O Soulspell sempre pensou grande e sempre esteve disposto a encarar desafios. Em pouco, mesmo sendo levemente comparado ao Avantasia, seguiu seus próprios caminhos sendo a mais duradoura e prolífera banda do segmento “opera metal” na América Latina. Com 4 álbuns elogiados pela crítica nacional e internacional, alguns tributos inusitados e corajosos e um vindouro DVD comemorativo de 10 anos de atividades no forno, o Soulspell, em nome de seu fundador e criador, Heleno Vale, nos dá a honra de entrevista-lo com exclusividade, onde abordamos esses e outros fatos de sua prolífica história.
Por: William Ribas
Heleno Vale: Houve sim. Muita gente me aconselhou a NÃO fazer esse tributo, por N motivos diferentes. Alguns alegaram que o Soulspell não poderia fazer um tributo tão POP, que não era nossa cara, mas já fizemos um tributo à Celine Dion e foi um grande sucesso no Youtube. Outros disseram que um protesto político não era nossa cara, mas fizemos um protesto político numa releitura de Helloween e foi, também, um sucesso. Então, eu sabia dos riscos, sim, mas sempre vamos optar por arriscar. Penso que é melhor arriscar e errar do que se contentar em ser mais do mesmo. A humanidade precisa de mais ousadia e mais atitude, na minha humilde opinião. Além disso, penso que um dos papéis fundamentais do ROCK em seu início era justamente a crítica social. Isso se perdeu com o tempo. Talvez seja a hora de bandas começarem a traçar, também, seu papel social e não apenas cultural. Há um grande vídeo clipe de uma banda nacional chamada VERSOVER, da música “Enemy”. Assistam. É maravilhoso, tanto como vídeo, quanto como mensagem política.
Metal Na Lata: Segundo, a música retrata muito bem as principais questões do nosso país, fome, miséria, homofobia, intolerância e tudo sem levantar bandeira para nenhum partido ou político. Após o impacto do lançamento e da repercussão que a faixa gerou, vocês sentem que alcançaram o objetivo que tinham quando pensaram em lança lá?
Heleno Vale: Nosso objetivo era realmente não defender nenhum partido ou candidato, pois há divergências de ideologia dentro da própria banda. Tratamos essas diferenças sempre com muito respeito, diferentemente do que vejo nas redes sociais. Acredito que nosso objetivo ainda não foi alcançado. Poucas pessoas viram nosso vídeo. Nosso intuito com esse tributo é muito especial, muito além da cultura. Pretendemos que esse vídeo alcance o maior número de brasileiros possível, para que todos possam refletir um pouco mais e buscar informações verídicas sobre os candidatos, antes de sairmos metralhando bobagens pela rede.
Heleno Vale: Esse tributo foi algo árduo e gratificante ao mesmo tempo. Foram quase dois anos de gravações e muito, mas muito trabalho. Tivemos o apoio do próprio fundador do Ayreon, meu grande ídolo, amigo e incentivador, Arjen Lucassen. Isso é impagável. Ele me enviou as faixas instrumentais para que eu pudesse escolher e guiar os vocalistas ideias para a releitura em português. O intuito aqui foi, também, nobre. Gostaríamos muito que os brasileiros pudessem conhecer mais e melhor esse grande trabalho do Ayreon. Particularmente, eu coloco o TOE entre meus 5 álbuns favoritos de todos os tempos. Paralelamente, creio que conseguimos explorar muito bem a versatilidade dos nossos vocalistas. O resultado final foi uma recompensa muito valiosa para todos os que participaram. Sobre o processo, foram três meses de tradução do inglês para o português, pois queríamos fazer o melhor possível quanto a manter o contexto das frases, a quantidade de sílabas e rimas a serem cantadas etc. Esse trabalho de tradução me rendeu um novo trabalho ao lado de Lucassen, a tradução de seu DVD ao vivo (The Theater Equation) para o português. Para as gravações, foram usados diversos estúdios, em São Paulo capital, Rio de Janeiro e no interior paulista. Resumindo: deu trabalho!
Metal Na Lata: O Soulspell vem se acostumando a gravar covers nos últimos tempos, até mesmo foi se falado há algum tempo atrás sobre um disco neste formato. Existe ainda está possibilidade?
Heleno Vale: Existe sim. Temos o projeto de diversas releituras a serem somadas às nossas versões de “We Got The Right” (Helloween), “My Heart Will Go On” (Celine Dion), “Spread Your Fire” (Angra), “A Teoria de Tudo” (Ayreon) e “Caro Senhor Presidente” (Pink). Isso tudo gerará um álbum completo de versões “soulspelizadas”. Há coisa muito especial vindo aí pela frente, para agradar a todo tipo de gosto musical. Isso está sendo uma experiência fantástica. Estamos aprendendo muito e abrindo um mar de ideias para nosso vindouro quinto álbum.
Metal Na Lata: A repercussão sobre a abertura para a icônica cantora finlandesa Tarja, no Rio de Janeiro, foi estrondosa, com o público elogiando demais o Soulspell. Li na internet que vocês tiveram pouco tempo para passagem de som. Para os fãs foi tudo perfeito, mas para vocês, como foi o show na perspectiva da banda?
Heleno Vale: O show foi maravilhoso. Amamos ter tocado pela primeira vez no Circo Voador. Pretendemos voltar em breve. Sobre a abertura, havia um contrato a ser cumprido por ambas as partes. Nós cumprimos nossa parte. Inclusive, como haviam nos permitido apenas uma hora para passagem de som, chegamos cedo no Rio de Janeiro para podermos passar o som dentro de um estúdio, fato que era novo pra gente, mas funcionou. A Tarja é uma grande artista e seu empresário é um grande empresário. A produção local nos tratou bem. A banda dela é, também, excelente, sem dúvidas. Só deixo uma dica às bandas iniciantes. Esse meio de abertura de shows internacionais é bastante complexo. É bom adquirir certo tempo de Safari, antes de andar com os leões. rsrs
Metal Na Lata: Ainda falando sobre shows. Como é montar uma apresentação do Soulspell, são tantas vozes envolvidas, diversas participações especiais, deve dar um certo trabalho, correto?
Heleno Vale: Dá bastante trabalho, mas é bem prazeroso. Nada me deixa mais feliz que o sentimento de termos feito uma grande apresentação. Funciona mais ou menos assim: eu preparo um setlist baseado no tempo de show que teremos para determinado evento. Então monto PDFs com as letras, colorindo os trechos de cada cantor, inclusive há cantores que fazem questão, hoje em dia, de “serem” determinada cor (risos). Por fim, dependendo do evento, eu passo os trechos de vozes em corais ou faço os arquivos para guiar os ensaios do nosso coral oficial. Tem que reservar um tempinho pra isso. Esquecer finais de semana, sorvete com a namorada, cerveja com os amigos.
Metal Na Lata: “The Second Big Bang”, é o quarto álbum do Soulspell, também o quarto ato de uma saga que ao que parece estar longe de acabar. Poderia explicar um pouco mais sobre a história?
Heleno Vale: Claro. Vou tentar resumir aqui, em primeira mão, algo que vou inserir em nosso site nos próximos dias.
A história está em constante mudança. Pode ser que a interpretação de tudo isso mude de foco nos próximos álbuns.
Heleno Vale: Muitos. A banda está mais experiente. A sonoridade é melhor. O time de músicos é mais completo. A história é mais bem estruturada e, principalmente, as composições são mais maduras, mais bem dosadas, melhores.
Metal Na Lata: Por se tratar de álbuns épicos, que obviamente existem bastante ligações entre si. Como você define a parte que abordará no disco seguinte? Aproveitando, como são definidas as participações especiais?
Heleno Vale: Especificamente este é um ponto muito importante da saga. Do quarto para o quinto álbum, muitos caminhos são definidos de uma forma sem volta. Então, considero este ponto o início do ápice da história, de onde vamos rumar para seu fim, nos próximos álbuns. Então, felizmente para uns e infelizmente para outros, não teremos o mesmo grande número de novos personagens que tínhamos nos álbuns anteriores. Se juntarão à saga alguns poucos novos personagens. No entanto, o lado positivo disso tudo é que grandes personagens que já figuraram na história, voltam com força total à saga daqui em diante. Há grandes álbuns e grandes momentos por vir.
Metal Na Lata: Por sempre termos grandes surpresas nos álbuns do projeto, os fãs sempre especulam nomes de peso que gostariam de ouvir cantando nos álbuns. Mas é para você, Heleno, qual artista gostaria de ver gravando uma faixa para um álbum do Soulspell?
Heleno Vale: Após tantos anos de luta insana, meu modo de pensar e meus desejos mudaram um pouco e eu estou mais feliz assim. Eu não sei se isso é bom ou ruim para a maioria das pessoas, mas hoje não sinto que tenha mais essa idolatria que tinha antigamente por esse ou por aquele artista. Hoje eu percebo a arte de outra forma, com outros intuitos. Minha balança pesa mais por outros valores. Penso no futuro do Soulspell com outros olhos e fundamentado em outros tipos de sonhos. Portanto, prefiro não citar nomes nesse sentido da sua pergunta. Participará do próximo álbum do projeto aquele artista que a história do projeto exigir e que tenha sua honra ilibada quanto à sua participação no projeto.
Metal Na Lata: O projeto além de gozar de uma boa quantidade de fãs aqui no Brasil, também tem uma grande legião fora do país. Já receberam proposta para shows fora do país? Existe esta possibilidade?
Heleno Vale: Sim. Já batemos na trave algumas vezes quanto a shows fora do país. Creio que em 2019 devamos sanar essa dívida com nosso público de fora. Estamos conversando com uma outra banda do brasil sobre excursionarmos juntos pela Europa em 2019. As negociações estão avançadas. Torçam por nós.
Metal Na Lata: Há alguns meses foi gravado o primeiro DVD do grupo, na cidade de Lençóis Paulista, com orquestra, corais e diversos músicos renomados deixando tudo bem especial. Para os fãs que não estiveram presente no dia, o que eles podem esperar desse DVD? E você já tem uma provável data para o lançamento?
Heleno Vale: Foi mágico. Um momento incrível para a história de cada banda, cada participante envolvido. Inclusive, creio que tenhamos registrado em definitivo nosso nome na bela história do Metal Nacional e na minha querida cidade Lençóis Paulista. Aguardem e acreditem, porque vai valer muito MUITO a pena. Estamos editando som e imagem e está tudo magistralmente perfeito. Eu tenho vontade de chorar com cada imagem que vejo, cada interpretação brilhante de cada artista. Creio que até aqui este tenha sido meu auge dentro da arte. Fico feliz por ter conseguido chegar até este ponto, mas ainda almejo muito mais para o Soulspell. A previsão não existe. O que existe é nosso desejo de terminar tudo nos próximos meses para que possamos lançar esse material o quanto antes. Ele já mudou nossa história mesmo sem ser lançado e pode contribuir ainda mais com nosso futuro.
Metal Na Lata: Por último, o Brasil é um país extremamente rico em bandas de Heavy Metal, é indiscutível o talento dos nossos músicos, mas temos uma cena problemática, intrigas, shows vazios entre outros problemas. O que realmente é preciso para que possamos crescer e tirar os fãs de sua casa?
Heleno Vale: Quem sou eu pra dizer o que é preciso, mas vou compartilhar com vocês um pouquinho do que penso, que nem de longe é uma verdade absoluta. Primeiramente, penso que seja preciso um pouco mais de humildade a todos. Considero esse o ponto principal, pois quem não é humilde não aprende mais nada, em qualquer área. Vejo uma cena pouco humilde em geral, onde egos gigantes, prepotência, arrogância e ignorância reinam soberanos. Então, primeiramente, é preciso reconhecer que precisamos aprender mais em todos os sentidos, dia após dia. Não vamos mudar isso de uma hora para outra. Em segundo lugar, penso que seja preciso que cada um olhe e mude seu próprio umbigo, ou seja, sua própria postura e a postura de sua própria banda, antes de reclamar da cena, ou julgar outros. O que mais vejo são artistas sentados, na verdade deitados, aguardando que o mundo todo se ajoelhe aos seus pés e reconheça-o como um dos maiores artistas de todos os tempos. Se algum dia foi assim, hoje em dia não é mais. Há de se derramar muito suor para conseguir pouco. Ter talento numa área deveria ser considerado o mínimo, o básico, para se iniciar uma busca por algum reconhecimento. Não é isso que vejo. Vejo artistas clamando por justiça, pois sua arte não é reconhecida. Eu acho isso muito errado. Eu também sofro, pois gostaria que mais de 13 anos de luta depois, minha banda fosse mais reconhecida, claro. No entanto, eu não acho uma injustiça que ela não seja tão reconhecida, quanto eu gostaria. São coisas bem diferentes. Por fim, penso que seja necessário entender a cena, entender o momento atual no qual vivemos. Temos que entender que o público não tem culpa de nada, pois ele não te deve nada. Se ele não deseja comprar seu material, ele está no direito dele. Se o público deseja ficar em casa e ver seus shows apenas no Youtube, isso não é uma injustiça, ele está no direito dele, isso é o mundo atual. Se o público paga 600 reais pra ver o Iron Maiden pela 10ª vez e não paga 10 reais pra ver sua banda (como dezenas de amigos meus fazem para com o Soulspell), eles estão totalmente no direito deles. Se o bar não contrata sua banda, ou não te paga tão bem, talvez seja porque sua banda não seja tão boa, ou não tenha um marketing adequado. Já considerou essas hipóteses? 🙂 Não é porque 4 ou 5 “amigos” de Facebook clamam aos 4 ventos que sua banda é a melhor banda de todas que isso seja uma verdade para o mundo. Será que sua música é tão bem gravada, quanto poderia? Será que suas letras são tão bem elaboradas e escritas como poderiam? Será que o problema não somos nós? Será que sua banda já não teria estourado se seu material fosse tão bom assim? Se você não leva público aos shows, o bar não te contrata ou não te paga tão bem. Não vejo onde está o erro. Vejo uma falta de entendimento da cena atual total e completa. Eu sei que é um pouco frustrante para os artistas que o público sempre vá aos mesmos shows e compre e apoie as mesmas bandas nacionais ou internacionais, mas temos que parar de reclamar. As bandas e músicos estão errados na minha opinião. Temos que ser mais humildes de verdade e não da boca pra fora. Temos que parar de reclamar, estudar, entender como tudo funciona hoje em dia, pensar mais na qualidade do nosso material e buscar nosso caminho com paciência e muito suor, conversando com pessoas mais experientes que tenham algo a nos orientar.
Metal Na Lata: Obrigado pela entrevista, deixe uma mensagem para nossos leitores.
Heleno Vale: Agradeço a todos pela atenção e pela paciência. Continuem acompanhando o Soulspell, por favor. Há muito vindo pela frente. Estamos ainda longe do melhor que podemos vos oferecer! Nossos próximos lançamentos: o DVD ao vivo 10 Years Of Soul, nosso álbum de tributos e nosso quinto álbum de próprias sairão à altura do que nossos fãs tão fieis merecem! Obrigado a todos vocês por nos acompanharem todos esses anos!
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