In Domine mostra precisão, personalidade e evolução em show no Arena Galeria, em São Paulo
Texto e fotos: Johnny Z.
Em plena fase de construção de sua identidade, a In Domine deu mais um passo importante em sua trajetória ao subir ao palco do Arena Galeria, em São Paulo, no dia 22 de agosto. Formada em Jundiaí/SP em 2023, a banda ainda está nos primeiros capítulos de sua história, mas a apresentação deixou claro que existe ali uma estrutura musical bastante acima da média para um grupo tão recente.
O show também tinha um significado especial. Além de apresentar ao vivo as músicas de seu EP de estreia, Vivens En Mortis, a In Domine aproveitou a ocasião para mostrar pela primeira vez no palco duas composições inéditas, “Traveller #1” e “Traveller #2”, que farão parte de seu próximo lançamento que estará em todas plataformas digitais. E, considerando o que foi apresentado, existe motivo de sobra para acompanhar de perto os próximos passos do quinteto.
Desde a abertura com a inédita introdução instrumental “Exordium”, a banda demonstrou segurança. O instrumental surgiu encorpado e muito bem amarrado, preparando o terreno para “No Mercy”. Por representar o lado mais direto e agressivo do EP, a faixa ganhou força ao vivo e confirmou uma característica que já havia chamado atenção na versão de estúdio: a capacidade de unir peso, melodia e dinâmica sem perder a essência do Heavy Metal.
A In Domine já havia mostrado uma interessante combinação entre Heavy Metal clássico, elementos épicos, densos, melancólicos e modernos, sustentada por riffs pesados, solos elaborados, vocais que transitam entre o melódico e o agressivo e refrões marcantes. No palco, entretanto, essa proposta ganhou uma dimensão diferente. A banda acrescentou presença física àquilo que anteriormente existia apenas na gravação. E acertou bonito!
“Call of the Wolves” e “Vivens En Mortis” foram fundamentais nesse processo. A primeira carrega uma atmosfera épica e simbólica, enquanto a faixa-título aposta em uma construção mais sombria e dramática. Ao vivo, soaram até mais agressivas e ambas evidenciaram como a In Domine trabalha suas músicas quase como pequenas narrativas quase que palpável. Há espaço para peso, mas também para ambiência, tensão e desenvolvimento.
É justamente nessa combinação que a banda começa a encontrar uma personalidade própria. Apesar das referências evidentes ao Heavy Metal tradicional, especialmente na construção das guitarras e nos vocais, existe uma preocupação em criar atmosferas e mudanças de dinâmica que aproximam algumas passagens de uma abordagem progressiva. O resultado, em determinados momentos, assume quase um caráter cinematográfico. E isso funciona demais, principalmente para o público que gosta não só de porradaria, mas também, sentir as camadas envolventes de cada composição.
Uma banda tecnicamente afiada
Individualmente, os músicos apresentaram um desempenho bastante consistente. As duas guitarras, comandadas por Dennis Romera e Fernando Gebram, permaneceram equilibradas durante toda a apresentação, formando uma parede sonora pesada sem esconder os detalhes das composições.
Fernando, em particular, foi responsável por solos certeiros e muito bem executados. Em vez de funcionarem apenas como demonstrações técnicas, as intervenções contribuíram para o desenvolvimento das músicas. Há precisão, mas também existe preocupação com a construção melódica e na performance.
No baixo, Octavio Loverso, com seu visual ‘cowboy do metal’ manteve uma presença pulsante e bem definida. Seu instrumento ocupou o espaço necessário na mixagem do palco e ajudou a dar sustentação às guitarras de forma nítida. Já Ricardo Mingote mostrou-se um baterista extremamente preciso. Suas execuções foram firmes, seguras e tecnicamente muito bem resolvidas, demonstrando controle tanto nos momentos mais agressivos quanto nas passagens cadenciadas. Prestem atenção nesse nome!
Davi Chaim, por sua vez, foi um dos grandes destaques da tarde (sim, o show inicio aproximadamente às 16h). O vocalista possui uma voz excelente e apresenta um timbre que, em alguns momentos, remete inevitavelmente a Bruce Dickinson, porém com uma tonalidade mais sombria e muitas vezes até operística. A comparação para por aí, porque Davi demonstra personalidade própria e consegue imprimir dramaticidade às músicas da In Domine.
Sua interpretação em “Vivens En Mortis”, com suas letras em latim, foi especialmente importante para transmitir a atmosfera da composição. Já nas músicas mais agressivas, mostrou que também consegue trabalhar com intensidade sem comprometer a afinação ou a clareza, indo de encontro ao que todo fã de metal quer: solidez e alcance!
Logicamente, ainda existe espaço para evolução na presença de palco. Alguns integrantes poderiam se soltar mais e ocupar fisicamente o espaço disponível. Contudo, é preciso colocar isso em perspectiva. Sendo, ao que tudo indica, apenas um dos primeiros shows oficiais da banda, seria injusto cobrar de um grupo tão jovem – mas com membros musicalmente experientes – a mesma desenvoltura de uma formação com anos de estrada. A tensão em seus rostos era notória, mas a graça de se apresentar é essa, mesmo que as vezes erre não importa, tem que curtir o momento e não ser um robô!
E esse é justamente um ponto positivo: tecnicamente, a In Domine já demonstra maturidade. Agora, basta transformar essa segurança musical em uma presença de palco cada vez mais natural.
Iron Maiden coloca o público para cantar
Depois de apresentar seu próprio material, a banda mergulhou em duas de suas principais referências. A clássica instrumental “Ides of March”, seguida por “Wrathchild”, ambas do álbum Killers, do Iron Maiden, foram recebidas com entusiasmo pelo público e ajudaram a recolocar a adrenalina da apresentação em alta.
As versões foram fiéis e muito bem executadas. Davi, novamente, ganhou destaque, demonstrando segurança ao interpretar um repertório associado a vocalistas históricos do Heavy Metal.
O momento também ganhou um caráter especial quando o vocalista fez questão de agradecer e homenagear Paul Di’Anno, reconhecendo a importância do saudoso cantor na formação da cena do Heavy Metal no início dos anos 1980, e que, também, vivia na Galeria do Rock durante sua moradia em São Paulo.
A escolha dessas faixas reforçou a relação da In Domine com suas raízes. E isso é importante para uma banda que, embora busque desenvolver uma identidade própria, não esconde as influências que ajudaram a formar sua visão musical.
“Traveller” aponta para um novo patamar
Um dos momentos mais interessantes da apresentação foi a estreia ao vivo de “Traveller #1” e “Traveller #2”. As duas músicas mostram uma In Domine diferente daquela apresentada no EP, principalmente em termos de composição.
Enquanto Vivens En Mortis estabeleceu as bases da identidade do grupo, as novas faixas parecem ampliar consideravelmente esse universo. Existe mais maturidade na construção das músicas, maior cuidado com as atmosferas e uma percepção ainda mais clara de como combinar Heavy Metal tradicional com elementos progressivos e com profundidade.
As duas composições também revelam uma subida considerável de nível em relação ao material anteriormente lançado. Isso não diminui o mérito do EP de estreia — pelo contrário. Vivens En Mortis cumpriu muito bem a função de apresentar a banda e estabelecer seus primeiros elementos de identidade. As novas músicas, porém, indicam que o quinteto não pretende simplesmente repetir a fórmula, mas olhar para o futuro como compositores. E acredite, essa evolução é perceptível!
O único ponto que merece atenção está na dinâmica do setlist. Como “Traveller #1” e “Traveller #2” possuem uma construção mais cadenciada, colocá-las consecutivamente acabou criando uma pequena redução na adrenalina no desenvolvimento do show, e até no público que compareceu em um número considerável. Talvez, em apresentações futuras, seja interessante separá-las ou intercalá-las com uma composição mais pesada e/ou rápida.
Ainda assim, trata-se muito mais de uma observação de dinâmica de show do que de uma crítica às músicas. Individualmente, ambas funcionaram e deixaram uma pergunta bastante pertinente: o que a In Domine está preparando para seu primeiro álbum?
O começo de algo maior
O encerramento com a também ainda inédita “Deceivers” deixou uma impressão bastante clara: a In Domine ainda está começando, mas já possui ferramentas importantes para construir uma trajetória relevante dentro do Heavy Metal brasileiro.
A apresentação no Arena Galeria mostrou uma banda tecnicamente afiada, com músicos muito competentes, um vocalista de personalidade marcante e uma sonoridade que consegue aproximar o Heavy Metal clássico de elementos progressivos, épicos e cinematográficos.
Visualmente, a formação também chama atenção. A estética adotada conversa bem com a temática sombria das composições e ajuda a construir uma identidade que vai além da música. Porém, na minha percepção, a banda se daria ainda melhor numa apresentação noturna e não tanto a céu aberto, e, com isso, a experiência visual mais soturna seria completo.
Mais importante, entretanto, é perceber que existe evolução acontecendo diante dos nossos olhos. O EP Vivens En Mortis apresentou uma banda promissora. As novas “Traveller #1”, “Traveller #2” e “Deceivers” sugerem uma formação ainda mais ambiciosa.
Agora, resta esperar pelo álbum de estreia, e que não demore muito! Se a qualidade demonstrada também no palco for um indicativo do que vem pela frente, a In Domine tem condições de transformar essa fase inicial em algo muito maior. O grupo ainda precisa ganhar quilometragem, desenvolver sua presença cênica e encontrar a melhor dinâmica para seus futuros setlists.
Entretanto, a matéria-prima está claramente presente. E, para uma banda tão jovem, isso já diz muita coisa!

