Em 2015, o cenário metálico brasileiro foi sacudido com o primeiro álbum da banda Primator. “Involution” traz 10 faixas baseadas na riquíssima temática da evolução de Charles Darwin que combinou perfeitamente coma sonoridade Heavy Metal do grupo. Conversamos com André dos Anjos (baixo) e (rapidamente) Rodrigo Sinopoli (vocal) onde nos contaram detalhes sobre essa grande obra, detalhes da carreira e os próximos passos do grupo. Confira.
Por William Ribas
Metal Na Lata: Conte-nos como o Primator foi fundado.
André dos Anjos: A banda surgiu em meados de 2009 a partir da paixão comum dos então amigos Rodrigo (vocal) e Márcio (guitarra) pela música, particularmente pelo Heavy Metal. Ambos tiveram trabalhos anteriores em bandas covers e juntos, a princípio sem grandes pretensões, começaram a trabalhar em uma ou duas composições. Como a coisa foi ganhando corpo e o conteúdo produzido era interessante, surgiu a ideia de montar uma banda e fazer um trabalho autoral, que entregasse algo diferente. Eu fui convidado para o baixo e posteriormente o Diego na guitarra e Lucas na bateria completaram a formação. Acho que dá pra dizer que a Primator é a reunião de apaixonados pelo Heavy Metal fazendo Heavy Metal para amantes do Heavy Metal (risos).
Metal Na Lata: O primeiro álbum, “Involution”, saiu em 2015, seis anos após a banda ser criada, o que aconteceu para essa “demora”?
André dos Anjos: Um pouco de tudo (risos). Mas resumindo, no início conseguimos criar bastante conteúdo, o que rapidamente nos permitiu visualizar a possibilidade de criação de um álbum. Infelizmente no meio do caminho tivemos algumas dificuldades com relação a formação da banda, coisas que acontecem nesse universo. Na reta final também sofremos um pouco com a gravação e produção final. “Involution” foi um trabalho 100% autoral e todo o processos de criação, produção, mixagem, arte e outros foi realizado e/ou financiado por nós integrantes, cenário esse comum na cena atualmente. Operacionalizar tudo isso e conciliar com a rotina de cada não é fácil. Mas eu digo ainda que o fator fundamental dessa “demora” foi o desejo de fazer um trabalho bem feito, com qualidade e, principalmente, autenticidade. Um trabalho que mostrasse nosso potencial e, por ser o primeiro, abrisse portas para futuros trabalhos.
Metal Na Lata: Logo de cara a banda apostou em um álbum conceitual já que “Involution” traz um conceito bastante inspirado em “A Origem das Espécies” de Charles Darwin, como se deu essa ideia?
André dos Anjos: Apesar de parecer proposital, o conceito do álbum na verdade foi resultado de uma grande (e excelente) coincidência, observada pelo Rodrigo. Quando tínhamos 6 ou 7 composições e começamos a pensar na gravação de um álbum, fomos pensar em nome e arte para este. Foi então que olhamos para as letras e vimos que a imensa maioria delas trazia temas comuns ou paralelos: o caos, a morte, a miséria, a escuridão, o medo, o poder do forte sobre o fraco. Todos estes temas trazidos para a condição humana atual nos fizeram pensar: estaria o homem regredindo a caminho de sua autodestruição em função de sua evolução? Seriam todas as tecnologias, conhecimentos e poderes adquiridos os artefatos dessa regressão? E foi a partir destes questionamentos que o Rodrigo fez um paralelo ao trabalho de Darwin e concebeu o nome “Involution” para o álbum. Foi somente então que começamos a trabalhar esta temática de forma direcionada. A própria faixa “Involution”, apesar de levar o nome do álbum, foi uma das últimas a serem escritas e, por conta deste direcionamento em função da temática, é a que traz a letra que enfatiza estes questionamentos.
Metal Na Lata: Como foi o trabalho de composição para o álbum?
André dos Anjos: Foi bem simples: a gente deixou o Rodrigo escrever as letras e depois musicamos (risos). Brincadeiras a parte, foi quase isso. Diferentemente do que nós vemos em outras bandas, nosso processo de composição sempre parte de uma letra e/ou melodia criada pelo Rodrigo, que é nosso letrista. Ele traz isso para nós músicos e, todos juntos, começamos o trabalho de criar as canções. O engraçado é que, quase sempre, a criação melódica trazida originalmente pelo Rodrigo acabava sendo mudada durante a construção e, algumas vezes, isso influenciava na letra pra fazer com que as frases se encaixassem na melodia. Com certeza deixamos ele algumas (muitas) vezes maluco! Mas apesar destas mudanças durante o processo criativo, normais em trabalhos artísticos, o resultado tem sido positivo: um trabalho com nossa cara, com a marca pessoal de todos os integrantes em função da participação de todos.
Metal Na Lata: A capa do álbum retrata exatamente o conceito por trás das letras, o que vocês levaram em consideração na hora de elabora-lá?
André dos Anjos: Quando estávamos próximos de fechar as faixas do álbum e já tínhamos concebido esta temática com o paralelo ao trabalho de Darwin, pensamos em criar uma arte que também estivesse dentro deste universo. Rapidamente pensamos em criar um personagem que unificava muitos dos conceitos pulverizados nas faixas do álbum, bem como este paralelo ao trabalho de Darwin. Foi assim que pensamos no desenho do primata quase como um monstro, que seria a personalização deste mal presente na humanidade (e quem sabe o próprio Primator, da música (risos)). Na arte ele surge como uma figura opressora, que dilacera todos a sua frente, e os oprimidos aparecem como numa escala evolutiva inversa, do humano ao primata, justamente referenciando o trabalho “A Origem das Espécies” de Darwin, porém com nossa visão da involução causada pela condição humana atual. E o desenho foi feito pelo próprio Rodrigo, um cara de muitos talentos!
Metal Na Lata: No ano passado vocês lançaram o single “To Mars”, onde trabalharam com Mario Linhares (Dark Avenger) e, pelo que já foi divulgado, também, estará trabalhando com vocês no novo álbum. Como é ter alguém que já está há tanto tempo na cena ajudando e trabalhando lado a lado com a banda?
André dos Anjos: Tem sido maravilhoso. O Mário é uma pessoa magnífica, muito generosa e quem tem nos apoiado muito, indo além do trabalho de produção. Ter uma pessoa com a bagagem que ele traz da cena nos permite enxergar além dos nossos limites e tem trazido mais qualidade para o nosso trabalho sugerindo novos elementos, participando da construção de melodias, etc. Além disso, ter essa “assinatura” tem nos dado boa visibilidade e o próprio Mário tem nos ajudado a alcançar novos públicos.
Metal Na Lata: Como andam os trabalhos para o próximo álbum? Podem nos adiantar algo?
André dos Anjos: Os trabalhos estão caminhando. Em 2016 tivemos um período sabático e focamos mais na divulgação do “Involution” e da própria banda. Agora em 2017 o foco será realmente na produção deste novo álbum. Já estamos trabalhando em algumas composições e planejando como serão os trabalhos de gravação, mixagem e distribuição. O que podemos adiantar é que pretendemos entregar um trabalho de muita qualidade, com ótima mixagem e produção. O resto é surpresa pra quem acompanhar o lançamento (risos).
Metal Na Lata: O primeiro álbum trouxe bastante repercussão para banda, muitos fãs votaram no álbum como melhor do ano em vários veículos especializados e muitos estão com uma certa expectativa para o novo lançamento. Na sua opinião essa certa ”pressão” ajuda na hora de compor as novas músicas?
André dos Anjos: Ajuda sim, com certeza. Acredito que para todo artista o reconhecimento por parte dos fãs e o anseio destes por novos trabalhos é o principal combustível que nos faz seguir em frente e continuar trabalhando. Essa “pressão” é o que nos torna curiosos em ver a reação do público a cada novo som que fazemos! É bem como uma troca mesmo. Em termos de composição, faz com que nós sempre busquemos nos aperfeiçoar, fazer coisas diferentes ou agregando novos elementos técnicos e por ai vai.
Metal Na Lata: O som da banda se encontra bastante referente ao Metal dos anos 80 de bandas como Judas Priest, por exemplo. Como dosar na medida certa para que de influenciados não acabem virando cópia?
André dos Anjos: Apesar dos integrantes da banda terem referências e influências diversas e diferentes entre si, o ponto comum realmente é o Heavy Metal, que teve seu auge nos anos 80. Claro que muito do que produzimos faz referência aos nossos ídolos dessa época, mas de forma abstrata e sutil. Acho que esta é a medida certa e acreditamos que ela é alcançada somente quando durante as composições todos estão despidos desta camada de referências, pelo menos em intenção. É como se ao entrar no estúdio para compor deixássemos para traz os grandes nomes e tudo que já ouvimos e seguimos simplesmente nossos instintos. Tem funcionado para nós!
Metal Na Lata: Qual é a melhor e pior coisa de ser músico profissional no Brasil?
André dos Anjos: Uma das melhores coisas é que o Brasil é muito grande e oferece público pra qualquer estilo musical, inclusive o metal. Acreditamos que se a banda fizer trabalhos de qualidade e souber trabalhar a divulgação deste, será capaz de atingir bons resultados, fidelizar seu público e assim crescer. Ainda em relação a tecnologia, acreditamos que neste ponto ela ajuda muito. Através da tecnologia conseguimos quebrar barreiras físicas e levar nosso trabalho a lugares onde antes não teríamos a oportunidade. Em contrapartida, e já citando o ponto negativo, o público ainda é muito dependente da grande mídia, a qual tem um único interesse: gerar hits. Infelizmente o espaço que hoje é disponibilizado em rádios e TVs para cultura é mínimo, para não dizer nulo. O que é entregue hoje é entretenimento e por isso vivemos um momento de escassez de boas bandas e artistas que entreguem um conteúdo diferenciado, de qualidade. Mas rádio e TV entregam aquilo que vende, então, cabe ao próprio público virar esse jogo e consumir mais cultura e menos entretenimento. Quem sabe transformar cultura em entretenimento. Por enquanto, para você que nos lê em busca de algo diferente, o canal é seguir a mídia especializada, como o Metal na Lata!
Metal Na Lata: A tecnologia está presente na vida de todos hoje em dia. Para a banda, como fazer para que o fã online vire uma pessoa que saia de casa para ver as bandas e compareça aos shows, contribuindo para a cena toda?
André dos Anjos: A tecnologia tem mesmo essa dualidade: é capaz de nos dar um público virtual maior, mas ao mesmo tempo é capaz de nos roubar pessoas de verdade (risos). E essa pergunta tem sido a grande dificuldade da cena. Acho que muito passa pela conscientização dos fãs e dos amantes do Heavy Metal de que o que mantém e sustenta uma banda é o retorno de um show e não uma curtida no Facebook ou no Youtube. Como disse anteriormente, essa relação banda X fã é uma troca e o nosso principal retorno é ver uma pista de show lotada! De nossa parte, para sermos mais atrativos, acho que vale fazermos cada show ser único, não seguindo um “script” mas sendo autênticos, trazer algumas surpresas e por ai vai.
Metal Na Lata: Quem acompanha você, Rodrigo, nas redes sociais, sabe que a pouco tempo se tornou pai. Na sua opinião, quanto essa nova fase da sua vida pode vir aparecer nas letras ou trazer uma mudança de conceito nas músicas da banda?
Rodrigo Sinopoli: Mudança de conceito, certamente não. Mas, de fato, a paternidade é algo único, um acontecimento que nos transforma a ponto de enxergarmos as coisas de maneiras nunca antes pensadas, o que por si só já influencia bastante para compor e cantar de formas diferentes. Me sinto mais preparado, musical e intelectualmente hoje, do que antes de ser pai.
Metal Na Lata: Obrigado pela entrevista! Fiquem à vontade para dar o recado que quiserem aos leitores do Metal na Lata.
André dos Anjos: Nós quem agradecemos a oportunidade de expor nosso trabalho e aos leitores deixamos o convite para nos conhecer mais nas mídias sociais, players da web e, principalmente, nos nossos shows! Um grande abraço!
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