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Left to Die – “Initium Mortis” (2026)

Left to Die – “Initium Mortis” (2026)

Relapse Records
#DeathMetal #ThrashMetal #ExtremeMetal

Para fãs de: Death, Mantas, Possessed, Massacre, Slayer, Venom

Texto por Johnny Z.

Nota: 9,0

Quando um projeto reúne Rick Rozz e Terry Butler, dois músicos fundamentais na gênese do Death Metal, a expectativa naturalmente é enorme. Felizmente, Initium Mortis entrega exatamente o que promete e vai além de um simples tributo ao Death ou ao Mantas — a banda que existia antes mesmo de o Death ganhar esse nome. O álbum resgata composições registradas apenas em demos entre 1983 e 1987, agora regravadas com uma produção que finalmente revela todo o potencial dessas composições.

A própria existência do Left to Die já deixava claro qual seria seu objetivo. Inicialmente criado para celebrar ao vivo a fase clássica do Death, o projeto uniu Rozz e Butler a Matt Harvey (Exhumed/Gruesome) e Gus Rios (Gruesome). A excelente recepção dos shows despertou um desejo inevitável: registrar algo em estúdio. Em vez de seguir pelo caminho mais previsível, compondo material novo, o quarteto preferiu revisitar faixas que permaneceram fora da discografia oficial. Os fãs mais dedicados certamente já conheciam muitas delas através de bootlegs e antigas gravações compartilhadas no tape trading ou, mais recentemente, na internet. Ainda assim, ouvi-las com uma produção digna é uma experiência completamente diferente.

E aí está o grande trunfo de Initium Mortis. Há quem enxergue o Left to Die apenas como uma “banda cover de luxo”, e essa interpretação é compreensível. No entanto, a proposta vai muito além da homenagem. O disco funciona como uma espécie de universo paralelo de Scream Bloody Gore, reunindo músicas que circularam por diferentes formações do Death e do Mantas, algumas muito próximas de integrar o álbum de estreia. Em vez de permanecerem como curiosidades para colecionadores, essas composições finalmente recebem o tratamento que mereciam. Convenhamos que mal há nisso? (risos)

Logo de cara, a Death/Thrash Metal “Legion of Doom” mostra por que esse resgate faz tanto sentido. A alternância entre velocidade e mudanças de andamento revela uma composição surpreendentemente madura para a época. Não por acaso, Chuck Schuldiner e Chris Reifert chegaram a trabalhar nela durante as sessões de Scream Bloody Gore, embora a gravação jamais tenha sido concluída. Décadas depois, a música finalmente recebe uma versão à altura de sua importância histórica.

Em seguida vem “Archangel”, primeiro single do álbum e provavelmente a melhor escolha para apresentar esse trabalho. Matt Harvey impressiona pela forma como incorpora a agressividade de Chuck Schuldiner sem cair na armadilha da simples imitação. Em alguns momentos, seu timbre ainda remete a John Tardy, do Obituary, adicionando personalidade própria à interpretação. Musicalmente, a faixa captura um momento em que o Thrash Metal mais extremo começava a se transformar naquilo que, pouco depois, seria reconhecido como Death Metal.

Na sequência aparece uma das minhas favoritas. “Power Of Darkness” parece uma improvável fusão entre “Fast As A Shark”, do Accept, e o Slayer dos primeiros anos. O riff principal carrega a urgência do Heavy Metal tradicional, enquanto os solos e a agressividade apontam diretamente para as raízes do Death Metal. A comparação pode soar exagerada mas depois de ouvir a faixa, quero ver alguém me convencer do contrário. (risos)

A instrumental “Zombie” talvez seja a música que mais se beneficia da nova produção. Guitarras e harmonizações que praticamente desapareciam nas demos finalmente surgem com nitidez. Também chama atenção a forte influência do Iron Maiden da fase Paul Di’Anno, especialmente nas linhas de guitarra, porém aceleradas ao extremo e envoltas por uma atmosfera ainda mais sombria.

Já “Witch Of Hell” mantém os dois pés fincados no Thrash Metal mais primitivo, soando como um Venom possuído pelo próprio capeta (risos), servindo como elo entre as influências tradicionais da época e a sonoridade extrema que o Death ajudaria a consolidar. Em seguida, “Rise of Satan” aposta em riffs marcantes e constantes mudanças de andamento, enquanto “Slaughterhouse” e “Mantas” evidenciam a assinatura inconfundível de Rick Rozz, mostrando como seu estilo foi determinante na identidade sonora daqueles primeiros anos.

Fechando o álbum, “Death By Metal” carrega um peso simbólico enorme. Muito mais do que o título que se tornaria um lema para gerações de fãs, a música representa o ponto de partida de toda uma revolução musical. Nesta nova versão, sua estrutura ganha definição suficiente para revelar detalhes que permaneceram escondidos por décadas. É um encerramento perfeito para um disco que celebra justamente o nascimento dessa história.

A produção merece elogios à parte. Sem descaracterizar a natureza crua dessas composições, o álbum entrega peso, definição e equilíbrio suficientes para valorizar riffs, linhas de baixo e bateria, sem eliminar a sujeira característica das gravações originais. É o tipo de trabalho que respeita completamente o passado, mas finalmente permite ouvir essas músicas como elas sempre mereceram.

Matt Harvey mostra mais uma vez por que era a escolha ideal para assumir esse desafio. Sua interpretação homenageia Chuck Schuldiner com enorme respeito, sem abrir mão da própria personalidade. Gus Rios impressiona pela precisão na bateria, enquanto Terry Butler e Rick Rozz acrescentam uma legitimidade impossível de reproduzir: eles realmente estavam lá quando tudo começou.

Além de revisitar nobremente o passado, Initium Mortis preserva um dos capítulos mais importantes da história do Metal extremo. O álbum não pretende reescrever o legado do Death nem substituir as demos originais; seu objetivo é dar a essas composições a apresentação que elas sempre mereceram. O resultado é um documento histórico que permite ouvir, com clareza inédita, o momento em que Chuck Schuldiner e seus companheiros começaram a moldar um gênero que transformaria definitivamente a música pesada. Um dos melhores lançamentos desse ano (ah, mas é um disco de ‘covers’, cover de luxo, bla bla bla… vai cagar, vai!).

A versão digital ainda traz duas faixas bônus: “Skill To Kill” e “Back From The Dead”. Sinceramente, achei essa escolha bastante injusta. Todos os fãs deveriam ter acesso ao mesmo número de músicas, independentemente do formato escolhido. Nesse ponto, infelizmente, a Relapse Records pisou na bola.

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