Entrevista: Tommy Lindal, ex-guitarrista norueguês do Theatre Of Tragedy

Tommy Lindal - Reprodução - Facebook
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Entrevista: Tommy Lindal, ex-guitarrista norueguês do Theatre Of Tragedy

Theatre Of Tragedy

Em 1993, a cidade norueguesa de Stavanger, em Rogaland, viu nascer o Theatre of Tragedy, banda inicialmente definida como Gothic/Death/Doom Metal. Como resultado, sete integrantes produziram uma sonoridade que até hoje segue viva na memória dos fãs do estilo.

Na época, enquanto a América vivia a onda do Groove Metal e do “famigerado” Grunge, a cena europeia se dividia entre os subgêneros do Metal extremo, o Power Metal e o então ascendente Gothic/Death/Doom. Tanto que o Theatre of Tragedy surgiu cerca de três anos após o surgimento do Peaceville Three (Anathema, My Dying Bride e Paradise Lost), trio que pavimentou o caminho para o estilo.

Embora o line-up do septeto fosse inteiramente composto por músicos competentes, a voz etérea de Liv Kristine e as guitarras de Tommy Lindal eram os grandes destaques dos primeiros anos. Posteriormente, a sonoridade do grupo mudaria para algo mais próximo ao Industrial/Electronic Rock, ainda que mantendo a veia gótica.

Infelizmente, em 2010, logo após lançar seu último álbum completo, Forever Is the World (2009), o Theatre of Tragedy anunciou o encerramento de suas atividades. Porém, a saudade dos admiradores da banda, principalmente de sua fase inicial, nunca cessou.

A fim de especular alguma chance de uma possível reunião e relembrar os anos de ouro, entrevistamos Tommy Lindal, guitarrista dos primórdios do Gothic/Death/Doom norueguês. Confira a seguir como foi esse bate-papo.

Entrevistando Tommy Lindal

Antes de mais nada, é um enorme prazer entrevistar um nome tão importante da cena européia. Portanto, te agradeço muito por aceitar o convite.

…in Deviltry

Metal Na Lata: ainda que muitos fãs não saibam, em 2008, você formou a banda de Melodic Doom Metal ...in Deviltry, reunindo músicos do Brasil e da Noruega. Como esse projeto nasceu?

Lindal:

“Depois da minha hemorragia cerebral, passei muito tempo em casa tocando violão. A música era uma forma de terapia e de prática para mim — um meio de reencontrar o músico que eu era antes da hemorragia. Isso começou muito antes de o …in Deviltry se tornar uma banda.”

“Mais tarde, quando me mudei para o Brasil com minha namorada da época, decidimos tentar reunir algumas pessoas para tocar e compor. Convidei alguns amigos locais, e foi assim que o …in Deviltry começou.”

“Com o tempo, tornou-se difícil manter a banda no Brasil. As pessoas tinham prioridades e formas de trabalhar diferentes; por isso, tentei trabalhar com dois músicos noruegueses: um baterista e um vocalista. No entanto, a colaboração pela internet era complicada — até mesmo pequenos detalhes exigiam muito esforço —, e acabei suspendendo o projeto.”

“Sempre senti que a música assume a personalidade de quem a cria. Raramente o resultado é exatamente como você imaginou inicialmente; é por isso que a escolha dos músicos é tão importante para mim.”

O EP auto-intitulado

Metal Na Lata: no final de 2020, …in Deviltry lançou, enfim, seu primeiro registro oficial, o EP auto-intitulado. Atualmente, quais são os planos em relação a banda? Ainda haverá um álbum completo?

Lindal:

“Disponibilizamos duas faixas online, principalmente para fazer um teste. De certa forma, era na verdade uma música e meia, já que a segunda faixa não era uma versão completa. Eu as produzi em casa, sem uma produção profissional por trás.”

“Não tenho um plano definido para o …in Deviltry no momento. Estou ocupado com outras coisas na vida, mas trabalho na música de vez em quando, quando tenho tempo. Gostaria de deixar o processo fluir naturalmente.”

“Se isso vai acabar se tornando um álbum completo, ainda é uma incógnita. Posso até recomeçar algumas partes do zero, porque o material inicial não ficou exatamente como eu queria, e as pessoas com quem trabalhei na época não estão mais envolvidas. Acredito que algo vai sair disso, mas não quero prometer o quê ou quando por enquanto.”

Tommy Lindal e o Brasil

Metal Na Lata: sabe-se que você tem uma relação muito próxima com o Brasil e com o brasileiro, pois morou em Natal, capital do Rio Grande do Norte. Conte o que te levou a se tornar, mesmo que por um período, um cidadão potiguar?

Lindal:

“Tudo começou por volta de 1999 ou 2000. Meu pai havia viajado para o Brasil e passado um tempo lá; ele convidou meu irmão, eu e alguns amigos para uma visita. Gostei tanto que continuei voltando. Durante os primeiros cinco anos, passei longos períodos no Brasil enquanto ainda morava na Noruega. Em 2005, decidi me mudar para lá definitivamente e fiquei até mais ou menos 2019 ou 2020.”

“Chegou um momento em que senti saudades da Noruega. Além disso, eu havia perdido minha avó e minha mãe; essas perdas me fizeram perceber a importância de passar tempo com a família que eu ainda tinha na minha terra natal. Infelizmente, não temos as pessoas que amamos conosco para sempre.”

“Três dos meus filhos moram no Brasil. Minha filha mais velha agora tem uma filha pequena, então virei avô! Meu quarto filho, Bjørn, mora aqui comigo na Noruega, e dedico-me em tempo integral a ser pai durante a semana. Meus filhos que estão no Brasil já falaram sobre vir para a Noruega algum dia.”

“Eu amo o Brasil. Com minha família lá e tantos anos da minha vida vividos no país, ele sempre fará parte de mim.”

A era clássica do Theatre of Tradegy

Metal Na Lata: agora, finalmente, o assunto é Theatre of Tragedy. Quando se deu a fundação do septeto em 1993, o subgênero Gothic/Doom/Death Metal já era o objetivo das composições, foi algo que aconteceu de forma natural ou influência do momento que o Metal vivia?

Lindal:

“No início, éramos apenas eu, o Raymond e o Pål nos reunindo para tocar alguns covers e death metal. Achávamos o som legal, pesado e divertido, mas não tínhamos um plano de criar um estilo específico.”

“O que aconteceu posteriormente foi um processo natural. Mais pessoas se juntaram a nós, cada uma trazendo influências musicais diferentes. Eu me sentia atraído pelo doom metal e pelo metal de forma mais ampla, enquanto outros traziam elementos da música gótica, do metal tradicional e da música clássica. O Pål e eu desenvolvíamos músicas em conjunto com os outros músicos, que também contribuíam para a composição. Essa mistura de ideias foi moldando, aos poucos, a sonoridade do Theatre of Tragedy.”

A influência no Peaceville Three

Metal Na Lata: o trio britânico Paradise Lost, My Dying Bride e Anathema consolidou o Gothic/Death/Doom no início da década de 1990. O Theatre Of Tragedy veio pouco tempo depois como continuação dessa tendência musical, mas com uma personalidade músical ímpar. Resumindo, na sua visão, qual foi o principal diferencial do Theatre Of Tragedy em relação ao Peaceville Three, além dos vocais Beauty and the Beast?

Lindal:

“Não é segredo que eu era um grande fã de My Dying Bride e Anathema nos anos 90, e eles foram uma grande fonte de inspiração para mim. Porém, o Theatre of Tragedy também buscava referências na música clássica, no rock e na música gótica, o que trazia nuances diferentes às nossas composições.”

“É claro que as bandas da gravadora Peaceville também apresentavam contrastes em sua música. No entanto, aos meus ouvidos, as transições entre o peso e a delicadeza — e entre diferentes emoções — eram mais intensas e marcantes no nosso som. Contar com vocalistas masculino e feminino nos oferecia mais uma maneira de dar vida a esses contrastes. Nossas músicas também podiam se desenrolar como poemas ou peças teatrais, com a música e as vozes conduzindo o ouvinte por diferentes cenários e sentimentos. Acredito que essa maior diversidade ajudou a conferir ao Theatre of Tragedy uma identidade própria.”

Os clássicos do Theatre Of Tragedy

Metal Na Lata: como membro do T.O.T, você gravou dois álbuns completos clássicos, o debut homônimo (1995) e Velvet Darkness They Fear (1996), assim como o EP A Rose for the Dead, o qual foi lançando quando você já não fazia mais parte da formação. Dito isso, desses supracitados, qual é o seu registro favorito e quais os fatores que justificam sua preferência?

Lindal:

“É quase impossível responder a isso! Nossa estreia significa muito para mim, pois éramos jovens, fazíamos nossa própria música e despertamos o interesse de gravadoras quando tínhamos apenas quatro músicas prontas. Ficamos impressionados e lisonjeados.”

“Mas era uma época muito diferente. Nos anos 90, não dava para simplesmente subir sua música em uma grande plataforma. Nós enviávamos material pelo correio, e alcançar as pessoas era muito mais difícil. Ter várias gravadoras interessadas em nós parecia um elogio enorme. Depois vieram nossa primeira gravação em estúdio, os shows e a experiência surreal de ver nosso próprio álbum em uma loja de discos. Tudo começou ali, então a estreia será sempre especial.”

Velvet Darkness They Fear é mesmo especial

“Mas, se eu tiver que escolher um, é Velvet Darkness They Fear. Para mim, esse álbum é perfeito do início ao fim. Ele tem todos os elementos que eu queria que tivesse, uma produção sólida e os contrastes musicais e emocionais de que falei antes. Naquela altura, já tínhamos feito turnês, tocado em muitos shows e aprendido com nossa primeira experiência em estúdio. Dessa forma, senti que podia me expressar plenamente como músico naquele disco, e tenho orgulho da qualidade do que criamos juntos.”

“Minha música favorita é provavelmente ‘On Whom the Moon Doth Shine’, pois foi aquela em que mais contribuí musicalmente. Um detalhe curioso é que o riff de abertura com delay me ocorreu durante a passagem de som para o show de outra banda no nosso espaço de ensaio.”

“’Fair and ’Guiling Copesmate Death’ também é muito especial para mim. Ela traz os contrastes que adoro: é muito pesada, mas tem uma pegada quase dançante, e é muito divertido tocá-la ao vivo. Na verdade, é a música que mais me satisfaz.”

“Também valorizo ​​’A Rose for the Dead’, embora o veja como algo intimamente ligado às sessões de Velvet Darkness They Fear. Ele incluía músicas que sobraram daquelas gravações, além de remixes e uma versão em inglês de ‘Der Tanz der Schatten’. Portanto, embora os três lançamentos sejam importantes para mim, Velvet Darkness They Fear é aquele que significou — e ainda significa”

Liv Kristine e Lindal juntos em uma foto? Alguma chance de reunião

Tommy Lindal & Liv Kristine – Reprodução Facebook

Metal Na Lata: em 21/9/2026, Liv Kristine postou uma foto com você, assinando uma compilação que acaba de sair. Em 25/09/2026, data de publicação dessa entrevista, o lançamento de Velvet Darkness They Fear completa 30 anos. Juntando ambos os fatos, os fãs se perguntam: “há alguma possibilidade de reunião da formação original a fim de celebrar as três décadas desse importante álbum”?

Lindal:

“Existe sempre uma possibilidade. Tudo pode acontecer! Mas, até onde sei, nada foi combinado ou planejado. O álbum completa 30 anos agora, então organizar uma turnê de reencontro para marcar a data exigiria tempo e muito trabalho.”

“Acredito piamente que Velvet Darkness They Fear merece ser celebrado, e os fãs merecem a chance de ouvir essas músicas ao vivo novamente. Eu adoraria ver uma turnê comemorativa de verdade acontecendo. Por enquanto, porém, não quero que ninguém confunda esse desejo com um anúncio: não há planos em andamento, pelo menos que eu saiba.”

A relação entre os membros clássicos do Theatre of Tragedy

Metal Na Lata: além da Liv, atualmente, qual sua relação com os ex-membros do T.O.T?

Lindal:

“Com a maioria dos outros, o contato é limitado. De vez em quando, encontro alguém em um show ou evento na cidade, ou trocamos algumas palavras pelo Messenger. Mantive certo contato com ex-integrantes ao longo dos anos, mas não nos falamos com frequência.”

“Em suma, tirando a Liv, a maior parte do meu contato com a banda acontece por meio da administração.”

Um retorno seria possível?

Metal Na Lata: quem acompanha os papos dos fãs nos bastidores do Metal sabe que Theatre Of Tragedy é uma banda que muita gente quer ver, ainda mais se for com a sonoridade dos primórdios. Ou seja, mais que uma simples reunião, um retorno seria bem-vindo, incluindo uma passagem pelo Brasil (ha ha). Entretanto, qual seu pensamento sincero sobre isso?

Lindal:

“É uma ideia interessante, mas seria muito difícil de concretizar. Como eu disse antes, acho que a fase mais antiga da discografia do Theatre of Tragedy merece atenção, e entendo por que as pessoas gostariam muito de ouvir essas músicas ao vivo novamente.”

“Com o passar dos anos, os caminhos das pessoas se separaram, principalmente devido à família, ao trabalho e à vida fora da banda. Alguns pararam de tocar ou deixaram a música de lado. Por isso, reunir todo mundo exigiria um grande esforço. Ainda assim, eu não diria que é impossível. E, se isso algum dia acontecesse, tocar no Brasil seria maravilhoso.”

Considerações finais

Metal Na Lata: esse espaço é livre para que você fale sobre algo que não perguntamos na entrevista, mas que ache importante. Ou ainda para que se expresse da maneira como desejar aos admiradores do seu trabalho.

Liv & Lindal Juntos no palco após trinta anos – Créditos na foto

Lindal:

“Tenho muito orgulho do que criamos, assim como sou profundamente grato a todos que nos apoiaram ao longo de todos esses anos — e que continuam apoiando. É fantástico ver que as pessoas continuam ouvindo e comprando nossa música.”

“Gostaria também de convidar todos para o meu grupo no Facebook, Theatre of Tragedy Origins. Ele é focado nos primeiros anos da banda, desde o álbum de estreia até o Aégis. Lá, vocês encontrarão fotos antigas, histórias do início e pequenos fragmentos da nossa trajetória. Basta que pesquisem por ‘Theatre of Tragedy Origins’ no Facebook.”

“No início de setembro, aliás, a Liv Kristine me convidou para tocar com ela em um festival local. Foi minha primeira apresentação oficial em 30 anos, desde que ocorreu a minha hemorragia cerebral. Isso significou muito para mim. Há um vídeo do show no grupo Origins, caso queiram assistir.”

“Obrigado pelo interesse e obrigado ao Metal na Lata pelo convite. A todos que estão lendo: cuidem-se e vida longa ao rock!”

Metal Na Lata:

Nós é que agradecemos a sua atenção e essa memorável entrevista. Obrigado, Tommy Lindal.

Acessar a página: Theatre of Tragedy Origins

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