Flotsam and Jetsam – “Rats in the Temple” (2026)
Flotsam and Jetsam – “Rats in the Temple” (2026)
Napalm Records | Shinigami Records
#ThrashMetal #HeavyMetal
Para fãs de: Anthrax, Metal Church, Armored Saint, Overkill, Testament
Texto por Johnny Z.
Nota: 9,0
Poucas bandas da geração clássica do thrash americano chegaram aos anos 2020 mantendo a capacidade de lançar material novo sem depender exclusivamente da nostalgia. O Flotsam and Jetsam é uma delas.
Quarenta anos depois de Doomsday for the Deceiver, álbum de estreia que apresentou ao mundo um ainda desconhecido Jason Newsted, a banda de Phoenix continua produzindo música nova com personalidade. E Rats in the Temple mostra que essa fase está longe de perder força.
O décimo sexto álbum de estúdio chega depois de uma sequência impecável iniciada com Flotsam and Jetsam (2016) e seguida por The End of Chaos (2019), Blood in the Water (2021) e I Am the Weapon (2024). O novo trabalho mantém essa linha, mas soa ainda mais seguro em relação à identidade construída pela banda ao longo da última década.
Não há qualquer esforço para reproduzir 1986. O que existe é um Flotsam and Jetsam confortável dentro da própria linguagem, mas ainda disposto a explorar diferentes possibilidades dentro dela.
“Harvesting the Hate” abre o álbum em alta velocidade e praticamente apresenta todas as credenciais do grupo em poucos minutos. Thrash, heavy metal, guitarras em harmonia e a voz inconfundível de Eric A.K. aparecem logo de cara.
E é impossível ignorar o vocalista. A.K. obviamente não canta hoje da mesma maneira que cantava em Doomsday for the Deceiver. Quatro décadas de carreira fazem diferença. Só que sua voz atual ganhou peso, aspereza e autoridade. Em vez de tentar reproduzir o passado, ele utiliza a experiência acumulada para encontrar outra personalidade dentro das próprias músicas. E o resultado é excelente.
“Damnation” mantém a velocidade, mas deixa claro que Rats in the Temple não pretende transformar tudo em uma sucessão de ataques de thrash. Heavy metal tradicional, power metal americano e passagens mais cadenciadas entram na equação e dão variedade ao repertório.
“Absolution” está entre os grandes momentos do álbum. Os riffs são precisos, mas nunca parecem colocados ali apenas para demonstrar habilidade. A técnica está a serviço das composições, e essa é uma das maiores virtudes do disco.
“Blame the Knife” reduz o andamento e aumenta o peso. Os riffs têm espaço para respirar, enquanto a banda constrói tensão sem precisar acelerar. É uma mudança simples, mas suficiente para alterar completamente o clima da sequência.
A faixa-título, “Rats in the Temple”, talvez seja a melhor síntese do álbum. Thrash, heavy metal, melodia e peso dividem espaço com uma atmosfera mais sombria. Ken Mary também tem participação importante nesse resultado. Sua bateria combina precisão e força, mas nunca transforma as músicas em vitrines para virtuosismo.
Esse equilíbrio aparece várias vezes ao longo do disco. O Flotsam and Jetsam toca muito, mas não parece preocupado em provar isso a cada minuto. A prioridade continua sendo a música.
“The Ghost Behind My Door” leva o repertório para um terreno mais épico. As melodias de guitarra ganham destaque e Eric A.K. encontra um dos melhores espaços do álbum para trabalhar sua voz. A faixa possui dramaticidade, mas não cai naquele power metal excessivamente grandioso que tantas bandas transformaram em fórmula.
“First on the Spike” muda novamente a direção. É rápida, agressiva e tem aquele tipo de energia que parece pedir um palco. Um verdadeiro trator desgovernado, sem espaço para enrolação.
Já “The Edge of Nowhere” aposta mais na dinâmica. A música alterna intensidade e andamento e reforça uma característica importante do Flotsam atual: velocidade é apenas uma das ferramentas disponíveis.
“Last Rites” acrescenta uma atmosfera mais sombria à sequência. O clima quase fúnebre cria contraste com as faixas anteriores, enquanto as guitarras mantêm o peso sem recorrer a exageros.
“A Taste for War” merece atenção especial. O andamento mais cadenciado deixa baixo e bateria respirarem melhor e coloca o peso em primeiro plano. É também uma das faixas que mostram como a banda consegue soar pesada sem depender de velocidade.
“Her Blood Your Pain” devolve a melodia ao centro. A música também ajuda a lembrar que o Flotsam and Jetsam nunca foi apenas uma banda de thrash. Desde os primeiros trabalhos, o grupo incorporava harmonias, vocais grandiosos e elementos de heavy e power metal à sua identidade.
“Anthem for the Broken” segue por essa linha mais épica, enquanto “Not Goin’ Down That Way” fecha o álbum de maneira direta.
A produção acompanha essa proposta. Ken Mary assume a produção, enquanto Jacob Hansen fica responsável pela mixagem e masterização. O resultado é moderno, preciso e definido, mas sem tentar transformar o Flotsam and Jetsam em uma banda diferente.
As guitarras têm bastante ataque, a bateria soa forte e o baixo encontra espaço suficiente para trabalhar com o bumbo. Tudo é claro, pesado e bem distribuído, sem aquela preocupação de reproduzir artificialmente a estética dos anos 1980.
Com aproximadamente 56 minutos e 13 faixas, Rats in the Temple está longe de ser um disco curto. Ainda assim, o repertório sustenta a duração porque a banda varia os andamentos e evita transformar o álbum em uma sequência previsível. Quem seria o louco a reclamar de um álbum com TODAS as faixas impecáveis?
O Flotsam and Jetsam não precisa competir com Doomsday for the Deceiver. Também não precisa repetir No Place for Disgrace (1988) para provar que ainda pertence à história do thrash americano.
Desde o álbum homônimo de 2016, a banda vem construindo uma fase particularmente consistente. Rats in the Temple mantém essa trajetória e mostra músicos experientes compondo com a mesma gana de uma banda que ainda tem algo a provar. Só que agora eles não precisam provar nada, mas sim precisam apenas continuar fazendo discos como este.
Para quem procura riffs marcantes, vocais fortes, velocidade, melodias, mudanças de andamento e uma banda que ainda sabe escrever músicas de verdade, Rats in the Temple entrega exatamente isso.
E, considerando o que o Flotsam and Jetsam vem fazendo desde 2016, a fase atual merece ser ouvida com a mesma atenção dedicada aos clássicos.





