Banda principal: Killing Joke
Local: Carioca Club Pinheiros, São Paulo/SP
Data: 23/09/2018
Produção: EV7 Live
Fotos e texto por Wallace Magri
Confesso que havia perdido contato com o Killing Joke nos anos 90, quando parei de frequentar o Madame Satã, resolvi cursar Direito e tomar jeito na vida. E, nesses 20 e tantos anos, me tornei advogado, casei, tive filho, plantei árvores e escrevi livros, logo, aparentemente, tomei jeito na vida mesmo. Eis que, no primeiro dia da primavera aqui no Hemisfério Sul, a EV7 Produções proporcionou uma bela oportunidade para todos os presentes no Carioca Club fazer uma viagem no tempo e ainda conferir excelentes composições que o Killing Joke lançou nestas duas últimas décadas. Para fazer a lição de casa, coloquei seu último álbum, “Pylon”, para escutar e até agora ele não saiu do meu Spotify, coisa linda a pegada Industrial que deu uma repaginada naquele som gótico dançante, que tornou esta banda famosa por décadas a fio.
O público compareceu em bom número, mas não lotou a casa, como seria de se esperar para a primeira apresentação da banda em terras brasileiras, o que apenas confirmou o que eu suspeitava: a banda sempre foi “Lado B” do post-punk aqui no Brasil, aonde o povo prefere algo mais pop nesta linhagem, tipo Aha ou Tears For Fears. Uma pena.
O show começa em clima de celebração com dois clássicos emendados: “Love Like Blood” e “European Super State”. Em seguida tocam a Industrial Rock “Autonomous Zone” e a pista começa a agitar medianamente – aquela típica “alegria desanimada” que rola em shows com ressaltada veia gótica.
De cara, o integrante que ganha destaque é o baterista Ferguson, o cara é tecnicamente perfeito e funciona como o coração da banda, fazendo a cama para as linhas de baixo que esbanjam groove e criatividade, além da presença de palco animada de Youth, que destoa da apresentação burocrática e aparentemente cansada de Geordie Walker (a tour está corrida, e ele não está ficando mais jovem, então merece um desconto, até porque tocou sua guitarra semi-acústica com perfeição). O tecladista de apoio, Roi Robertson, parece saído de uma banda de Glam Metal oitentista e ficou o tempo todo paquerando uma guria na plateia, que é exatamente a versão dele do sexo feminino, o que chega a ser cômico e trágico ao mesmo tempo. Mas ele está lá, segurando as sequências eletrônicas e a ‘tecladeira’ com competência.
Jaz Coleman merece um parágrafo à parte. O que falar de sua presença de palco? O cara se apresenta enfiado em um macacão preto, com uma aranha estampada nas costas, parecendo “O Corvo” (depois de muita luta, é verdade), marchando parado no palco com olhar de psicopata que perdeu alguns neurônios pelo caminho, mas aparenta estar feliz, pedindo participação do público em diversos momentos, arriscando falar algo sobre a Floresta Amazônica, totalmente fora de contexto, mas quando faz o que sabe, canta daquele jeitinho que nos cativou desde os áureos tempos da banda, e, fechando os olhos, estava eu lá de volta ao Madame Satã, naquela pista no porão, com apenas uma luz estroboscópica piscando devagar e deixando ver a silhueta dos outros vampiros e vampiras ali presentes dançando sozinhos na madrugada, ouvindo “Follow The Leader”, “Butcher”, “Labirynth” etc.
Ao vivo, músicas como “Eighties”, “The Wait” e “Asteroid” nos mostram como o Killing Joke foi importante para a fundação do Grunge, do Metal e do Industrial dos anos 90, respectivamente, sendo certo que Kurt não teve o menor pudor em “se apropriar” do riff de “Eighties” para compor um de seus grandes sucessos, “Come As You Are”.
O show, que durou pouco mais de 1 hora e 30 minutos, rolou em clima de matinê e, às 20h40 os tiozões do rock gótico (eu incluído) já estavam bem instalados no metrô voltando para casa para dormir cedo, ainda ecoando em nossos ouvidos, “Pandemonium” e aquela sensação de nostalgia e gratidão por aqueles dias de perdição no tal Madame Satã terem ficado para trás. Obrigado por me lembrar disto, Coleman e Cia, enquanto volto para casa para jantar com a minha família, celebrando o presente!
Setlist:
Love Like Blood
European Super State
Autonomous Zone
Eighties
New Cold War
Requiem
Follow The Leader
Bloodsport
Butcher
Losse Cannon
Labyrinth
Corporate Elect
Asteroid
The Wait
Pssyche
Change
Wardance
Pandemonium
