Malevolent Creation – Hangar 110, São Paulo/SP (24/10/2026)
Produção: NDP Live | Powerline Music & Books | Liberation MC
Abertura: Mystic Circle
Texto: Matheus “Mu” Silva
Fotos: Rodrigo Faustino
Pouco mais de um ano após sua última visita, o Malevolent Creation retornou ao Brasil para sua quarta passagem pelo país. Clássica banda de Death Metal da Flórida, berço de alguns dos principais nomes do gênero, é também uma das pioneiras do Metal da Morte em seu estado mais brutal.
Desta vez, trouxe a turnê comemorativa dos 35 anos de seu primeiro álbum, o supremo The Ten Commandments (1991). Com produção conjunta da NDP Live, Powerline Music & Books e Liberation Music Company, a banda realizou uma apresentação única em São Paulo, no último sábado (24).
Acompanhando a turnê, tivemos a estreia do Mystic Circle, banda alemã de Black Metal que retornou após um hiato de mais de 20 anos e se apresentou pela primeira vez por aqui.
Às 20h20, o Mystic Circle deu início ao evento. Nome um tanto quanto obscuro do Black Metal alemão, o grupo possui uma vasta discografia, mas estava desde 2007 sem se apresentar formalmente. Depois de alguns hiatos ao longo da carreira, os músicos resolveram voltar à estrada, e a América Latina entrou na rota dessa primeira leva de shows.
Praticando um som mais melódico e acessível, o Mystic Circle impressiona pela técnica apurada e pelos riffs marcantes e pesados. A banda mantém as características do gênero, mas sem excessos de rispidez, apostando também no groove. Aliás, “impressionar” é a palavra que melhor define o que o grupo fez durante toda a apresentação.
Além de exaltar a felicidade por tocar no Brasil, os músicos mostraram um lado bastante carismático. Em determinado momento, o vocalista Beelzebub e o guitarrista Azrael desceram do palco para tocar no meio da galera. Não me recordo de ter visto uma banda do gênero fazer isso, e a atitude cativou muita gente. Como o Mystic Circle ainda não é tão conhecido por aqui, essa proximidade encheu os olhos de vários presentes.
O repertório se concentrou principalmente no material lançado desde o efetivo retorno da banda, em 2021. O grupo passeou pelos três discos desse período, com músicas como “The Scarlet Queen of Harlots” e “Ghost of Whitechapel” (Hexabrand, 2025); “Scarecrow” e “The Mothman” (Erzdämon, 2023); além de “Darkness and Flames” e “Belial Is My Name” (Mystic Circle, 2022). As composições evidenciaram um poderio sonoro marcante, que vale a pena conferir.
Com um set de 55 minutos, o Mystic Circle deixou uma ótima impressão no público brasileiro. Muitos comentavam sobre a apresentação ao fim do evento. A banda mostrou seu legado ao vivo com maestria, e todos os integrantes ainda circularam entre o público para trocar uma ideia. Se todas as bandas do Underground fossem assim…
Às 21h50, o Malevolent Creation iniciou seu set de costas para o público, enquanto tocava a introdução de “Eve of the Apocalypse”. Tão logo ela terminou, a banda fuzilou os presentes com um dos maiores clássicos de Retribution (1992).
Logo de cara, três novidades chamaram a atenção. A primeira foi a formação em quinteto, marcando o retorno do vocalista e guitarrista Deron Miller desde o ano passado. Outra foi a volta do também guitarrista Phil Fasciana, único integrante da formação original e responsável por carregar a banda nas costas durante todos esses anos. Após os recentes problemas de saúde que o acometeram, seu retorno tornou a noite ainda mais especial. Além disso, agora o grupo conta com três guitarras no palco, transformando o show em uma verdadeira massa sonora de Metal extremo.
Como a apresentação celebrava os 35 anos de The Ten Commandments (1991), não demorou para a banda executar “Premature Burial”, presente nessa obra-prima. Foi mais um momento de brutalidade Old School. Na sequência, vieram outras pedradas de Retribution (1992), com “Slaughter of Innocence” e “Coronation of Our Domain”. Não havia um ser vivo naquele lugar que conseguisse ficar parado. Vários abriram rodas de mosh, enquanto outros tantos batiam cabeça como se não houvesse amanhã.
Depois, veio mais um resgate da fase noventista: “Dominated Resurgency”, do subestimado Stillborn (1993), terceiro disco da banda. O repertório parecia percorrer a história do grupo de forma cronológica, celebrando justamente sua principal fase. O Malevolent Creation arrebentou nos anos 1990 e se tornou referência para muita coisa que veio depois.
Ainda falando sobre aquela década, a apresentação chegou ao apoteótico Eternal (1995), um dos trabalhos mais importantes da discografia do grupo e o álbum com maior presença no repertório. Em um primeiro momento, tivemos a dobradinha matadora “Infernal Desire” e “Living in Fear”, sequência que elevou cada vez mais a violência do show.
Porém, ao acompanhar essa sequência de músicas, percebi que o setlist foi praticamente o mesmo executado no ano passado, com mudanças bem pontuais. Não consegui ir à apresentação anterior, então minha expectativa estava alta. Ainda assim, quem esteve lá da outra vez pode ter ficado com aquele gosto de querer um pouco mais. Afinal, por se tratar de uma celebração do primeiro álbum, achei que a banda exploraria um pouco mais esse material. A expectativa aumentou quando finalmente veio “Multiple Stab Wounds”, clássico absoluto do disco, executado de forma absolutamente ensandecida.
Na reta final, mais uma trinca poderosa de clássicos dos anos 1990 me levou 20 anos ao passado, quando eu era um adolescente descobrindo o Death Metal. Primeiro, veio “Carnivorous Misgivings”, de Stillborn (1993). Tive esse CD quando tinha 15 anos e jamais imaginei que veria alguma música dele ao vivo.
Na sequência, outra pedrada: “Manic Demise”, de The Fine Art of Murder (1998). A música resgatou a lembrança do DVD Created Live (2003), que eu tinha, e representou mais um sonho realizado. Para fechar, a destruidora “Blood Brothers”, de Eternal (1995), encerrou o set de 60 minutos. O Malevolent Creation percorreu seu período mais clássico e marcante, mostrando por que é um dos nomes mais imponentes do gênero.
O show do Malevolent Creation foi uma verdadeira aula de Death Metal. Mesmo que seus discos mais recentes sejam bons, deixar a fase clássica falar mais alto tornou a noite ainda mais especial. Como mencionei, só senti falta de mais material do primeiro álbum. Ainda assim, não dá para reclamar, pois tudo o que foi tocado marcou época. A apresentação apenas reforçou o que eu já sabia: eles são uma das melhores bandas que existem.
Já o show do Mystic Circle tornou a noite ainda mais divertida. Foi uma grata surpresa e uma ótima descoberta deste ano. Sem dúvida, uma das melhores noites que presenciei em 2026.

