Dono de uma das vozes mais emblemáticas do cenário Heavy Metal nacional, Edu Falaschi é daqueles que não sabe ficar parado pois o mesmo sempre está contínuo e em perpétuo movimento com sua arte. Após celebrar a sua passagem pelo Angra em uma imensa turnê, “Rebirth Of Shadows Tour”, o vocalista deu o passo mais ousado de sua carreira: Uma turnê comemorativa aos 15 anos do clássico álbum “Temple Of Shadows” (Angra), acompanhado de instrumentistas clássicos além de sua tradicional banda. Nessa entrevista tivemos a chance de falar sobre esse atual momento do músico, a receptividade dos fãs e claro, o baque que foi para todos com a passagem de André Matos.
Agradecimentos a Thiago Rahal Mauro e assessoria TRM Press pela parceria.
Por William Ribas
Fotos Facebook Oficial do artista
Metal Na Lata: Há alguns dias fomos todos surpreendido com a participação do renomado baterista Alex Holzwarth (o baterista gravou álbuns com Angra, Rhapsody, Avantasia, entre outros), que irá substituir Aquiles Priester, em algumas datas da sua turnê comemorativa dos 15 anos do “Temple Of Shadows”. Como se deu a escolha de Alex? E, principalmente, por quê ele, afinal não seria mais fácil e mais cômodo um músico brasileiro?
Edu Falaschi: Primeiramente, obrigado pela oportunidade! Pois então, eu quando penso num espetáculo, sempre penso no que seria mais bacana para os fãs, afinal estou oferecendo um entretenimento para eles, então dessa forma, busco algo que tivesse um valor especialmente para os fãs do Angra, afinal estou em turnê tocando as minhas músicas compostas na minha época na banda. E o Alex foi o cara que gravou o “Angels Cry” e nunca se apresentou no Brasil tocando Angra, achamos que seria algo novo, diferente e com um fator emocional para os fãs.
Metal Na Lata: Agora, nesse mês de julho, você fará um show especial em formato acústico baseado no disco “Moonlight” (2017), descrito como uma produção cênica num encontro da poesia e da música intimista. Toda essa ideia para esse show especial veio a partir da ideia do show tocando com a orquestra, ou já era uma vontade antiga desde o lançamento do disco e somente se concretizou?
Edu Falaschi: Eu sempre quis fazer shows do “Moonlight” mas só agora encontrei o caminho para fazer do jeito que eu queria! Eu acho que um espetáculo desse mais intimista tem que ser especial, “fora da caixinha” e não apenas uma apresentação musical tradicional. Estou num momento muito bonito da minha carreira onde o mote “SUPERAÇÃO” é muito ressaltado pelos fãs. Eu sempre recebo relatos de pessoas que estão tendo coragem para enfrentar os problemas baseado na minha história, então o show do “Moonlight” será um veículo onde eu poderei ir além da música e tocar o coração das pessoas de forma mais profunda. Através da música e poesia, faremos uma imersão nos nossos mais profundos sentimentos, numa experiência sensorial que trará uma reflexão do que é o verdadeiro “EU” de cada um, tudo permeado pela boa música, nostalgia e muito alto astral!
Metal Na Lata: O Angra tinha também a ideia de fazer um DVD com a orquestra, tocando o “Temple Of Shadows” (2004) na integra, mas infelizmente não deu certo. Agora, anos depois, você consegue realizar esse sonho seu e acredito que também dos fãs. Antes de qualquer coisa, como foi toda a preparação para esse show que aconteceu em maio?
Edu Falaschi: Foi um ano de preparação basicamente. No meio da turnê “Rebirth Of Shadows” quando um fã me comentou sobre o aniversário de 15 anos do “Temple Of Shadows” em 2019, eu vislumbrei a possibilidade de realizar esse sonho tocando o disco com orquestra e foi através de uma amiga, Paula Martins, violoncelista de Bauru, que tudo se concretizou da melhor forma possível, com a regência do grande João Carlos Martins! Foi uma produção grandiosa, com 230 pessoas trabalhando no show. Um investimento altíssimo em questões financeiras e pessoais!
Metal Na Lata: Acredito que a primeira vez que ensaiaram juntos com a orquestra, olhando o grande maestro João Carlos Martins ali perto regendo, deve ter sido uma sensação única, um verdadeiro redemoinho de emoções passando pela sua cabeça.
Edu Falaschi: Foi uma coisa de louco mesmo! Lembro de todo mundo filmando com os celulares e quando tocaram no ensaio a “Gate XIII” muitos choraram de emoção, inclusive eu (risos)!
Metal Na Lata: Qual a principal lição que ficou após o show ter acabado? Ter na mente que aquela noite ficará para a história do Heavy Metal brasileiro?
Edu Falaschi: A principal alegria para mim é a certeza de ter entregue um show, um momento, uma experiência sem igual para os músicos e fãs! Foi tudo impecável! Nada deu nada errado! Você quase que conseguia tocar a energia positiva que estava no ar! Foi mágico! Na verdade tirei muitas lições desse grande projeto, mas o principal sempre será “Invista nos seus sonhos! Mas com preparo, planejamento e dedicação! Sonhar apenas não é suficiente!”
Metal Na Lata: Aproveitando o assunto “Temple Of Shadows”, o álbum tem uma temática polemica, fala de religião, o personagem principal perde a fé, e tem vários conflitos internos. Como foi para você ter que incorporar e ter o feeling certo para passar a mensagem para o fã, já que é um disco com bastante carga emocional.
Edu Falaschi: Foi algo de certa forma natural. Eu também não tinha opção, tinha que cantar o que foi escrito, então eu encarei a coisa toda como se eu fosse um ator, afinal é uma ficção, então foquei nisso! Apenas interpretei as linhas melódicas das músicas e cantei as letras mesmo não concordando ou partilhando com nada do que foi escrito!
Metal Na Lata: Mesmo sendo um disco difícil, várias mudanças de andamentos, passagens bastantes progressivas, não tão calcado naquela coisa mais Power Metal que o Angra tinha, os fãs logo de imediato gostaram do disco, muitos falam que o melhor disco da carreira do Angra até hoje.
Edu Falaschi: Musicalmente ele é muito completo mesmo!
Metal Na Lata: “Rebirth” (2001) foi o ressurgimento, “Temple Of Shadows” a constatação, era a firmação que o grupo estava de volta aos trilhos, mas logo após tudo, os dois álbuns seguintes não tiveram uma boa aceitação. Saída do Aquiles, depois você também saiu do grupo após o Rock in Rio de 2011. O que você acha que faltou nessa época para que tudo fosse contornado, já que a banda que estava crescendo de repente o jogo caiu?
Edu Falaschi: Foram várias coisas ao mesmo tempo, mas isso já não importa mais, a vida seguiu seu rumo como tinha que ser! Falando pessoalmente, eu acho o “Aurora Consurgens” e o “Aqua” ótimos discos!
Metal Na Lata: Voltando um pouco no tempo, algo que pouca gente sabe, é que você chegou a fazer um teste para o Angra antes deles começarem a gravar o “Fireworks” (1998). Como foi esse teste?
Edu Falaschi: Sim, eles me chamaram e ensaiamos Eu, Kiko, Rafael, Luis e o Ricardo, no estúdio da escola de música Souza Lima em São Paulo! Não lembro exatamente mas tocamos “Nothing To Say” eu acho e talvez algo do Iron Maiden também, não tenho certeza!
Metal Na Lata: Antes mesmo de sair do Angra, veio o Almah, que não obteve os números do Angra, mas que chamou bastante atenção principalmente com “Fragile Equality” (2008). Depois da sua saída do Angra, continuou com Almah, voltou a tocar no Rock in Rio (2013), lançou outros discos. Claro, o Angra é único, tem um nome gigantesco, que atrai milhares de pessoas, mas podemos colocar que o Almah é o grupo que te mostrou que era possível seguir na música, que mesmo com os problemas na voz, ter essa banda foi crucial para que você voltasse e seguisse o teu caminho, e hoje novamente lotando shows…
Edu Falaschi: O Almah, especialmente após minha saída do Angra, foi um grande suporte para que eu tivesse a motivação para continuar, pois eu estava em frangalhos. Na real, mas seguia tentando, tive muitos momentos bacanas com o Almah!
Metal Na Lata: No meio da preparação do show com a orquestra, foi iniciada a “Temple Of Shadows Tour”, que segue aí com excelentes números, shows praticamente todos lotados, vários comentários positivos, isso de certa forma ajuda a vocês a pensarem em seguir frente, não só tocando Angra, mas também um possível disco com essa formação, com um disco de inéditas?
Edu Falaschi: Sim, tenho planos para um CD de inéditas, mas sem perder o foco de continuar tocando as músicas da minha época de Angra, afinal esse legado que ajudei a construir e literalmente dei voz a ele, marcou uma geração, ficará para sempre na minha história e na dos fãs, então manterei isso vivo!
Metal Na Lata: Alias, como está a aceitação do público para as novas músicas que estão no EP “The Glory of The Sacred Truth” (2018)?
Edu Falaschi: Melhor do que eu esperava! A galera já canta as canções nos shows! Muito bacana!
Metal Na Lata: Você meio que se tornou também o cara das baladas. Todo seu trabalho tem aquela música mais emotiva, com bastante sentimento e linhas bastante melódicas. É imprescindível ter uma música que dê uma quebrada, uma acalmada nos ânimos e coloque o público para cantar junto?
Edu Falaschi: Eu gosto muito de baladas e as componho com certa frequência! Elas tocam nossa alma e nossos mais profundos sentimentos! Tem a capacidade de nos transportar para momentos especias de nossas vidas.
Metal Na Lata: Você sempre recebeu bastante carinho dos seus fãs. Logo no início da sua jornada no Angra se via bastante uma certa “Falaschi mania”. Os shows tinham sempre muitas pessoas usando camisetas com seu nome, adereços, cartazes, pessoas que colecionavam fotos suas e recortes de revistas. Como era para você tudo isso, saber que estava chegando para substituir um ídolo como o André Matos e os fãs já te abraçaram de uma maneira poucas vezes vistas no mundo da música?
Edu Falaschi: Eu serei eternamente grato pelo carinho de sempre. Acho que pelo fato de muitos desses fãs gostarem do Symbols na época, facilitou! Mas minha interação com o público, meu carinho e respeito por eles certamente foi o pilar de sustentação dessa união!
Metal Na Lata: Muitos dos seus primeiros trabalhos com Mitrium, Symbols e Venus, são peças raras, dificilmente se consegue achar para comprar. Você em algum momento pensa em regravar algumas coisas do passado, fazer uma coletânea mostrando o teu início de carreira?
Edu Falaschi: No momento não!
Metal Na Lata: No Brasil, se tem muita a cultura de homenagear os ídolos e as grandes pessoas não em vida. Parece que se espera a pessoa morrer para dizer o quanto ela foi importante. Você recebeu uma bela homenagem com dois álbuns tributos aos seus 25 anos de carreira. Você chegou a ouvi-los e o que achou desses trabalhos?
Edu Falaschi: Sim, fiquei extremamente lisonjeado por ter tantos artistas maravilhosos participando e colocando sua roupagem em minhas canções. Foi muito legal ver as músicas sendo executadas de forma inusitada e com novos arranjos! Serei eternamente grato por essa linda homenagem!
Metal Na Lata: De uns anos para cá, o Heavy Metal brasileiro vem passando por várias perdas. Fabiano Penna (Rebaelliun), Sherry (Nervochaos) e Mario Linhares (Dark Avenger), por exemplo. Todos jovens e de uma forma repentina. Agora fomos pegos mais uma vez de surpresa com a ida precoce de André Matos. Gostaria de saber o que você pensa sobre todas essas perdas de pessoas jovens e que ainda teriam muito a mostrar. E sobre o André, qual é o maior legado que ele deixa além de sua música?
Edu Falaschi: É muito triste perdermos tantos talentos de forma tão precoce, mas Deus sabe o que faz! O André deixou um legado musical de valor incalculável além de uma linda história de amor a cultura, com muita inteligência e excelência.
Metal Na Lata: O Rafael Bittencourt tem falado abertamente sobre um show especial em 2021, reunindo todos que passaram pelo Angra. Todos sabemos que após os problemas no início da “Rebirth of Shadows Tour,” a relação entre vocês acabou ficando estremecida, então é inevitável não perguntar. O fã pode sonhar com a sua presença na apresentação, ou ainda é muito cedo para falar sobre isso?
Edu Falaschi: Sinceramente não sei te dizer nem que sim, nem que não, é tudo muito complexo e variável! O tempo vai mostrar o melhor caminho! Independente de qualquer coisa, eu só quero ter paz!
Metal Na Lata: Obrigado pela entrevista, o espaço final é todo seu.
Edu Falaschi: Mais uma vez obrigado pela oportunidade, espero ver todos os fãs nos próximos shows, conto com eles e desejo que Deus abençoe todos vocês! Obrigado!
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