

KISS – “Revenge” (1992)
Mercury
“Unholy”
“Take It Off”
“Tough Love”
“Spit”
“God Gave Rock ‘n’ Roll to You II”
“Domino”
“Heart of Chrome”
“Thou Shalt Not”
“Every Time I Look at You”
“Paralyzed”
“I Just Wanna”
“Carr Jam 1981”
Texto por João Paulo Gomes
Fotos: Divulgação
A história de qualquer álbum começa bem antes do seu lançamento, por isso precisamos voltar um pouco no tempo para tentar entender melhor como o KISS conseguiu vencer a desconfiança de todos e preparou a sua vingança.
Nos anos 70, o KISS era uma das maiores bandas do mundo, mas nos anos 80 não conseguia manter a mesma chama acesa. O que esperar então da reconstrução do KISS nos anos 90?
Definitivamente o mundo e a música estavam mudando e o KISS também precisava mudar se quisesse sobreviver.
Em fevereiro de 1991, antes de iniciar as gravações do novo álbum, o KISS foi convidado para gravar “God Gave Rock N’ Roll To You” (originalmente gravada pela banda Argent e escrita por Russ Ballard que os fãs do KISS conhecem por ser o autor de “New York Groove” do Ace Frehley) para a trilha sonora de “Bill & Ted’s Bogus Journey”. O produtor Bob Ezrin, que já havia trabalhado com a banda no “Destroyer” e no “(Music From) The Elder”, foi convocado para produzir a canção, apesar da desconfiança de Gene “especialmente depois da má experiência com “The Elder” “. Neste mesmo período Eric Carr começava o tratamento de um câncer muito agressivo, o que o deixou de fora das gravações da música (ele gravou apenas os vocais de apoio). A ideia era dar tempo para ele se recuperar da cirurgia. Então, no novo álbum, ele tocaria metade das músicas, Eric Singer (Black Sabbath, Alice Cooper, Badlands) tocaria o restante do álbum e assumiria as baquetas da banda até que o The Fox se recuperasse totalmente.
A música foi lançada como “God Gave Rock N’ Roll To You II”, já que Gene, Ezrin e Paul a reescreveram, e foi um sucesso de vendas atingindo o Top 30 em sete países, incluindo #21 nos Estados Unidos, #4 no Reino Unido e na Suíça e #18 na Austrália, fazendo Ezrin seguir à frente da produção do próximo álbum. Vale ressaltar que a versão da trilha sonora, que conta com Steve Vai, é diferente da encontrada no álbum.

A música não entraria no álbum, mas virou uma homenagem a Eric Carr, conforme Gene afirmou durante o Kissology Volume Two: 1978-1991 (exibido no VH1 Classic): “não é apenas uma música cover para uma trilha sonora, mas um testamento para Eric Carr”.
Infelizmente a situação do querido e carismático, Eric Carr se agravava cada vez mais, durante a batalha mais importante da sua vida. Ele chegou a participar do videoclipe de “God Gave Rock ‘N’ Roll To You II” (apesar de aparecer tocando bateria, ela foi gravada pelo Eric Singer) utilizando uma peruca por causa das sessões de quimioterapia. Mesmo tendo sido operado e em tratamento, tristemente, Eric Carr veio a falecer aos 41 anos em 24/11/1991.
Um mix de emoções tomou conta da banda. A dor da perda, o luto e a luta para renascer foram utilizados pelo KISS para buscar um som próprio, sem seguir totalmente as tendências da época e não apenas encarar de frente as novas bandas que surgiam, como: Soundgarden, Pearl Jam e o Nirvana, mas mostrar que ainda tinha muita lenha para queimar.
Mas que som seria esse? Ezrin definiu bem: “Todos lamentávamos a perda da inocência que o rock parecia ter sofrido. Acabamos procurando no passado um novo KISS que tivesse o estilo que mais gostávamos de tocar: rock puro e pesado. Começamos com a intenção de compor esse tipo de coisa. À partir do minuto em que iniciamos esse novo projeto foi quase uma volta no tempo. Retornamos aos antigos papéis, a contar as velhas piadas novamente, voltamos com as provocações da mesma maneira e revivemos muitos dos momentos que compartilhávamos em Nova York. Foi muito parecido com uma reunião de família. Além de trabalharmos juntos, éramos bons amigos, mas nos perdemos no caminho e o “The Elder” não nos ajudou. Na verdade, mesmo quatro anos depois, Paul ainda estava muito zangado comigo e eu não o culpo. Eu também fiquei muito zangado comigo mesmo por anos depois daquele horrível período da minha vida em que enfrentei um divórcio, tive problemas com drogas… eu realmente não estava de bem com a vida. Mas então, estávamos de volta, os três saudáveis e focados; e funcionou”.
Obviamente o escolhido para ocupar o lugar do The Fox foi Eric Singer, que já estava trabalhando com a banda, conhecia os fãs, as músicas… Na verdade Eric Singer foi uma benção para o KISS. Claro que Eric Carr era insubstituível (um monstro atrás da bateria que elevou musicalmente a banda e por isso o acho o melhor baterista do KISS, mas esse é assunto para outro momento), mas Singer era muito apto tecnicamente podendo “passear” por todas as eras do KISS com incrível desenvoltura.

Em dezembro de 1991 a banda volta então ao estúdio e conta com algumas participações interessantes:
Vinnie Vincent, que esteve na banda de 1982 a 1984, co-escreveu três canções para o álbum (a quarta acabou indo parar no “The Vault” de Gene). De acordo com Gene: “Vinnie Vincent veio até mim e pediu desculpas por causar toda a tristeza à banda enquanto ele era um membro. Ele queria consertar as coisas e perguntou se eu consideraria escrever algumas músicas com ele. “Claro!”, eu disse. Eu queria deixar o passado para trás. Liguei para Paul e disse a ele que Vinnie aparentemente havia mudado. Paul escreveu músicas com ele também. Mas antes do álbum ser lançado, Vinnie estava de volta aos seus velhos truques, renegando um contrato assinado e o acordo que tínhamos feito, decidindo então que ele queria renegociar. Ele acabou nos processando e perdeu. Até onde eu saiba, ele é “persona non grata” para sempre”. Apesar disso tudo as canções co-escritas com Vinnie estão entre as melhores do álbum.
Alguns membros do Black ‘N’ Blue foram chamados para participar dos vocais de apoio: Jaime St. James e Tommy Thayer (atual guitarrista da banda) junto com Jesse Damon do Silent Rage, banda da Simmons Records.
Exorcizando vários fantasmas o KISS cria então seu melhor álbum desde “Lick It Up”, trazendo de volta o bom e velho Rock ‘N’ Roll e mudando o visual da banda. Icônico, selvagem e pesado, “Revenge” (lançado em 19/05/1992) estreia na sexta posição da Billboard 200 e alcança o TOP 10, algo que não ocorria desde “Dynasty” (1979), na Austrália (#5), Reino Unido e Suécia (#10), Suíça (#6) e Noruega (#4), sendo certificado de ouro nos EUA e Canadá.
“Revenge” realmente é um tipo diferente de animal. Uma fera sombria que espreita nas sombras o momento certo de atacar.
Tem alguma dúvida? É só ouvir “Unholy”. Peso, agressividade e fúria a definem. Muito diferente de tudo que o KISS já havia feito. Mas espere aí? Uma música do Gene abrindo um álbum do KISS? É isso mesmo! Essa contribuição de Gene e Vinnie virou single, algo que não acontecia, para Gene, desde “I Love It Loud” (1982), e alcançou TOP 30 em cinco países: Reino Unido e Alemanha (#26), Holanda (#28), Suécia (#19) e Noruega (#2). Com uma cozinha no mínimo ameaçadora, introdução caótica e um riff/solo devastador “Unholy” é literalmente profano!
Alias, Gene retorna com suas melhores contribuições desde “Lick It Up”. Além de “Unholy”, temos a ótima “Domino”, outro single (#26 no Mainstream Rock Tracks Chart dos EUA). Ela é puro KISS em atitude e sentimento. Inspirada no riff de “Nasty Nasty” do Black ‘N’ Blue e com um groove bluseiro viciante é uma das melhores músicas do álbum e, quiçá, da banda. Ainda temos o Rock ‘N’ Roll em alta velocidade e cheio de atitude de “Thou Shalt Not” com Kullick e Singer quebrando tudo, o Hard Rock sujo e funkeado de “Paralyzed” e “Spit”, que é um caso à parte. Cada vez que a ouço o sentimento é de: ame-a ou deixe-a. Ela é uma zona tão grande que agrada e incomoda na mesma proporção. Com Gene e Paul dividindo os vocais (e a irônica letra com Scott Van Zen) esse Rock ‘N’ Roll “old school” e seu riff blusão, possui toques modernos, mas ao final fica a nítida impressaão de haver três músicas dentro dela e nada ter a ver com nada.

Paul também não decepciona. “Take It Off”, escrita por Paul, Ezrin e Kane Roberts e com Kevin Valentine (Donnie Iris And The Cruisers, Shadow King, Cinderella) na bateria, representa o melhor (riff marcante, groove e melodia viciante, esta é uma brilhante e cheia de vida ode as strippers) e o pior do KISS (a letra… bom, a letra deixa para lá).
“Tough Love” é simpática, apesar de ser um pouco mais sombria, mas mesmo assim é uma boa canção e mantém o álbum nos trilhos. “Every Time I Look At You”, o último single do álbum (#31 na Suécia), lançado já com o orçamento limitado pela gravadora, possui um som diferente do restante do álbum. Com seção de cordas, Ezrin no piano e Dick Wagner (Alice Cooper) na guitarra ela pode soar como uma tentativa de ser uma nova “Forever” ou “Beth”, pode parecer que foi colocada para desacelerar o álbum ou pode até soar fora de lugar, mas ela é bem mais do que isso. Uma excelente balada que teve seu real reconhecimento quatro anos depois no “MTV Unplugged”. Não bastasse isso tudo ainda temos a impecável, raivosa e contagiante “Heart Of Chrome” e a visceral, cativante e irmã gêmea de “Summertime Blues”: “I Just Wanna” (e seu refrão icônico), mais um single que alcançou #34 no Mainstream Rock Tracks Chart dos EUA. Essas duas últimas foram composições coescritas com Vinnie Vincent.
Ainda temos duas homenagens a Eric Carr no álbum:
“God Gave Rock ‘N’ Roll To You II” foi a última música gravada pela banda com Eric Carr (é possível ouvi-lo nos vocais de apoio). Além dessa particularidade, há também os vocais divididos entre Paul e Gene e, como single, ela alcançou #4 no Reino Unido. Apesar de ser um pouco clichê, esse é um hino e uma magnífica declaração de amor ao Rock N’ Roll.
“Carr Jam 1981” é a “Moby Dick” de Eric Carr. Esta faixa é derivada de uma “jam session” entre ele e Ace durante as sessões de “The Elder” e que depois se transformou em “Breakout” do primeiro álbum do Frehley’s Comet. Mas para “Revenge”, Ezrin editou a demo original e fez overdubs com a guitarra de Bruce Kullick, amigo bem próximo de Carr, como se ele, Kullick, também prestasse a sua homenagem. Aqui temos a certeza do que já sabíamos: Eric Carr era um baterista fantástico! Sua atuação aqui é sensacional e mostra o quão talentoso ele era. A versão do “Animalize Live Uncensored” é ainda melhor do que essa.
Grande parte da importância de “Revenge” pode ser atribuída a Bob Ezrin. Sua contribuição nas composições, o corte das músicas que comporiam o álbum, os arranjos, a produção (ele e Mick Guzauski fizeram um excelente trabalho na mixagem), sem falar na visão do que era preciso a banda fazer naquele momento da carreira, foi inestimável.

Sonora e musicalmente, “Revenge” também impressiona. Com um som poderoso e profundo, aonde todos os instrumentos se complementam, um Gene bestial, um Paul perfeito, além de Kullick triturando e Singer não deixando pedra sobre pedra, este álbum, mesmo sem superar “Destroyer” e “Creatures Of The Night”, definitivamente é um dos melhores trabalhos da banda.
“Às vezes fico envergonhado com alguns de nossos discos” – disse Gene – “Alguns deles, eu deveria simplesmente receber um chute na bunda por ter algo a ver com isso. Mas você aprende com seus erros. Isso é o que permite que você faça um bom disco, como Revenge”.
Você quer o melhor? Você tem o melhor! “Revenge” é KISS sendo KISS.
Em suma, este é um álbum obrigatório da banda mais quente do mundo.
P.S.: A gente nunca vai saber se realmente há algo após a morte, mas onde Eric Carr estiver, que ele saiba o quanto foi amado, e ainda é, pelos fãs. Além de um músico excepcional, era um dos caras mais acessíveis da banda que sempre trazia consigo um enorme sorriso. Descanse em paz Eric Carr. Você ainda faz muita falta!









