Iron Maiden – Arena da Baixada, Curitiba/PR (28/10/2026)
Aos 50 anos, Iron Maiden conecta gerações em Curitiba
Na Arena da Baixada, a energia sísmica da turnê Run For Your Lives reuniu clássicos dos nove primeiros discos e histórias de fãs que cresceram com a banda.
Texto: Luiz Claudio Romanelli Filho
Fotos: Stephan Solon (*)
O Iron Maiden encerrou sua passagem pelo Brasil na noite de quarta-feira (28), na Arena da Baixada, em Curitiba, com abertura do Alter Bridge (leia no final da resenha). Com 17 músicas no repertório, a turnê Run For Your Lives celebrou os 50 anos da banda britânica, revisitando seus nove primeiros álbuns, desde o disco de estreia, lançado em 1980, até Fear of the Dark, de 1992.
Antes do primeiro acorde, Ubirajara, o Bira, funcionário público aposentado de 65 anos, contou que escuta Iron Maiden todos os dias. Mesmo depois de tantas décadas, ainda procura palavras para explicar o que sentiu ao conhecer a banda: “Aquilo entrou assim dentro de mim e virou uma chave. Nunca mais fui o mesmo”.
“Murders in the Rue Morgue”, “Wrathchild”, “Killers” e “Phantom of the Opera” abriram a apresentação. Quatro músicas dos dois primeiros discos que, logo de saída, resgataram uma fase da história do grupo anterior à chegada de Bruce Dickinson aos vocais.
A escolha também revelava bastante sobre a proposta da turnê. Embora houvesse espaço para os grandes sucessos de estádio, o início convidava o público a uma visita mais demorada aos primeiros anos.
“Phantom of the Opera”, com suas mudanças de andamento e passagens instrumentais, já demonstrava o quanto a banda tinha a explorar desde o álbum de estreia.
Entre riffs e melodias, as guitarras de Adrian Smith e Dave Murray ajudavam a conectar essas diferentes fases. Além disso, ouvir composições tão familiares ao vivo permitia prestar atenção justamente aos detalhes: uma frase de guitarra, a entrada da bateria ou a maneira como Bruce conduzia cada passagem.
“The Number of the Beast” surgiu acompanhada de jatos de fogo e estabeleceu uma ligação particular com a história de Cássio Casarini, de 47 anos. O profissional de marketing digital chegava ao seu quinto show do Iron Maiden, mas seu primeiro contato com a banda aconteceu aos oito ou nove anos, por influência do irmão.
Foi ele quem apresentou a Cássio o álbum The Number of the Beast, juntamente com discos de Accept, Kiss e AC/DC. “Foi paixão à primeira vista”, lembrou. Décadas depois, continuava encontrando motivos para revisitar aquelas músicas.
Clássicos que ainda dão trabalho
“Infinite Dreams”, “Powerslave” e “2 Minutes to Midnight” deram sequência à apresentação, alternando atmosferas sem deixar a intensidade diminuir. O repertório era um prato cheio para quem acompanha a trajetória do grupo, especialmente pelas escolhas que exigiam dos músicos muito mais do que simplesmente acertar os refrões.
“Rime of the Ancient Mariner” deixou isso particularmente evidente. A composição exige tempo, atenção e disposição para acompanhar suas inúmeras mudanças.
Em um show de estádio, sustentar essa viagem representa um desafio que o Iron Maiden conhece muito bem: permitir que a tensão cresça, atravessar as passagens mais contidas e recuperar toda a força na retomada.
Enquanto isso, o telão acompanhava as músicas e concentrava boa parte da produção visual. As projeções modificavam os ambientes, criando diferentes atmosferas, enquanto Eddie surgia entre as imagens. Afinal, depois de tantas capas, camisetas e versões do personagem, seria estranho celebrar essa história sem a presença de seu lendário mascote.
Aos 22 anos, Henrique Oliveira descobriu o Iron Maiden por outro caminho. O estudante de programação e empreendedor de tecnologia conheceu a sonoridade do grupo por influência do pai e, posteriormente, passou a compartilhá-la com os amigos, inclusive durante as sessões de skate.
Antes da apresentação, imaginava a movimentação da plateia: “Eu acho que vai ter mosh ali também no meio”. Para ele, aqueles discos, lançados muito antes de seu nascimento, já faziam parte da própria juventude.
Portanto, a ideia de que esse repertório pertence exclusivamente a quem envelheceu acompanhando a banda encontrava ali um pequeno problema.
“Run to the Hills” representou um dos pontos altos da noite, com Simon Dawson imprimindo força à bateria na difícil missão de suceder o lendário Nicko McBrain. Em “Seventh Son of a Seventh Son”, a intensidade voltou a ganhar destaque, acompanhada de uma das melhores interpretações de Bruce Dickinson durante a apresentação.
A composição ofereceu ao vocalista espaço para explorar as mudanças de intensidade e conduzir uma obra que exige bastante fôlego. Aos 68 anos, Bruce continuava sendo uma das principais razões para acompanhar atentamente cada momento do espetáculo.
Na sequência, “The Trooper” manteve o ritmo antes da chegada de “Hallowed Be Thy Name”. A tensão da introdução, a aceleração e a combinação entre voz, bateria e guitarras transformaram a música em outro grande momento da noite. Mesmo conhecendo cada passagem e sabendo exatamente o que vem a seguir, ainda existe um prazer especial em esperar a composição chegar àqueles momentos.
Antes do espetáculo, Cássio havia resumido sua visão sobre a influência do grupo: “Nunca pode dar as costas pra raiz”. A apresentação permitia compreender essa observação sem a necessidade de transformar o assunto em uma disputa entre gerações. Afinal, os mais jovens também estavam ali, ouvindo, cantando e participando da celebração.
Quando o público também aumenta o volume
“Iron Maiden” encerrou a primeira parte do espetáculo. No bis, “Aces High” recuperou a intensidade antes de “Fear of the Dark” colocar a plateia no centro da apresentação.
Trata-se de um momento aguardado, registrado incontáveis vezes e conhecido até por quem nunca assistiu à banda ao vivo. Ainda assim, o coro impressionou. As vozes pareciam disputar volume com os instrumentos e alcançavam as ruas ao redor da arena. Saber antecipadamente que aquilo vai acontecer não diminui o impacto de testemunhar a cena.
“Wasted Years” encerrou a noite entre agradecimentos ao Brasil e um coro estremecedor de “Maiden”, entoado pelas quase 40 mil pessoas presentes na arena. Depois de 17 músicas, a apresentação deixava uma pergunta para quem insiste em tratar os clássicos como um assunto encerrado: encerrado para quem?
Bira escuta Iron Maiden diariamente. Cássio acompanhava seu quinto show. Henrique conheceu a banda por influência do pai e levou suas músicas para os amigos. O grupo completava 50 anos de carreira, mas cada um daqueles fãs carregava uma contagem própria, construída a partir de experiências, descobertas e lembranças.
Antes mesmo do primeiro acorde, Bira já havia deixado clara sua disposição:
“Eu sou rock and roll. Vou morrer escutando rock.”
Alter Bridge também tinha sua torcida
Quem achou que o Alter Bridge encontraria uma plateia interessada apenas no Iron Maiden se enganou. A banda tinha sua própria torcida na Arena da Baixada, e ela mostrou serviço. Muita gente cantou junto “Addicted to Pain”, “Blackbird” e “Metalingus”, numa recepção que deixou claro que o grupo estava longe de ser apenas um aperitivo para a atração principal.
A apresentação, no entanto, não escapou de problemas técnicos. Quem estava nos setores mais distantes do palco relatou volume baixo e dificuldades para ouvir os instrumentos com clareza. Ainda assim, nada disso impediu que parte do público acompanhasse as músicas e cantasse junto com a banda.
Com os riffs de Mark Tremonti e os vocais de Myles Kennedy, o Alter Bridge entregou um repertório conhecido dos fãs e preparou o terreno para a chegada do Iron Maiden.
(*) As fotografias utilizadas são do dia 27 de outubro, pois não conseguímos fotógrafos disponíveis a tempo da apresentação.

