Glenn Hughes – Vip Station, São Paulo/SP (16/11/2025)
Produção: Dark Dimensions
Assessoria: JZ Press
Abertura: Electric Gypsy
Texto por Matheus “Mu” Silva
Fotos por Leandro Pena (@penaconcertpics)
Pouco mais de seis meses após sua última apresentação e em sua décima segunda passagem por aqui, Glenn Hughes, lendário baixista inglês que marcou história principalmente integrando um dos melhores períodos do Deep Purple, retornou ao Brasil. Com produção da Dark Dimensions, o músico trouxe sua derradeira turnê “The Chosen Years”, contemplando toda a sua impecável trajetória no Rock n’ Roll, com cinco datas em nosso país, sendo a de hoje a quarta, em São Paulo (16).
Com a casa abrindo às 18h, a atração de abertura Electric Gypsy entrou em ação às 19h30. Uma das grandes revelações do Hard Rock dos últimos anos, a banda de Belo Horizonte tem feito bastante barulho desde o lançamento de seu primeiro álbum autointitulado, de 2021, resgatando aquela urgência e atitude dos anos 70 e 80, algo refletido tanto em sua musicalidade quanto em sua postura ao vivo. Alternando entre seus dois discos de estúdio — o citado de 2021 e o mais recente “Mothership” (2023) — com músicas como “More Than Meets The Eye”, “Bad Blood”, “Shoot ’Em Down” e “The Devil Made Me Do It”, e mesclando covers poderosos de “Hot for Teacher” (Van Halen) e “Shoot to Thrill” (AC/DC), a banda fez jus ao nome em uma apresentação elétrica e incansável. Acompanhando Glenn Hughes em outras datas da turnê, ainda assim entregaram um show impecável e enérgico, com o vocalista Guzz comandando a plateia e toda a banda agitando sem parar, tornando seu set de 50 minutos um ótimo aquecimento.








Às 21h, com pontualidade britânica e sem muito alarde, Glenn Hughes subiu ao palco e começou o show em alta com a enérgica “Soul Mover”, faixa-título do álbum de 2005, suficiente para tirar o público do chão com sua levada funkeada, característica marcante de sua carreira solo. Seguindo com “Muscle and Blood”, faixa do disco “Hughes/Thrall” (1982), gravado em parceria com Pat Thrall, o músico tirou um minuto para dedicar seu amor ao Brasil com um enorme sorriso antes de seguir com “Voice In My Head”, faixa de seu último disco, “Chosen” (2025), muito bem recebida pelo público apesar do pouco tempo de lançamento. Para alegria dos fãs do supergrupo Black Country Communion — formado por Hughes, Joe Bonamassa, Derek Sherinian e Jason Bonham — veio a contemporânea “One Last Soul”, do álbum “Black Country” (2010), cantada por vários presentes e acompanhada por outros tantos que se divertiam com sua levada simples e pulsante.
Voltando um pouco mais no tempo de sua carreira solo com “Can’t Stop the Flood” (“Building the Machine”, 2001), e resgatando mais um momento da parceria com Pat Thrall com a avassaladora “First Step of Love” (“Hughes/Thrall”, 1982), onde Hughes exibiu seus lendários agudos arrepiantes, o baixista contou histórias da época em que era jovem no começo dos anos 70. Entre menções à avó e a uma namorada do passado, ele trouxe um dos momentos mais aguardados do show: uma dobradinha histórica do Trapeze, sua primeira banda. Primeiro, a arrasadora “Way Back to the Bone” (“You Are the Music… We’re Just the Band”, 1972), seguida por “Medusa” (“Medusa”, 1970), o primeiro sucesso de sua carreira. Hughes mencionou que essa era a única música em que abordava algo fantasioso, e sua execução ganhou um peso absurdo, com toda a banda em chamas no palco.
Após um breve respiro, Hughes relembrou sua parceria com o lendário guitarrista Tony Iommi, do Black Sabbath, a quem descreveu como “um homem calmo, tranquilo e escritor dos riffs mais pesados da história da música”. Em seguida, trouxe uma dobradinha poderosa de “Fused” (2005), seu segundo disco solo em colaboração com o guitarrista de Birmingham: “Grace” e “Dopamine”. Esse momento estampou um sorriso enorme no guitarrista da banda, que sabia que aquela era a hora de despejar todo o peso possível em homenagem ao mestre inglês.
Conversando com o público sobre “Chosen” ser seu último disco de Rock — algo que comentaria melhor no futuro — Hughes tocou a faixa-título, novamente recebida calorosamente. Na sequência, contou com seu humor característico que não tinha tocado a próxima música em sua turnê de despedida, mas decidiu incluí-la no Brasil, pois aqui a reação sempre foi intensa. E então veio a eterna “Mistreated”, do monumental “Burn” (1974), clássico que marcou sua estreia no Deep Purple. Em uma performance poderosa de mais de 10 minutos, Hughes adicionou seus agudos característicos aos refrões, criando uma carga emocional profunda, refletida na comoção do público. Visivelmente emocionado ao final, agradeceu a todos pelos anos de apoio. Para fechar a primeira parte do set, veio mais uma do Black Country Communion: “Stay Free”.
No bis, Hughes retornou ao palco apenas com um violão, trazendo mais um momento do início de sua carreira com “Coast to Coast”, do Trapeze, deixando a alma falar em cada palavra. Seguiu com “Black Country”, outro clássico do supergrupo, e então a mais aguardada da noite: “Burn”, faixa-título de seu primeiro disco com o Deep Purple (1974). A performance carregou a energia registrada no histórico “California Jam” (1974), com seus clássicos agudos e a versão imortalizada daquele show. A plateia cantou, dançou e bateu cabeça até o fim, tornando a despedida emocionante — afinal, esta seria sua última visita a São Paulo, cidade que sempre o acolheu e respondeu de forma calorosa à sua carreira.
A noite de domingo teve um tom melancólico. Hughes, como ele mesmo disse, faz isso há 57 anos. Mesmo com 74 anos, sua disposição e talento são invejáveis, entregando tudo ao vivo até hoje. O show foi uma verdadeira aula de dedicação à música, entregue com todo o amor de alguém que respira isso. Era nítido que estava abalado no final, após tantas visitas a um dos públicos mais apaixonados por sua história. Ele se despediu de forma tão cativante quanto começou, lá no Monsters of Rock de 1998, quando veio pela primeira vez ao Brasil. E, como ele mesmo disse, nos vemos em outra hora, em outro lugar, em outra forma. Obrigado, Glenn Hughes. Muitos de nós, inclusive eu, estamos neste mundo doido do Rock n’ Roll graças à sua obra. Se foi um último adeus, foi dado de coração aberto — e recebido da mesma forma.

























