High on Fire – Burning House, São Paulo/SP (04/10/2026)
Produção: Solid Music / Caveira Velha Produções
Texto por: Matheus “Mu” Silva
Fotos por: Flávio Santiago (OnStage)
Pela primeira vez no Brasil, o High on Fire finalmente fez sua estreia por aqui. Clássica banda americana de Stoner/Sludge, formada em 1998 pelo guitarrista Matt Pike após a separação de outra lenda do Stoner, o Sleep, o grupo, que conta com uma das entidades máximas do gênero em sua formação, fez uma única apresentação na cidade de São Paulo, no último domingo (04), em uma produção conjunta da Solid Music Entertainment com a Caveira Velha Produções.
Iniciando pontualmente às 20h, com a longa introdução instrumental “Karanlik Yol”, a banda se posicionou no palco e iniciou a apresentação com “Burning Down”, ambas do mais recente “Cometh the Storm” (2024), disco que já começou a despejar uma onda de sujeira e peso em seu estado mais absoluto. O Burning House estava totalmente entupido de gente, mas, mesmo estando mais ao fundo, o som estava ensurdecedor de tão alto, uma característica da própria banda. Aliás, há quem diga que eles são um “Motörhead malvado”, porém, se tem uma coisa que eles absorveram da banda inglesa, foi a filosofia de “quanto mais alto, melhor”.
Pike é uma força da natureza. Visualmente falando, é uma mistura de Lemmy, James Hetfield e Danny Trejo. Mesmo interagindo pontualmente com a plateia, ele mostrou o porquê de ser considerado uma das mãos mais pesadas da história da música pesada. Afinal, sua história com o Sleep é altamente influente em tudo o que veio depois. Só que, em sua banda, resolveu acelerar ainda mais as coisas, e isso foi principalmente sentido em “Rumors of War”, com uma pegada Rock ‘n’ Roll intensa e violenta, carregada de influência do Motörhead.
Como a casa estava lotada, a maioria do público simplesmente se deixava levar pelos riffs cada vez mais pesados. Porém, quando tocaram “10,000 Years”, do primeiro disco, “The Art of Self Defense” (2000), a música foi totalmente ovacionada por todos. O público passou a bater cabeça de forma lenta e sincronizada a cada marretada na guitarra de Pike e no baixo de Jeff Matz, em um momento catártico e, ao mesmo tempo, insano, daqueles que fazem até careta quando se ouve algo tão pesado.
A banda passeou por sua discografia, tocando músicas de dois terços de sua carreira, e, como nunca havia pisado aqui antes, cada momento escolhido era motivo de festa. Entre “Fertile Green”, “Fireface” e “Sol’s Golden Curse”, o High on Fire foi agregando cada vez mais peso, com microfonias entre as músicas para não perder o ritmo. O público estava atônito ao presenciar uma lenda debulhando tantas músicas que muitos acreditavam que jamais veriam ao vivo.
Essa quietude, porém, acabou quando a banda resgatou “Fury Whip”, do incendiário “Death Is This Communion” (2007), um dos trabalhos mais intensos da banda. A música gerou uma roda imensa de mosh no Burning House, algo que me estimulou a chegar mais perto do palco, aproveitando a onda. Porém, eu não tinha a menor noção do quão alto o som estava ali.
E Pike não parecia totalmente contente com isso, pois, cada vez mais, ia aumentando o volume. Isso foi extremamente sentido nas duas últimas faixas do set da banda, “Snakes for the Divine” e “Darker Fleece”. Somadas, elas consumiram quase 20 minutos do show, graças aos seus longos instrumentais. Na última, porém, a banda foi tirando cada vez mais o pé do acelerador, tocando a música de forma progressivamente mais arrastada e pesada.
Se eu falei no início do texto que o som estava ensurdecedor lá atrás, na frente mal se ouvia a voz de Pike, com o som dos alto-falantes de sua guitarra dominando tudo. Para ele, aquilo era, evidentemente, parte do espetáculo. Certamente, vários, assim como eu, ainda estão totalmente surdos depois dessa avalanche de riffs imundos, que, justamente, ajudaram a desenvolver aquilo que entendemos como Stoner e Sludge hoje em dia.
O impacto, realmente, foi violento ao longo dos 80 minutos de apresentação, que foi simplesmente histórica para os fãs do gênero.
O Sleep, com toda a influência que possui, assim como alguns dos nomes mais marcantes do Stoner, nunca pisou aqui até hoje. E até mesmo o High on Fire era algo que parecia ainda mais distante. A oportunidade de ver um dos principais guitarristas na vanguarda do gênero movimentou demais o público, que encheu a casa e foi retribuído com um show incrível.
E ainda teve mais: Pike atendeu todo mundo do lado de fora, mostrando seu lado mais carismático. Mesmo no palco, buscando entregar o melhor possível sem falar muito com as pessoas, quem teve a oportunidade de trocar uma ideia rápida com ele pôde perceber o quanto é humilde.
Um excelente show, que mostrou a força que o público do Stoner tem no Brasil. Que isso possa servir de inspiração para que mais nomes do gênero venham para cá. Que noite!

