conseguir recursos.

Metal Na Lata: O Arandu Arakuaa, mesmo que já tenha passado dos 10 anos de fundação, continua sendo uma banda rara e que muitas vezes soa como novidade para o público. Como vocês veem isso?

Zândhio Huku: Talvez para algumas pessoas nossa proposta artística pode passar a impressão de sermos uma banda rara, cult, que lança apenas um CD e acaba. E depois elas ficariam se lamentando, dizendo que o mundo não estava preparado para nós, mas elas estavam porquê são pessoas evoluídas e vão fazer questão de falar para todos que essa banda à frente do seu tempo foi injustiçada, porém deixou esse registro atemporal como testamento. Infelizmente para essas pessoas sinto informar que o Arandu Arakuaa conta com quatro lançamentos (e já estamos compondo para o próximo), e sempre foi muito acessível. Na verdade, basta um google para notar que o Arandu Arakuaa não tem nada de banda desconhecida, obviamente, ainda não nos viram no Faustão ou no Gugu (risos).

Metal Na Lata: Acredita que assim como é com os índios, a banda por trazer tal cultura, sofra também preconceitos?

Zândhio Huku: Acredito que a falta de informação e conhecimento gera e mantém essa barreira que chamamos de preconceito. E é justamente isso que estamos fazendo, levando informação e conhecimento para que essa barreira seja rompida.

Metal Na Lata: Gostaria de saber se já tiveram a oportunidade de levar a música de vocês para alguma tribo e se sim, qual foi a reação deles?

Zândhio Huku: Já tivemos convites que não foram consolidados justamente pela questão da logística, tal qual acontece com os festivais que somos convidados a tocar e não podemos ir por falta de grana para as passagens. Como a maioria das bandas independentes não dispomos de recursos para materializar essas oportunidades. No dia que acontecer será conduzido da maneira correta, inclusive sem a necessidade e pressão de tornar isso público. Na verdade sempre tivemos muitos feedbacks dos parentes sobre nossa música, estamos inseridos nesse contexto e essa troca acontece de forma espontânea. Os videoclipes das músicas Hêwaka Waktû e ~Ipredu do nosso segundo disco Wdê Nnãkrda foram gravados em contexto indígena, inclusive neles aparecem lideranças indígenas importantes como Ailton Krenak, Álvaro Tukano e Kamuu Dan Wapichana. Eles conhecem a banda e nos deram permissão para tal e todo o processo aconteceu de forma espontânea.

Metal Na Lata: Em 1996, o Sepultura com “Roots” e o Angra, com o “Holy Land”, lançaram álbuns bastante voltados para o Brasil e suas origens. De alguma maneira esses trabalhos influenciaram ou influenciam vocês?

Zândhio Huku: Nenhuma influência. Importante mencionar que eu já era indígena antes de ser músico e desses álbuns serem lançados. O Arandu Arakuaa surgiu justamente dessa necessidade de contribuir também usando a arte, e enquanto compositor eu nunca conseguiria fazer algo baseado em um trabalho que já existe. Na verdade nem me sinto no dever de explicar isso para o público, visto que basta ouvir uma música nossa para constatar que não tem nada a ver com as bandas citadas. Claro admiramos e respeitamos a trajetória dessas bandas como qualquer brasileiro que curte Rock e Metal. Eu particularmente sou um grande fã do Sepultura, e como músico admiro bastante o trabalho do Angra. Inclusive em 25 de maio deste anos abrimos o show do Angra em Brasília, que foi filmado e disponibilizado em nosso canal no youtube: https://youtu.be/xp7uHmspyOc

Metal Na Lata: Algo bastante interessante e incomum para uma banda que faz Heavy Metal, é que o Arandu participou do Fórum Mundial de Direitos Humanos e também já foram tema de tese de doutorado na faculdade Unicamp. Quão importantes são esses feitos para a carreira da banda?

Zândhio Huku: O Heavy Metal é apenas parte do conceito bem mais amplo que é a banda, e nosso público tem plena ciência disso. Logo é natural haver essa troca e interesse, em especial por parte de estudantes, educadores e ativistas ligados à causa dos direitos humanos, indígena e ambiental. É sempre um prazer imenso quando somos solicitados a contribuir, desde de um trabalho para a educação infantil a uma tese de pós-graduação, particularmente como educador me sinto pleno e realizado em ver nosso trabalho artístico ultrapassando barreiras. Mesma coisa em relação à luta pelos direitos das minorias e das liberdades individuais e coletivas, isso é parte do nosso cotidiano, é parte dos nossos valores. Não somos músicos alienados em seu mundinho fictício e conveniente. Inclusive recentemente tivemos o prazer de nos apresentar no sarau Vozes Ancestrais, organizado pela juventude indígena, e que foi parte da programação do encerramento da Feira do Livro, em Brasília.

Metal Na Lata: Muito obrigado pela entrevista, deixe uma mensagem para nossos leitores.

Zândhio Huku: Foi uma grande satisfação responder a perguntas tão bem elaboradas! Muita gratidão William e a todos do Metal Na Lata por essa oportunidade e por lutarem para manter a cena independente do Metal viva. Também só temos a agradecer a quem doou uma parte do seu tempo lendo essa entrevista, sem o apoio de vocês a luta perde o sentido.

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