Lecher – “Barbacena” (2023)
Storm Atoom Records | Nomade Records
#HeavyMetal #PowerMetal
Para fãs de: Iron Maiden, Angel Witch, Accept, Satan
Texto por Johnny Z.
Nota: 8,0
Alguns discos não se limitam somente a entreter. Eles incomodam, cutucam feridas abertas e fazem o ouvinte refletir — tudo isso sem deixar de soar pesado e envolvente. “Barbacena”, do Lecher, é um desses casos. Vindo de Sorocaba (SP), a banda mergulhou de cabeça em um dos capítulos mais sombrios da história brasileira para criar um álbum conceitual forte, musicalmente inspirado e emocionalmente denso.
A história que inspira o disco é real e perturbadora: o Hospital Colônia de Barbacena, em Minas Gerais (tema muito usado dentro do metal brasileiro, diga-se, alguns exemplos: Válvera, Faces Of Death, etc), foi palco de um genocídio silencioso ao longo do século XX. Mais de 60 mil pessoas morreram em condições desumanas. O Lecher usa esse episódio como ponto de partida para construir uma narrativa em nove faixas, combinando metal tradicional com melodias intensas e um lirismo que foge completamente do lugar-comum.
Logo na abertura com “Asylum”, fica claro que a banda não quer apenas repetir fórmulas oitentistas. A música começa de forma sombria e cresce em intensidade, com guitarras afiadas e uma base firme que remete aos grandes nomes do heavy clássico. O trabalho das guitarras de Diego Alquezar e Alex Aquino é um destaque constante: harmonias bem pensadas, solos cheios de feeling e passagens instrumentais que mostram maturidade.
“Solitude Coletive Train” e “We Are Resurrected” reforçam esse espírito, alternando velocidade, peso e climas épicos. A entrada de Adrieli Locatelli como vocalista traz um tempero especial: sua interpretação é expressiva, dramática, caótica e combina perfeitamente com o conteúdo lírico. É um tipo de vocal que carrega emoção, sem precisar de exageros.
O ponto alto, como era de se esperar, é a faixa-título “Barbacena”. É aqui que o conceito explode em intensidade. O refrão gruda, as mudanças de andamento mantêm a tensão viva e a letra escancara o horror vivido pelas vítimas do manicômio. É uma música que emociona e inquieta ao mesmo tempo — e que facilmente poderia se tornar um hino da cena underground brasileira.
Na reta final, “Hearning Voices” e “Goodbye Sanitarium” aprofundam a sensação de claustrofobia e delírio, enquanto “Until the Last Cage” traz um refrão que gruda e pede para ser cantado junto. “Lycanical Rebellion” injeta mais agressividade, e “Colossal Failure” encerra o álbum com clima quase cinematográfico, amarrando bem toda a jornada.
A produção é simples, mas funciona muito bem. Não há polimento excessivo, e isso joga a favor do clima cru, old school e orgânico do álbum. O som remete aos tempos em que o metal era feito com mais suor do que plugins, e essa honestidade se sente em cada faixa.
“Barbacena” é um trabalho corajoso. O Lecher não apenas entrega riffs e refrões cativantes — eles usam a música para iluminar um passado brutal que não deve ser esquecido. É um álbum que une paixão pelo metal tradicional com consciência histórica e sensibilidade artística.
Para quem busca discos que vão além do entretenimento, “Barbacena” é uma pedrada com propósito.