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Funeral Witchery – “Beyond the Light” (2026)

Funeral Witchery – “Beyond the Light” (2026)

InViMa Records

#BlackMetal

Para fãs de: Immortal, Lord Belial, Naglfar, Archgoat

Redator: Thiago Loureiro

Nota: 9

O underground do Black Metal norte-americano ganha, em 2026, um novo capítulo vindo de uma geografia pouco associada às imagens clássicas do gênero. Forjado sob o sol implacável de Tucson, Arizona, o Funeral Witchery constrói em Beyond the Light um paradoxo particularmente eficaz: a música nasce em uma paisagem árida e abrasadora, mas procura sua identidade estética em uma linguagem sonora de frio, trevas, morte e desolação.

Formado em 2020, o Funeral Witchery apresenta uma proposta fundamentada no Black Metal de orientação tradicional, com temáticas relacionadas ao satanismo, ocultismo e misantropia. A trajetória fonográfica começou com a demo autointitulada Funeral Witchery, lançada em 2020, seguida pelo single “Nemesis Divinus”, de 2023. Em 2026, a banda intensificou sua atividade com os singles “Sheol”, “Black Moriah”, “I Am the Tyrant” e “Beast Reich Occupation”, antes de apresentar seu primeiro full-length.

Lançado em 18 de setembro de 2026 pela InViMa Records, Beyond the Light consolida esse percurso em nove faixas. A edição física está disponível através da Post Mortuus Distributions.

O resultado é um álbum que procura conciliar a agressividade do Black Metal da velha escola com momentos atmosféricos, sintetizadores, samples e passagens de caráter mais experimental. A documentação promocional do lançamento descreve o trabalho como uma manifestação feroz, direta e profundamente enraizada no Black Metal tradicional.

O CONCEITO VISUAL: O DESERTO DO ABISMO

A capa de Beyond the Light, criada pelo artista Zeinz, estabelece uma relação visual imediata entre a identidade do Funeral Witchery e sua origem geográfica em Tucson. O deserto aparece não apenas como cenário, mas como possibilidade estética. Um espaço de isolamento, calor, vazio e desolação que contrasta com a iconografia tradicionalmente associada às paisagens geladas do Black Metal europeu. A autoria de Zeinz é confirmada pelas divulgações do lançamento.

A presença de elementos áridos, ossadas, figura feminina demoníaca e uma atmosfera dominada por tons escuros e avermelhados cria uma linguagem visual coerente com os temas de ocultismo, morte, violência e blasfêmia que atravessam a identidade do grupo. A associação entre o ambiente desértico e o imaginário infernal, entretanto, deve ser compreendida como uma leitura interpretativa da obra visual, e não como uma declaração conceitual formal da banda.

O próprio título Beyond the Light funciona, dentro dessa leitura, como uma metáfora para a passagem, além de qualquer território de segurança, transcendência ou salvação.

FICHA TÉCNICA, PRODUÇÃO E IDENTIDADE

A gravação de Beyond the Light apresenta: Carlos Martinez (vocal e guitarra), Ross Foree (bateria), Josiah Tomlin (baixo/sessão), assim como Desmond Cole (teclados/sessão). As fontes de divulgação do álbum confirmam Tomlin no baixo e Cole nos teclados da gravação. Para as apresentações ao vivo, no entanto, participam o guitarrista Giovanni G e o baixista Steve White.

A separação entre formação de gravação e formação ao vivo é importante, pois Beyond the Light não deve ser analisada simplesmente como um registro produzido pela atual formação de palco.

Musicalmente, o álbum combina Black Metal de orientação old school com momentos de maior densidade atmosférica, elementos de Thrash Metal em determinados riffs, teclados, samples, spoken word e mudanças de andamento, tremolo picking, blast beats, vocais agudos, growls ocasionais, momentos lentos, médios e rápidos e pequenas intervenções de teclados e instrumentos limpos.

AS ENGRENAGENS DO CAOS: O COMPONENTE THRASH

Embora o Funeral Witchery esteja essencialmente situado no território do Black Metal, Beyond the Light apresenta momentos em que a agressividade rítmica aproxima determinadas passagens da tradição do Thrash Metal extremo.

A conexão com a primeira geração do Metal extremo — especialmente a região estética posteriormente associada ao Black/thrash — pode ser percebida como uma interpretação crítica do disco. A crueza, a velocidade e determinadas construções rítmicas permitem aproximar o Funeral Witchery de uma linhagem que passa por nomes como Sodom, Hellhammer/Celtic Frost e Sarcófago.

Riffs e dinâmica

O trabalho de guitarra alterna passagens velozes, tremolo picking, riffs mais pesados e momentos de maior densidade. A bateria de Ross Foree participa diretamente dessa dinâmica, contribuindo para que o álbum não permaneça restrito a uma única velocidade ou textura.

A combinação entre blast beats, riffs rápidos, momentos cadenciados e mudanças de intensidade é um dos elementos que ajudam a sustentar a diversidade interna do álbum.

ANÁLISE CONCEITUAL, MUSICAL E CULTURAL — FAIXA A FAIXA

1.”SHEOL”

A abertura estabelece imediatamente o clima sombrio de Beyond the Light. Além disso, “Sheol” também foi um dos singles que antecederam o álbum e aparece como a porta de entrada para sua atmosfera. A própria divulgação do lançamento descreve a faixa como uma invocação de uma “escuridão ancestral” e primordial.

Inicia com urros agudos rasgados de alta intensidade, remetendo à escola nórdica tradicional, dessa forma, servindo como invocação e construção de atmosfera. Apresenta transição de linhas lentas e obscuras para um ataque fulminante de blast beats e cadência em tremolo picking, estabelecendo o manto de Black Metal cru e violento que rege a obra.

O MUNDO HEBRAICO ANTIGO

O título remete diretamente ao “Sheol”, conceito pertencente ao universo religioso hebraico antigo e à tradição bíblica, associado ao domínio dos mortos.

É importante não traduzir automaticamente “Sheol” como “inferno” no sentido cristão posterior. O conceito possui uma história própria dentro da antiga tradição israelita e permite uma leitura mais ampla sobre morte, sepultamento, existência e destino humano.

A partir desse ponto de partida, é possível estabelecer uma leitura crítica relacionada ao pessimismo filosófico e à consciência da morte. A aproximação com Schopenhauer e com a tradição sapiencial de Eclesiastes é, neste caso, uma interpretação autoral, não uma associação declarada pela banda.

2.”WOLFQUEEN”

“Wolfqueen” recupera material associado às primeiras composições do Funeral Witchery, remetendo ao período de sua demo de 2020. O resultado é uma das faixas em que a banda evidencia sua capacidade de combinar agressividade, velocidade e atmosfera.

Vocais desesperados e gesticulados em registros agudos, acompanhados de breves inserções gravadas/faladas (spoken word) para acentuar a narrativa. Destaca-se pelas guitarras cortantes e melódicas cruzadas com base veloz.

A bateria explora variações de ritmos acelerados e quebras de tempo, construindo uma atmosfera trágica e desoladora sem perder o apelo violento. A divulgação do álbum também caracteriza a faixa por uma combinação de violência, loucura e beleza desolada.

TRADIÇÕES NÓRDICAS E GERMÂNICAS

O imaginário do lobo permite uma leitura comparativa com as tradições mitológicas nórdicas e germânicas, especialmente através de “Fenrir”, o gigantesco lobo associado ao Ragnarök.

Essa relação, entretanto, deve ser entendida como interpretação crítica, e não como afirmação de que a banda declarou Fenrir como inspiração da composição.

O lobo, dentro das tradições europeias antigas, pode carregar diferentes significados: ferocidade, selvageria, ameaça, poder e ruptura da ordem. É justamente essa ambivalência que torna o símbolo particularmente adequado ao universo estético de “Wolfqueen”.

As referências a Max Stirner, Thomas Hobbes e Bram Stoker são, igualmente, conexões críticas estabelecidas nesta resenha. Ou seja, não constituem declarações documentadas da banda sobre a composição da faixa.

3.”SEA OF STARS AND DARKNESS INFINITE”

Com apenas 1 minuto e 30 segundos, a terceira faixa funciona como uma passagem atmosférica dentro da arquitetura do álbum. Sua brevidade contrasta com a violência das composições mais extensas e cria uma zona de suspensão antes da retomada do peso.

Faixa predominantemente instrumental/interlúdio, com inserções pontuais de samples e ecos vocais. Focada em arranjos de teclado atmosférico e linhas sutis de violão/guitarra limpa, cria um alívio cósmico e sombrio entre o caos frenético do trabalho.

COSMOLOGIAS ANTIGAS

Aqui é necessário rigor: não há, nas fontes consultadas, uma cultura ancestral específica oficialmente associada à faixa.

O título, porém, permite uma leitura comparativa com antigas cosmologias que tentaram compreender o céu, o vazio, a noite, as estrelas e a posição humana diante do cosmos. Tradições mesopotâmicas, egípcias, gregas e outras cosmologias antigas podem ser utilizadas como contexto histórico para essa leitura, mas não devem ser apresentadas como influências comprovadas da Funeral Witchery.

Nesse sentido, a sensação de insignificância humana diante da vastidão cósmica aproxima-se também das reflexões contemporâneas de Eugene Thacker e do horror cósmico de H. P. Lovecraft.

4.”I AM THE TYRANT”

Também lançada como single em 2026, “I Am the Tyrant” apresenta uma das construções mais contundentes do álbum.

Apresenta vocalizações mais graves e guturais (growls) intercaladas aos gritos estridentes, assim como transmite autoridade e tom de dominação. Cadência arrastada e pesada com forte presença de Thrash Metal na base dos riffs.

A sessão rítmica atua como marteladas firmes, priorizando andamentos em mid-tempo antes de explodir em seções rápidas. A divulgação oficial descreve justamente a faixa como uma demonstração de domínio implacável, com riffs e bateria funcionando como golpes de martelo.

REALEZA, IMPÉRIO E DESPOTISMO

O conceito de tirania não pertence exclusivamente a uma civilização, já que a ideia de poder absoluto atravessa diversas sociedades antigas.

É possível estabelecer, como comparação histórica, diálogos com:

“Os reis e impérios da Mesopotâmia;
A monarquia faraônica do Egito;
Os debates gregos sobre tirania;
A autoridade imperial romana.
“

A faixa permite ainda uma leitura centrada em poder, dominação e ruptura com sistemas morais estabelecidos. A associação com Friedrich Nietzsche, especialmente os conceitos de vontade de poder e transvaloração dos valores, fornece uma chave filosófica possível para interpretar o personagem construído pelo título.

É importante, porém, não reduzir Nietzsche à figura de um simples tirano ou interpretar o “Übermensch” como uma licença filosófica para “esmagar” os demais. Essa associação é uma construção crítica desta resenha, e não uma explicação oficial da banda.

5.”EPIPHANY”

Breve interlúdio de apenas 35 segundos, “Epiphany” funciona como uma ruptura dentro do fluxo do álbum. A duração é confirmada pela listagem oficializada em fontes de lançamento.

Micro-interlúdio de transição pontuado por drones de teclado, ruídos rítmicos e samples, preparando o ouvinte para o bloco seguinte.

GRÉCIA ANTIGA E TRADIÇÃO CRISTÃ

A palavra “epifania” possui origem grega e está relacionada à manifestação ou aparição. Posteriormente, o termo adquiriu importância central dentro do cristianismo. Essa trajetória linguística permite observar uma interessante passagem cultural: uma palavra originária do universo grego antigo atravessa séculos e passa a ocupar lugar importante dentro da tradição cristã.

A utilização do termo no contexto de Beyond the Light pode, portanto, ser interpretada como uma espécie de manifestação ou revelação. Embora aqui novamente não exista documentação suficiente para afirmar que a banda pretendesse conscientemente estabelecer essa genealogia religiosa.

Na arquitetura do álbum, a faixa pode ser interpretada como um momento de percepção ou ruptura espiritual — uma possível “revelação sombria” diante do vazio.

6.”NUN FUCKER”

Aqui o Funeral Witchery abandona qualquer possibilidade de ambiguidade. “Nun Fucker” é uma das manifestações mais explicitamente blasfemas e provocativas do álbum, coerente com a temática de satanismo, ocultismo e blasfêmia identificada nas descrições do grupo.

Performance visceral, blasfema e agressiva; entrega vocal ríspida sem concessões melódicas. Direto, rápido e cru. A cozinha de ritmo sustenta uma pegada old school, enquanto as guitarras trabalham com tremolo picking agressivo.

CRISTIANISMO MEDIEVAL E ANTICLERICALISMO

Aqui não existe uma “cultura ancestral” específica identificável no título. A referência pertence sobretudo ao “universo cristão europeu posterior”, especialmente à iconografia da vida monástica e conventual. A figura da freira, (voz feminina presente durante a canção), carrega nesse contexto, séculos de simbolismo religioso, disciplina, voto de castidade e autoridade institucional. A transgressão do título funciona justamente pela inversão deliberada desses símbolos.

O título permite estabelecer uma leitura histórica sobre transgressão religiosa, anticlericalismo e literatura libertina. As associações com o Marquês de Sade e Georges Bataille podem enriquecer a interpretação do caráter sacrílego e corporal da faixa.

Essas associações, entretanto, são ferramentas críticas utilizadas nesta resenha, não influências documentadas da banda.

7.”THE BLACK MORIAH”

“The Black Moriah” foi outro dos singles lançados em 2026 e ocupa uma posição particularmente pesada na sequência do álbum.

Dualidade entre gritos rasgados de agudos estridentes e vocais dobrados em tom soturno. Riffs de guitarra com forte identidade melódica sobre uma cama de baixo encorpada. A estrutura instrumental varia entre passagens cadenciadas e momentos de aceleração técnica.

TRADIÇÃO HEBRAICA E ANTIGA ISRAEL

“Moriá” remete à tradição bíblica associada ao episódio em que Abraão é colocado à prova por Deus através do sacrifício de Isaac — que não chega a ocorrer, pois um carneiro é oferecido em seu lugar.

A transformação de “Moriá” em “Black Moriah” permite interpretar a faixa como uma inversão simbólica de uma paisagem sagrada: aquilo que pertence ao território da prova religiosa é transposto para uma dimensão negra, ameaçadora e profana.

Essa leitura pode dialogar com a antropologia do sacrifício de René Girard e com determinados aspectos da tradição ocultista associada a Aleister Crowley. Essas aproximações, porém, constituem uma leitura filosófico-literária desta resenha, e não influências oficialmente documentadas.

8.”BEAST REICH OCCUPATION”

“Beast Reich Occupation” é uma das composições mais agressivas do álbum. A divulgação do lançamento destaca sua violência e seu solo de guitarra giratório, comparado metaforicamente a um caleidoscópio de lâminas.

A faixa combina violência, movimento e uma construção rítmica que contribui para a sensação de conflito e colapso. O título permite uma leitura política e escatológica envolvendo poder, militarização, totalitarismo e destruição institucional.

Interpretação rabugenta, ágil e enfática, acompanhando a velocidade da instrumentalização. Destaque para o trabalho de bateria e para o solo de guitarra central — intrincado, veloz e cortante.

IMPÉRIOS, GUERRA E OCUPAÇÃO

Aqui também é necessário evitar uma falsa associação com uma cultura ancestral específica.

O conceito de “ocupação territorial” atravessa civilizações antigas, desde os grandes impérios da Mesopotâmia até as expansões persas, macedônicas e romanas. Assíria, Babilônia, Pérsia e Roma oferecem exemplos históricos de sociedades estruturadas pela conquista e administração de territórios.

Esses exemplos, entretanto, servem apenas como “contextualização histórica do arquétipo da conquista”, não como evidência de que essas civilizações sejam referências composicionais da Funeral Witchery.

A aproximação com o Apocalipse bíblico, Hannah Arendt e Giorgio Agamben é, igualmente, interpretativa. Agamben desenvolveu amplamente o conceito de “estado de exceção”, mas não é historicamente preciso dizer que ele simplesmente “cunhou” a ideia.

9.”NEMESIS DIVINUS”

Encerrando o álbum, “Nemesis Divinus” retorna ao material originalmente apresentado como single em 2023. A discografia confirma o lançamento do single em 2023.

A faixa funciona como conclusão temática de uma trajetória que atravessa morte, escuridão, blasfêmia e destruição.

Entonação imponente e triunfante, soando como uma proclamação final de ruína. Marcha arrastada, densa e militar. O encerramento combina riffs pesados e majestosos com camadas sutis de teclado ao fundo, conferindo um encerramento solene, denso e épico para o registro.

GRÉCIA ANTIGA

Aqui encontramos uma das referências mitológicas mais claras do álbum.

Na tradição grega, “Nêmesis” está associada à retribuição e à resposta à “hybris”, especialmente à arrogância que ultrapassa os limites estabelecidos.

A partir dessa base mitológica, é possível relacionar a faixa à estrutura da tragédia grega e à recorrente ideia de queda daqueles que acreditam estar acima das forças que governam sua existência. O conceito de “hybris” torna-se especialmente importante: o indivíduo ultrapassa a medida, desafia uma ordem superior e desencadeia a própria queda.

A associação com Ésquilo e Sófocles, contudo, pertence à interpretação crítica desta resenha.

É fundamental, porém, distinguir “presença cultural identificável, associação histórica e influência declarada”. O álbum não pode ser transformado em um catálogo de referências que a banda jamais afirmou possuir. O que esta resenha propõe é uma leitura comparativa das camadas simbólicas que os títulos, a atmosfera e a linguagem do disco permitem alcançar.

CONEXÕES SÔNICAS E CONTEXTO GLOBAL

Beyond the Light pode ser situado dentro de uma vertente do Black Metal que não depende exclusivamente das paisagens escandinavas para construir sua identidade. A origem em Tucson acrescenta ao imaginário da banda uma dimensão geográfica particular: o deserto como espaço de isolamento, calor, morte e vastidão.

Nesse sentido, é possível estabelecer diálogos estéticos com diferentes manifestações internacionais do Metal extremo.

O DESERTO COMO IDENTIDADE

MELECHESH: demonstra historicamente como referências mesopotâmicas e do Oriente Médio que se incorporam ao Black Metal sem a necessidade de reproduzir a iconografia escandinava.

AL-NAMROOD: também representa uma utilização de referências culturais e históricas do mundo árabe dentro de uma linguagem extrema.

WAYFARER: embora musical e conceitualmente situado em outro território, demonstra como paisagens áridas e a história do oeste norte-americano podem ser transformadas em matéria-prima para o Metal extremo.

Essas bandas não devem ser tratadas como equivalentes musicais diretos ao Funeral Witchery, mas como pontos de comparação dentro de uma discussão maior sobre geografia, atmosfera e identidade no Metal extremo.

ORTODOXIA E BLASFÊMIA

ARCHGOAT: constitui uma comparação particularmente pertinente no campo do Black metal mais cru, ritualístico e blasfemo.

THE RUINS OF BEVERAST: por outro lado, representa uma abordagem muito mais expansiva e experimental, aproximando Black, Doom e atmosferas densas.

As comparações, portanto, funcionam melhor como referências de linguagem e contexto do que como afirmações de influência direta.

O QUE BEYOND THE LIGHT REPRESENTA

Com aproximadamente 33 minutos e nove faixas, Beyond the Light não tenta reinventar o Black Metal. Sua proposta está em trabalhar dentro de uma linguagem reconhecível, combinando agressividade old school, atmosferas sombrias, elementos experimentais e uma identidade geográfica própria.

Funeral Witchery transforma o deserto em uma espécie de antítese visual das florestas congeladas tradicionalmente associadas ao gênero. O calor não substitui o frio: ele o contradiz.

E é justamente nessa contradição que reside parte da personalidade do álbum. A música continua sendo essencialmente negra, agressiva e ritualística, mas sua origem está em uma paisagem de sol, poeira e aridez. O resultado é uma obra em que o deserto não funciona simplesmente como pano de fundo. Ele passa a integrar a própria interpretação do disco.

VEREDITO

Beyond the Light é uma estreia de forte identidade dentro do Black Metal underground contemporâneo.

Funeral Witchery não precisa abandonar as raízes tradicionais do gênero para construir personalidade. Pelo contrário: utiliza estruturas reconhecíveis do Black Metal old school, acrescenta elementos de Thrash, atmosferas, teclados, samples e passagens experimentais e os enquadra dentro de um imaginário marcado pela paisagem desértica de Tucson.

A força do álbum está justamente nessa combinação: tradição e geografia, brutalidade e atmosfera, iconografia clássica e identidade própria. Mais profundamente, Beyond the Light pode ser lido como um percurso através de diferentes imagens ancestrais da morte, do poder, da transgressão, do sagrado, da guerra, da revelação e da retribuição.

Do “Sheol hebraico” à “Nêmesis grega”; do “lobo das tradições nórdicas” ao imaginário cristão posteriormente subvertido; das antigas cosmologias ao arquétipo universal do tirano; da narrativa de “Moriá” aos símbolos modernos de ocupação e destruição — o álbum oferece uma matéria simbólica que ultrapassa sua duração física.

As conexões com Schopenhauer, Stirner, Hobbes, Nietzsche, Thacker, Lovecraft, Sade, Bataille, Girard, Crowley, Arendt e Agamben apresentadas ao longo desta resenha constituem interpretações críticas do autor.

Não devem ser entendidas como declarações da banda sobre suas influências filosóficas, literárias ou conceituais. Da mesma forma, as referências a tradições hebraicas, nórdicas, gregas, cristãs e às antigas culturas imperiais devem ser entendidas conforme seu grau de evidência: algumas surgem diretamente dos títulos; outras funcionam como paralelos históricos e simbólicos desenvolvidos nesta análise.

Dentro dessa perspectiva, Beyond the Light funciona como um registro que não busca a salvação — mas a permanência deliberada na escuridão.

“Uma obra para quem procura metal extremo construído sobre brutalidade, atmosfera e uma identidade conceitual própria.”

Faixas favoritas:

Sheol, I Am The Tyrant, Nun Fucker, The Black Moriah, Beast Reich Occupation.

InViMa Records: https://www.invimarecords.com
The Stygian Archive: https://www.thestygianarchive.com
Post Mortuus Distributions: https://www.postmortuus.com
Funeral Witchery: https://funeralwitchery.bandcamp.com/

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