Entrevista exclusiva com Fernando Ribeiro (Moonspell)

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Comemorando a boa fase, a banda Moonspell desembarca no Brasil para uma série de 4 shows pela nossa terra. Batemos um papo com Fernando Ribeiro (vocal), que nos contou tudo sobre o aclamado “1755”, novo álbum da banda, que vem obtendo uma repercussão estrondosa seja pela mídia especializada como também pelos fãs.

Por William Ribas
Colaboração: Mauro Antunes

Metal Na Lata: Primeiramente, parabéns pelo novo álbum, está incrível e traz uma energia única e muito por conta de ser todo cantado em português. Como chegaram na conclusão que “1755” deveria ser gravado todo em sua língua natal?

Fernando Ribeiro: Obrigado pelas palavras! Na verdade foi obvio or questões de respirar o conceito e historia que queríamos contar que o uso do Português seria incontornável! A condição de o gravar era mesmo usar o Português para sermos mais genuínos com a história e mais fiéis ao que se passou. Na verdade, todo o disco 1755 foi pensado como uma experiência para o ouvinte. Nos países em que se fala Português há um maior proximidade mas nos países que falam outra língua o uso do Português em vez de afastar os fãs, adicionou à experiencia o que foi muito curioso para nós.

Metal Na Lata: O álbum conta sobre um terremoto que foi seguido por um tsunami devastador em Lisboa ocorrido em 1755. Por mais que a história contada seja de séculos atrás, muita coisa que fez parte daqueles tristes dias são extremamente atuais e vemos quase que diariamente ainda hoje acontecendo pelo mundo. Foi pensando na história que ainda se repete que embarcaram nesse álbum conceitual?

Fernando Ribeiro: Quando fizemos o disco, fogos trágicos assolavam Portugal . Se bem que a dimensão das catástrofes seja diferente, e a historia que repete, exato. As últimas catástrofes tem mão humana e negligência institucional o que as torna mais revoltantes. Hoje em dia, não temos escolha senão ser um pouco políticos, coisa que nunca quis para a banda, mas que os eventos e a natureza esquizofrênica do nosso país vieram fazer essa ligação. Lisboa foi limpa num ano após o terramoto. Mais duas dezenas de pessoas morreram quase nas mesmas circunstâncias passados poucos meses de um grande incendi florestal. Dá, pelo menos, em que pensar.

Metal Na Lata: As letras do novo álbum, em alguns momentos, têm uma certa crítica à Deus e aos religiosos que muitas vezes mais trazem guerra à terra do que paz. Falar sobre essas coisas, por mais que sejam verdades, é algo complicado. Alguma vez já tiveram problemas por criticar as religiões?

Fernando Ribeiro: Portugal é um pais laico, de livre opinião e escolha religiosa. Claro que isso é “no papel” já que o conservadorismo é muito. Eu falo livremente em Portugal e além de algumas criticas, nunca fui, nem deixaria ser perseguido por religiosos. Já aconteceu na Polônia que é um país com grave problema com o Cristianismo e na Alemanha também já quiseram cancelar a gente.

Metal Na Lata: Vocês gravaram uma versão para “Lanterna dos Afogados”, da banda brasileira Paralamas do Sucesso, no novo álbum. Mais do que apenas gravar, vocês colocaram a identidade da banda na música e a deixaram-na mais dark e mais densa. Como foi grava-lá e como chegaram no conceito que ela caberia em 1755?

Fernando Ribeiro: A Lanterna muito mais que uma canção de novela, é um hino! Uma canção triste com uma letra que podia ser fado, ou Portuguesa. sobre quem fica à espera, o regresso do mar. Achei perfeito para finalizar um disco que fala de destruição mas também de muita coragem e esperança, a coisa que nunca morre nos Portugueses ou Brasileiros.


Metal Na Lata:
Ouvindo o disco notamos músicas rápidas, riffs brutais, passagens mais orquestradas, além de muito clima sombrio fazendo com que o disco soe bastante homogêneo do início ao fim. Qual é a forma que o Moonspell trabalha antes de entrar em estúdio e gravar um álbum?

Fernando Ribeiro: Musicalmente a expressão escolhida foi um metal mais rápido e duro. O recurso às orquestrações de Jon Phipps adicionou o épico-histórico. Tentamos tentar recriar o ambiente do séc XVIII através de coros e percussões e violas para invocar o ambiente das ruas. O segredo está no gosto dos arranjos, escolhidos com a banda, e tentar que a orquestra seja orgânica com a banda e não um elemento estranho. Achamos que isso foi conseguido. É assim o nosso processo, juntar peças para contar uma historia.

Metal Na Lata: A cultura da música tradicional portuguesa é bastante rica e particularmente, ao saber que o tema do último álbum seria tão pessoal e íntimo para vocês, já imaginava que alguma conexão seria feita e ela veio a se concretizar com a participação do cantor de fado, Paulo Bragança, na música “In Tremor Dei”. Como é a conexão dos membros com esta faceta mais popular da música em seu país e como aconteceu a oportunidade de ter um músico de um estilo tão diferente do Moonspell em uma gravação da banda?

Fernando Ribeiro: O Moonspell e o Paulo são mais próximos do que se possa pensar. Somos ambos uma espécie de malditos no nosso gênero, exploramos os limites. Quando estava a fazer o tema queria mais Portugal, o desespero, o lamento, Coimbra, Trás-os-montes, Lisboa, deu uma cor um cinza como as ruínas das quais se levantaram Lisboa e Portugal.

Metal Na Lata: O set list da turnê vem sendo composto por mais da metade do novo álbum, juntamente com clássicos antigos. Como está sendo a reação dos fãs?

Fernando Ribeiro: Muito boa. As pessoas se preocupam demasiadamente com isso. O concerto de Moonspell é suposto ser uma festa, uma celebração da cultura dark e alguns temas não vão faltar. Mas o que importa é a energia, do principio ao fim, o dramatismo e nisso estamos melhor que nunca. Se prepara Brasil!!!

Metal Na Lata: O Moonspell é mundialmente conhecido e é um dos gigantes do Metal na atualidade. As turnês passam por várias partes do mundo e com isso é inevitável os momentos de estresse. Como vocês lidam com isso? E como não deixar transparecer essas coisas ao público nos shows?

Fernando Ribeiro: Não é bem assim. Nós somos uma banda de media dimensão comparado com os gigantes novos do Metal, Amon Amarth, Arch Enemy, Nightwish. Mas quando me cruzo com eles nos festivais, parece-me que sou mais feliz, sem tanta pressão, a nossa musica não tem bem um caminho, estamos sempre na luta e isso mantem as coisas em perspectiva.


Metal Na Lata:
 Na comemoração dos 120 anos do time de futebol FC Porto, você foi chamado para cantar o hino do clube. E querendo ou não, de algum modo, esse tipo de participação desperta o interesse de pessoas que não são familiarizadas com o Moonspell e nem com a música pesada. Qual é a importância de fazer coisas fora do Heavy Metal, mas que de algum modo te traga novos fãs?

Fernando Ribeiro: Não é bem pelos fãs, mas sair do trivial é para mim importante, tanto para homenagear coisas que fazem parte da minha vida como o FCP, ou expandir horizontes. Os nossos fãs são os fãs de Moonspell, as outras pessoas não estamos no radar delas mas isso não impede de nos valorizarmos.

Metal Na Lata: Ano passado, a banda estava para vir ao Brasil, mas teve que cancelar por problemas com a produtora local. O que houve?

Fernando Ribeiro: Foi triste. Grande confusão e tivemos de tomar a opção de cancelar. Era a primeira vez desde 1998 que iríamos ao Brasil! A boa noticia é que não baixamos os braços e estamos aí com 4 datas para o Brasil vendendo bem e outras em perspectiva para 2019.

Metal Na Lata: Agora com tudo resolvido, a banda está prestes a desembarcar no Brasil. Nesta nova passagem teremos 4 datas. Vocês já estiveram por aqui em outras oportunidades, o que conhecem da nossa cultura e quais são as expectativas para os shows?

Fernando Ribeiro: Conheço tanto que não sei por onde começar. Desde o Professor Astromar ao Poema Sujo do Gullar, eu sou um apreciador da cultura Brasileira que é tanto mais que samba e futebol. Gosto de coisas que misturam o tropicalismo com o obscuro e adoro ícones como o Zé do caixão com quem estive em Lisboa há uns anos. A expectativa é transformar a expectativa numa realidade e fortalecer os nossos laços com o público do Brasil.

Metal Na Lata: São 26 anos de banda, um novo disco elogiado mundialmente por todos os cantos. Qual é a fórmula para seguir se reinventando e surpreendendo a todos?

Fernando Ribeiro: Gestão de expectativas. Estes serão os últimos anos da nossa carreira. Devemos pensar não em fazer tudo e viajar que nem loucos mas deixar obra adulta, séria e criativa. Essa é a nossa preocupação mais determinante desde o disco “Extinct”.

Metal Na Lata: Uma última pergunta. Portugal é o último campeão da Eurocopa, tem o melhor jogador do mundo na atualidade. Qual é a expectativa do povo português para Copa Mundo da Rússia?

Fernando Ribeiro: Os Portugueses não esperam nada e esperam tudo ao mesmo tempo. Essa é a nossa expectativa (risos).

Metal Na Lata: Obrigado pela entrevista, o espaço final é de vocês.

Fernando Ribeiro: Gratos pelo apoio. Nós vemos no Brasil para não deixar pedra sobre pedra! In tremor Dei!

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